Closed Minds
12 Capítulo 12 — Instintos
Notas iniciais
Quinn
A primeira fez que fui a um concerto, foi como se o mundo tivesse parado de girar.
Eu podia sentir, correndo por minhas veias, a emoção de estar lá, cercada de pessoas com o mesmo gosto que eu. A atmosfera, o ambiente, os gritos animados. Tudo me consumiu, e eu não podia dizer absolutamente nada, porque as palavras não saíam. Elas corriam por minha mente, uma atrás da outra, mas eu não conseguia encontrar uma forma de colocá-las juntas numa mesma frase. Então, até a primeira música da banda começar a tocar, e o grito escapar de minha garganta com as letras que eu já conhecia, eu permaneci em silêncio, observando tudo de olhos arregalados, absorvendo o impacto do momento. Deixando-me guiar completamente por meus sentimentos.
Eu me senti verdadeira e completamente perdida.
E eu gostei. Foi algo bom. Algo que inundou meu coração de felicidade, e me deslumbrou. Algo que levou meu ar embora; que impediu meus pulmões de funcionarem como deveriam; que disse a meu corpo para agir de acordo com as sensações, e não com os pensamentos. Eu fui, pura e unicamente, guiada por meus instintos.
Quando os olhos dela encontraram os meus, tudo o que passou pela minha maldita cabeça foi aquele concerto. Como eu não conseguia me controlar. Como se meu corpo tivesse falado mais alto que minha mente. Como se aqueles instintos primitivos, presentes em todos os seres humanos, tivessem me guiado através de todo o processo, permitindo-me apenas a sentir. E eu só senti. Não pensei.
Não havia pensamento algum em minha mente quando me mexi. Eu não percebi o que estava fazendo. Não possuía o controle de minhas mãos, ou de qualquer de minhas atitudes. Por puro instinto, agarrei-a para fora do porta-malas, seus olhos castanhos fixos nos meus, e a puxei para perto de mim, nossos rostos ficando a centímetros um do outro.
Foi como se todo o mundo não existisse. Eu sabia que Shawn, Santana e Kitty estavam falando alguma coisa. Sabia que devia me concentrar no som de suas vozes. Sabia que não deveria permitir meu corpo me sobrepujar — mas eu fui pega de surpresa, desprevenida, e todas as guardas que eu havia construído ao longo de sete anos foram destruídas. Eu não achava que a veria novamente. Eu a tinha deixado partir. Eu fizera esse sacrifício na esperança de que a garota que eu amava pudesse ter uma vida normal. Uma vida onde não precisasse se esconder; onde não precisasse sentir medo; onde não fosse perseguida por pessoas querendo acabar com você, pessoas que não descansariam até alcançarem seus objetivos. Nunca passou pela minha cabeça que ela poderia se envolver com tudo, de qualquer maneira. Nunca passou pela minha cabeça que ela pudesse ser o inimigo. E nunca passou pela minha cabeça que ela pudesse, um dia, apontar a arma e atirar na minha melhor amiga.
O meu próximo ato foi, também, impensado. Guiado por minhas emoções. Externizando o que ocorria dentro do meu peito. E eu fiz algo que jurei a mim mesma nunca fazer. Algo que, naquele momento, pareceu-me ser a sensação mais prazerosa do mundo. Algo que sentiu tão certo, que eu precisava repetir o gesto.
Eu levantei a mão. E, quando a abaixei, atingi o rosto dela.
Se haviam vozes antes, quando a puxei para fora do carro, elas haviam se calado. Tudo o que eu podia escutar eram o som de respirações. Até os próprios pensamentos estavam calados, em choque, tentando entender o que estava acontecendo. Procurando um sentido para as minhas ações. Ergui a mão novamente. Bati no rosto dela com força, fazendo-a perder o equilíbrio e dar um passo para trás. Segurei-a pelo uniforme da DILM, sentindo uma raiva irracional me dominar, e a sacudi com força, encarando-a com selvageria. Levantei a mão de novo, batendo em seu rosto, sentindo seu sangue respingar em minha mão. E, então, fiz novamente. E de novo. E de novo. Forcei-me a continuar. A descarregar toda minha ira em cada golpe. A sentir meus punhos — e meus pés, em seguida — se conectando em seu corpo. Rosto, estômago, pernas. Qualquer parte que eu pudesse encontrar. Qualquer parte que eu pudesse destruir.
Eu teria continuado, se dois braços não tivesse rodeado minha cintura e me puxado para longe. Contorci-me, tentando me livrar deles, mas eram firmes e fortes, mantendo-me no lugar. Eu podia escutar o zumbido em meus ouvidos — o barulho de vozes voltando —, mas não podia entender nada do que diziam. Meus olhos ainda estavam fixos nela. No sangue que escorria pelo seu rosto. Na satisfação selvagem que isso me causava. Ela levantou a cabeça para mim, encontrando meu olhar, e ela parecia tão pequena, como se estivesse jogada aos meus pés.
Ela estava jogada aos meus pés.
A constatação foi como um soco na cara. Eu arquejei, tentando dar passos para trás, mas as mãos ainda me mantinham parada. Rachel estava caída no chão, as mãos abraçando a barriga, o rosto completamente ensanguentado, os braços cheios de cortes. Seus corpo machucado lançando-me uma acusação silenciosa.
— Não — murmurei, sentindo as lágrimas inundarem meus olhos. — Não…
— Quinn — sussurrou alguém, perto do meu ouvido. — Chega, você vai matá-la.
Reconheci a voz de Kitty. Quis responder, dizer que entendia, dizer que não a machucaria mais, só que as palavras não saíam. Eu estava apenas parada, encarando Rachel, o horror estampado em meu rosto, a náusea me atingindo pelo que eu havia feito. “Eu poderia tê-la matado”, pensei, assustada. Um grito estrangulado escapou por entre meus lábios, e eu empurrei Kitty para longe de mim com os cotovelos. Ela me soltou, pega de surpresa, e eu dei alguns passos em direção a Rachel, um pedido de desculpas nos lábios, o peito apertado em culpa e dor. Ela se encolheu ao me ver andando em sua direção — mas antes que eu pudesse fazer alguma coisa, qualquer coisa, alguém parou na minha frente, bloqueando-me. Ergui os olhos. Era Shawn.
Ele me lançou um olhar de incredulidade, misturado com raiva e decepção. Cruzou os braços sobre o peito, e seus lábios se mexeram. Precisei me concentrar para ouvir o que ele estava dizendo. Para dar um significado às suas palavras.
— … Você está me entendendo? Você não vai mais tocar nela. Fique longe, Quinn.
— Como você pode defendê-la? — perguntou Santana, sua voz saindo tão alta quanto um sussurro. Virei a cabeça em sua direção, atuardida. Ela estava parada no mesmo lugar onde abrira o porta-malas, seu rosto completamente branco, uma expressão de nojo ao olhar para Rachel. — Ela atirou na Brittany. Atirou. Tentou matá-la. Como você pode…
— Escute aqui — retrucou Shawn irritado, apontando o dedo na direção de Santana —, e é melhor você escutar direito. As duas. Nenhuma de vocês vai chegar perto dela de novo, entenderam? Não se sua intenção for a de machucá-la. Eu não vou permitir que isso aconteça.
— É mesmo? — Santana indagou, o sarcasmo escorrendo de cada palavra. — E vai fazer o que para impedir, Shawnzinho?
Ele não hesitou quando respondeu.
— O que for preciso.
Então, ele se virou para Rachel e se abaixou até ficar a sua altura. Passou o braço pelos ombros dela, e a ajudou a se levantar. Ela ainda estava encolhida, de cabeça baixa, e eu pude perceber que ela tremia. Mas, mesmo quando Shawn a levou para dentro da casa, seus olhos se voltaram para mim. E eu pude jurar, por alguns segundos, ter visto uma expressão de reconhecimento. Como se ela soubesse quem eu era. Como se estivesse machucada pelo que eu acabara de fazer, não apenas no sentido físico. Contudo, tão rápido quanto veio, desapareceu. E seus olhos só se tornaram vazios, tristes e cheios de dor.
Assim que ela desapareceu de vista, eu desabei no chão, e vomitei. Quando parei, senti como se estivesse vazia por dentro. Não inteiramente. Aos poucos, a incredulidade ia passando. Aos poucos, minha mente ia dando significado às minhas ações. Aos poucos, eu percebi que não havia apenas batido em uma garota. Eu havia batido na mulher que eu amava.
— Eu vou ajudá-lo — sussurrou Kitty, a voz trêmula. — Vocês duas… Só… Só esfriem a cabeça, ok? Lembrem-se de que ela pode ser nossa carta na manga para conseguir Brittany de volta.
Santana deu uma risada seca.
— Você acha, tiranossauro? Eles não vão a querer de volta.
— Por que você acha isso? — perguntei, com a voz rouca.
Ela sorriu para mim, e seus olhos brilharam — um brilho maníaco, doente, que me causou outra onda de náuseas. Levantei-me com dificuldade e cambaleei para perto do carro, apoiando-me nele para conseguir sustento. Santana não tirou o olhar de mim por um momento sequer, como se apreciasse minha dor.
— Porque — ela respondeu lentamente, arrastando as palavras — eles a entregaram para mim. Ele a entregou para mim. Você sabe quem, Quinn? Noah Maldito Puckerman. Usando a porra do uniforme da DILM. Eles estavam discutindo quando apareci. Puckerman não parecia nada satisfeito com a atitude dela. E sabe o que ele fez quando os confrontei? — ela começou a gargalhar, satisfeita. — Ele a jogou nos meus braços. Literalmente. E foi embora. Então, Kitty…
Santana se virou na direção da loira, que havia se encolhido em seu próprio canto, uma expressão assustada estampada em seu rosto.
— Pode desistir dessa sua teoria de merda. Ninguém a quer. E sabe por quê? Porque ela é um lixo. E lixos pertencem à lixeira. É para onde o corpo dela vai, quando eu a matar. Se Brittany morrer, eu juro, eu o farei pessoalmente. Com minhas mãos envolta do seu pescoço. E eu vou gostar de fazer isso. Portanto — ela sorriu para mim —, é melhor começarem a rezar que Brittany não morra. Ou pode dar adeus à sua namorada, Fabray. Mas, pensando bem, de uma forma ou de outra, ela vai morrer. Acho que a verdadeira questão é: pelas mãos de quem?
Ainda sorrindo, Santana nos deu as costas e caminhou em direção a entrada da casa. Eu pude vê-la hesitar alguns segundos, como se quisesse ir atrás de Rachel e cumprir sua promessa. Minha postura ficou tensa. Preparei-me para correr em sua direção, impedi-la de fazer o que quer que fosse, mas Santana balançou a cabeça e subiu as escadas. Soltei um suspiro de alívio.
Kitty se aproximou cuidadosamente de mim, e colocou uma mão sobre meu ombro. Ela não disse uma palavra — porém, eu podia enxergar bastante em seus olhos verdes. Eu podia ver a pena que ela sentia de mim. Por algum motivo, isso só desencadeou novamente minha raiva. Era culpa dela. Culpa de Rachel que tudo isso estivesse acontecendo. Culpa dela que o teto estava desabando sobre nossas cabeças. Culpa dela que, a essa altura, Brittany pudesse já estar morta…
“Santana está certa”, disse uma voz em minha mente. É claro que estava. Ajeitei minha postura e ergui minha cabeça. Kitty deve ter detectado o perigo em meu rosto, porque se afastou, mordendo os lábios, nervosa. Pude ler em sua mente o quanto ela estava assustada com minhas atitudes. Não me importei. Empurrei sua mão para longe de mim, e caminhei a passos decididos em direção à casa.
— Quinn — Kitty implorou —, não faça nada de que vá se arrepender depois. Por favor.
Ignorei-a, e fiz meu caminho para o porão. Desci as escadas o mais silenciosamente que pude, para não chamar atenção, e assim que cheguei ao último degrau, percebi que a porta estava aberta. O lugar estava quieto, mas Shawn e Rachel estavam lá. Eu podia vê-lo, agachado atrás de uma cadeira, amarrando as mãos de Rachel em suas costas. Ela tinha a cabeça virada para ele, os cabelos encobrindo seu rosto, portanto, não pude ler suas expressões.
E nem sua mente.
A realização de que — mais uma vez — não podia lê-la foi um choque. Eu havia imaginado que, depois de todos esses anos, com todas as lembranças perdidas, talvez essa parte de si mesma houvesse desaparecido. Eu nunca pensei que ela ainda pudesse fechar sua mente. Então, uma conversa surgiu em minha cabeça. Uma conversa que tive há sete anos com Shelby, Brittany e Rachel no McKinley, antes delas serem levadas por Alexia até o armazém.
“Ler mentes… Nem todos podem fazer isso, mas os que podem… Bem, eles têm o que chamamos de potencial… Eu descobri que tinha o potencial porque meu pai, seu avô, Rachel, também tinha… Rachel, você tem o potencial…”
“Será que ela pode ler mentes?”.
A pergunta surgiu em minha mente e, no primeiro momento, pareceu-me absurda. Mas eu não sabia o que Rachel havia feito desde a última vez que nos encontramos. O governo sabia quem era sua mãe. E se eles a estivessem usando? E se ela estivesse infiltrada, para ler nossas mentes, e descobrir nossos segredos? E se ela fosse apenas uma arma? Isso poderia explicar tudo! Porque ela atirou em Brittany, porque Puckerman a entregou…
Noah Puckerman. O que diabos ele estava fazendo trabalhando para o governo? Como ele havia se metido em toda essa história? Não fazia o menor sentido. Respirei fundo algumas vezes, procurando me controlar, e entrei no cômodo, chamando a atenção dos dois. Shawn olhou para mim, a sobrancelha arqueada, e foi rápido em se postar na frente da Rachel, seu corpo bloqueando minha visão. Ele cruzou os braços sobre o peito.
— Veio brigar, irmã? Espancar uma garota? Ou, quem sabe, mudou de alvo? Veio me bater? Porque, você sabe, aparentemente, seu lance é bater em todo mundo que você considera ser culpado pelas merdas que estão acontecendo.
— Ela é a culpada — disse, cuspindo cada palavra, começando a perder minha cabeça com a atitude dele.
— Será que é? — Shawn indagou, uma curiosidade sincera estampada em seu rosto. — Será mesmo, Quinn? Porque todos parecem ser culpados para você. Eu, Santana, Rachel. Você aponta o dedo para todos nós… Só é engraçado, não é, como nunca o aponta para si mesma. Será que já passou pela sua cabeça que nada disso teria acontecido se você fosse uma líder melhor?
— Cale a merda dessa boca — gritei. — Não ouse colocar a culpa em mim!
— Por que não? — ele retrucou, alterando a voz. — Você põe a culpa em todo mundo. Por que ninguém pode apontar o dedo para você? Diz, Quinn. Diz o que te faz tão diferente de todo mundo. O que torna você perfeita. Uma pessoa que não comete erro algum. DIZ!
Andei irritada em sua direção, e o empurrei para fora do meu caminho. Ele correu para se postar a minha frente novamente, mas ergui a mão e a coloquei em seu peito, empurrando-o para trás. Fixei meu olhar no rosto impassível de Rachel. Ela ainda não havia dito uma palavra. Não havia esboçado uma reação.
— É assim que as coisas vão funcionar a partir de agora — disse, numa voz controlada, o mais lento possível, para que ela não perdesse nenhuma de minhas palavras. — Você abre a boca e colabora, ou eu arranco as informações de você à força.
— Quinn…
— Ela sabe de alguma coisa, Shawn! — gritei, virando-me para ele. — Olhe para essa cara maldita dela! Não esboçou uma porra de reação sequer, como se esperasse ser trazida até nós! Como se soubesse que, atirando em Brittany, Santana ia atrás dela. Não parece meio armado para você?
— Isso é ridículo! Por que diabos ela se entregaria para o inimigo?
— Porque o inimigo tem informações. E se ela puder ler mentes…
— Ler mentes? Quinn, vamos lá…
— Você já tentou ler a dela, Shawn? Tente, então. Diga-me se estou sendo paranoica.
Ele franziu o cenho, e voltou seu olhar para Rachel, provavelmente tentando ler seus pensamentos. Aos poucos, a expressão de dúvida em seu rosto foi substituída pela de incredulidade, e então, a de desconfiança.
— Quando estávamos lá, pensei que não podia lê-la por causa do local. Não consegui ler ninguém — ele sussurrou, agachando-se novamente para ficar a altura do rosto dela. — Você me tratou bem. Não me machucou. Foi gentil. Apenas admita, Rachel. Se você for uma infiltrada, apenas admita.
Ela o encarou por alguns segundos, antes de soltar um longo suspiro.
— Escute — sua voz saiu rouca, e ela fez uma careta de dor. Senti uma pontada de culpa, mas rapidamente a suprimi. — Eu não planejei nada disso. Seria uma coisa estúpida a se fazer. Principalmente depois que… — ela hesitou, uma expressão de arrependimento cruzando seu rosto. Arqueei a sobrancelha, desconfiada. Rachel sempre foi uma excelente atriz. E, por algum motivo, eu achava que ela estava atuando. — Seria apenas muito estúpido. E se você não me matar — ela olhou para mim de relance —, então Santana vai. Não sou suicida, Shawn.
— Abra sua mente, então. Prove-nos de que está falando a verdade.
— Eu não sei do que você está falando — ela respondeu, franzindo o cenho.
— Por que não podemos ler sua mente? — ele indagou. — Vamos, Rachel, você sabe.
Ela negou com um aceno de cabeça.
— Eu não tenho ideia do que você está falando. Não estou usando o capacete. Não sei dizer o motivo. Eu realmente não sei. As poucas pessoas como você que encontrei… Foi sempre naquele lugar. Na sala de interrogatório. Onde nenhum leitor pode usar suas habilidades. Acredite em mim, se eu pudesse… Abrir minha mente, como você disse… Você acha que eu já não o teria feito? Assim, vocês saberiam a verdade. Vocês poderiam ler que não sei de nada.
— Você não pode ler mentes, então? — perguntou ele, suspirando.
— Não — ela disse incisivamente. — Eu não posso ler mentes.
Eu quase acreditei. Quase. Entretanto, meses ao lado de Rachel, aprendendo todas as expressões em seu rosto, aprendendo sobre seu jeito de ser, ensinaram-me algumas coisas. E uma delas foi como saber quando ela estava mentindo. Ela tinha uma espécie de tique. Todas vezes que contava uma mentira, Rachel franzia o nariz. E ela o fez. Enquanto contava sua história, mais de uma vez, ela o fez.
Rachel estava mentindo, e eu precisava descobrir sobre o que.
— Muito bem — disse Shawn, dando o assunto por encerrado. — Quinn, será que podemos conversar lá fora? Não há mais nada que você possa fazer aqui por hora.
Acenei com a cabeça. Shawn caminhou para fora do porão, e eu estava prestes a segui-lo quando, no último momento, virei-me em direção a Rachel novamente. Andei até ela, deixando meu rosto novamente a centímetros do seu, e sussurrei, tão baixo que somente ela poderia escutar.
— Eu não acredito em você, Berry. Sei que está escondendo alguma coisa. Não vou tocar em você na frente do garoto. Mas ele não estará aqui o tempo todo para te vigiar. Uma hora, ele vai cair no sono. E quando acontecer — eu abri um pequeno sorriso, satisfeita ao ver que os olhos dela se arregalaram —, se você mentir para mim novamente, vou fazê-la desejar nunca ter nascido.
Dei-lhe as costas e segui Shawn para fora do porão. Ele já me esperava, encostado na parede, um olhar pensativo em seu rosto. Ele se virou para mim assim que me viu, e, para minha surpresa, jogou os braços ao redor da minha cintura, abraçando-me. Levou apenas alguns segundos antes de ele se afastar, envergonhado.
— O que foi isso? — perguntei surpresa.
Ele deu de ombros.
— É só que… — ele virou o rosto para esconder as lágrimas que haviam começado a cair. — Brittany pode morrer, e… Quero dizer… Sei que estamos brigados e tudo, mas você é minha irmã. Minha família. Posso não concordar com você o tempo todo, ou com o que você faz, — seu olhar se voltou em direção a Rachel, e depois voltou para mim. — só que eu ainda te amo. E eu sei que, a partir de agora, as coisas vão ser mais difíceis pra você. Pra mim. Pra todos nós. Eu sei que pode haver mais brigas, e piores que essa. Então, eu acho que só quero que você saiba que, independentemente do que, eu vou continuar te amando, porque, às vezes, o amor não tem limites. Mas o perdão tem, Quinn.
— Shawn…
Ele ergueu as mãos, interrompendo-me.
— Não sou idiota. Sei que você não acredita nela. Eu também não acredito. É óbvio que está mentindo. Se você quiser interrogá-la, tudo bem para mim. Só peço que não faça isso novamente. Bater nela, eu digo. Essa não é você. Sei que não. E eu sei que tem uma parte sua aí dentro — ele apontou para o meu peito — que dói todas as vezes que você faz isso. Mas, se você continuar fazendo, vai parar de doer. E não vai parecer tão errado. É errado. Só quero que você não se esqueça disso. Eu sei que machuca. Eu entendo porque você e Santana querem bater nela. Só que descontar a raiva e a dor em Rachel não vai trazer Brittany de volta. E matar uma pessoa não vai fazer com que nenhuma das duas se sinta melhor sobre isso. Então, tome cuidado. É o que eu tenho a dizer.
— Eu… — comecei. Entretanto, eu não sabia o que falar. Respirei fundo, e fechei os olhos por alguns segundos. Acho que, no final das contas, Marley tinha mais razão do que eu poderia imaginar. Eu deveria mesmo dar mais crédito a Shawn. Em algum momento, ele deixara de ser um garoto de quatorze anos e se tornara um homem.
— Não serei sua babá — ele disse, fazendo-me abrir os olhos. — Não a vigiarei vinte e quatro horas por dia. Seus limites serão os seus próprios. Você sabe o que é certo ou não a se fazer com uma pessoa. Faça suas escolhas, mana. Escolha a pessoa que você quer ser. Agora, se você me der licença, eu vou buscar um kit de primeiros socorros. Ela deve estar sentindo muita dor.
Acenei com a cabeça. Shawn deu um pequeno sorriso triste para mim, e começou a subir as escadas. Mas, antes de desaparecer pelo corredor, ele se voltou em minha direção, o cenho franzido.
— Quinn?
— Sim? — murmurei, com a voz rouca. Ele lançou um olhar curioso para além de mim, antes de seus olhos encontrarem os meus novamente.
— E se ela se lembrar?
“E se ela se lembrar de você?”, ele acrescentou mentalmente.
— Eu não sei — respondi com sinceridade, sentindo um peso enorme ser adicionado sobre meus ombros.
“Eu honestamente não sei”.
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