Clueless Séries - Inocente
1 Sala de interrogatório
Notas iniciais
Ele não entendia como, mesmo de terno, os oficiais estavam tão secos como cobras no deserto. De onde havia saído uma analogia tão sem coerência? Talvez dos documentários sobre a vida selvagem da NatGeo que Carol gostava de assistir à altas horas na madrugada.
Estreitou os olhos, fixando-os na lâmpada incandescente pendurada no teto, logo acima da mesa.
Uma gota de suor escorria pela testa e era parada pelo longo e grosso retículo, o protetor natural dos olhos, a sobrancelha. Pelo menos algo seguia de acordo com o que era para ser. Ele em uma sala de interrogatório, suando feito um porco ao ver seu dono com uma machadinha na mão, não era para ser. Carol, ser assassinada em seu apartamento, sem nenhuma pista do real assassino, somente as digitais dele, por cima do sangue, na faca de cozinha usada por alguém que tentou fazer o coração de Carol ver a luz do dia, não era para ser.
Como ele explicava isto? Ao entrar no apartamento, viu Carol caída no chão, com uma faca cravada em seu peito. Ele fez o obvio, agachou até ela e retirou a faca, colocando-a de lado, enquanto envolvia a namorada (agora ex—) em um desesperado abraço.
“Mas onde estava antes do assassinato então?” questionou o oficial.
“Fui à padaria, Carol gostava do cheiro de pão recém assado pela manhã...”
“Muito conveniente que, somente nesta padaria que você afirma ter ido, não havia câmeras de segurança. Muito menos no percurso que você diz ter feito.” Anunciou o segundo oficial, falando pela primeira vez.
Ah sim, havia dois oficiais na sala de interrogatório e não, eles não estavam jogando “o policial bom e o policial mau”. Ou pelo menos não parecia.
O universo parecia estar contra ele.
“Mas como isso?! Nem uma câmera sequer pelo caminho que eu peguei?!” exaltou-se e fez mãos de italiano para dar ênfase.
Como isso poderia estar acontecendo? Só fatos contra ele, nada a favor.
“Não, havia câmeras trajeto, mas nenhuma que apareça você!” zombou o primeiro.
O interrogado parou. Pensou e pensou.
“Mas... Mas... Já sei! Já sei!” exclamou o (ex) namorado da vitima.
“No parque! Tem câmeras no parque, não é mesmo?” perguntou se ajeitando na cadeira, com um sentimento de esperança.
“Sim, mas nenhuma gravou vo-“ respondeu o oficial, sendo interrompido.
“Sim, isso você já disse! Eu quero dizer, eu vi algo bem inusitado, se as câmeras pegaram isto, significa que eu sou inocente como eu venho dizendo desde o começo, não é?!” Olhem, a luz no fim do túnel esta cada vez mais perto para o nosso mocinho, inocente, acusado injustamente de assassinar a namorada no apartamento que dividiam...
Os oficiais, se entreolhando, foram para o fundo da sala.
“Ele quis dizer que viu algo e que alguma câmera possa ter gravado?”
“E que se ele estiver correto sobre isso, então não tem alternativa, ele realmente presenciou o que quer que seja?”
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Tudo pronto, os oficiais confirmaram que o suspeito não tinha como ter acesso as gravações das câmeras dos locais que passou simplesmente pelo tempo, o assassinato foi há cinco horas de acordo com a temperatura do fígado e a ligação dele, com o telefone da casa, consta que foi feita 17 minutos após o óbito.
Colocaram o notebook ligado no centro da mesa e ficaram os dois oficiais, um de cada lado, atrás do suspeito.
“Agora é com você, vamos ver se tem algo que você possa ter visto que as câmeras tenham gravado.” Estimulou o segundo oficial.
Olhando para as mãos no colo, notou o quanto havia suado, conseguia até ver um dos mamilos, marrom escuro, através da blusa branca e encharcada, alguns pelos do peito atravessavam o material da blusa e se enroscavam no stress costurado ali. Ah sim, a blusa era da Carol, e tinha strass costurados formando a palavra “gatinha”. Foi a única blusa que conseguiu pegar, já que teve que trocar a que usava por estar ensanguentada e os policiais não tiveram muita paciência para um banho. Para ele tomar um banho e não no sentido de convidar os policiais para o chuveiro.
“No parque...” começou. “No parque tinha um mendigo, eu acho-“ foi cortado pelo primeiro policial.
“Sem achar meu jovem, tenha certeza de suas palavras!”
“Eu quis dizer que eu acho que ele era mendigo, estava sujo e com uma camiseta de futebol! Ou talvez fosse só um ex-jogador fracassado que não tinha mais rumo na vida e beber era a única coisa que restava? Ou um professor de ensino méd-”
“Vamos direto ao ponto, sim?”
“Nervoso como estou acabo falando de mais! Bom este mendigo/ex-jogador de futebol/professor do ensino médio desiludido, estava com uma blusa de futebol com parte brancas encardidas, roxas e douradas. Na verdade, essas cores são de um time de basquete, não? Bom este mendigo/ex-jogador de basquete/professor do ensino médio desiludido com esta blusa que eu acabei de descrever estava deitado em um banco de cimento, com alguma pombas comendo restos de comida, ou vomito, da barba dele. Isso, talvez, fez com que ele acordasse.”
“O ponto?”
“O ponto é que ele levantou e atravessou a rua, então eu que iria passar por ali, resolvi tomar outra direção. Mas ele continuou andando e tirou uma mochila rosa da Dora Aventureira atrás de uma árvore.” Terminou a explicação.
Os oficiais então passaram todos os vídeos do parque.
Sim, a luz está próxima! No canto da tela do notebook, um mendigo/ex-jogador de basquete/professor do ensino médio desiludido aparece, já com uma mochila da Dora a Aventureira nas costas. E sim, ele estava com uma blusa com parte brancas encardidas, roxas e douradas.
O jovem, que foi solto logo em seguida e inocentado do crime, caminhou até o ponto de ônibus onde aguardou até passar um que o levasse para longe dali.
Já na mochila da Dora a Aventureira, continha uma pequena quantia em dinheiro, o suficiente para que um amigo fizesse o favor de se vestir como mendigo e caminhar com a mochila pelo parque.
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