Closed Minds
7 Capítulo 7 –– Quebrada
Notas iniciais
Boa leitura! Divirtam-se :D
P.S.: Sei que o encontro faberry tá demorando, mas não percam a fé, quando acontecer, vai ser porreta KKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Brittany
O silêncio que se seguiu às palavras de Shawn foi tão grande que seria possível ouvir um alfinete caindo no chão. Ele lançava olhares nervosos em direção a irmã, sentindo-se culpado, e por mais que quisesse, não consegui encontrar nada de bom para dizer, nem a ele, nem a Quinn. Foi como se minha mente tivesse entrado em curto circuito, enquanto eu ainda tentava assimilar o significado do que acabara de ouvir.
Rachel. Governo. Um só.
Foi quando a realização finalmente atingiu, e eu senti minhas pernas tremerem, mal sustentando o peso do meu corpo. Eu não queria chorar –– mas as lágrimas vieram mesmo assim. "Ah, Rachel", pensei, agarrando-me ao balcão da cozinha em busca de algum equilíbrio. "Como? Por quê?", eram perguntas para as quais, infelizmente, eu não tinha uma resposta.
O plano falhou. Rachel agora estava tão envolvida quanto esteve no dia em que Blair tentou nos matar no armazém. Quando ela ainda estava em coma, Shelby me procurou. Veio com uma história pronta, muito clichê, sobre o que tinha acontecido. Como se ela soubesse que Rachel fosse perder a memória. Quase como se ela estivesse esperando por isso. Franzi o cenho a esse pensamento. Será que Shelby poderia saber? "Não", disse a mim mesma. "Rachel levou uma pancada forte na cabeça. Sofreu uma concussão. O médico disse que era uma possibilidade, e Shelby só queria estar pronta". Sim, era isso. O que mais poderia ser, afinal? Ler a mente de uma pessoa em coma é complicado. Como olhar para um quebra-cabeça particularmente difícil. Eu tentei, e não encontrei nada. Shelby não poderia, também.
"Mas isso não importa agora", retrucou a voz em minha mente. Ela estava certa, claro. Não importava. Não quando minha melhor amiga ainda estava paralisada, a expressão de surpresa congelada em seu rosto, e o terror como uma sombra por detrás de seus olhos verdes. O medo de perder Rachel mais uma vez, mesmo ela não sendo mais sua e, agora, para sempre. Porque se Shawn estava certo –– e vendo o rosto de Rachel flutuar em sua mente, eu sabia que estava ––, então isso significava que a garota que foi minha amiga, a que falhei em proteger, agora era o inimigo. O inimigo a ser vencido.
Quinn reagiu. Ela deveria estar lendo meus pensamentos –– é tão fácil abrir a guarda quando se é pego de surpresa! ––, porque ela olhou de maneira agressiva. Por alguns segundos, pensei que ela fosse me atacar. Sua postura ficou reta, e ela fechou as mãos em forma de punho, os lábios apertados em uma linha rígida. "Ice Queen", pensei, lembrando do apelido que ela possuía durante o colegial. Isso pareceu ter sido como um tapa em seu rosto, porque tão rápido quanto veio, a fúria se foi. Seus ombros caíram. Sua expressão suavizou, e ela abaixou a cabeça, lutando contra a dor que esmagava seu peito.
Shawn ergueu os olhos para mim, confuso, com medo e assustado, sem saber o que fazer. Respirei fundo. Procurei recuperar o controle. Não era hora de pensar em mim, ou nos meus erros cometidos em relação à Rachel Berry. Era hora de cuidar de Quinn. De ser forte por ela, assim como muitas vezes ela foi forte por mim. Coloquei a mão sobre o ombro de Shawn e abri o menor dos sorrisos. Ele não precisava ser arrastado para o meio do furacão. Se fosse possível poupá-lo, então eu o faria.
–– Querido, você poderia ir buscar a Santana, por favor? E, se o Sam estiver com ela, traga-o também.
–– C-claro –– gaguejou ele em resposta. E saiu da cozinha quase correndo, apenas parando próximo a porta para dar uma última olhada por cima do ombro, e desaparecer de vista.
–– Quinn –– disse, mas minha voz falhou, e não saiu mais alta que um sussurro. Pigarreei e a chamei novamente. Ela não demonstrou ter me escutado, mas eu sabia melhor. Minhas barreiras não eram as únicas que tinham caído. Mas, por alguns instantes egoístas, quis que Quinn a reconstruísse. Havia dor demais em sua mente, e o sentimento era tão forte que me afetava.
Dentro de sua cabeça, Quinn repetia o nome de Rachel diversas vezes. E, a cada uma delas, uma imagem surgia. A da primeira vez que a viu. A primeira vez que se falaram. O primeiro beijo. Rachel caída no chão, inconsciente, a cabeça sangrando. Rachel deitada em uma cama de hospital, conectada a vários fios. Rachel acordada após o coma, perguntando quem Quinn era. Rachel andando por uma rua de Nova York, bem diferente, com cabelos mais compridos, uma aparência mais velha, um copo de café nas mãos...
Fechei os olhos, tentando me separar daquelas lembranças. "Brittany", disse a mim mesma. "Você é Brittany". Minhas próprias lembranças surgiram em minha mente. Eu, com cinco anos de idade brincando sozinha no parquinho; eu, aos quatorze anos, observando maravilhada o treino das líderes de torcida. Eu, aos dezesseis, perdidamente apaixonada por Santana...
Meu coração se encheu com uma sensação boa, quente, confortável, quando eu relembrava nosso primeiro beijo. Então, abri os olhos. Caminhei até minha melhor amiga e ergui seu rosto até ficar a altura do meu. Limpei suas lágrimas.
–– Quinn –– repeti, dessa vez com mais segurança. Ela apenas me olhou, sem dizer nada, implorando-me que a deixasse em paz. Balancei a cabeça. –– Onde você a viu? Pela última vez?
Ela desviou os olhos, e seu corpo estremeceu. Gentilmente, fi-la olhar novamente para mim. Quinn suspirou.
–– Foi há dois anos –– disse, com a voz rouca. –– Ela estava saindo de uma Starbucks... Foi tão rápido… Eu pensei que ela estava apenas visitando a cidade… Foi no verão... Nunca imaginei que...
E ela se calou. Não precisava dizer mais nada. Eu entendi. Passei o braço pela sua cintura e a abracei com força, tentando lhe passar todo o amor e segurança que sentia por ela. Nunca parei para pensar no quanto deve ser difícil para Quinn não poder estar ao lado da pessoa que ela ama, que não se lembra que ela existe, a qual ela deixou para livrá-la de todas as complicações… E, então, acabar descobrindo da pior maneira possível que todo o esforço feito ao longo de sete anos para se manter longe foi em vão.
–– Vai ficar tudo bem, Q. –– murmurei.
–– Como? –– ela perguntou, levantando um pouco a cabeça para me olhar. –– Como vai ficar bem, Britt? Já não está bem. Nunca esteve. Rachel e eu tivemos alguns meses juntas, e foi tudo. Ela nunca mais vai ser minha novamente, eu sabia disso, mas...
–– Mas você ainda tinha esperanças –– completei com suavidade. –– Esperanças de que um dia ela recuperaria a memória. Lembraria de você. Juntaria-se a nós, porque teimosa como é, ela não aceitaria ficar de fora. Esperança de que, talvez, se estivessem juntas, tudo podia ser mais simples, mais fácil, e enfrentar o mundo não seria tão difícil assim.
Quinn concordou com um aceno de cabeça. Suspirei.
–– Quem sabe, Quinn? Talvez acabe bem, mesmo. Talvez se torne mais fácil com o passar do tempo, e nem tão assustador, mas, acredite, ter alguém ao seu lado não torna nada melhor. Eu amo Santana, mas na maior parte do tempo, tenho medo. Temo por sua vida. Temo pelo que aconteceria com ela se o governo a capturasse. Se Rachel nunca tivesse perdido a memória, você ainda permitiria que ela assumisse tal risco? Ou você tentaria mantê-la de fora? O que você teria feito?
–– E-eu não sei...
–– Descubra, então. Pense sobre isso. E depois me diga qual é a sua resposta.
Mas eu já sabia. E ela também. Santana me escolheu –– e, sendo sincera, eu também me escolhi. Arrastei-a para dentro de tudo isso porque tive a ilusão que poderia protegê-la. Fui fraca e egoísta. Não consegui deixá-la para trás, mesmo que isso significasse sua proteção. E me arrependo até hoje da decisão que tomei. Embora ame Santana com todo meu coração, ainda imagino como seria sua vida se eu tivesse tido coragem de tê-la deixado partir. Quinn, por sua vez, não tem arrependimentos. Por mais que lhe doa, ela vai dormir todas as noites sabendo que fez a escolha certa. Não posso dizer o mesmo sobre mim.
–– Não consigo –– murmurou Quinn, infeliz.
–– Consegue –– retruquei, acariciando seus cabelos. –– Uma Fabray consegue tudo o que quer, ou não?
Quinn abriu um pequeno sorriso. Dei dois tapinhas em suas costas, sentindo-me um pouco mais confiante que ela poderia fazer isso; poderia ser forte, seguir em frente. E dessa vez, eu espero, sem olhar para trás. Por mais difícil que fosse, era hora da "variável R" ser retirada de uma vez por todas da equação.
– x –
Santana chegou aproximadamente dez minutos após a saída de Shawn. Ela entrou na cozinha tão rápida e furiosa quanto uma tempestade, pronta para acabar com o primeiro que se metesse em seu caminho. Foi uma sorte Quinn já ter subido para o quarto, porque tenho absoluta certeza que ouvir todos aqueles xingamentos em inglês e espanhol não ajudariam em nada; na verdade, só a deixariam ainda pior.
–– Aquela hobbit hija de una... Depois de tudo o que vocês fizeram por ela...
–– O que fizemos por ela? –– perguntei, franzindo o cenho. –– Nada de bom, tenho certeza.
–– Vocês a protegeram!
–– Protegemos? –– perguntei sombriamente. –– Porque me parece que as pessoas que mais nos esforçamos em proteger são as que mais se machucam.
–– Isso não é verdade! –– protestou Santana.
–– Rachel, Shawn, agora Quinn... Quem será o próximo da lista? Eu? Você? O Sam? Marley e Kitty?
–– Britt...
–– Você sabe que é verdade –– acusei. –– Você sabe, também, que não pode culpar a Rachel por estar envolvida com o governo. Ela não se lembra, Santana. Talvez proteger nem sempre signifique afastar. Talvez devêssemos ter contado a verdade a ela quando acordou do coma. Talvez eu nunca devesse ter envolvido você nisso...
–– Britt, não diga isso, por favor. Eu não poderia ficar sem você. Eu não poderia viver sem você. Talvez você esteja certa sobre a Berry... Mas isso não muda o fato de que, agora, ela é nossa inimiga. Esqueça o passado, querida. Não fique se remoendo pelas decisões que você tomou –– ela caminhou em minha direção e segurou minha mão com força e, com a livre, limpou as lágrimas que eu nem sabia estar derramando. –– Eu te amo. Eu estou aqui, com você, para o que der e vier. Não me arrependo de um segundo sequer dos últimos sete anos.
–– Não? –– perguntei insegura. –– Nenhum?
Santana riu, e afagou meu rosto.
–– Como poderia me arrepender de qualquer coisa quando tenho você ao meu lado? Sabe com o que sonho? –– neguei com um aceno de cabeça, e ela sorriu. –– Sonho que um dia isso tudo vai acabar; então nós vamos nos casar, e ter vários hijos e hijas irritantes e remelentos que serão os únicos motivos pelos quais perderemos nossos minutos de sossego.
–– Você sonha mesmo com isso, San?
–– Todos os dias, mi amor. Além do que, você sabe que sou muito teimosa para ficar longe de algo que eu quero. Mesmo que você não tivesse me escolhido, eu estaria aqui, porque é exatamente onde devo estar. Ao seu lado. Sempre.
–– Você promete? –– murmurei.
–– Prometo. –– e, então, acrescentou. –– Até que a morte nos separe.
Foi impossível não sorrir. Joguei os braços ao redor de seu pescoço e a beijei, rezando para que ela estivesse certa.
– x –
Sam não veio ao nosso encontro, o que foi estranho, mas não demos muita importância. Santana e eu subimos até nosso quarto e nos deitamos na cama, sem dizer absolutamente nada, minha cabeça descansando sobre seu peito e seu braço ao redor de minha cintura. Ficamos assim por tanto tempo que, quando quebramos nossa bolha de silêncio, o Sol já havia desaparecido e podíamos ver as primeiras estrelas surgindo no céu. Não costumávamos abrir a cortina da janela, com medo de sermos vistas por algum vizinho, mas, daquela vez, fizemos uma exceção. Além do que, a luz não estava ligada, e o quarto estava escuro como um breu.
–– O que vai acontecer agora?
–– O que você quer dizer? –– indaguei.
–– Se tivermos que derrubar Rachel. O que vai acontecer? Será que Quinn seria forte o suficiente para isso?
–– Não no momento –– respondi com sinceridade.
–– Pergunto-me se algum dia esse momento vai passar.
–– O que você acha?
–– Que é como estar de luto –– ela disse, pensativa. –– No começo, a dor é insuportável, mas, com o passar do tempo, aprendemos a lidar com ela.
–– Ela diminuí, então? –– perguntei curiosa.
–– Não. Mas nós nos tornamos mais fortes, então fica mais fácil de suportá-la.
–– Espero que sim –– murmurei, aconchegando-me mais no corpo de Santana. Fechei os olhos por alguns instantes, deixando-me levar pelo momento. Eram poucas as vezes que tínhamos tempo para ficarmos juntas. Geralmente, estávamos sempre na correria, resolvendo problemas ou entrando em contato com outras sedes. A de Lima, por exemplo, precisava ser checada com frequência. Fazíamos isso pessoalmente, no começo, indo à cidadezinha sempre que possível. Entretanto, depois de um tempo, acreditamos ser mais seguro resolver tudo por celulares pré-pagos ou pelo skype, através de contas falsas. É mais difícil de ser rastreado, e na situação em que nos encontramos, todo cuidado é pouco. –– Você lembra de como tudo começou?
–– Que tudo? –– resmungou Santana. –– Parece haver tantos.
–– Você sabe –– retruquei rindo e revirando os olhos, embora ela não pudesse me ver. –– A DILM; quando começamos a ser perseguidos. Quando a “luta” se tornou real. Acontece tudo tão na surdina, por detrás das cortinas, que nem parece real, às vezes.
–– Mas é bem real, Britt. Não se esqueça das pessoas que já perdemos ao longo dos anos.
–– Não esqueci –– garanti. –– É só que às vezes é difícil lembrar pelo que lutamos quando não vemos nossos inimigos.
Santana não disse nada de imediato. Ficou em silêncio por alguns segundos, seu peito subindo e descendo vagarosamente, enquanto passava as mãos distraidamente pelos meus ombros.
–– Você se lembra da primeira pessoa que perdemos? Antes mesmo do pai da Quinn? –– concordei silenciosamente, e ela continuou. –– Kevin, era seu nome. Nunca o esqueci. Seus cabelos eram tão bagunçados que parecia um ninho de rato, e os olhos eram quase tão azuis quanto os seus. Foi o que mais me chamou a atenção nele. Os olhos. Lembrava-me tanto de você que, quando o conheci, aproximei-me apenas por curiosidade, para saber se havia mais algo em comum. E, em alguns pontos, ele era mesmo. Determinado. Esperançoso. Confiante. Mas também tinha passado por maus bocados, e era agressivo, certas vezes, e podia perder o controle se provocado.
–– Ele morreu em uma missão –– disse.
–– A primeira em que pudemos participar, você, Quinn e eu. Estávamos tão ansiosas por finalmente colocar em prática o que vínhamos estudando na teoria. Você lembra? Mesmo não estando por perto, Russel nos fazia estudar feito condenadas. Você e eu continuamos nossas vidas normais, e Quinn também, por um período, até a morte dele. De qualquer forma, a ideia de sair em uma missão era tão excitante! Tudo o que nós poderíamos querer.
“Até então, para ser bem sincera, eu tinha minhas dúvidas sobre essa coisa toda de Governo. Eu acreditava, bem lá no fundo de minha mente, que talvez todos estivessem sendo muito paranóicos, que talvez ninguém estivesse atrás da gente ainda. Uma questão de tempo até acontecer, claro, mas eu fui ingênua o suficiente para não acreditar quando me disseram que começaria no silêncio
‘Era para ser uma tarefa simples. Só buscar alguns recrutas em uma cidade vizinha, nada demais. Só que, quando estávamos voltando, eles apareceram. Dois carros, e o nosso bem no meio. Senti tanto medo naquele dia, pensei que fôssemos morrer. Mas, então, Kevin conseguiu se livrar do primeiro carro e despistar o segundo. Ele nos fez descer num parque lotado e pisou fundo no acelerador assim que o outro carro nos alcançou. Depois disso, só me lembro do carro capotando e de gritar tão alto quanto minha garganta permitia’.
‘Eles estão lá, Britt. Não abriram o jogo ainda porque a hora não chegou. Mas, nos últimos meses, eles quase nos pegaram diversas vezes, e estão chegando perto. Ainda não fomos diretamente atingidos aqui, então temos essa falsa ideia de segurança, mas eles caçam pessoas como você, usam-nas, e depois fazem sabe Deus o que com elas. Nunca mais são vistas novamente. Acho que devem ser cobaias. Ou prisioneiros. Não sei. Só sei que se eles tiverem a chance de acabar conosco em silêncio, é o que vão fazer. Colocando nossas fotos nos jornais como se fôssemos criminosos comuns, não fazendo alarde sobre isso. Porém, se a situação fugir de controle, o silêncio acaba’.”
–– E a guerra começa.
–– E a guerra começa –– concordou Santana. –– Mas, sendo otimista por alguns momentos, não pensemos nisso. Tudo o que eu quero agora é ficar com você.
Ergui a cabeça e encontrei os olhos de Santana, abrindo o primeiro largo sorriso desde tudo o que acontecera.
–– Eu não vejo nenhum problema nisso –– e, inclinando-me em direção ao seu rosto, encostei seus lábios com os meus.
Notas finais
É isso. Espero que tenham gostado :)
Fale com o autor