Closer
7 7 - A esperança: Por que não?
7 — Por que não?
"Posso te levar para casa?" Otabek perguntou, já dentro do carro, parecendo neutro. "Para sua casa, digo. Carona."
Yuri sorriu ao ver Altin se explicar e ficar vermelho. Entendia o motivo de ele estar nervoso. Para além de todo o passado recente, o bailarino recusara todas as suas ofertas de carona. Ele já não tinha motivos para recusar. Otabek já não era mais um desconhecido, um maluco ou até mesmo seu chefe, embora ainda fosse um tarado gostoso. Se ainda assim queria lhe dar carona é porque queria estar perto. E se Yuri fosse sincero, assumiria que também queria ficar perto dele.
"Por que não?" O loiro respondeu, dando de ombros, fazendo Otabek sorrir de leve.
Subiu na pickup negra do fotógrafo e o guiou para sua casa. O trajeto foi feito em silêncio tenso. Otabek se odiava por aquilo. Queria saber o que falar, que assunto puxar e fazer Yuri sorrir. O bailarino estava sério, o cotovelo apoiado na janela e o rosto apoiado na mão, sério e entediado. Mas ao mesmo tempo que queria tudo isso, não queria parecer estúpido aos olhos do russo e nem falar algo que pudesse estragar tudo. Da última vez que tentara se comunicar com ele sobre qualquer assunto que não fosse trabalho e fora afetuoso, recebera um emoticon de polegar para cima e um gelo típico do inverno russo como resposta.
"Posso ligar o rádio?" Yuri perguntou, tentando soar neutro.
Sem pensar muito, Otabek apertou o botão que fazia o objeto funcionar, mas tinha esquecido de um pequeno detalhe constrangedor. Seu sistema de som estava ligado no bluetooth e o que ele estava ouvindo podia denunciar sua posição.
Yuri reconheceu o acordes iniciais e a letra da música se fez ouvir:
"Mesmo que eu nunca precise dela,
Mesmo que ela só esteja me causando dor,
Eu ficarei de joelhos para alimentá-la
Perderei um dia para fazê-la sorrir novamente
Mesmo que eu nunca precise dela,
Mesmo que ela só esteja me causando dor,
O mundo é suave em volta dela,
Deixando-me com nada para desdenhar"
Otabek estava ouvindo Kings of Convenience? Desde quando? De antes ou depois de sua "indireta"? Verdade fosse dita, ele não conhecia o rapaz o suficiente para saber disso, mas gostava de pensar que era por sua causa. E por que justo aquela música, que traduzia tão bem quanto ele se sentia pelo fotógrafo atualmente?
"Mesmo que eu não seja o protetor dela,
Mesmo que ela não me queira por perto,
Eu estou de pé para encontrá-la,
Pra ter certeza de que ela está segura
Mesmo que eu não seja o protetor dela,
Mesmo que ela não me queira por perto,
Eu estou de pé para encontrá-la,
Pra ter certeza de que ela está segura"
Otabek se mexeu no banco e ajeitou as mãos no volante. De todas as músicas do duo, por que tinha que tinha que tocar justamente aquela que parecia descrever em detalhes como ele se sentia por Yuri? Não queria se sentir exposto, porque tinha medo de ser ridicularizado e rejeitado, mas o universo parecia não ligar para o seu desejo. Olhou para o lado de canto de olho, tentando decifrar o que o garoto pensava. O bailarino parecia absorto em seus próprios pensamentos. Menos mal, tornava tudo menos pior.
"O sol se põe na guerra,
O dia nasce e tudo é novo...
Tudo é novo."
Yuri olhou de canto de olho para Otabek, contendo a ansiedade ao morder a pele interna do lábio inferior. Queria tentar decifrar aquele homem, mas ele era tão obtuso que continuou sem entendê-lo. "Vencendo a batalha, perdendo a guerra" era o nome daquela música. Seria muito frustrante se aquela fosse sua sina no fim das contas.
"Duo maneiro." Yuri comentou, tentando puxar assunto. "Gosto deles."
"É..." Otabek respondeu, sem parecer estar ali de fato.
Um silêncio desconfortável de dez segundos se instalou entre eles.
"Música bonita." Otabek disse, reticente.
"Pode crer." Yuri respondeu, já ouvindo a introdução de solo de violão de outra música dos mesmos artistas.
A letra se fez ouvir de novo:
"Seus olhos são frios
Eu sei que você me contará tudo
Para não cair
Eu encosto na parede
Eu estou no chão
Não ouvindo mais
Eu deveria ter sabido
As coisas para as quais você tem tendência..."
Os dois expressaram seu desconforto pela indireta do universo de maneiras diferentes. Yuri se mexeu na cadeira, incomodado com o impacto da letra em si. Otabek simplesmente desligou o rádio com a mesma cara amarrada de sempre.
"Minha cabeça dói." Foi tudo o que o mais velho disse, sem soar arrependido ou constrangido.
O resto da viagem foi feito em silêncio que variava entre o sepulcral e o meditativo. Cada um parecia absorto em uma luta interna com seus demônios pessoais. A única coisa que acrescentava som a ausência de barulho entre os dois eram as instruções simples e precisas de Yuri para chegar em sua casa, o que tornava a viagem cada vez mais longa.
"Dobre aqui." O garoto disse, quebrando o silêncio pela última vez. "Esse é o prédio que eu moro, no 704. Fim do mistério."
Os dois ficaram parados e se encarando. Yuri esperava que Otabek falasse algo, qualquer coisa. Este, por sua vez, esperava saber o que fazer. O bailarino notou que o fotógrafo parecia perdido, então tentou ajudar do jeito que conhecia e sem ser tão invasivo. Tocou por cima da mão do moreno tentando ser apenas carinhoso. Otabek o olhou parecendo um cachorro sem dono, mas estava menos tenso.
"Você fez um ótimo trabalho hoje." O cazaque disse, sério e seguro por optar por um caminho seguro.
"Sério!?" Yuri perguntou, incrédulo. Depois de tudo, ainda falaria sobre trabalho? "Quero dizer, você acha? Tive que improvisar com a cadeira, mas imagina o que eu não teria feito com uma barra de pole dance..."
Otabek levantou as sobrancelhas discretamente, surpreso. Definitivamente não queria imaginar o que Yuri teria feito com sua sanidade de posse de uma barra de pole dance.
"Mas você foi ótimo improvisando com uma cadeira." o moreno respondeu, tentando achar as palavras. "E das outras vezes também. Quero dizer... Foi ótimo trabalhar com você."
"Trabalho... Claro." Yuri respondeu, triste. "Foi ótimo trabalhar com você, Altin."
O bailarino baixou a cabeça e puxou a mão de volta, derrotado. Talvez tenha sido só isso mesmo. Só trabalho. Ele pegou sua bolsa e sua maleta de maquiagem, abriu a porta do carro e estava pronto para ir embora, botando a primeira perna para fora. Talvez a guerra já estivesse perdida desde o começo, de toda sorte.
"Yuri?" Otabek chamou, neutro, vendo o russo parar no meio do caminho. "Posso usar o seu banheiro?"
O garoto de longos e rebeldes cabelos louros se virou e o olhou nos olhos de forma inquisidora, como se dissesse 'Banheiro!? Sério!?'. Aquilo constrangeu o motorista que acrescentou rapidamente:
"Eu estou apertado. Por favor."
Yuri recolheu as pernas e fechou a porta:
"Estacione o carro bem ali."
~*~*~*~*~*~*~*~*~*~
Otabek fechou a porta do banheiro e olhou para o nada, nervoso. Não queria usar o banheiro, mas precisava de uma desculpa para ficar. E agora precisava de outra, já que ninguém efetivamente demora urinando. Em sua defesa, tentou de fato urinar, sem sucesso. Baixou a tampa e puxou a descarga para não denunciar sua mentira. Lavou a mão e também o rosto, buscando uma nova desculpa. Abriu a porta e rezou para funcionar sob pressão.
"Você está bem, Otabek?" Yuri perguntou.
Aquele garoto estava esperando por ele encostado na parede branca do corredor usando uma boxer preta e uma regata de mesma cor e os cabelos soltos e cheirosos. Não importava se era outono, o rapaz não parecia sentir frio e Otabek não se importava de apreciar aquele corpo, mas aquela visão deixou sua boca seca.
"Estou. Mas gostaria de um pouco de água, se possível." O moreno respondeu.
"Gostaria de ficar e tomar uma xícara de café?" Yuri perguntou por impulso, lembrando do dia em que moreno quase deixara de dormir para lhe preparar a bebida.
"Como?" Otabek perguntou, chocado com a proposta e verdadeiramente surpreso.
"Ou então podemos pedir algo pra comer, sei lá." O loiro tentou consertar, constrangido, desviando o olhar.
Se Otabek procurava desculpas para ficar, poderia dar uma boa para ele passar bastante tempo ali.
"Por que não?" O fotógrafo respondeu, dando de ombros, exatamente como Yuri fizera, mas dando um discreto sorriso charmoso para mostrar que estava tentando ser divertido. "Estou mesmo com fome."
"Pizza ou comida chinesa?" O louro sorriu, cruzando os braços e se divertindo com a atitude do cazaque.
Não queria criar esperanças, mas era inevitável. Só o fato de Otabek querer ficar já dizia muita coisa para o bailarino.
"Pizza." Altin respondeu. "Uma gigante, por favor. E com bastante queijo."
"Pega leve no trabalho, cara. Em excesso dá fome. Mas vou pedir duas gigantes. Também estou faminto." Yuri riu, buscando o celular e pedindo pizza pelo aplicativo.
Foi quando Otabek ouviu um miado fofo e se virou em direção ao barulho. A gata andou de forma manhosa e começou a se esfregar nas pernas do moreno, que sorria com gentileza. Ele se abaixou e acariciou a felina com satisfação. Yuri cruzou os braços, encostou-se na parede e ficou algo entre o enternecido e o ciumento. Altin tinha pego a gata no colo e conversava com ela de forma amistosa. Queria isso para si, mas ao mesmo tempo sabia que sua mascote tinha bom gosto. Ela não ia com qualquer um, então se ia com Otabek era porque o cazaque era confiável.
"Não entendo o que ela viu em você. Tepa costuma ser arisca com as pessoas, mas acho que ela gostou de você." Yuri disse, fazendo um biquinho discreto para não mostrar o sorriso.
"Talvez ela pareça com o dono." Otabek respondeu, sorrindo abertamente.
Aquilo era um flerte? Yuri corou ao perceber que flerte ou não, Otabek tinha razão em suas palavras. E, desde que o fotógrafo cedesse naquela noite, não teria problemas em assumir que gostava dele. Pegou a mão de Altin e disse:
"Vem, vamos para a sala." E o arrastou, com gata e tudo, até o sofá, sentando-o e se alocando respeitosamente perto dele.
Otabek notou que ele não estava perto o suficiente para deixa-lo tenso e nervoso, mas não longe o bastante para que sentisse sua falta o quisesse mais próximo. Naquele momento bastava para que ficasse confortável em sua presença.
"Tepa, já chega. É minha vez de cuidar da nossa visita." O loiro falou para a gata de forma que Altin classificou como cúmplice e a felina entendeu, simplesmente parando de brincar com o cazaque e indo embora, balançando o rabo charmosamente, como se nada tivesse acontecido.
O moreno se viu surpreso com a atitude da gata, mas sorriu ao reconhecer nela a atitude do tutor. Incapaz de evitar, suavizou a expressão em um discreto e leve sorriso e, olhando para Yuri, perguntou:
"Vai fazer o mesmo comigo?"
O loiro desviou o olhar, enrolando uma mecha de cabelos loiros nos dedos curvando os lábios de forma travessa.
"Não sei o que quer dizer com isso."
Otabek se ajeitou no sofá, tocou o queixo de Yuri levemente com o indicador forçando-o a olhá-lo nos olhos negros perspicazes e enevoados e disse, a voz um tanto rouca:
"Você vai brincar comigo a noite inteira e depois me dispensar como se eu fosse nada?"
Yuri respirou fundo, projetando o peito de forma não intencional para se aproximar do outro, mordendo o lábio inferior de nervoso. Aquela sinceridade toda era atraente e sensual demais. Assim como a proximidade física e a sedução lenta que Altin usava consigo.
"Isso depende mais de você do que de mim." O louro respondeu, lentamente cedendo e mais que tudo, ansiando por aquele beijo.
Os narizes se tocaram e Yuri fechou os olhos, pronto para tocar aqueles lábios com os seus... A campainha fez os dois suspirarem e se afastarem, frustrados. O bailarino até poderia roubar aquele beijo de vez, mesmo com clima desfeito, mas não tinha pressa. Aprendera com Otabek a importância de fazer as coisas do jeito e no momento certo.
"O que diabos você pensa que está fazendo?" Yuri perguntou quando viu Otabek se levantar, mexendo no bolso do casaco para pegar a carteira.
"A pizza chegou e eu..." O fotógrafo disse, confuso.
Sentiu o outro pegar no seu braço e o olhou. O russo estava sério quando lhe disse com bastante assertividade:
"Não. Não faça isso."
"Mas..."
"Não, porra!" Plisetsky afirmou, quase que com dureza, enquanto se levantava, fazia o fotógrafo sentar e o cercava contra o sofá, ficando bem próximo. "Eu te convidei, você está na minha casa e vai jantar comigo. Eu pago. E não insista. Não seja um puta babaca, Otabek Altin. Ou eu te expulso da minha casa e como as duas pizzas com a Tepa."
Otabek se sentiu intimidado, mas excitado por aquele lado mandão de Yuri. Verdade fosse dita, se fosse possível, sentaria o bailarino em seu colo e o encheria de beijos e prazer até que a pose mandona fosse embora, substituída por expressões faciais de prazer e gemidos. A campainha tocou de novo e com um pouco mais de insistência.
"Já vai." Yuri respondeu, tentando ser paciente com o pobre entregador que nada tinha a ver com o jogo de sedução que ocorria entre o loiro e o moreno.
"Você está só de cueca, Yura." O fotógrafo respondeu baixinho, parecendo chateado. Estava com ciúmes, na verdade, mas nunca assumiria em voz alta.
"Logo você pra me dar essa lição de moral, Beka?" O rapaz riu, divertido, ainda incapaz de esquecer quando aquele homem abriu a porta para si quando foi visitá-lo a trabalho. "Aguenta aí. Vou pegar nossa pizza antes que o cara vá embora. Aproveita e vai ficando a vontade. Você ainda tá de sapato, por exemplo."
Otabek tirou o coturno preto que usava e as meias. Tirou também a jaqueta de couro e se perguntou se estava a vontade o suficiente na concepção daquele lourinho que desfilava na sua frente com uma boxer e uma regata, ambas negras, moldando seu corpo. O dançarino colocou as pizzas na mesa de centro que ficava na frente do sofá simples, mas confortável, e depois trouxe o refrigerante e uma cerveja:
"Eu poderia trazer uma pra você, mas você me disse que não bebe quando dirige." O rapaz disse, abrindo a garrafa de cerveja e bebendo um gole da boca. "Você está confortável o suficiente? Ainda tem uma blusa por baixo dessa que eu sei."
Otabek olhou para Yuri com interesse, perguntando-se como ele sabia daquilo. O dono da casa se aproximou e começou a tocar a costura do decote da regata por cima da blusa, indicando que ela estava visível, mas seus olhos estavam fixos nas íris cor-de-café do fotógrafo. Altin fez menção de tirar a blusa e Yuri recolheu o dedo, dando um outro gole em sua bebida.
Yuri não aguentava mais aquele suspense. Estava quase ele mesmo indo tirar aquela blusa maldita. E se ele fosse fazer isso, tiraria também a regata, mesmo que estivesse fazendo um frio considerável. Deu mais um gole na cerveja, tentando controlar seus instintos. Talvez não fosse boa ideia beber cada vez que aquele homem o tentasse. Por fim, aquele homem finalmente tirou a blusa de manga, revelando uma regata branca fina. Aquilo fez Yuri lamber os lábios secos de forma lenta, mas ávida.
"Como você consegue isso?" O garoto perguntou, apreciando sem qualquer timidez os braços musculosos, ombros largos, a cintura estreita e o abdômen forte do mais velho.
"Exercício e dieta rigorosa." Otabek respondeu, simplesmente, tomando a liberdade de pegar um pedaço de pizza e devorar sem cerimônias, fazendo o louro levantar a sobrancelha em desconfiança. "Eu só quebro a dieta quando estou com você, mas sou obrigado a compensar no dia seguinte."
Yuri lembrou do dia que jantaram juntos pela primeira vez. O prato de Altin era definitivamente saudável e balanceado. Definitivamente não existia mágica ou milagre para ter aquele corpo de Adonis.
"Mas a genética ajuda, se é isso que você está se perguntando. Tome. Coma você também." O fotógrafo ofereceu um pedaço de pizza.
O dançarino comeu da mão do outro, que sorriu. Ambos eram jogadores e estavam confortáveis com isso. E eram pacientes. Otabek comeu um pedaço daquela mesma fatia e tomou a cerveja de Yuri, dando um gole enquanto encarava o anfitrião. Esperava que assim tivesse dito que gostaria de ficar a noite inteira. Eles trocavam olhares intensos, como se só aquilo fosse o suficiente para que um seduzisse ao outro. Quem não resistisse primeiro, perdia. Mas os dois ganhariam com a derrota de alguém. Yuri tomou a cerveja de volta e bebeu um gole dela.
"Vou pegar uma cerveja para você." O mais novo disse, levantando e pegando o refrigerante. "Espero que o senhor rato de academia coma toda essa pizza tamanho gigante. Ela não vai se comer sozinha."
Altin sorriu de canto, comendo o resto que tinha na mão, pegando outra fatia e se recostando no sofá. Ele continuava lindo, verdade fosse dita, mas toda aquela aura sexual foi substituída por algo mais simples e amigável, seguido de uma piscada discreta.
Mensagens cruzadas confundindo o russo, que seguiu para a cozinha e pegou duas cervejas bem geladas. Aquele homem o confundia como nenhum outro parceiro antes conseguira. Uma hora queria transar loucamente com ele, depois queria apenas sentar no seu colo, roubar uns beijos e provoca-lo. Ainda no seu colo, queria conversar, conhece-lo mais e receber carinho para depois querer transar com ele novamente e dormir de conchinha. Queria fazê-lo ficar. Rezou silenciosamente para que o Universo atendesse seu pedido da melhor forma possível e se deixou levar.
Otabek viu Yuri voltar da cozinha com duas cervejas e esperava que o bailarino entendesse o recado: estava ficando para a noite. Ao mesmo tempo, a mudança de postura do outro era interessante. Ele lhe sorria e sentou perto de si no sofá com as pernas encolhidas, ainda respeitando seu espaço, mas estando confortavelmente próximo. Aceitou a cerveja que o outro lhe oferecia e brindou silenciosamente com ele àquela noite. O anfitrião pegou um pedaço de pizza e ambos comeram em silêncio confortável. Era como se fossem amigos antes de mais nada.
"Quer dizer que Otabek Altin também dança..." Yuri disse, puxando assunto.
O cazaque riu, divertido. Algum dia aquele assunto teria que vir a tona.
"Não como você, mas não faço feio. Meus pais queriam que eu fosse atlético, mas eu realmente não gostava de esportes coletivos."
"Era ruim neles?" O loiro perguntou, curioso.
"Não exatamente. Mas tem que ter paciência e força de vontade para interagir com os outros jogadores. Ou eu jogava direito ou eu era legal com os caras. Não tinha força e paciência para os dois ao mesmo tempo." O moreno respondeu, divertido.
"Então Otabek Altin é um antissocial."
"Não exatamente. Eu apenas seleciono bem com quem vale a pena gastar energia." Otabek respondeu, dando o que ele esperava que fosse um olhar significativo para o outro, aprovando o fato de que o russo teve a decência de corar. "O que mais você faz além de dançar?"
"Não muito." Yuri respondeu, dando de ombros. "Eu chego cedo no conservatório e passo dia todo ou dançando ou dando aula. Tenho uma turma de balé para meninos com 15 pirralhos que me enlouquecem, mas que eu amo, uma turma mista avançada para trabalhar em duplas que compartilho com Mila, aquela ruiva daquele dia, lembra dela? E tenho duas turmas de dança contemporânea, sendo uma infantil. E uma turma de ballet adulto para iniciantes no sábado. O tempo livre eu fico tendo aulas, porque tenho passe livre para isso. A noite são os ensaios da companhia."
"E suas folgas?" Altin questionou, curioso, ainda imaginando como seria Yuri dando aulas para crianças, sorrindo enternecidamente com a perspectiva.
"Serviam para manter a casa limpa, afazeres doméstico em dia e o corpo inteiro e descansado até umas 4 semanas atrás." Yuri respondeu, olhando para Otabek com certa ironia amigável.
Ambos sabiam que aquele fotógrafo tinha sequestrado suas folgas, substituindo por mais trabalho.
"Mas ainda consigo dar conta dos meus afazeres com tempo limitado. Tepa que não gostou muito da mudança. Ela não gosta que eu a toque em excesso, mas gosta de ficar na minha presença." O loiro complementou, notando que metade das pizzas já tinha ido embora, assim como seus segredos.
Gostava de falar com ele e não se importava de contar coisas simples e triviais como essa. Qualquer outra pessoa o faria se sentir exposta por tais perguntas, mas ele o deixava confortável e parecia interessado em tudo que ele dizia. Se revelava suas coisas, podia ter compensação.
"Eu fiz ballet quando era pequeno." Altin retornou, retribuindo as informações que ganhara com algo curioso embora pouco útil. "Não deu muito certo, digamos assim."
"Tá falando sério?" Yuri olhou para o fotógrafo com curiosidade chocada. "Por que não deu certo?"
Otabek deu um bom gole na cerveja antes de revelar mais sobre aquilo que tinha dito por impulso.
"Minha professoa dizia: 'Você tem que ser um cisne delicado e forte, Altin. UM CISNE! Agora mesmo você mais parece um pato.'" O moreno contou, alterando ligeiramente a voz para um tom debochado ao citar as palavras da professora. "Na terceira vez que ela me chamou de pato, eu fui embora."
"Isso durou quanto tempo?" O loiro questionou, curioso.
"Uma semana e meia." Ele respondeu depois de engolir um pedaço de pizza. "Durou bastante até."
Yuri suspirou. Conhecia esse tipo de professor. Pegou uns tantos deles no meio do caminho de ser quem ele era hoje. Olhou de cima abaixo aquele homem com olhar investigativo. Boas pernas, braços musculosos, abdômen forte... Lembrava bem quando ele lhe carregara com segurança e graça naquela noite em que dançaram juntos. Imaginou aquele homem dançando e dando saltos incríveis com aquele olhar firme e sedutor. O professor correto e ele teria sido um belo danseur noble, fazendo qualquer bailarina se sentir uma verdadeira rainha, sendo ele mesmo o rei do palco.
Repreendeu mentalmente o professor que o moreno teve e reafirmou mentalmente o compromisso de não ser assim. Não que ele fosse exatamente brando ou pouco exigente com seus alunos, mas havia outras formas de ser rígido sem ser um babaca.
"Uma pena que você não teve um professor decente em seu caminho." Yuri comentou casualmente. "Teria dado um belo bailarino."
Otabek corou. Não sabia se era flerte do outro ou se falava a sério. Mas era legal que alguém confiável e bom de dança acreditasse que ele não seria um pato dançando.
"Imagino que sim." O moreno respondeu, tentando mudar de assunto.
"Falo sério. Com pernas dessas..." Yuri disse, batendo na coxa musculosa direita do rapaz. "...e um professor correto, você teria feito um belo estrago. Como já disse, não é mau dançarino."
"E esse professor seria você, por acaso?" Otabek perguntou, ajeitando-se no assento enquanto apreciava a mão de Yuri em sua coxa. Era um flerte, ele sabia, mas não conseguia evitar.
"Talvez. Eu me esforço muito para que meus quinze garotos façam o melhor e superem suas limitações. Sempre tem um idiota pra dizer pra eles que ballet é coisa de menina e que eles são viadinhos por, na verdade, saberem o que fazer com uma sapatilha. Eu mesmo já enfiei muito murro na cara de moleque nojento quando era criança porque eles perguntavam se eu usava tutu pra dançar. Hoje em dia eu os ensino a lidar melhor com isso, até porque a última coisa que eu quero é que mães tirem seus filhos das aulas que eles amam por causa de outras pessoas que realmente não sabem apreciar o que vale a pena." Yuri falou, sério.
Automaticamente o loirinho se repreendeu. Lá estava ele falando de trabalho com Otabek. Talvez eles fossem mais parecidos do que o russo gostaria de admitir. Mas eram seus meninos, sua turma mais preciosa. Não tinha idade e nem cabeça para ter filhos, mas cada um daqueles quinze pirralhos melequentos eram importantes como irmãos mais novos, ou como versões menores de si, mas que tinham um mínimo de juízo para não enfiar a mão na cara de ninguém como ele mesmo fez várias vezes. Odiava ser sentimental, mas os amava com tudo que era possível dentro de si.
Otabek bebeu um gole de cerveja e sorriu. Gostava de ouvi-lo falar sobre absolutamente tudo, mas era a primeira vez que o bailarino falava do seu trabalho. E ele o fazia de forma tão apaixonada que o fotógrafo quis saber mais. E odiou quando ele parou. Gostava daquele lado dele. Era mais um dos lados que ele tanto apreciava. Tocou a mão alva que ainda estava em cima da sua coxa e lhe disse, sorrindo com mansidão:
"Aposto que se você fosse meu professor naquela época, eu nunca teria largado o ballet, mesmo que eu fosse um pato dançando."
Yuri sorriu, tímido. Limpou os dedos sujos de pizza em um lencinho e ajeitou o cabelo solto atrás da orelha, ciente de que estava corado. Sabia que mesmo que aquilo fosse flerte, também podia sentir a sinceridade nas palavras dele.
"Palavra de honra, na minha mão você seria o cisne mais bonito do conservatório." Yuri respondeu, tomando o último gole de cerveja da garrafa.
"Aposto que sim." O fotógrafo respondeu.
Se Altin seguisse sua vontade ao pé da letra, daria um beijo amoroso em Plisetsky. Daqueles que ainda estava cedo demais para dar porque confundiria tudo que eles tinham e ainda não tinham. Ao invés disso, conformou-se em pegar a mão do rapaz e beijar sua palma com carinho, olhando-o nos olhos. Yuri sentiu o coração pulsar loucamente no peito e seu corpo se aquecer. Podia estar louco, mas aquele ato lhe parecia amor puro, junto com aquele olhar tão carinhoso e sincero. Não estava acostumado com isso e nem sabia o que fazer, mas permitiu-se olhá-lo de volta com a mesma energia e acariciar aquele rosto com seus dedos.
Confuso e com a boca seca, buscou mais cerveja, apenas para descobrir que o conteúdo tinha acabado. O moreno lhe ofereceu a cerveja pela metade sem desfazer o contato e o olhar. Yuri bebeu tudo sem respirar e disse:
"Quer mais uma?"
Otabek acenou positivamente e soltou a mão do bailarino. Sabia que ambos precisavam de tempo para absorver o que tinha acabado de acontecer ali, Yuri talvez mais que ele. Sabia que não era imune ao rapaz, mas ele mesmo também ficava confuso ao descobrir que seus sentimentos eram um pouco mais complexos do que ele achava a princípio. Não o amava como seus pais se amavam, mas reconhecia que havia uma centelha ali que era mais profunda do que meramente atração sexual e que parecia ser mútuo. Viu o bailarino ir para a cozinha e esperou. Ele voltou, mais confiante do que antes, recuperado.
"Já que estamos falando de trabalho, podemos falar do seu agora. Você cumpriu seu prazo aquele dia?"
Otabek bebeu um pequeno gole da cerveja que Yuri lhe deu já aberta.
"Digamos que sim. Eu entreguei pela manhã depois de passar a madrugada lutando. Meu trabalho do dia anterior foi tanto um incentivo quanto uma distração, já que lembrar dele não me deixava focar. Mas consegui, eles gostaram do resultado e me deram o emprego."
Yuri corou. Lembrou que na noite anterior, Otabek o fotografou, eles dançaram juntos e se beijaram ao som de Serenade for Two. Ao menos ele assumia que tinha ficado tão abalado quanto ele, o que era uma pequena vitória diante da capacidade do outro ser obtuso.
"E o que você fez para eles ficarem tão felizes com o resultado?" Yuri perguntou, curioso.
"Mostrei algumas das viagens que já fiz, algumas fotos que bati e relatei algumas experiências que tive por escrito de forma não jornalística. A revista Playboy vai me patrocinar para que eu viaje o mundo e o mostre para os leitores através das minhas lentes e do meu ponto de vista." Altin respondeu como se não fosse grande coisa. "Eles querem que eu visite lugares diferentes e exóticos. E as vezes extremos também."
Aquela informação deveria deixar Yuri feliz por Otabek, mas ele ficou mais aflito. O fotógrafo estava indo embora e aquilo partiu seu coração.
"Você vai voltar para zonas de guerra?" Perguntou o russo, nervoso e temeroso.
Otabek balançou a cabeça, muito feliz de poder dar aquela notícia.
"Eu estou de férias dessa parte do fotojornalismo por tempo indeterminado. Mudei-me para cá em caráter permanente, Yuri. Aquele apartamento que você viu naquele dia é meu lar e onde eu pretendo fixar raízes por um longo período, se não para sempre."
O fotógrafo analisou o peso de suas palavras. Estava plenamente contente com o rumo que deu para sua vida e por poder contar aquilo para Yuri, que era alguém que tinha raízes ali, além de ser alguém de quem queria ficar por perto. Deu um gole na cerveja, deixou-a em cima da mesa, deitando a cabeça no encosto do sofá e olhando para o teto.
"Durante anos da minha vida, eu nunca achei que fosse querer parar em algum lugar. Foram anos em Almaty e eu amo aquela cidade, mas viver só em um lugar por anos é enlouquecedor para mim." Otabek em partes refletia em voz alta, em partes se explicava para o bailarino. "Depois disso, foram quase seis anos viajando sem parar. A situação nem sempre era a das mais confortáveis, mas era emocionante. Eu me pergunto quando deixou de ser, sabe?"
Yuri tentava absorver tudo aquilo e achar sua posição naquela vida agitada e incerta que Otabek tinha. Perguntava-se sinceramente se tinha espaço para ele nela, mas se viu determinado a cavar seu lugar ali.
"Eu não sei o que me faz ficar aqui exatamente. Pode ser algo que eu não apreenda com certeza por agora, mas mesmo indo viajar pelo mundo, sei que tenho um local para voltar e isso me deixa feliz." Altin disse, olhando para Yuri de forma profunda e significativa.
"Você pode ir." O russo disse, de forma séria.
Otabek prendeu a respiração, com medo de estar sendo dispensado.
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