Closed Minds
3 Capítulo 3 –– Suspeitas
Notas iniciais
Santana
–– Como ele está? O que aconteceu? Por que vocês demoraram tanto? Você conseguiu, não é? Santana, eu juro que se seu plano tiver falhado, eu...
–– Relaxa aí, loirinha –– disse, saindo da vã e revirando os olhos. –– O garoto está bem. Eu acho. Ele está desmaiado aí na traseira.
–– Desmaiado? –– gritou Quinn, arregalando os olhos e correndo para abrir a porta da traseira da vã. Revirei os olhos. “Minha audição é perfeita, Fabray. Então não me venha com esses gritinhos agudos, senão eu juro que meto a mão na sua cara. De novo”.
Quinn lançou um olhar irritado em minha direção. Sorri-lhe presunçosamente. A primeira e única vez que a bati foi há cinco anos, quando ela apareceu com Brittany e Shawn no nosso apartamento em Nova Iorque, contando-me tudo o que realmente tinha acontecido no armazém, e no que estava por vir. Senti muita raiva por ela ter deixado minha namorada correr tantos perigos e, num momento em que Snixx resolveu sair para brincar, meti-lhe a mão na cara. Mas depois eu me acalmei e escutei tudo o que ela tinha a dizer. Não era culpa dela, apesar de tudo.
Além do que, eu sabia que o momento estava chegando. Eu não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo, claro, porque não tenho esse potencial de ler mentes, ou o que quer que seja. Ainda assim, eu sou muito observadora. Brittany mudara muito desde o que aconteceu depois do incêndio. Ela nunca me contou com detalhes o que houve, mas sabia que devia ter sido algo muito perturbador para deixa-la daquela maneira. Por isso, resolvi fazer alguma investigação.
Foi Sam Evans que me ajudou a entender algumas peças do quebra-cabeça; não voluntariamente, claro. Depois que Quinn se mandou do McKinley, eu passei a ficar mais perto dele, porque tinha certeza de que aquela boca de truta provavelmente estava escondendo muito mais do que aparentava. E, deixe-me dizer, ela aparentava esconder muito. Ainda não consigo entender porque exatamente Sam ficou ofendido quando lhe perguntei quantas bolas de tênis cabiam dentro de sua boca. Uma curiosidade inocente, nada mais que isso.
Com a ajuda do Evans, eu percebi que aquilo era só o começo. Eu sabia que Quinn um dia me procuraria por conta disso, e eu sabia que esse seria o dia em que ela me contaria toda a verdade. No começo, eu realmente achei que ela estivesse maluca. Pessoas lendo mentes? Por favor, aquilo era impossível! Além do que, eu não conseguia imaginar Brittany sendo capaz de fazer uma coisa dessas sem nunca me contar. Eu era sua melhor amiga, oras! Era de se esperar que ela ao menos fosse sincera comigo. Contudo, no final, precisei dar o braço a torcer. Elas estavam mesmo falando a verdade; além disso, eu não tinha o menor direito de sentir raiva da minha garota por conta disso. Se eu estivesse em seu lugar, teria tomado decisões bem piores.
–– Hey Evans! –– chamei-o, assim que o vi entrando na garagem. –– Uma ajudinha aqui?
Os olhos dele se arregalaram e ele correu para tomar Shawn dos braços de Quinn. A loirinha bufou, estressada, mas deixou que o Sam levasse o garoto para o segundo andar, onde ficavam os quartos. A maioria de nós morava nos esconderijos; o Governo tinha sua mira em cima da gente, por isso, precisávamos ficar fora de vista. Grande parte de nossas locações tinham sido ideia do pai de Quinn –– o homem era um gênio nesse quesito ––, e temos as usado desde então. São muito úteis, e bastante difíceis de serem percebidas, ainda que estejam bem à vista. Mas é como meu pai me disse certa vez, “levamos um tempo incrivelmente longo para enxergar tudo o que está bem diante de nossos olhos”.
–– O que aconteceu com ele? –– perguntou Sam, enquanto subia as escadas.
–– Não sei –– disse, dando de ombros. –– Desmaiou de exaustão, imagino.
–– Ele está mais magro –– murmurou Quinn. –– E esse capacete idiota? Por que você não tirou a droga do capacete da cabeça dele, Santana? Ele pode ter se machucado!
–– Seria difícil fazer isso e dirigir ao mesmo tempo –– retruquei. –– Fiz o melhor que pude. E foi muito mais do que você, que só ficou sentada reclamando sem fazer droga nenhuma.
–– Isso não é hora –– alertou Sam. –– Depois vocês podem discutir. Primeiro, nós precisamos descobrir exatamente o que fizeram com Shawn.
–– Ele está machucado! –– exclamou Quinn irritada. –– Isso é o que fizeram com ele!
–– Relaxa Quinn, vai ficar tudo bem, ok? E Santana, você poderia abrir a porta para mim?
Concordei com a cabeça, ultrapassando-o para chegar mais rápido até o final do corredor. Abri a porta do quarto de Shawn, e Sam entrou logo em seguida, carregando-o até sua cama e o deitando com cuidado. Parei ao lado de Sam e ajudei-o a tirar o capacete. Soltei um palavrão baixinho em espanhol, e escutei Quinn prender bruscamente a respiração, arregalando os olhos para o rosto dele.
–– Você estava certa –– sussurrou o Evans, apenas para que eu ouvisse. Ergui a cabeça, mas Quinn não parecia estar escutando. Desde que aprendeu a fechar sua mente, ela só tem lido as mentes das pessoas quando era estritamente necessário. Não que eu a culpasse. Se fosse comigo, faria a mesma coisa. Saber o que todo mundo pensa a todo instante? O inferno, isso é o que é. Às vezes, fico confusa com meus próprios pensamentos, nem quero imaginar como seria se escutasse vozes de outras pessoas dentro de minha mente.
–– Gostaria de não estar –– disse, em resposta.
Nós percebemos a emboscada quando era apenas tarde demais. Quinn desconfiava de que estávamos sendo traídos por algum dos nossos; ela achava que alguém andava passando informações para o outro lado. E, quando Shawn foi capturado naquela tarefa de rotina a qual ela geralmente realizava, nós tivemos plena certeza. Saber quem, por outro lado, era a verdadeira questão.
Os dias que se seguiram à captura de Shawn foram os piores de toda a minha vida. Quinn ficou tão devastada que temi que ela pudesse estar perdendo completamente a cabeça. Ela passava muito tempo sozinha, trancada dentro do quarto, sem sair para comer, ou para tentar encontrar alguma maneira de resgatar o irmão. O isolamento durou dias. Eu quem precisei tirá-la do seu mundinho miserável e sacudi-la de volta à realidade. Ela ficou irritada, a princípio, mas depois caiu em si e nos ajudou a colocar o plano que consegui bolar em prática.
Sam e eu tínhamos uma teoria sobre o que fariam com Shawn, a dele sendo mais inocente que a minha. Ele achou que eles fossem apenas interrogar o garoto, à procura de qualquer resposta, sem usar de força física porque, afinal de contas, Shawn é só uma criança. Eu discordava. Depois de tudo o que o Governo fez nos últimos sete anos contra pessoas como Quinn e Brittany, eu simplesmente sabia que eles não teriam escrúpulo algum em destruir quem quer que fosse que se metesse em seu caminho.
–– O uniforme –– disse Quinn, olhando com desprezo para as roupas que Shawn usava. –– Vamos tirar essa coisa dele.
Concordei com um aceno de cabeça. Quinn se aproximou do irmão e, juntas, conseguimos tirar todo o uniforme. Talvez não tenha sido uma boa ideia. Suas roupas estavam rasgadas, e era possível perceber alguns hematomas espalhados pelo seu corpo. Estremeci. Encarei minha melhor amiga, temendo sua reação, mas Quinn agora ostentava em seu rosto a cara que usava para “assuntos profissionais”. Internamente, aprovei sua reação. Shawn podia estar ferido, mas estava vivo, e era isso o que importava. No mais, tínhamos coisas mais urgentes para tratar. Deixamos muitos assuntos de lado desde a captura, e agora precisávamos colocar todos eles em dia.
–– Sam, você se importa de chamar Marley para mim? Ela deveria dar uma examinada nele, só para garantir que não há nada muito grave. Santana, você poderia mandar uma mensagem para a Brittany pedindo que ela nos encontre aqui? Precisamos ter uma reunião, mas só com os membros de confiança.
–– E ele? –– perguntou Sam.
–– Não é como se ele pudesse estar conosco agora, boca de truta –– resmunguei, revirando os olhos.
–– Nós o informamos depois –– disse Quinn, dispensando Sam com um aceno de cabeça. O loirinho lançou um olhar irritado em minha direção e saiu do quarto batendo com uma força desnecessária a porta atrás de si. “Bebezão”, pensei, balançando a cabeça e contendo um sorriso. –– Só porque você o provoca. –– acrescentou Quinn, como se pudesse ler minha mente.
Não contive o riso dessa vez. Até mesmo Quinn abriu um pequeno sorriso. Peguei o celular no bolso da calça, procurei o número de Brittany, e enviei-lhe uma mensagem, pedindo-lhe para nos encontrar o mais rápido possível. Recebi a resposta menos de um minuto depois.
Estou no meu caminho.
–– B.
~~~
–– O que era tão importante, Quinn? –– perguntou Brittany, sentando-se na beirada da cama de Shawn e lançando um olhar preocupado na direção dele. –– Ele está bem?
–– Na medida do possível –– respondeu Marley, suspirando. –– Ele tem alguns hematomas pelo corpo todo, mas já estão praticamente curados. Nada quebrado. Nenhum dano grave. Shawn vai ficar bem.
–– Quando ele vai acordar?
–– A qualquer momento. Provavelmente apenas desmaiou de exaustão. Shawn passou por muitas coisas, então, quando ele acordar, não o perturbem mais que o necessário. Se for fazer algum interrogatório, Quinn, por favor, tente ser o mais rápida possível.
— Você não deveria recomendar descanso? –– perguntei, cruzando os braços sobre o peito.
–– Não sou uma médica –– retrucou Marley. –– E vocês fariam isso de qualquer maneira, contra a minha indicação ou não.
–– A labradora tem um ponto –– concordei. –– Faríamos mesmo. Precisamos de informações. Vocês acham que ele conseguiu descobrir alguma coisa enquanto esteve lá?
–– É possível, claro –– disse Quinn, passando a mão pelo cabelo. –– Talvez ele tenha escutado alguma coisa? Lido a mente de alguém? São muitas possibilidades, mas acho que...
–– Esse capacete –– interrompeu Brittany, levantando-se e segurando. –– É impressão minha ou tem alguma coisa estranha sobre ele?
–– Eu também achei –– concordou Kitty, pronunciando-se pela primeira vez e me fazendo lembrar que ela ainda estava ali. –– É uma vibração estranha.
“Quase tão estranha quanto sua cara”, pensei, em provocação. Kitty me fuzilou com os olhos, e abri um sorrisinho malicioso em sua direção. Por algum motivo, eu simplesmente não conseguia suportar aquela garota. Tudo bem, ela era de grande ajuda ao movimento, mas isso não significa que eu precisava gostar dela, ou coisa assim. Além do que, mesmo sendo mais nova do que eu, ela aparenta ter nascido um pouco antes da época dos dinossauros. Assustador. Não sei o que Marley enxerga nela. Embora, claro, a labradora não seja também essas coisas todas. Só é mais suportável que a Tiranossauro Rex, mas ainda é irritante quando quer.
Como, por exemplo, agora, que ela, sem cerimônia alguma, deu-me uma forte cotovelada nas costelas. Completamente irritante. Francamente, essas pessoas que leem mentes acham que podem se meter na sua cabeça o tempo todo! Bisbilhoteiras, isso é o que são. Se o governo não estivesse caçando seus traseiros, eu lhes meteria um processo de invasão de privacidade. Se bem que, no caso da T-Rex, talvez ainda pudesse ser uma opção... Não é como se alguém além da labradora se importasse com ela, mesmo.
–– Você deveria coloca-lo, Santana –– disse Kitty, num tom de voz quase tão azedo quanto sua cara. –– Assim poderemos saber se há mesmo algo de diferente sobre ele.
–– Ponha você mesma –– retruquei. –– Dinossauros só fazem falta em filmes.
–– Chega –– interveio Brittany. –– Santana, por favor, você poderia colocar o capacete?
Kitty lançou um olhar vitorioso em minha direção e eu bufei. Peguei a coisa das mãos de Brittany e o coloquei em minha cabeça, levantando a viseira para conseguir manter contato visual com os outros. “Isso é ridículo”, pensei irritada. O que diabos a droga de um capacete iria provar?
–– Meu Deus –– murmurou Marley.
Aparentemente, alguma coisa importante.
–– O que? –– perguntei desconfiada.
–– No que você está pensando agora? –– perguntou Quinn, andando em minha direção e parando a minha frente, com um olhar de curiosidade.
–– Que isso é algo idiota a se fazer –– disse, revirando os olhos.
–– E você está pensando isso neste exato momento? –– perguntou Brittany, fascinada.
–– Sim. Qual é o problema?
–– Elas não podem ler sua mente.
De repente, o quarto ficou extremamente silencioso. Todos nós nos viramos na direção de Shawn, que estava acordado, e tentava se sentar na cama. A pose de Quinn caiu, e ela saiu correndo em direção ao irmão, sentando-se ao seu lado e agarrando sua mão com força, as lágrimas descendo lentamente pelo seu rosto.
Desviei o olhar. Detestava ver minha melhor amiga daquele jeito, principalmente porque Shawn era, praticamente, a única família que ainda lhe restava. Blair morta, Russel morto, sua mãe escondida em algum país da Europa... Tudo o que os dois tinham era um ao outro, e eu nem podia imaginar o tamanho de sua dor quando ela se deu conta de tudo o que tinha acontecido. Doeu-me muito ter que ser dura com ela quando Quinn estava, obviamente, em tanta dor. Mas foi algo que precisei fazer; e não me arrependo nem um pouco, para falar a verdade. Sem a ajuda dela, ele nem estaria de volta.
–– Shawn –– murmurou Brittany. –– Como você está?
–– Bem –– disse ele, abrindo um pequeno sorriso. –– Só com um pouco de fome, para falar a verdade.
–– Elas podem ler sua mente –– disse, revirando os olhos. –– Nada de mentiras, pirralho. Até mesmo eu sei que você deve estar faminto. Agora, se você quiser saber, eu diria que dinossauro é um prato ótimo para se matar o apetite.
Isso o fez soltar uma longa risada. Kitty nem mesmo ficou chateada comigo pela implicância. Essa é a coisa engraçada sobre Shawn. Não há uma pessoa sequer que não goste dele.
–– Ficou bem de capacete, San –– brincou ele. –– Encontrou um meio de ninguém poder ler sua mente?
–– Então é isso o que ele faz? –– perguntou Brittany curiosa.
–– É –– concordou Shawn. –– Eu não tinha certeza... Já vi alguns agentes da DILM usando, mas todo o andar tinha uma espécie de bloqueio contra mim, e eu não podia ler a mente de ninguém. Mas já vi alguns voltando de uma missão, e eles estão sempre com os capacetes. Imaginei que servissem também como uma forma de nos manter longe de seus pensamentos.
–– Mas se eles descobriram o bloqueio... –– comentei, franzindo o cenho. –– Isso significa que estávamos certos.
–– Há leitores trabalhando para o Governo –– afirmou Brittany, soltando um longo suspiro. –– Esse pesadelo nunca acaba, não é?
–– Está só começando –– disse Shawn. –– Deu para ter uma ideia do que eles estão atrás quando me interrogaram. Havia dois agentes... Eles foram legais comigo, não me machucaram como os outros... –– Quinn estremeceu ao escutar isso. –– E eles me deram uma boa noção do que estava acontecendo.
“Eles estão procurando por você, Quinn. Bem, não especificamente você, porque eles ainda não tinham um nome, mas acho que depois do meu resgate, eles vão saber somar dois mais dois, e vão vir atrás de você”.
–– Você sabe qual o objetivo deles, Shawn?
–– Não –– respondeu-me, dando de ombros.
–– É o poder –– disse Quinn. –– Vocês podem imaginar isso? Imaginar o Governo com todos os seus soldados lendo mentes? Todos os nossos representantes podendo prever os passos dos adversários apenas colocando um espião dentro do país? Eles teriam o mundo na palma das mãos.
–– Até que as coisas saíssem de controle.
–– Até que as coisas saíssem de controle –– concordou Quinn, com um aceno de cabeça. –– Nesse caso, só posso imaginar os piores cenários possíveis.
–– O que fazemos, então? –– perguntou Kitty.
–– Nós lutamos pela Resistência –– disse, dando um passo a frente e passando o braço pelo ombro da minha namorada. –– Nós os fazemos parar antes que seja tarde demais. As pessoas “comuns” ainda não sabem sobre isso; tudo ainda está acontecendo nos bastidores. Imagino que eles só vão a público com isso quando fizerem mais progresso.
–– Eu concordo com você –– disse Marley. –– Contar agora sobre nós, sobre o que somos capazes... O governo ainda não tem um controle sobre nossas ações, então isso ia apenas apavorar as pessoas. Mas se eles já estão informados o suficiente para fazerem coisas como esse capacete... Nós não temos muito tempo.
–– Temos tempo o suficiente –– afirmou Quinn. –– Nós vamos conseguir fazer isso.
E, pelo bem de todos que eu conhecia, eu esperava que Quinn estivesse mesmo certa.
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