Notas iniciais
helou

o. V. Percy

Os ingleses se retiraram do nada, deixando-nos confusos e ainda com armas em mãos. Tinha uma ideia de que ali dedo de Annabeth tinha, e quando eles sumiram no horizonte, podemos ver o estrago que o encontro causou.

O navio de Hefesto se foi em chamas, e continua sendo irônico algo queimar em alto mar, junto com ele se foi toda a tripulação. Ártemis perdera Zoe e duas de suas Caçadoras, mas creio que a perda de sua imediata deixara um buraco em seu peito, mesmo ela não querendo admitir. Nico, por outro lado, não se importou em ter sua tripulação vendo-o em pedaços com a irmã nos braços. Não vou mentir que a morte de Bianca era um alívio que poderia viver, mas sabia como ele se sentia, afinal, ainda estava com minha irmã nos braços e tinha um buraco negro no peito.

Leo se desdobrou para tapar as cicatrizes que o barco ficou o máximo que podia, até chegarmos à terra firme e ele conseguir fazer seu trabalho. Reyna ficou do seu lado, o ajudando no que podia, mas era uma guerreira, não uma ferreira. Piper sumiu, e Jason fazia o que podia para se manter ocupado e se desviar do assunto. Clarisse mantinha-se inabalável, mas pude ver sua expressão mudar por um breve momento ao enxergar o corpo inerte de Charlotte em meus braços. Não é necessário dizer que ela odiou a ideia de ter que seguir minhas ordens, e pela primeira vez a ideia não me satisfez. Grover se tornou meu imediato e eu nem pensei duas vezes quanto a isso.

Os outros navios seguiriam de volta à Tortugas ou outro destino em mente. Quanto a nós, o curso estava para Clarisse, que graças a Deus sabe mais do que enfiar cabeças em privadas, indo direto à Flórida, depois, não faço ideia. Leo reconstruiria o que tinha que fazer, e Charlotte teria o enterro que merecia.

Era isso que queria.

Não suportei a ideia de vê-la sendo queimada, mas de todas as opções, essa era a melhor. Não suportaria pensar em sua carne corroída pela terra ou sequer ser jogada ao mar e virar comida para peixe. De qualquer jeito, odeio a ideia de ela morta. Seria cremada, e suas cinzas jogadas na imensidão azul ao qual amava, de preferencia nos mares que cobriam a França ou o Senna, o rio que banhava sua cidade natal, Paris.

Suspirei exausto, jogando-me no chão e inclinando-me na amurada, ignorando o olhar que Clarisse me deu ao fazê-lo. Ela rodava o timão com maestria, e era irritante o fato de ser boa na coisa. Felizmente, nos últimos dias me deu uma folga, como se respeitasse meu luto.

– Nunca quis ser o líder não é mesmo? – ela insinuou, apenas bufei.

– Nunca me vi sendo o líder. – declarei. – Ela sempre foi melhor nisso do que eu. Parecia um instinto natural.

– Claro que era um instinto natural, era uma mulher.

Não sei o que aconteceu, mas sorri com isso.

– É. Talvez tenha razão.

Ela hesitou, e pude ver que estava confusa se continuava a falar ou manter a boca fechada. Por fim, largou a roda de madeira e puxou algumas cordas, de modo que o próprio vento nos levaria. E depois, contradizendo tudo que eu pensei que iria fazer, sentou-se ao meu lado.

– Sabe que não me importo se é capitão ou não, certo?

– Uhuum.

– Pois bem, tenho certeza do que Charlotte iria fazer. E sei também que ela não se enterraria em um buraco na terra, querendo morrer também. – a encarei e ela deu de ombros – Não me olhe desse jeito, sabe do que estou falando. A garota foi rejeitada pela mãe, pelo pai, seu marido morreu pouco tempo depois da troca de alianças e viu sua filha definhar sem poder fazer nada. E sabe o que ela fez depois?

– Se trancou no quarto por uma noite inteira e, no dia seguinte, pôs o chapéu na cabeça e voltou a ser a Charlotte de sempre. – recordei.

– Eis o que deve fazer: vai até a Inglaterra, entra na igreja com a maior cara de sonso do mundo ao qual eu sei que você é muito bom em fazer, e pega aquela garota de volta. Você não vai encontrar alguém que te ame como aquela mulher ama você, Jackson. – ela hesitou, puxando uma faca da cintura e limpando as unhas – Quem está no comando é você agora, mas quem tem essas lindas mãozinhas no timão sou eu, e se você disser que não quer ir para Inglaterra, eu não vou estar nem aí...

– E quem disse que vou deixa-la? – a interrompi – Quando é esse casamento?

– Daqui a dois meses, creio eu – ela deu de ombros. – O que pretende fazer? O que eu disse ou as ideias maravilhosamente suicidas que você tem?

Não precisei pensar muito.

– Flórida. Dar a Charlotte um pós-morte que ela merece, algo de Soberana Monarca. Pois era isso o que era. Depois, Inglaterra. Já perdi uma rainha, Clarisse, não ousarei em perder outra.

P. o. V. Annabeth

O trajeto do porto à Birmigham foi escoltada, dentro da carruagem ornamentada em ouro e com tecido vermelho por dentro, estava apenas eu e Piper. Do lado de fora, cinco cavalheiros em seus respectivos cavalos, mais seis atrás e dois em cada lado. A vista era predominada por pinheiros até chegarmos à cidade, ao qual tive o impulso de fechar as janelas, não aguentaria encarar todas aquelas pessoas que presumiam que eu estaria radiante em voltar para cá. Teria que treinar o máximo do sorriso falso.

– Assim está bom? – perguntei a Piper, abrindo um sorriso de ponta a ponta.

– Um pouco menor, Majestade. – ela própria fez, um sorriso simpático e muito convincente.

– És melhor nisso do que eu, Pipes. – digo, abrindo uma pequena fresta na cortina de veludo e vislumbrando as imensas grades do palácio de Buckingham, o jardim atrás dele como uma mancha verde em torno da parte promissora em Londres. A Casa da Rainha, como era chamado, estava resplandecente em branco e dourado, o sol batendo em seus vitrais e fazendo reflexo no lago, a única coisa que restara do tempo em que aquilo era um pântano.

O portão de ferro se abriu e senti meu estomago embrulhar, começando a respirar pela boca por conta do espartilho apertado. A carruagem deu uma volta no jardim, parando na entrada monumental, a porta circular foi aberta e fomos recebidas com um servente sorridente. Ele estendeu a mão, e eu a aceitei, pegando a saia do vestido e descendo o pequeno degrau até as escadarias de mármore.

Olhei em volta para o céu azul cristalino, as flores do começo de primavera enfeitando os arbustos e as madressilvas do jardim.

– Bem vinda de volta, Vossa Majestade – a voz doce e calma de Alicia foi ouvida ao meu lado e, por mais que aquilo pudesse me reconfortar, eu não conseguia sentir-me em casa – O rei Frederick já foi avisado de sua chegada, e espera por sua visita em seu quarto.

– Ele está bem? Meu pai, ele está bem?

Alicia crispou os lábios, fazendo-me perceber que aquela poderia ser a última conversa que teria com ele.

***

O quarto gigantesco no último andar estava estranhamente frio. Os sofás foram postos para fora, dando lugar a aparelhos médicos e relatórios de como o rei se encontrava. Frederick estava em sua cama, as janelas estavam bloqueando a luz e os mosqueteiros impedindo de quem entrasse o enxergasse direito. Cada passo era cauteloso, mas pude perceber que ele sabia que estava ali, dando um sorriso fraco e abrilhantando um pouco seu rosto magro e doentio.

– Annabeth... – suspirou fracamente – Pensei que morreria sem ver minha filha novamente.

– Não diga isso, pai. – falo, sentando-me ao seu lado, sem ao menos me preocupar se o ato pusesse risco a minha saúde ou não. – Estou aqui agora, e sei que o senhor irá sobreviver...

– Não seja esperançosa, minha cara, isso a deixa tola. – Frederick não teve a intenção de machucar, percebi, dando suas clemencias logo depois – Desculpe-me querida, a doença tirou-me a arte perdida de me comunicar com as pessoas. – ele tossiu, levando a mão a boca em um gesto quase mecânico. – Pelo visto os boatos de que estava desfalecida era mentira... Sabia que não era verdade, és inteligente e charmosa o suficiente para convencer um pirata a não te tirar a vida.

Senti o sangue circular pelas minhas veias, deixando-me rubra inexplicavelmente. Frederick me analisou com cuidado.

– Encontrou sua mãe?

Não fiquei surpresa com a pergunta. Assenti, já com a boca seca.

– Ela está feliz?

Não resistir em dar um mínimo riso com a pergunta.

– Não sei, talvez sim. – respondo com sinceridade – O que podemos saber no que se passa por aquela mente conturbada de Atena?

– Não a julgue tanto – Frederick suplicou – Eu a amei um dia. Espero que ela agora esteja amando verdadeiramente alguém. Era um amor impossível – lamentou-se. – Sou um monarca agora, e ela, entregou-se a pirataria... – ele hesitou, me encarando novamente – Mas acho que não se importou, certo?

– O que quer dizer?

– Seus olhos estão transbordando tristeza, sua postura está claramente dizendo que não está tão feliz quanto seu sorriso falso demonstra estar. – eu abri a boca, mas ele levantou a mão em um gesto para que nem começasse – Não a deserdo, minha cara, eu sei o que é estar apaixonado. Não se importar com nada e só ter olhos para a pessoa. Não me importo se amas um fora da lei, importo-me mais com o fato de que terei que dar uma benção a um casamento que não será feliz. – ele levantou o braço, acariciando meu rosto – Serei um péssimo pai fazendo isso, mas não tenho outra escolha.

Uma lágrima rebelde saiu dos meus olhos, atravessando meu rosto e molhando sua mão.

– Será tão boa líder quanto já pude ser um dia, minha querida. – ele sorriu – Lembre-se que estarei do seu lado, em qualquer decisão que tomar. Boa ou ruim. Afinal, ainda sou seu pai não?

Assenti, sentindo meu coração afundar cada vez mais. Meu pai nunca foi exatamente o pai presente, mas ainda sim se esforçava para me fazer feliz. Guardava um tempo para poder correr atrás de mim pelos jardins, com uma Annabeth de sete anos sorrindo como uma doida. No natal fazia questão dos cozinheiros fazerem o que eu quisesse para a ceia. Eu era a princesinha dele, e não duvido que isso tenha mudado.

Levantei-me, dando-lhe um beijo na testa e ajeitando seu cobertor.

– Annabeth? – ele chamou quando dei-lhe as costas.

– Sim?

– Está um dia bonito?

Entendi o que queria. Dirigi-me para a janela ao seu lado, mandando para o inferno as instruções de manter as cortinas fechadas. A vista do jardim estava bonita, com o sol iluminando a copa das árvores e as várias espécies de flores brotando aqui e ali. Ao menos uma visão bonita, pensei, ele merecia isso.

Fiz uma referencia, vendo seu rosto iluminar-se como o sol saindo das nuvens após um tempestade antes de sair.

Notas finais
pera