Closer to the Edge
6 Bombardeios de um loirinho irritante
Notas iniciais
Cinco motivos de por que dormir na cama de Percy Jackson é um bom negócio:
1- Tem o cheiro dele
2- Você se sente dormindo em uma nuvem
3- É impossível e impensável a possibilidade de alguém ter pesadelos ali.
4- O barulho e o movimento monótono do mar te faz sentir como um bebê no berço.
5- É a cama de Percy Jackson.
Resumindo: é o paraíso em forma de cama.
Eu me espreguicei de forma sonolenta e sentei na cama. A janela estava aberta, como na noite passada, e o brilho do sol contra o mar quase me cegou. A porta do banheiro estava aberta, um cobertor dobrado estava no braço do sofá. Nenhum sinal do Cabeça de Alga.
Levantei-me e fui até o banheiro fazer coisas que vocês normalmente faz de manhã em um banheiro. Quando voltei ao quarto, uma pequena pilha de roupas estava em cima da cama. Havia um bilhete em cima, mas dessa vez não era da Charlotte:
Você tem mais busto do que eu, o que é realmente irritante, mas acho que minha blusa vai caber em você.
Silena B.
Em um movimento quase que automático, olhei para os meus seios. Não eram tão grandes. Talvez um pouquinho.
Silena exagerada.
A pilha de roupas continha uma blusa branca com um considerável decote; um corpete externo marrom, daqueles que iam somente até abaixo do busto; luvas marrons que pareciam ter sido rasgadas nos dedos; um lenço vermelho com franjas; uma calça justa preta e botas da mesma cor. Minha adaga estava em uma bainha bege ao lado das roupas.
Tranquei a porta e me troquei ali mesmo. Coloquei o lenço na cintura, em vez de colocar na cabeça, com a adaga sobre ele. Arrumei o cabelo em um rabo de lado e saí do quarto.
Foi mais ou menos por aí que os bombardeios começaram.
***
Eu caí no chão com o impacto. O navio tremeu todo, e eu achei que tínhamos pouco tempo até ele afundar nas profundezas do mar.
Eu olhei para frente, minha visão estava um pouco turva com a pancada que levei na cabeça, mas eu consegui distinguir quem estava na varanda. Charlotte estava apoiada no gradil da varanda, gritando o suficiente para que os 7 mares pudessem ouvir:
– EXPLODAM AQUELA MERDA DE NAVIO! COMO ESSE INGLÊS IDIOTA OUSA TOCAR NO MEU NAVIO E SAIR EM PUNI?
Quando minha visão clareou totalmente, percebi que a mancha preta não era o sobretudo que ela usara ontem, e sim a cascata negra que eram os cabelos de Lotte. Ela usava uma blusa branca de botões que caia nos ombros, um colete verde escuro fechado por um cordão dourado não deixava a blusa cair.
Uma voz respondeu uma oitava mais baixo que o tom de voz de Lotte:
– M-mas senhora, é uma caravela da Coroa Britânica. Isso nos traria problemas...
Charlotte girou o corpo para trás, na minha direção, e fez uma careta estranha, trincando os dentes com um lado do lábio inferior para baixo e olhando para cima. Ela ia virar para respondê-lo, mas arregalou os olhos e me fitou. Sem emitir som, ela balbuciou as palavras “fica aí”. Eu não entendi do porque ela queria que eu ficasse escondida nas cabines, mas uma voz vinda do outro navio me deixou estática:
– Charlotte Green, vamos fazer o seguinte: Você me entrega Annabeth, eu te prendo, e todos ficam felizes.
Charlotte revirou os olhos, como se não acreditasse que Luke poderia ser tão idiota.
– Vai sonhando, loirinho! – ela respondeu. – Annabeth está morta, ENTÃO DESISTA! VOCÊ NÃO VAI CONSEGUIR SER REI TÃO FACILMENTE, QUERIDINHO!
Ah, pensei. Então é isso.
Lotte queria que eu ficasse onde estava para que o plano de falar que eu estava morta desse certo. Mas eu duvidava que Castellan simplesmente pensasse que eu estaria morta e estaria tudo o.k. A recompensa pela cabeça de Charlotte valia mais que quatro lotes de terra, e dos grandes.
– TUDO BEM, GREEN! – Luke gritou do outro lado. – MAS VOCÊ EXPLODIRIA MEU NAVIO SABENDO QUE TEM ALGUÉM QUE NÃO TEM NADA A VER COM ISSO?
Charlotte continuava com uma expressão de puro tédio. De onde eu estava, dava para ver que a grande maioria da tripulação estava com a mesma expressão.
Menos Percy.
Ele estava com cara de alarmado, como se conhecesse a pessoa que Luke provavelmente mantinha como refém.
Ele subiu as escadas e disse algo no ouvido de Charlotte, essa que arregalou os olhos e balançou a cabeça negativamente. Percy não deu ouvidos a irmã e disse:
– Uma troca, Castellan! – ele gritou. – Essa garota por mim. Eu não sou minha irmã, mas você sai ganhando alguma coisa.
Luke riu de desdém, como se dissesse “dá para acreditar nesse cara?”.
– E se eu recusar a oferta?
– Ou sou eu ou é seu navio destruído e você morto.
Onde Percy estava com a cabeça para ter essa ideia de retardado?
Eu não podia deixar isso. Claro, se eu saísse de onde estava provavelmente eu voltaria e me casaria com Castellan, o navio estaria em uma montanha de areia no fundo do mar e todos ali seriam mortos por enforcamento.
Mas eu tinha que arriscar, Percy não conseguiria sair de um navio cheio de guardas ingleses. Não ileso.
Quando dei por mim, Percy já estava no outro navio. As duas caravelas estavam sendo ligadas por um pedaço de madeira não muito confiável.
Levantei-me e cheguei um pouco mais perto do batente da porta, tentando ver o que estava acontecendo. O refém de Castellan era uma garota morena, ela estava de costas, mas pelo cabelo castanho repicado eu desconfiava que pudesse ser minha dama de companhia: Piper McLean. O porquê Castellan a fez como refém, eu não sabia. Mas nem queria pensar o que a coitada passou, de longe dava para ver os machucados em seu corpo e o vestido de serviçal totalmente rasgado.
Charlotte estava de olhos arregalados observando tudo. Ela sabia que o irmão tinha um plano de sair dali, dava para perceber, só não podia saber se esse plano daria certo ou não.
Ela falou algo ao ouvido de Thalia, ela apenas assentiu e saiu correndo para os compartimentos internos.
Quando voltei o meu olhar para o outro navio novamente, o suposto plano de Percy já estava posto em ação.
De algum modo, ele subiu em uma corda e estava fazendo os guardas ficarem como baratas tontas tentando captura-lo. Percy girou com a corda em volta do mastro principal e eu conseguia vê-lo gargalhando daquela situação. Típico.
Luke gritava para que a sua tripulação continuasse em posição, mas ninguém realmente ouvia.
Percy pegou um impulso mais forte, desenrolando a corda do mastro. Ele deu outro impulso, pegou Piper em pleno ar e jogou a si próprio e Piper vindo à nossa direção. A coitada da Piper caiu no convés em cima de alguém. O Cabeça de Alga passou direto e caiu em algum lugar em cima das cabines.
Eu não conseguia parar de sorrir. Com o impulso de Percy, o mastro principal do navio de Luke se quebrara, deixando a tripulação com mais cara de barata tonta ainda. Luke estava vermelho de raiva, olhando para nós como se não pudesse acreditar que tivemos a audácia de quebrar o mastro dele.
– Todo mundo viu? – Percy apareceu no teto, logo acima de mim. – Porque eu não vou fazer de novo.
Charlotte ria com nunca, não acreditando na sorte do irmão. Percy pulou para a varanda.
– Você pensa em todo o plano ou vai improvisando no caminho? – perguntei.
Eu não consegui me segurar e o abracei, não me importando se o outro navio ia me ver ou não.
– Jackson! – gritou Luke do outro navio. – Não quebre o meu mastro, seu idiota! Eles não nascem em árvores sabia?
Percy me abraçou de lado e olhou para o outro navio.
– Hãm... Mas eles são feitos de árvores.
– NÃO INTERESSA! – Luke berrou, embora ninguém estivesse falando e ele poderia muito bem usar um tom de voz normal que todos nós ouviríamos.
Ele olhou para mim, ele parecia confuso. Talvez pensando se eu era uma pirata normal ou a Annabeth que ele conhecera.
– A-Annabeth?! – Luke balbuciou, a expressão claramente dizia que ele não queria acreditar no que estava vendo.
Eu respirei fundo e respondi:
– Oi, Luke.
Ele arregalou os olhos em uma expressão com um misto de horror e desprezo. O rosto endureceu rapidamente e ele lançou um olhar de ódio para Percy:
– O que você fez com a minha noiva? – ele disse, depois gritou a mesma coisa:
– O QUE VOCÊ FEZ COM A MINHA NOIVA?
– Se eu fizesse alguma coisa, seria mil vezes melhor que você, Castellan. – respondeu Percy.
– Escute o concelho de Charlotte, Luke. – falei. – Desista.
Charlotte tinha um sorriso vencedor no rosto.
– Deveria ouvir sua ex–noiva, Castellan. – ela disse, com ênfase no “ex” – De-sis-ta.
– Vocês vão pagar!
– Ah, claro. – ela suspirou, com pura descrença disso tudo estampada na voz. Charlotte se virou para a tripulação e disse no meio de um bocejo forçado:
– Explodam aquele navio.
E assim foi feito: Balistes acionadas, duas de fogo e outras duas com projeteis explosivos, todos os canhões do lado esquerdo foi acionado. O que há cinco minutos era uma caravela da onipotente Coroa Britânica agora eram apenas pedaços de madeira e destroços. Embora eu ainda tenha a sensação de que Luke continuasse vivo. Vaso ruim não quebra.
– Você está bem? – Percy perguntou, olhando para mim com o mesmo olhar de preocupação de ontem.
– Pergunto o mesmo. – sorri.
– Aquilo? Não foi nada. Já quebrei coisas piores.
– Humildade foi embora tão de repente. – brinquei.
Ele sorriu de lado, e retirou a mão da minha cintura, o que me deixou um pouco decepcionada. Totalmente irrelevante.
No convés, havia se formado uma roda em volta do lugar onde Piper caíra. Eu corri escada a baixo e desviei com certa dificuldade das pessoas até chegar onde ela estava caída.
Ela caíra em cima de Jason, esse que estava meio zonzo e com uma coloração meio verde no rosto. Piper pedia desculpas sem parar, mas não acho que Jason estava prestando muita atenção nisso.
– Piper! – disse, fazendo-a parar com as lamentações.
Ela olhou para mim, os olhos bicolores mudaram de expressão de horror para alegria completa assim que me vira. Ela sorriu abertamente e me abraçou, digo, me esmagou.
– Ah, senhora! Como aquele palácio não é o mesmo sem você!
– I-imagino, Pipes. Será que dá... para você... me soltar?
– Ah, claro. Desculpe-me.
Ela tirou os braços e fez a reverencia que sempre fazia. Olhando-a mais perto, reparei que as mangas do vestido estavam queimadas, o olho direito estava roxo e ela tinha arranhões por todo o corpo. Mas ainda sorria abertamente.
Suspirei.
– O que eles fizeram com você Pipes? – perguntei, com a pena claramente estampada na voz.
O sorriso dela sumiu. Os olhos perderam o brilho de sempre.
– Bem...E-eles...
– Não importa.
Charlotte estava do meu lado, ela não tinha a mesma expressão receptiva que teve comigo.
Jason parecia estar melhor agora, ele se colocou entre Charlotte e Piper e lançou um olhar para Charlotte. Com uma certa surpresa, percebi que Jason estava protegendo Piper. Charlotte apenas suspirou e revirou os olhos.
– Ela pode ficar. – ela disse, afinal, e depois concluiu – Por tempo indeterminado.
Jason deu um suspiro de alívio e sorriu para Piper, que retribuiu o mesmo sorriso.
– O resto de vocês – Charlotte olhou para a roda de pessoas – Não tem nada para ver aqui.
As pessoas foram caçar algo para fazer aos poucos, nenhum tirava o olhar desconfiado de Piper.
– Enquanto a você, Pailer. – Charlotte fuzilava Pipes com o olhar.
– É Piper.
– Tanto faz o seu nome, garota. – Lotte parecia não ter simpatizado com a cara da Piper. Ela olhou para Percy, em uma conversa silenciosa, e no fim ele apenas assentiu.
– Você – Percy apontou para Piper, e depois olhou para Lotte, que continuava com o olhar de carrasco para ela.
Percy apontou as escadas que iam para as cabines e disse:
– Venha conosco.
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