Cocaine
10 O vingador de East River
Notas iniciais
– Foi Jane quem me machucou. Ódio é uma palavra muito fraca para descrever aquilo que sinto por ela nesse momento.
Abracei-a novamente. – Descanse apenas. Eu vou acabar com essa palhaçada. Jane vai comer o pão que Hades amassou. Eu prometo.
[…]
Eu sei que prometi uma vingança sangrenta, mas não tenho nem ideia do que poderia fazer contra Jane. Sejamos realistas. Ponto um: essa garota deve ter algum pacto com o demónio. Ponto dois: tem uma legião de seguidores que parecem a adorar como se ela fosse uma deusa. Ponto três: ela é rica e pode extraviar-me para a China. Ponto quatro: se ela descobrir o meu problema, eu vou me foder.
Jane sabe que eu sou uma garota. E é só. Para ela, eu sou apenas uma vadia com pouco senso de estilo. E isso é tudo que ela precisa saber.
Suspirei pesadamente e recostei-me no sofá negro do meu escritório. É verdade, apesar de tudo isso eu continuava sendo a conselheira. E eu era uma merda nisso. Olha só para Miriam! A garota quase foi abusada por minha culpa. Encarei o relógio na parede. Miriam já deveria ter chegado. Será que a trupe de Jane fez algo contra ela novamente? Peguei no celular e quando ia para discar o número dela, uma pancada na porta interrompeu-me.
Levantei o olhar com medo e vi Jenkins me observando como se eu fosse uma idiota. E eu sou mesmo. Levantei-me lentamente e abri a porta. Jenkins entrou em silêncio e cruzou os braços como se estivesse zangado. Muito zangado, aliás. Merda.
– A senhorita Cast veio falar comigo. – engoli em seco. Ah, então ele sabia que Miriam tinha sido machucada. Bom, ele deveria ficar zangado com Jane! Não comigo! Tá, eu tinha uma parte da culpa.
– Eu peço desculpa, Jenkins. Eu não sabia que tudo isso poderia acontecer. – Jenkins olhou-me confuso e sentou-se no sofá negro.
– O quê? O que aconteceu? – fuzilei-o. Ele não sabia de nada? A sua expressão confusa revelava-me que ele não sabia mesmo. Encolhi os ombros e sorri forçadamente.
– Ham… esqueça. Pensei que… ham… tinha vindo acusar-me de algo novamente. Se seu escritório está destruído outra vez, a culpa não é minha! – Jenkins sorriu levemente, regressando á postura rígida. Encarei o seu bigode engraçado. Se eu fosse realmente um garoto, eu gostaria de ter um bigode desses!
– Não. Meu escritório está arrumado e limpo. Eu só vim avisar que Miriam pediu para desistir do seu aconselhamento. Ela falou que você conseguiu resolver o problema dela. Parabéns, Harley. Você fez algo muito bom e não pensou somente em si própria.
Acho que meu queixo foi visitar Hades. Miriam fez o quê? Mas essa garota enlouqueceu? Eu não resolvi nada ainda! Aliás, eu piorei tudo. Onde infernos essa vadia tem a cabeça?!
– Ah, obrigada… eu acho. – Jenkins levantou-se do sofá e aproximou-se de mim. Encarei-o. O reitor parecia realmente orgulhoso de mim. Ai que sentimento de culpa é esse?
– Acho que está pronta para aconselhar todos os estudantes da universidade. Você conseguiu ajudar Miriam e irá conseguir ajudar todos os outros também! Daqui a pouco, vai ter um novo paciente. Não fuja das suas responsabilidades, garota! – e dito isso, o reitor abandonou o meu escritório. Agora eu estava morta de vez! Aproximei-me de minha mesa de trabalho e abri a primeira gaveta, tirando os documentos de meus pacientes. Eu tinha que cuidar de cinco pessoas, contando com Miriam.
Peguei no arquivo da Cast. Eu não a consegui ajudar. Eu sou uma aberração da natureza, porra. Escondi uma das minhas mechas arroxeadas e sentei-me na grande cadeira por detrás da secretária.
Miriam desaparecera desde que saíra do hospital há dois dias atrás. Desde esse momento, concentrei-me nas minhas aulas de física nuclear e física quântica. Vi Miriam apenas uma vez e ela me ignorou completamente. Provavelmente, ela me culpava.
Suspirei. Odeio essa responsabilidade. Fiquei encarando o relógio na parede. Que merda, o garoto ou garota nunca mais chega. Encostei a minha cabeça na madeira fria da secretária. Acho que em algum momento, adormeci.
– O-oi. Moço? – fui acordada pela voz fraca de uma garota. Levantei a cabeça e encontrei-a. Pálida e fantasmagórica. – De-desculpe se o acordei. Eu n-não…
A sua voz sumiu. Fiquei encarando-a e lembrei-me. Ah, essa garota é minha próxima vítima.
– Ah, deixa para lá. Senta aí. – a garotinha medrosa obedeceu-me e ficou tremendo como um Chihuahua assustado. Sorri abertamente tentando deixá-la confortável. Acho que não resultou muito bem. Ela tremeu ainda mais. Ah, credo. – Qual é o seu nome?
– Rose Marianne Whist. – acenei e procurei o seu arquivo. Ah, não. Era a garota com problemas de integração e que já sofrera depressão. Parecia legítimo. Rose era mais medrosa que um rato.
– Bem, Rose… Eu sei que é complicado falar sobre o que aconteceu, mas se quer que eu a ajude, tem que cooperar comigo. Vamos resolver isso, fique descansada! – a garota assustadiça sorriu levemente e acenou rapidamente. Nem eu acreditei nas minhas palavras confortadoras. – O que aconteceu com você, Rose?
Rose Marianne respirou fundo e começou relatando a sua história.
– Eu era a melhor amiga de Jane Morgan até que de um momento para o outro… tudo mudou.
Uma raiva fervente invadiu meu corpo. Jane Morgan! Sempre Jane Morgan! Mas essa garota nunca me deixa em paz?! Nunca deixa os outros em paz?!
E assim, Rose lançou-se no seu drama pessoal. Ouvi atentamente. Eu estava sem opções. O problema não estava nos meus queridos pacientes. O problema era Jane. Ela precisava desaparecer.
A história de Rose parecia-me a coisa mais absurda do mundo. A garota era uma grande amiga de Jane, até que fez algo que desagradou a amiga e desde então, passou a ser uma das vítimas da vadia. Rose não me contou o que fizera para desagradar Jane. Mas eu tinha a certeza, que era algo totalmente simples e sem mal algum.
Pouco tempo depois, Rose foi embora. Parecia um cachorrinho abandonado. Sai de meu escritório e corri pelos corredores da universidade, tentando encontrar a saída. Acho que não é preciso falar que me perdi novamente e precisei da ajuda do faxineiro para me mostrar o caminho certo. Sou um aborto da vida mesmo!
Assim que me vi livre daqueles corredores tortuosos, corri pelo gramado e sai de East River. Eu precisava pensar. Percorri o único itinerário que eu conhecia na vida e cheguei rapidamente a casa.
Uma fúria crescente invadia cada célula do meu ser. Ignorei os olhares mortais do porteiro. Ignorei a plaquinha de avariado do elevador. Ignorei a velha vizinha que me odiava profundamente desde que quase atropelei o seu cachorro. Ignorei Julian que andava pela sala só com uma toalha tapando a sua masculinidade.
Oh espera.
Julian o quê? Senti o meu rosto ficar quente. Julian percebeu a minha presença e sorriu.
– Ah, você voltou.
Ai meu santo Hades, eu vou desmaiar. E se a toalha caísse? Julian é o simpatizante do meu inimigo! Eu não posso! Eu quero, mas não posso! E eu sou virgem meu Hades! Eu iria ser desvirtuada! E aposto que iria doer pra cacete! Abanei a cabeça, espantando os meus pensamentos luxuriantes. Julian encarava-me com uma sobrancelha arqueada. Ai, meu Hades, não faz isso comigo. Ele vai me matar com tanta obscenidade.
Fiz uma carranca e cruzei os braços. – Vai colocar uma roupa. Eu não preciso ver isso.
Julian riu e encolheu os ombros. Tal movimento fez com que a toalha deslizasse um pouco para baixo. Ai, merda.
– Peço desculpa se feri a sua sensibilidade. Está parecendo uma garotinha envergonhada. Relaxa, cara.
Relaxa?! Relaxar como? Eu sou uma garotinha mesmo, cacete!
– Tanto faz. – respondi, saindo da sala e entrando no quarto de Jade. A garota estava lendo um livro e assustou-se quando bati a porta com força.
– Opa, que mal essa porta fez para você? – revirei os olhos e sentei na cama da garota. Jade arrumou o livro e recostou-se novamente nas almofadas.
– Julian está passeando na sala… só de toalha. Esse garoto não tem vergonha, não?! – a garota deu uma risada e brincou com o cabelo.
– Teve sorte de ele ter alguma coisa tapando o...
– Cala a boca, Jade! – interrompi a garota. Jade riu um pouco mais da minha cara. Oh sorte. A garota abraçou uma das suas almofadas e ficou me encarando.
– O que há de errado? – suspirei. Essa vadia é muito observadora. E perigosa. E maluca. Hades me proteja dela!
Deitei na sua cama e olhei o teto repleto de estrelas que brilham na escuridão. Conto? Não conto? Deixo que Julian me desvirtue? Não deixo? Ah, a filosofia da vida… Decidi contar. Quanto a Julian… Melhor esquecer esse assunto! – Preciso dar uma lição na Jane e não sei como. Ela precisa sumir da vida de todos aqueles que sofrem por causa dela. Ela é como câncer. Tudo isso é uma merda feia, Jade.
Senti a cama mover-se no meu lado direito. Jade deitou-se também. – Talvez o Vingador de East River atenda seu pedido.
Levantei-me rapidamente e observei a minha colega de apartamento. Essa garota assiste filmes demais. Vendo a minha confusão, Jade continuou tagarelando coisas estranhas. – Esse vingador raramente aparece. Desde que estou nessa universidade, apenas o vi realizar uma vingança. Ninguém sabe quem ele é. Mas todo o mundo sabe do que ele é capaz. A partir do momento em que aparece o símbolo vermelho, não há volta a dar. O Vingador irá se vingar. E todos precisamos ter cuidado.
Definitivamente, essa garota não é normal. Nunca ouvi falar desse vingador maluco! Ah, mas eu também não tenho muitos amigos. E as pessoas me olham com nojo. Ok, é normal eu não saber nada sobre esse louco vingador. Pensei nas palavras de Jade. Uma coisa não fazia sentido.
– Como assim um símbolo vermelho? – perguntei. Jade levantou a mão e desenhou-o no ar.
– Esse símbolo é a marca do Vingador. É um aviso de que ele está aprontando algo. É o símbolo da vingança. – mordi o lábio. Esse sujeito realmente existe? E ele me ajudaria?
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