Closer
15 O passado nem sempre está no passado
Notas iniciais
O silêncio era pesado, denso e cheio de tensão. O corpo de Otabek estava completamente teso, porque a forma com que Yuri o escrutinava com o olhar era desconfortável. Queria poder sumir dali, mas o russo estava sentado em seu colo, mexendo em seu iMac e dando replay no vídeo que ele assistira com Yeva. Allegro Apassionato preenchia a sala e Yuri observava tudo plenamente chocado. Altin botou sua mão em cima da de Plisetsky, que segurava o mouse, e passou para o vídeo seguinte.
"Altin, mas o que..." O russo reclamou, mas silenciou ao se ver entrando na tela.
Os cabelos louros bagunçados, soltos, não tão longos quanto atualmente, a roupa folgada de algodão tão negra quanto a maquiagem dos olhos: Welcome to the Madness.
"Eu te disse que tinha te visto no recital da companhia Baranovskaya de dança." Otabek falou, monocórdio.
O cazaque não conseguia expressar de outro jeito o seu medo de rejeição, o nervosismo pela situação, seu coração acelerado ou as palmas de suas mãos suando. Yuri, por sua vez, tentava controlar a ansiedade de lidar com o desconhecido através da respiração profunda e compassada. Otabek parecia calmo e estóico como sempre, como se nunca sentisse nada e isso só fazia seu coração doer mais e suas mãos tremerem ligeiramente.
"Não falou que o recital foi de dois anos atrás." Yuri retorquiu, pausando o vídeo. "Importa-se em me explicar o que está acontecendo, Altin?"
Otabek não conseguia se concentrar no russo de carne e osso ao olhar de forma compulsiva para a tela e aquilo irritava Plisetsky. Sabia que o moreno estava em estágio de fuga mental por ter dificuldades de falar dos seus sentimentos e não podia deixá-lo fazer isso. Tinha também sua curiosidade, suas dúvidas e o nervoso de estar lidando com o desconhecido. Mas, mais do que tudo, tinha medo do que Altin diria, concluiu com o coração aos saltos e estômago queimando de ansiedade. Não queria perdê-lo, mas o que viria a seguir poderia estragar tudo. Desesperado, ele pegou o rosto forte e anguloso entre as mãos e o forçou a olhá-lo nos olhos, buscando qualquer indício de que tudo ficaria bem, embora apenas encontrasse uma aparente e irritante apatia e rosto inexpressivo.
"Porra, Beka, fala comigo!" Yuri clamou, soando chateado para evitar mostrar seu real estado de agonia.
Mas o moreno ainda se mantinha inerte, agora parecendo fora da realidade. Aquilo apertou a garganta do russo por pura exasperação. Se alguém lhe perguntasse naquele momento porque sentia tudo aquilo, demoraria um tempo até absorver o próprio medo de ver tudo – que era, ao mesmo tempo, tão pouco, mas tão precioso – que ele construiu com e para Otabek ruir como um castelo de areia que a onda do mar leva. Aquele castelo era precioso demais para que Yuri simplesmente deixasse ir.
"Não me força a tomar medidas extremas.” O loiro praticamente chiou, tentando conseguir sua atenção.
"Medidas extremas?" Otabek respondeu, confuso, como se finalmente tivesse aterrissado na Terra, os olhos castanhos focando no mundo real.
O fotógrafo estava tão afundado em seus medos que nem sequer notou onde as maquinações de Yuri estavam chegando. Oras, do que diabos ele estava falando?
"Pegar minha gata e sumir no mundo." Plisetsky retrucou, colérico. "Palavra de honra, Otabek Altin, você nunca vai me achar."
Yuri não seria capaz de fazer algo assim… Ou seria? Por outro lado, ele poderia não gostar do que ouviria. Aquele dilema era extremamente frustrante para o cazaque. Tão frustrante que lhe dava vontade de grunhir e quebrar algumas coisas. Nada que ele realmente fosse fazer, pois estava estarrecido e apático demais para isso.
"Ou você me explica sobre o vídeo agora, ou é isso que eu vou fazer." Plisetsky ameaçou, a voz perigosamente baixa e os olhos estreitos, como se realmente fosse um tigre prestes a atacar.
Ele só queria que o outro falasse ou fizesse algo, mas ainda assim o russo precisava soar convincente. Para tal, Yuri levantou e andou em direção à porta, dissimulando toda a convicção que não sentia nem por um segundo.
"Eu estava na cidade de passagem. Era meu último dia aqui." Otabek iniciou, incerto de como seguir a história e fazê-la parecer menos pior do que era.
Aquilo foi o suficiente para chamar a atenção do loiro, que se virou, ainda da porta, e ficou olhando o fotógrafo, de braços cruzados, inquirindo o resto com os olhos verdes ainda estreitados.
"Eu estava começando a me questionar sobre minhas escolhas e se era o melhor eu ir para mais um campo de guerra. Ou se eu simplesmente deveria tentar a vida por aqui e…"
A forma com que ele falava sutilmente indicava insegurança, mas sua expressão era neutra e estóica como sempre. Será que ele sabia o quanto essa maldita cara de peixe morto era irritante ou até mesmo perturbadora?
"Era só uma fagulha, mas… Eu andava a esmo na cidade procurando uma direção, uma perspectiva, uma pista... Qualquer coisa. Foi quando eu desci do carro e comecei a andar pelo parque... Foi quando eu te vi no palco e... Uau!" O mais velho suspirou, ainda perdido nas próprias memórias.
Otabek não conseguia parar de falar. Ainda estava com vergonha de se expor e até de olhar para Yuri, mas precisava dizer tudo e avaliar atentamente as reações do russo para não botar tudo a perder. Em sua mente aquilo fazia sentido, mas, de certa forma, não prestar atenção excluía a possibilidade de avaliar tudo. Essa era apenas mais uma prova de sua confusão mental sobre como se comportar perante Yuri Plisetsky.
"Era… Era..." Otabek tentava, buscando as palavras corretas.
Mas como você descreve um ser que lhe parece tão perfeito que não pode ser desse mundo? Que palavras usar para discorrer sobre perfeição? Como falar sobre um deus, uma entidade... Sobre Yuri naquela noite?
"Você parecia um silfo naquela dança em dupla com aqueles lenços brancos e leves que pareciam levitar ao redor de você enquanto você voava com seus saltos e a sapatilha de ponta e sorria e eu não conseguia olhar para mais nada que não fosse você."
"Uma fada selvagem." Plisetsky murmurou, ainda tentando absorver aos arrepios e tremores que Altin causava em si a comparação a um silfo, uma fada elemental do vento.
"Eu não consegui filmar sua primeira dança de tão… Enfeitiçado que eu fiquei pela sua magia, mas filmei todo o resto do recital." O cazaque confessou em um sussurro. "Em todo esse tempo, as únicas danças que eu assisti foram as suas."
Yuri engoliu em seco, nervoso. Otabek ainda estava escondendo as coisas. Precisava fazê-lo falar e não se importava em soar ameaçador.
"Isso não me explica nada." O russo sussurrou, milagrosamente conseguindo soar neutro apesar da ansiedade.
Tudo o que Altin conseguia ver era a distância entre eles e o fato de que tinha a atenção do outro para si. Os olhos verdes ainda o escrutinavam e os braços estavam cruzados em uma postura combativa, mas era seu jeito de demonstrar interesse no que dizia. Podia lidar com isso, por mais nervoso que estivesse.
"Porque eu não sei explicar como eu me senti quando você subia naquele palco. Nas danças em grupo, eu te procurava. Você fazia a mesma coreografia que todo mundo, mas era diferente… Você tornava cada um daqueles passos especiais e únicos e eu me sentia especial por poder te ver dançando."
Yuri corou. Sabia que era bom dançando e que gostava de fazê-lo, mas como ele havia tantos outros. O que Otabek falava era outra coisa. Ele dizia que Yuri era especial e era plenamente sincero quando fazia, porque não sentia em seu coração que o elogio era vazio. Na verdade, ele era carregado de tanta paixão que transbordava em Yuri, que, se não estivesse tão tenso e determinado a conseguir o que queria, estaria derretido e corado por se sentir tão amado.
"Quando você fez o solo de ballet clássico, o Allegro Apassionato, eu vi você dançando de forma amorosa para alguém e…" Otabek se envergonhou do que quase disse.
"E?" Pressionou Yuri, ávido por mais, sutilmente se aproximando com dois pequenos passos.
Sabia que era egoísta da sua parte, mas Altin finalmente estava falando tudo que guardava em si. Queria aproveitar aquela brecha e quebrar aquele maldito muro até que não sobrasse mais nada.
"Queria que fosse pra mim." O mais velho falou com firmeza, perdendo o brilho nos olhos de Yuri, bem como o rubor de suas bochechas por ser incapaz de encarar o russo.
Plisetsky apreciou a ironia daquela fala, porque dançara pelo menos três vezes para Otabek, que estava ocupado demais trabalhando para apreciá-lo integralmente. E agora ele estava ali confessando que a dança que ele queria era a que ele fizera para seu falecido avô. Se ele soubesse, muito trabalho teria sido poupado.
"Foi quando você me mostrou um outro lado naquele palco e eu…" O cazaque tentou se expressar, mas as pequenas rugas entre suas sobrancelhas denotavam sua dificuldade. "Eu não consigo explicar como isso foi importante pra mim."
"Tente. Eu preciso saber." Yuri insistiu, irredutível, aproximando-se mais do fotógrafo, porque ele parecia prestes a dizer algo importante.
"Quando a humanidade caótica, suas guerras e misérias, e as paisagens naturais não me comoviam mais, eu achei seu vídeo de novo no meu celular." Altin falou, olhando para a tela do computador. " Esse vídeo."
Welcome to the Madness.
"Não entendo o que tem de tão especial para você nessa dança." Yuri retrucou, incisivo.
Não era como se não acreditasse no que Otabek dizia, mas estava cada vez mais empenhado em ouvir tudo o que precisava ser dito e afundava em sua curiosidade de forma irreversivelmente egoísta.
O fotógrafo respirou fundo, criando coragem para falar o que sentia. Dava o máximo que podia para o loiro, mas ele, parado na sua frente, de braços cruzados e olhar cheio de demandas, exigia mais. Não tinha jeito, teria que dar tudo.
"O desespero, o vazio, a raiva, a frustração, a tristeza e a morte traduzidas na coreografia firme e forte da sua dança contemporânea reverberaram em mim. Ainda reverberam. Depois de tantos anos, sua arte ainda mexe comigo." O moreno confessou, a área entre as sobrancelhas franzindo tão levemente que era quase imperceptível para olhos destreinados, mas para Yuri significava muito.
Assim como aquelas palavras significavam tanto… Sua arte era a única coisa em que ele realmente era bom, mas era bom para si mesmo. Dançar nos palcos eram apenas consequência de sua expressão, especialmente depois que seu avô ficara debilitado demais para assistí-lo.
"Passei tanto tempo mostrando desgraças e tristezas, que decidi que era hora de tornar sua arte eterna, porque a beleza dela me inspira a ser melhor." Otabek confidenciou, a voz baixa, grave, mas firme e inegavelmente sincera. "Assim como você enquanto artista."
Yuri sentia seu estômago embrulhar de alegria e o corpo arrepiar pela declaração tão impactante. Poder dividir sua arte com alguém como Otabek Altin, a quem amava, era mais do que conseguia expressar. Plisetsky sabia que se entregava sem medo e só percebia isso depois de tê-lo feito, pois aquele homem roubava sua capacidade de raciocínio e planejamento. Mas isso não era um problema, porque seria capaz de confiar tudo a ele. Sim, seria capaz de confiar tudo a Otabek Altin, percebeu, atordoado, porque o amava. Essa conclusão era assustadora, mas não o deixavam em pânico, pois ele a aceitava como parte de seus sentimentos por Otabek, assim como o calor no coração e o afeto que corria em suas veias de forma alucinada e desnorteadora.
"Mais pessoas também deveriam se sentir vivas como eu, então eu segui a única pista que tinha: o nome da Companhia Baranovskaya de Dança. A internet me deu o resto das informações." O moreno complementou, achando ter dito tudo que era necessário.
A insegurança era a erva daninha capaz de estragar todo um jardim recém-florido pela primavera. Mas era difícil não notar como Otabek se referia ao artista e sua arte, nunca à pessoa de Yuri Plisetsky. Precisava de mais e foi o que ele exigiu, depois de se desfazer do ar ligeiramente encantado que sabia ter em seu rosto:
"Isso não explica como você foi parar na minha cama para dizer o mínimo." O loiro inquiriu, crispando os lábios, frio e sério.
Aquilo ofendeu Otabek, fazendo com que ele piscasse repetidamente. Um tapa físico teria doído menos. A forma que ele falava fazia parecer que ele só queria o corpo de Yuri, quando ele queria muito mais. Na verdade, queria tanto do russo que seria capaz de assustá-lo tanto quanto ele mesmo estava assustado. Mas aquilo ele não conseguia confessar, mesmo que lhe custasse a vida.
"Você fala como se não tivesse tentando me seduzir." Otabek acusou, devolvendo o tapa verbal e fazendo o bailarino encolher.
Uma maldita pausa criou uma tensão desnecessária entre ambos, pois cada um parecia absorver as palavras do outro. Otabek aparentemente se recuperou mais rápido, pois declarou:
"O que eu realmente não esperava era que durante os ensaios eu fosse conhecer Yuri Plisetsky depois das sessões e..."
Mais uma pausa carregada de tensão. Altin procurava os termos corretos para se expressar. Não podia dizer que estava apaixonado. Parecia que qualquer termo que escolhesse daria um passo em falso e estragaria com tudo.
"Eu não esperava gostar de você." O cazaque completou sua frase.
"E o que você esperava, Altin?" O loiro perguntou, quase exasperado.
"Eu não sei!" Otabek confessou baixinho, olhando para o loiro, desalentado. "Eu sinceramente achei que nós iríamos fazer os ensaios e cada um ia voltar para sua própria vida. Aí você me apareceu na minha casa as cinco da manhã e eu fui deixando você ficar..."
"E eu fui ficando..." O bailarino sussurrou sem pensar ou notar que se aproximava do outro de vez.
"E eu fui descobrindo durante todo esse tempo que eu gosto de você por inteiro." Altin completou, desviando o olhar dos olhos verdes de Yuri por pura vergonha. "E que eu me torno uma pessoa melhor quando estou com você."
Plisetsky não sabia o que fazer com os arrepios contínuos, o coração aos saltos, sua cara de bobo e sua boca entreaberta pelo choque, mas tudo se desfez quando ele notou a vergonha que o cazaque sentia por ter dito algo tão doce e puro. Ainda se impressionava como alguém como Otabek Altin podia ser tão confiante para certas coisas como trabalho, suas fotos e até mesmo sexo, mas tão frágil para outras. Pegou a mão grande e forte do cazaque e a puxou, levantando o mais velho, que cambaleou, débil, e se rendeu ao seu abraço.
Otabek se sentiu ser abraçado e notou que o rosto russo foi parar no seu pescoço, mas que nenhum dos toques tinha malícia, apenas muito carinho e cuidado e algo que no fundo ele torcia para ser amor. Correspondeu ao toque, incerto do que fazer, mas ciente de que se afundava espontaneamente na ilusão de ser amado. Afinal, de todas as pessoas do mundo, por que Yuri Plisetsky o amaria e se contentaria com tão pouco...? Por que ele se apaixonaria por alguém como Otabek?
Altin se viu sendo ligeiramente afastado e mirado nos olhos, enquanto as mãos do russo lhe faziam carinhos nas costas, e correspondeu acariciando-lhe o rosto e parte dos cabelos:
"Você também me faz uma pessoa melhor, Beka." O bailarino disse com firmeza e a ternura que raramente se permitia mostrar para os outros, mas que para o cazaque demonstrava sempre que possível.
Aquilo era... Novo. Bom. Na verdade, era maravilhoso, o cazaque concluiu, tentando lidar com a onda de calor que invadia seu corpo e lhe trazia uma alegria serena e uma paz indescritível. Aquelas palavras pareciam uma declaração de amor e Otabek estava tentado a acreditar nisso.
Mas estava se iludindo. Yuri não amaria alguém como ele. Sem querer pensar nisso, beijou os lábios do outro, tentando dizer com aquele gesto como ele se sentia e o que queria para os dois. Estava ciente de sua fuga emocional com o carinho, mas deixou de pensar nisso quando o amante lhe correspondeu a altura, como se dependesse daquilo para sobreviver. E era isso que fazia Otabek ter esperanças, mesmo sabendo que não deveria, mas…
'Ah, que se dane!' Altin pensou, entregando-se de vez ao bailarino.
Se estivesse se iludindo sobre ser amado, poderia lidar com isso depois, porque agora tudo o que ele queria era poder aproveitar o momento e a promessa de felicidade que Yuri lhe oferecia de forma tácita e tão abnegada.
Yuri sabia que estava sendo egoísta ao querer Otabek para si de qualquer maneira. Sabia que tinha algo de errado com o cazaque e com os sentimentos dele, mas agora só queria poder ficar com ele como se estivesse tudo certo. Queria deitar com ele naquela cama ortopédica ridicula e decepcionantemente dura e apreciar seu cheiro, seu calor, seu perfume amadeirado com traços orientais, seu carinho e a textura de sua pele para finalmente conseguir dormir embalado nos sentimentos que compartilhavam. E foi isso que ele fez, separando o abraço e pegando a mão do mais velho para deixar tacitamente claro o que queria.
Otabek não se fez de rogado. Sabia que seu iMac tinha entrado no modo de hibernação por falta de uso e uma noite de negligência e indulgência não mataria ninguém. Desligou a luz do escritório e seguiu para o próprio quarto, deitando na cama e deixando que Yuri se acomodasse como quisesse perto de si.
Seu coração se enchera de ternura quando o loiro escolheu deitar a cabeça no seu ombro e abraçar a lateral do seu corpo, entrelaçando as pernas de um jeito pouco convencional, mas minimamente confortável. As unhas da mão esquerda do russo lhe arranhavam levemente o peito em uma carícia suave que o induzia a dormir, porque apesar de ser tarde da noite e ele estar cansado, só agora, com Yuri em seus braços, que Altin se sentia confortável para descansar. As respirações deles faziam parte de um silêncio confortável que você só consegue compartilhar com quem lhe é muito querido, especialmente se ele estiver em seus braços... Aquela situação era muito mais do que Otabek poderia desejar ou absorver.
"Alegro Apassionato era uma homenagem ao meu avô." O loiro sussurrou a confissão, quebrando o silêncio entre eles.
Otabek corou, envergonhado de ter querido para si uma dança tão pura e ter invejado o falecido avô do menino em um tempo que seria tão difícil para qualquer um. Enquanto uma voz maldosa o condenava e julgava por seus atos irracionais, uma outra, mais doce e gentil, ligeiramente parecida com a de Yuri, dizia-lhe que ele não tinha culpa, que ele não sabia e que estava tudo bem. Nunca dava ouvidos à voz boazinha, claro, sentindo a culpa lhe enjoar o estômago, mas que ele controlou com a respiração consciente. Era a vez do seu amante desabafar, não poderia tomar toda a atenção dele para si, afinal nem tudo era e nem deveria ser sobre Otabek Altin.
"Ele tinha morrido recentemente quando eu decidi fazer esse solo ainda na Rússia. Ele gostava de me ver dançar, dizia que isso me fazia bem e sempre me incentivou a seguir meus sonhos..." Yuri confessou, distraidamente focado na respiração de Otabek. "Parecia uma boa coisa a se fazer."
Otabek sabia o que ele queria dizer. Não se render à tristeza era difícil quando ela parecia ser tão confortável, quentinha e acolhedora... Até que ela te engole, sua vontade de viver morre e você se perde naquilo. Saber que Yuri dançava para não se render era inspirador para o cazaque, que quase se deixou levar quando fotografar não fazia mais sentido.
"Acho que entendo." Altin murmurou com aprovação, a voz grave aquecendo Yuri, que se aconchegou mais ao corpo definido. "Acho que torna tudo mais bonito. Mas e Welcome to the Madness?"
O suspiro pesado do loiro pegou Otabek de surpresa. Ele se virou para Yuri, mesmo sabendo que o braço que apoiava a cabeça do amante ficaria em uma posição ridiculamente desconfortável, mas precisava vê-lo. Nesse momento deu graças a Deus por ter cedido à tentação de colocar a abajures com intensidade de luz regulável nos criado-mudos ao lado da cama. Em sua ausência, o bailarino tinha criado uma penumbra confortável que permitia ver cada detalhe de si, mas fazendo-o achar que estava escondido pela escuridão.
"Welcome to the Madness é meu desabafo." O bailarino confidenciou, entrelaçando mais suas pernas com as do moreno e acariciando seu rosto com as pontas dos dedos. "Você não consegue ser belo, puro e feliz para sempre. Tudo o que você disse mais cedo sobre os sentimentos pesados naquela dança é verdade. Aquele solo tem tudo isso e mais um pouco. Eu não fico feliz que ele tenha feito eco em você, porque dói…"
"Mas seu solo me lembrou que só doía porque eu estava vivo e isso significa muito para alguém que se sentia como um zumbi." Otabek confessou baixinho.
Yuri nunca sabia o que fazer quando seu Beka dizia aquelas coisas simples, mas que lhe tocavam tanto. Abraçou-o, deixando o próprio rosto tocar na já familiar e confortável curva do ombro para lhe sentir o cheiro, o calor e a maciez firme de sua presença que tornava tudo real e palpável. O loiro o queria por perto, porque o amava e porque não tinha coragem de encará-lo. Queria se entregar, mas parecia que o medo de Otabek o contagiava e isso era inaceitável. Resolveria isso, porque era questão de honra. Não podia e nem queria perdê-lo.
O cheiro floral do cabelo de Yuri o relaxava tanto que ele estava se entregando ao sono e ao rapaz, perdendo a consciência e seu tão prezado senso de proteção, simplesmente porque se sentia seguro perto do bailarino. E isso ficou claro quando o moreno simplesmente fechou os olhos e respirou de forma calma e constante durante um certo tempo, pronto para entrar no mundo dos sonhos sob a proteção do amante russo.
"Por que você me procurou depois de tanto tempo, Beka?" Yuri perguntou retoricamente por achar que o outro dormia.
"Porque depois de tanto tempo, eu não consegui tirar você da minha cabeça." Otabek respondeu, em um raro ímpeto de impulsividade, acomodando seu amante em um abraço ainda mais confortável, carinhoso e protetor.
Seu cansaço e sua entrega eram tamanahas que ele não teve forças para pensar em como se achava indigno de sua fada e que por isso tentou viver sua vida normalmente enquanto sua mente sempre resgatava aquele momento que vira Yuri dançando e o lembrava que estava vivo e ainda sabia apreciar a verdadeira beleza das coisas.
E agora tinha sua fonte de inspiração em seu abraço… Se aquilo não era o paraíso, então não sabia o que seria. Feliz e aquecido pelos sentimentos bons que lhe dominavam o corpo, assim como o calor e o carinho de Plisetsky, ele dormiu, sorrindo discretamente.
Enquanto Altin ressonava tranquilamente, Yuri tentava acalmar o coração acelerado e nervoso. Talvez nunca soubesse lidar com o jeito de Otabek, mas queria aprender e também retribuir tudo o que recebia do cazaque. Era determinado, resoluto e esperto, daria um jeito nisso.
Ele seria seu, porque no fim das contas, juntos poderiam superar tudo, até as dores que ainda sentiam.
~*~*~*~*~*~*~*~*~*~
Otabek acordou desorientado. A única coisa que sabia era que tinha comida cheirosa na casa. Piscou, perdido, e encontrou Yuri sentado ao seu lado, mexendo no seu celular novo. Entre eles, o alimento apetitoso que fez a barriga de Otabek roncar.
"Bom dia." O cazaque disse, esfregando os olhos e sentando. "Café da manhã na cama?"
"É o que parece, não é?" Yuri retrucou, azedo, sem desviar os olhos do aparelho.
Não era maldade. Na verdade, Plisetsky estava morrendo de vergonha da situação inteira. Estava acordando Otabek mais cedo do que o necessário, pois queria passar todo tempo possível de sua folga com o amante, então tentou compensar seu egoísmo com comida. Mas só depois que tudo estava pronto ele notou o quão meloso estava sendo. Nunca fizera tanto por parceiro algum... Mas também nunca se apaixonara por ninguém como por Otabek Altin. Aquilo era desconcertante, então optou por agir de forma arredia, como o gatinho emburrado de sempre.
"Me sinto mimado como se fosse um rei, Yura." Altin falou, beijando levemente a bochecha corada do russo. "Obrigado por isso."
O russo fez um gesto qualquer com a mão que dispensava o agradecimento, mas seu rosto ficava cada vez mais vermelho.
"Mas por que isso?" O voz grave, morna e carinhosa de Altin perguntou, causando arrepios involuntários em Yuri, que tremeu.
Aquela era a pergunta que ele não queria ouvir. Não tinha coragem de contar seus motivos. Olhou para o moreno e notou aleatoriamente como a linha do maxilar dele era reta, forte e atraente, com a pele corada de timidez. Os olhos de Otabek tinham uma expressão envergonhada quase inocente… Concluiu que tinha tirado a sorte grande em conseguir alguém como Altin como amante. Forte, sexy, confiante e durão, mas que na intimidade parecia mais uma grande pelúcia fofa que ele queria proteger e cuidar para que ninguém machucasse.
"Porque eu gosto de ver um homem como você corado de vergonha." Plisetsky retrucou com um sorrisinho maroto, conseguindo a proeza de fazer aquilo soar como um elogio.
Otabek arregalou os olhos suavemente com a resposta e desviou o olhar para a comida, colocando a bandeja no colo, mal contendo um minúsculo sorriso de canto. Aquele gatinho arisco era muito mais do que poderia merecer.
Em silêncio, começou a comer. Era simples, blinis com recheios variados, salgados e doces, e suco de abacaxi com hortelã feito na hora. Ele não tinha aquelas coisas na geladeira, pelo menos não tudo, especialmente abacaxi e hortelã, o que só poderia significar que o Yuri saiu para comprar os itens que precisava. E também que ele saiu para fazer o que acordaram na noite anterior.
Era difícil respeitar a teimosia de Yuri, mas era parte dele, então se segurou. Em menor escala, aquela teimosia era sinal tremendo de determinação, então não era de todo ruim.
O cheiro da comida o trouxe de volta à realidade.
Experimentou a panqueca russa sem expectativas. Sabia que Yuri cozinhava bem, mas o que seu paladar lhe trouxe foi uma explosão de sabores e temperos. Antes a comida tinha gosto de estar em casa e era acolhedora. Tinha gosto de amor. Agora também tinha gosto de amor, mas era diferente. Não parecia mais um avô cuidando de seu neto, mas sim de um homem abraçando, beijando e amando seu namorado de forma apaixonada, como se ele fosse a pessoa mais importante do mundo. Seria capaz de qualquer coisa para saber se Yuri tinha feito aquela comida pensando em Otabek daquele jeito, pois era assim que o cazaque pensava no russo. Mas, mais do que isso, queria não perguntar e acreditar que sim, porque havia apelo na ilusão de ser amado por alguém tão doce, especial e bom como Yuri Plisetsky.
"Blini?"
Yuri respondeu que sim, não tirando os olhos do celular, rolando automaticamente a timeline do Instagram. Ele não prestava atenção em Otabek, envergonhado o suficiente de sua postura melosa, quase se condenando por estar apaixonado. Não era como se não tivesse cozinhado para nenhum outro amante, mas tinha uma diferença brutal entre fazer qualquer coisa com o que tivesse na geladeira e tirar dinheiro do próprio bolso para comprar coisas extras e fazer massa de blini tradicional com recheios variados e suco de abacaxi com hortelã fresco apenas para fazê-lo sorrir. E nem sabia se ele estava sorrindo, porque não o olhou na cara.
Virou-se, vendo Otabek lhe oferecendo comida na boca e corou. Não era só o ato de carinho em si, mas era o cuidado e a forma com que ele lhe olhava. Entendeu então que ele não estava lhe perguntando se era blini, Beka sabia que era blini. Ele estava compartilhando um momento feliz consigo, devolvendo-lhe um pouco do amor que sabia receber e adicionando um pouco do seu próprio à mistura.
Aceitou a oferta e foi inevitável sorrir enquanto mastigava de boca fechada. Estava uma delícia, mas não porque tinha feito. Era o mesmo blini que tinha provado na cozinha, mas era o que Otabek fazia, enquanto lhe olhava com ternura e um sorriso discreto. Queria beijá-lo, mas seria muito óbvio.
No entanto, enquanto engolia, percebeu que não tinha outro jeito e o cazaque parecia concordar com suas necessidades, pois botava a bandeja no criado mudo e começava a lhe acariciar a nuca, desfazendo seu coque baixo e apreciando a maciez do cabelo que caia, abundante, até a metade das costas. Yuri nem notou o celular caindo de sua mão, enquanto apreciava o beijo lento, quase preguiçoso que ganhava. Quando o beijo começava a ficar mais apaixonado e o russo começava a se reposicionar para ficar por cima do cazaque, os arranhões na porta, desesperados e familiares, fizeram-se ouvir.
Os lábios se separaram bruscamente e os dois se olharam, divertidos. Com selinho, Yuri se levantou e disse:
"Coma."
Tepa entrou pelo quarto e andou lenta e charmosamente em direção à cama, muito parecido com Yuri. Otabek comia direto do criado mudo, aceitando o carinho felino cheio de demanda, mas com retorno igual. Tão semelhante a Yuri que doía.
"Parece que alguém não gosta mais de mim." Yuri reclamou, sentando na cama ao lado de Altin, cruzando os braços.
Otabek comia um blini com chocolate quando ouviu aquilo, respondendo com franqueza quase brutal, olhando nos olhos verdes que tanto gostava:
"Eu gosto de você."
Enquanto o coração de Yuri acelerava e ele ficava ainda mais vermelho, tentando absorver a declaração que recebia e escolhendo como responder àquela frase simples, Otabek comia com calma forçada. Não devia ter dito aquilo, nem que fosse por impulso. Era a verdade, ou quase, já que o que ele sentia já tinha passado de um mero gostar fazia tempo. Mas era tudo que tinha coragem de dizer e era mais do que deveria ter dito.
Sua linha de pensamentos se perdeu quando Yuri timidamente acomodou a cabeça em seu ombro, acariciando preguiçosamente sua coxa e aceitando o quase abraço daquele braço forte que com gentileza lhe envolvia a cintura. Ainda havia dúvida ali, que trazia um amargor pouco bem vindo no momento tão doce que compartilhavam.
"Eu também gosto de você." Yuri disse em voz alta, tentando dissipar as minhocas que porventura estivessem tentando entrar na cabeça do cazaque, que relaxou com a afirmação.
Permitiu-se ser alimentado por Beka enquanto fazia carinho na gata e deixava o amante comer e beber à vontade. Ele mesmo não tinha fome, pois provar os alimentos que cozinhava tirava sua vontade de comer. Sua mente estava em outro lugar. Tinha tirado o dinheiro com o qual pagaria Otabek pelo celular. Sabia que aquele era um assunto delicado para o casal, mas era sua honra e orgulho em jogo. Esperou que o moreno terminasse de comer e tirou o dinheiro do bolso da calça, entregando-o sem dizer nada. Altin o olhou, mas não inquiriu nada, apenas aceitou, colocou os 350 perto do celular e mirou Yuri com nada além de gentileza e carinho:
"Os gatos ficarão felizes." Ele disse, a voz grave e firme soando despreocupada e feliz.
Yuri apenas assentiu, emocionado por Otabek aceitar sua personalidade sem julgamentos e contornar sua teimosia de forma surpreendente. Nunca tivera um amante… Amante de repente não parecia mais o termo correto. Nunca encontrara um homem como Otabek Altin. Ele lhe dera tanto em tão pouco tempo e o fizera ficar ávido por mais. Mas também precisava lhe dar um pouco do que sentia.
"Ter um homem como você gostando de mim significa muito pra mim." Yuri confessou impulsivamente.
E logo em seguida se arrependeu. Não se arrependeu do que falara, mas sim de ter dito. Em seu egoísmo, esquecera da autoestima ruim de Otabek e de sua vontade de descobrir de onde vinha tudo aquilo. Tentava não cultivar instintos assassinos com quem quer que tenha feito mal a Otabek, mas não conseguia.
"O que você quer dizer com isso?" Altin perguntou, neutro.
"Um homem que além de ser gostoso pra caralho, sabe a diferença entre um blini e uma panqueca." Yuri respondeu, dando de ombros e apreciando a barriga seca e musculosa do cazaque com a ponta dos dedos por baixo da blusa alheia. "Meus ex-amantes ou não provaram meu blini ou não souberam a diferença entre um e uma panqueca."
Tepa parecia saber compartilhar Otabek com seu humano, pois ao mero sinal de que o clima iria esquentar, ela se retirou da cama, buscando uma poltrona do quarto para descansar de tanto não fazer nada.
"Talvez por isso sejam ex-amantes." Altin devolveu com confiança. "Não souberam distinguir e apreciar as boas coisas da vida, por isso te deixaram ir. Sorte a minha."
Esquecendo dos seus planos originais, Yuri atacou Otabek com vontade, beijando-o com desejo. Queria mostrar o que sentia, já que falar incomodava o cazaque. Mas não ter a liberdade de falar o inquietava, doía e o fazia lembrar de seu objetivo original.
"Seus ex-amantes também são uns otários do caralho. Sorte a minha." Yuri disse após o beijo, tentando controlar a respiração. "Quero dizer, que tipo de homem te deixa ir embora, Beka?"
Altin deu de ombros e não respondeu, incapaz de olhar para o loiro. Não gostava de falar dos ex-namorados. Eles não estavam mais juntos por alguma razão e era doloroso pensar naquilo.
"Não foi uma pergunta retórica, Beka." Plisetsky disse com firmeza sutilmente gentil. "Você ainda gosta de algum deles?"
Otabek negou.
"Ainda dói?"
Otabek não respondeu, mas o fato de ele não ter negado já dizia muita coisa.
"Dizem que falar sobre o que dói ajuda a sarar as feridas." Yuri disse, buscando os olhos de Altin e acariciando seu rosto. "Se você quiser, eu posso te ouvir."
"Você realmente quer saber?" Otabek perguntou, nervoso.
O que contaria seria capaz de transformar Yuri em ex, mas seria sincero, mesmo sabendo que era um péssimo namorado. Quando Yuri assentiu, ele respirou fundo e se preparou. Ele queria a verdade então a teria.
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