Coadjuvante

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Curtinha e fofoleta.
E atrasada, por que era pro Natal.
Espero que gostem ♥
Foi inspirada em uma experiência pessoal. Escrevi no ônibus! AHEUAHEUS

A neve caía lentamente, pintando as ruas de Tóquio de branco conforme as gotículas de gelo tocavam o chão. Dei mais uma volta no cachecol vermelho que rodeava meu pescoço, e só então mergulhei naquela que deveria ser a noite mais fria do ano.

Estávamos no meio de dezembro, quase Natal, e as ruas estavam decoradas para as festividades de fim de ano. Prometi à Tenten que iria dormir com ela aquela noite, e foi por esse motivo que eu estava pegando o metrô para o outro lado da cidade às nove da noite de uma sexta feira ridiculamente fria, beirando aos cinco graus negativos, apenas para impedir que minha melhor amiga se entupisse de vodka depois de terminar (mais uma vez) seu relacionamento com Temari.

Quando entrei no metrô, sentei-me de frente à porta de entrada, como era acostumada; evito ficar muito longe de saídas desde que meus pais morreram naquele incêndio. Aperto mais meu casaco pesado contra o corpo, buscando por mais calor. Meus olhos ardem um pouco, e eu tiro os óculos de aros grossos que uso para ler para coçá-los.

Enviei uma mensagem à Hanabi avisando para onde estava indo, e em seguida coloquei os fones de ouvido, sentindo a locomoção começar a se mover.

Estava frio do lado de fora, mas o clima dentro do trem era agradável. Permaneci ouvindo a música, porém me desconcentrei quando um rapaz loiro e muito bonito adentrou o ambiente limpando a neve de sua touca. Ele usa um casaco laranja escuro muito pesado e tênis allstar azuis. Percebo imediatamente que ele é estrangeiro.

Ele me cumprimenta, simpático; a voz era grossa e animada, e as íris azuis brilhavam. A pele era bronzeada, os cabelos rebeldes e os olhos, além de claros, eram redondos e grandes; nada como a aparência asiática. Além disso, ele tinha um pouco de sotaque, embora seu japonês fosse muito bom.

Ele estava de costas para mim, uma vez que preferiu ficar em pé, e eu me senti orgulhosa por minha dedução quando vi bordada em sua mochila uma pequena bandeira da Irlanda. Tomei como passatempo observá-lo. Ele também usava fones de ouvido e tamborilava os dedos na coxa coberta pela calça jeans escura.

Ele era, de fato, muito bonito.

Não, não me entendam errado. Como uma boa observadora, pude ver o chaveiro com a bandeira lgbtq com dois símbolos do sexo masculino pendurado à um dos zíperes da bolsa, embora ele fosse um gay extremamente discreto, ao contrário de Deidara, irmão de uma amiga.

Alguns pontos depois, um outro rapaz – que conseguia ser igual ou até mais belo que o primeiro – adentrou o metrô batendo na jaqueta verde militar para retirar a neve grudada nela. Ele era alto e bastante branco, visivelmente asiático e tinha uma franja repicada e os cabelos rebeldes se agitavam na parte de trás, formando um corte que muito se parecia com uma bunda de pato.

Ele tinha olhos muito, muito escuros e uma cara de poucos amigos; o completo oposto do rapaz irlandês que havia entrado alguns pontos antes. Não demorou para que eu notasse não ser a única a prestar atenção no moreno.

Vocês já viram o interesse nascer?

O irlandês tinha os olhos claros fixos no perfil do homem mais alto, e o mirava de uma forma completamente diferente do que Deidara mirava seus alvos: o olhar desejoso não existia; o que existia era pura contemplação, olhos brilhantes e um interesse escancarado. Os orbes cerúleos escaneavam o rosto bonito com calma, desciam até as mãos que seguravam as barras de segurança do teto e se desviavam com pressa toda vez que o outro se mexia.

O rosto bronzeado estava vermelho e ele parecia ter acabado de se deparar com a coisa mais bonita do mundo, enquanto o outro homem parecia completamente alheio à atenção que recebia.

Parecia, apenas.

Eu vi quando os olhos negros escanearam o outro em poucos segundos, voltando à indiferença com velocidade. Naquele momento, eu me percebi como atriz coadjuvante de um filme romântico, onde os atores principais se conheciam e a câmera flagrava cada atitude antes de que eles se conhecessem de fato.

O próximo ponto se aproximava. Já era tarde e nós éramos os únicos na linha. Eu me levantei para descer, e foi então que eu vi.

Os olhos azuis se perderam em apreciar a face alheia, e não notaram quando os negros os notaram. Os orbes se chocaram e ficaram durante o restante da viagem, sem se desviarem. Ouso dizer que eles mal respiraram durante aqueles trinta segundos.

A linha chegou, os olhos se desconectaram e o homem moreno desceu junto comigo enquanto o loiro ficou. Eu andei devagar logo atrás ele, e apenas senti o vento que ficou quando o irlandês passou como um furacão por mim atrás do outro homem.

Mais uma vez, eu era uma mera telespectadora.

O dono dos olhos claros correu um pouco à frente do mais alto, pedindo para que ele parasse, enquanto ofegava com as mãos nos joelhos, exausto.

— Você pode me dizer o seu nome? – A voz com o leve sotaque soou novamente, um pouco falha pela corrida.

Automaticamente passei à andar mais devagar, curiosa pelo desfecho.

O moreno demorou um pouco para responder.

— Sasuke. – Acredito ter visto um sorriso nos lábios finos. – O seu?

— Naruto.

Quando passei por eles, pude ver o sorriso radiante do homem loiro, que agora eu sabia se chamar Naruto.

Antes de me afastar demais, pude ouvir:

— Você está muito ocupado ou pode beber comigo?

××

Um ano depois, exatamente a mesma data. Estou pegando a linha 92 novamente, só que dessa vez é para encontrar-me com Toneri, meu namorado, que coincidentemente é vizinho de Tenten.

Estou novamente sentada no mesmíssimo banco, usando, inclusive, as mesmas botas. O metrô para novamente na linha 78, e um jovem sobe. Na mochila, o mesmo chaveiro da bandeira gay e o mesmo bordado laranja e verde da Irlanda.

Naruto.

Ele ainda tem os mesmos olhos caríssimos e me cumprimenta com a mesma empolgação do ano passado, entretanto parece mais leve do que da última vez que o vi; algo me diz que isso pouco tem a ver com o novo corte de cabelo, mas sim com a aliança prateada no dedo anelar direito.

Dessa vez ele se senta em um banco pouco à frente do meu, e eu fico imaginando se é Sasuke que usa a outra peça prateada. Olho para a minha própria aliança, lembrando-me de que a havia ganhado dois meses antes.

Volto a observar Naruto, e ele agita a perna fervorosamente; está nervoso, e eu me pergunto o porquê.

O metrô para no ponto 64, e eu sorrio timidamente quando vejo Sasuke adentrar a locomoção. Ele tem os cabelos presos em um coque mal feito no topo da cabeça e pareceu-me que ele havia deixado crescer há pouco tempo, pois os fios da nuca não conseguiam ficar presos dentro do penteado, e concluo que ele fica ainda mais belo com os cabelos mais compridos.

Ele retira as luvas e anda até o outro homem, então eu posso ver o par do anel que o loiro utilizava. Naruto tem um sorriso brilhante nos lábios, porém parece ainda mais nervoso. Ele puxa Sasuke pela nuca e lhe dá um selinho, então a pele pálida ganha um tom avermelhado.

— Usuratonkachi. – Resmunga ao que Naruto ri do embaraço do namorado, puxando as mãos do outro entre as suas, enlaçando os dedos.

— A gente vai descer um ponto antes, tá? Quero te mostrar uma coisa.

Sasuke confirma com a cabeça e o caminho até a linha 55 segue. Durante os minutos seguintes, eu observo Naruto demonstrar todo seu carinho para um Sasuke vermelho e resmungão.

Solto uma risada. Eles combinam.

Quando o ponto chega, eles caminham à minha frente, até o mesmo ponto onde Naruto chamou Sasuke para sair um ano antes.

Eu passo por eles que param no meio do caminho, conversando. Mais uma vez, antes de estar longe à ponto de não ser mais capaz de escutá-los, ouço a voz emocionada de Naruto.

— Casa comigo.

Quando viro a rua, Sasuke o puxa para um abraço.

Acho que isso foi um sim.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!