Closer to the Edge
13 Charlotte tem um ataque.
Notas iniciais
Charlotte andava de um lado para o outro, se xingando, xingando os deuses, xingando até o pai dela, mas, principalmente, me xingando.
Estávamos no escritório, ela gritava e resmungava consigo mesma, às vezes dava socos na parede de madeira e fazendo alguns livros caírem. Eu estava pressionando uma bolsa de gelo contra o olho direito porque assim que eu tentei explicar qualquer coisa para Charlotte, ela teve um ataque e dera um soco no meu olho.
Não que eu a culpe.
Eu merecia isso e mais um prêmio de idiotice suprema.
Eu realmente pensei que estivesse fazendo a coisa certa, mas nãao, pela reação de Charlotte era óbvio que a lindona aqui fizera a maior besteira possível.
Ela suspirou, parecia bem mais calma agora, e sentou-se ao meu lado. Charlotte ficara calada e o único som que se podia ouvir era o barulho do mar contra o casco do navio. Ela enterrara o rosto nas mãos, e pela primeira vez desde que a conhecera realmente, ela parecia frágil e quebradiça.
– Por que você achou que isso era o certo? – sua voz saiu embargada, como se estivesse segurando o choro.
– Porque Hazel valou de nós em um tom de divertimento, como se quisesse que o que quer que esteja acontecendo dê errado. E, depois que você falou que ele iria morrer – minha voz vacilou um pouco, ela finalmente levantou os olhos marejados para mim – e-eu pensei que o que seria certo era eu não podia ficar perto dele.
– É exatamente o contrário. – ela sussurrou. – Dê um jeito nisso.
Alguém bateu na porta e os cabelos desgrenhados de Percy apareceram na porta. Ele também estava “disfarçado”, usando um longo casaco azul marinho com botões de bronze por cima de roupas respeitáveis. Mas, pelo jeito, os cabelos rebeldes sempre vão dar a sensação que ele acabou de acordar.
Seu sorriso sumiu assim que seus olhos pararam na irmã. Ele trancou a porta atrás de si e se ajoelhou ao lado dela, com um olhar extremamente preocupado. Eles tiveram uma conversa silenciosa, daquelas que você só tem com pessoas que você realmente conhece, aquelas que apenas um olhar já é o bastante.
– Acho que vocês tem que conversar. – ela se levantou com um suspiro.
– Eu não tenho nada para conversar com ela. – a voz de Percy saiu dura, assim como seu olhar para mim.
– Ah, tem sim. – Charlotte disse, sua expressão dizia claramente que aquilo era uma ordem. Eles tiveram mais uma conversa silenciosa que acabou com Charlotte saindo do lugar e batendo a porta atrás de si.
Percy suspirou e sentou-se onde Charlotte estava, ele olhava até para o reflexo das janelas de vidro, tudo ao redor, menos para mim.
– Percy... – comecei.
– Para você, é Perseu. – sua voz era afiada como navalha.
“Para você” mereço.
Eu mordi o lábio inferior até sentir gosto de sangue, mas não estava mais com vontade de descontar em mim o queria fazer nele. Eu joguei a bolsa de gelo na mesa, o barulho fez com que ele finalmente me olhasse. Mas seus olhos não tinham surpresa, era mais um ‘o que você pensa que está fazendo?’.
– Que foi? – perguntei. – Surpreso? Nós realmente temos que conversar, e, sinceramente, eu já estou realmente cansada de ser a “loira burra” nessa merda.
– Como... – ele começou, mas eu o interrompi, colocando o indicador na boca dele.
– Não. Agora eu vou falar. Estou cansada de ser uma pedra no sapato. Estou cansada de não saber nada. Estou cansada como se eu tivesse feito tudo errado. Como se eu não valesse nada. E pare de me tratar como se eu fosse mais uma. Daqui em diante, eu não vou permitir que alguma impressão saia errada de mim. Eu sou Annabeth Chase, e você não tem a mínima ideia do que eu sou capaz de fazer com você, Perseu Jackson.
Eu estava inclinada sobre ele, com cada mão nos braços da cadeira; nossos rostos estavam a três centímetros de distancia, mas eu não tinha a vontade de beijá-lo igual às outras vezes em que estávamos assim. Seu rosto estava duro, mas seus olhos estavam em alarme. Quando ele levantou um pouco o rosto, na tentativa de parecer mais superior, eu vi a marca de batom vermelho perto do colarinho do casaco.
– Mas pelo visto tem outras que adorariam ser apenas mais uma na sua lista, não é mesmo?- tentei fazer com que minha voz não saísse amarga ou como se eu estivesse decepcionada.
Ele deu aquele sorriso de deboche.
– Ciúmes?
Sim.
Claro.
Com certeza.
– De você? Poupe-me.
– Ao menos, ela sente algo por mim.
Ai. Seria menos doído se ele tivesse cravado um punhal enferrujado no meu peito. Ele se levantou, mas eu o empurrei de volta na cadeira.
– Quer saber o que eu realmente sinto por você? – falei, minha garganta ardia, o que eu iria com certeza feriu meu orgulho. Mas ele era o Percy, e mesmo eu mal o conhecendo, eu sentia que eu precisava dele. Quase como uma necessidade. E eu sempre odiei quando ia falar o que realmente sentia para alguém e minha garganta simplesmente travava. – Eu odiei ter que mentir para você. Eu odiei quando você simplesmente virou a cabeça, mal olhando para mim. Eu estou odiando ter que depender de alguém para me sentir segura nesses últimos dias, e, quase sempre, esse alguém é você. Eu me odiei quando percebi que eu estava...
Como dito, minha garganta travou. Ele inclinou a cabeça, os olhos estavam semicerrados, esperando a conclusão da frase.
– Que você estava...?
Eu recompus a postura e fui para o outro lado da sala, olhando através da janela para o horizonte infinito. Minha boca estava seca e minha garganta estava ardendo, como se as palavras seguintes me matasse lentamente de dentro para fora.
– G-gostando de você. Quero dizer... – suspirei – Ah, droga.
– Tem certeza que é só “gostar”? – ele reprimiu um sorriso. – Não é algo do tipo “amar”?
– Talvez. E não ria de mim.
– Não estou rindo de você. – mas ele deu uma risada logo depois, os olhos verdes com o brilho cotidiano de volta, o que fez com que um alívio repentino se espalhar pelo meu peito.
– Você está tornando as coisas nada fáceis. – disse.
Percy deu outra risada rouca, fazendo meus pelos se arrepiaram contra minha vontade. Ele se levantou e andou na minha direção, se apoiou do meu lado e retirou uma mecha solta do meu rosto.
– Eu nunca vou tornar as coisas fáceis para você, Sabidinha. Acostuma-se a isso.
Ele se inclinou e pressionou os lábios gentilmente contra os meus, me fazendo sorrir no meio do beijo e puxá-lo para mais perto.
Eu estava aliviada, feliz e pela primeira vez em muito tempo sabia exatamente o queria. Um misto de emoções ainda inexplicável fizeram um emaranhado no meu peito, mas não me deixavam exatamente confusa. Mas eu sabia, do mesmo jeito que alguém sabe que seu coração ainda está batendo, que eu nunca vou deixa-lo para trás.
***
Nós ficamos conversando por um longo tempo, nos beijando de vez em sempre e eu rindo igual uma louca de algo que ele falou. O que não era surpresa. Eu mencionei alguma coisa que eu gostava de arquitetura e ele se levantou do banco de assento acolchoado, que acompanhava toda a janela, e pegou um exemplar de “A Famosa Arquitetura Clássica” da estante.
– O que esse tipo de livro faz em um navio como este? – perguntei incrédula.
– Que menina preconceituosa. – ele debochou, apertou meu nariz e sentou do meu lado, colocando minhas pernas por cima das suas. – Na verdade, se você procurar bem, você acha uns livros bem legais ali.
– E desde quando você lê?
– Que menina preconceituosa. – ele repetiu e eu dei uma gargalhada constrangedora.
Percy me entregou o livro e eu o foliei, tentando capitar tudo que é detalhe. O livro ia desde a Grécia antiga até as casas vitorianas, até tinha uns “extras”, de projetos de arquitetos mais modernos. Percy me olhava com um sorriso um pouco bobo no rosto.
– Que foi?
– É por isso.
– Por isso o quê?
– Por isso eu gosto de você. Se ao menos parasse de tentar ser o que a droga da realeza moldou, mas sim ser você mesma, perceberia o quão incrível você é.
Eu senti meu rosto esquentar, então voltei os olhos para o livro e coloquei o cabelo na frente do rosto para escondê-lo. Eu lia sobre como a Acrópole de Atenas era uma coisa fascinante, por ter sido construída em um cume estreito e com materiais pesados, mas ainda sentia seu olhar sobre mim.
– Ainda quero ir aqui. – comentei um pouco sonhadora.
Ele se inclinou para ver o livro.
– Partinum?
– Partenon.
– É, isso. O que tem?
– Eu quero vê-lo. Na verdade, meu sonho é fazer algo que dure até mais que isso. Algo em que todos vão fazer fila para visitar em gerações futuras.
– Arquiteta? Você?
Eu o olhei.
– É, o que tem?
– Nada. – ele parou, como se estivesse pensando nas palavras certas. – É que... Bem, nunca pensei que você gostaria disso.
– Que menino preconceituoso.
Ele gargalhou, o que me dera uma pitada de inveja, a gargalhada dele era gostosa de ouvir. Eu me vi novamente perdida o observando, como uma artista observando uma inspiração para uma obra, a pele dourada contrastava com os dentes brancos perfeitos. O cabelo negro rebelde caindo nos olhos verdes, que, aliás, acabou se tornando minha cor preferida quase sem querer. Eu não podia olhar diretamente para eles, me perdia facilmente no mar que eles eram. Ele fez um sinal como se pedisse para ver melhor o livro e eu acordei do meu transe e estiquei os braços para que ele pudesse pegá-lo.
Ele estava com uma expressão confusa no rosto, mas era como se estivesse se esforçando o máximo para entender o que estava empreso nas páginas.
Enquanto ele lia, me apaixonei do mesmo jeito que alguém cai no sono: gradativamente e de repente, de uma hora para a outra.
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