Clockwork Souls

11 Capítulo 11


Erik chegou na estação de trem do Planalto na Névoa junto ao resto de seu grupo. Tinha chamado Nico, Tim e Amelia para uma reunião afim de decidir a futura "missão" no Salgueiro. Nico sugeriu sua casa e de Tim. Erik aceitou.

A estação era construída em madeira, enorme, apesar de ter um ar abandonado. No passado, poderia ter recebido vários trens, mas hoje, comportava apenas um trem grande que cruzava o país nos trilhos que ficavam ao lado da Estrada da Rosa. Assim que o trem chegou, depois de uma espera menor que Erik imaginava, ele e os outros entraram no mesmo. O veículo era muito grande, tinha várias "classes" que iam desde simples assentos até compartimentos com cama e frigobar. Eles dividiram-se entre dois pequenos compartimentos com assentos dos dois lados e uma pequena mesa no meio. Foi o que conseguiram pagar. Ou melhor, o que Nico insistiu que conseguia pagar. Erik sentou em um, com Amelia sentada no banco da frente. Nico, Tim e seus animais mecânicos ficaram do outro lado do corredor. Erik reparou que Nico estava menos desesperado do que da última vez que o viu. Estava com um novo braço, de pedras preciosas, que Erik imaginou ter custado uma fortuna. Notou a felicidade de Nico com o braço novo, e por um momento viu-se feliz também.

A Montanha Sollaria não ficava tão longe do Planalto da Névoa, e Erik sabia, embora, assim como a maioria dos campellianos, nunca tivesse visitado o local.

Ao contrário do Salgueiro, povoado autossuficiente, totalmente diferente do povo da capital e quase independente do Reino, a Sollaria era totalmente dependente da Capital. Os habitantes do Salgueiro intoxicavam-se com o metal. Já Sollaria era a parte mais metálica do Reino. Dois povos completamente opostos, apesar de igualmente excluídos pelo resto de Campelle.

Todos os mapas que Erik estudou durante sua estadia no exército diziam que a Montanha era próxima do Planalto, sim, mas o tempo que se arrastava naquele trem parecia dizer o contrário. A ansiedade por chegar naquele lugar e decidir tudo corroía seu cérebro. Cada segundo parecia uma facada.

Até que os pensamentos do Capitão foram interrompidos por Amélia que cutucou seu braço avisando que já tinham chegado.

Erik esperou seus companheiros levantarem, e levantou-se também. Ao descer, notou que a estação de trem de Sollaria era completamente diferente e pior do que a surrada estação anterior no Planalto. Pequena, comportava apenas um trem, como se fosse milimetricamente construída para comportar ele e somente ele, o que fez Erik concluir que a mesma tinha sido construída depois da Grande Crise, quando somente um trem fazia o percurso cruzando o país.

A estação ficava do lado de fora do portão de entrada da Montanha Sollaria, que Erik percebeu que não era exatamente uma montanha assim que desceu as escadas para fora do trem. Atrás do portão de ferro onde estavam assustadoramente pichadas as palavras "Bem-Vindo ao Monte de Lixo", estendia-se uma imponente construção, se é que podia ser chamada assim, que fez Erik entender o motivo pelo qual o lugar era oficialmente chamado de Montanha — e chulamente chamado de Monte de Lixo.

Ao passar pelo portão, o Capitão Tunke via cada vez mais de perto as casas aglomeradas que estendiam-se para cima até perderem-se de vista em meio as nuvens acinzentadas que decoravam o céu mais poluído do Reino de Campelle. Como um grande labirinto vertical, a "montanha" era lotada de engrenagens que levantavam inúmeros elevadores até o topo e abaixavam até andares subterrâneos. Pontes no alto ligavam ruas a outras ruas e crianças escalavam e penduravam-se nelas, cuspindo na palavra medo. O lugar era extremamente sujo e cheiro de fumaça e lixo era quase tão insuportável quanto o barulho de engrenagens velhas e metais rangendo. Antes que Erik pudesse pensar que não tinha como ficar pior, um barulho ainda mais estrondoso inundou o local.

Mas que diabos... — antes que Erik pudesse terminar sua pergunta, notou que Nico e Tim, que caminhavam um pouco a sua frente, pararam e olharam pra cima, como quem assiste a um filme pela quinta vez junto com alguém que nunca assistiu e espera pelas perguntas perguntas sobre quem é o assassino.
Acompanhando o olhar dos garotos, Erik e Amelia olharam pra cima. O Capitão ficou surpreso com a fonte do imenso barulho. Era um veículo aéreo, parecido com os que ele estava acostumado a ver, talvez tivesse sido igual aos que ele tem contato no exército. Talvez há 50 anos. O veículo, mesmo estando alto demais, era notavelmente velho. Provavelmente foi usado na Guerra que devastou Campelle e selou a separação, ainda que não oficial, do povo do Salgueiro do resto do Reino. A fumaça que o veículo expelia tingia de preto o céu cinzento que Erik até então imaginava ser o auge da poluição.

Esse é o dirigível do Rei. — apontou Tim como um guia aponta um quadro no museu, assim que o veículo aterrissou no provável porto aéreo no topo da montanha e o barulho infernal finalmente cessou.

Do... Rei? — Erik começou a perguntar a si mesmo se sairia são dali, mesmo antes de ter entrado. Sabia que o rei nunca pisaria em Sollaria, ainda mais naquele veículo ridiculamente velho.

Sim. É assim que chamamos esse dirigível que, vez ou outra vem aqui pra Montanha. — Tim começou a andar na direção do local e os outros o acompanharam. Erik percebeu uma movimentação imensa das pessoas lá dentro. Portas abriam-se e pessoas faziam fila pra pegar os elevadores que eram vários. As crianças estapeavam-se para escalar lugares que há pouco escalavam por diversão. Antes que o confuso Capitão pudesse perguntar, Timothy prosseguiu. — Ele traz mantimentos pra cá. Nem todo mundo tem idade, força, saúde ou vontade de sair daqui e ir arriscar ser chamado de pobre e maltrapilho nas outras partes do país. O que não é saqueado pelas gangues, é disputado a tapas.

Não é esse o Rei que vocês chamam de Cornelius, o Covarde por não se importar com vocês? — disse Erik, forçando seu melhor tom de falso puxa-saco.

Injusto, injusto. — disse Nico, olhando pra baixo com o olhar perdido. — Esse lugar é onde as pessoas que não tem mais esperança vêm. Crianças fugidas de orfanatos, velhos que perderam tudo que tinham. Vêm pra cá pra viver em uma terra sem lei, sem amor. Viver com o medo de ser roubado, na melhor das hipóteses, por uma gangue sendo seu melhor amigo. Não há polícia, não há Capitão, não há Rei. As pessoas aqui são completamente esquecidas pelo Rei. Mas ele é bom demais pra deixar que morramos de fome, não? — o tom que o garoto usou foi tão sombrio que fez Erik se arrepender de ter dito o que disse.

Ao chegar na base do amontoado de casas, Nico e Tim os guiaram pra uma pequena escadaria que os levou a uma plataforma para esperar o elevador que, agora, não estava mais tão disputado. Quando ele chegou, entraram e Tim apertou o botão de número 3, num painel com tantos números que Erik recusou-se a olhar. Perguntou a si mesmo o que seria o terceiro andar daquele caos.

Ao descer do elevador, Erik surpreendeu-se com o que viu. Chamar aquele povo de "esquecidos" era bondade de Nico. As casas eram abarrotadas de correntes e cadeados, como se as pessoas não temessem só saques, temessem um monstro que devoraria tudo o que tinham. As ruas de metal, sujas, cheiravam uma mistura de cobre e lixo. Uma criança roubou a pequena lanterna no cinto de Erik e quando ele notou, ela já devia ter se enfiado em uma viela longe o suficiente dali. Erik pensou que se aquelas crianças fossem pra Capital ou pro Planalto da Névoa, poderiam dar uma lição de "Como ser um ladrãozinho rápido" pras crianças das ruas de lá.

Seguiu Nico, Tim e Amelia até uma porta em uma viela. A porta, ao contrário do resto, não tinha cadeados nem correntes. Apenas uma fechadura que Nico abriu com uma pequena chave.

Erik achava que estava vacinado contra qualquer tipo de zona que poderia encontrar ali. Mas não estava. Surpreendeu-se com o tanto de coisas que podiam caber em um espaço tão pequeno. Gaiolas de ferro estavam espalhadas por todo o chão, e ele não entendeu o porque, visto que 3 pássaros mecânicos revezavam-se entre voar e perambular soltos pelo local. A única porta fora a de entrada e a pequena porta de um porão, dava pra um pequeno banheiro. E no extremo oposto a parede da porta do banheiro, um fogão velho e uma mini geladeira sugeriam uma cozinha. Uma cama em um canto do aposento, um sofá-cama no outro extremo, entre os dois uma pequena mesa, com uma caixinha em cima.

Mas o que... — disse Nico como se a caixa fosse o único elemento fora do lugar naquela bagunça, e se dirigiu até ela. Erik foi logo atrás.

Não acreditou no que viu. Dentro da caixa, com símbolos da mais perigosa gangue do Reino estampados por todas as partes, estava uma língua, roxa e sangrenta. O estômago de Erik revirou-se. Nico tirou debaixo da caixa um papel e leu em voz alta.

"A voz que canta agora é a mão que escreve"

É a letra do meu... do meu irmão! — gritou Nico em um tom que Erik nunca imaginou que ele poderia usar. Assim como não imaginava que ele tinha um irmão.

Amélia mantinha-se ao seu lado, chocada, enquanto Tim parecia não achar as palavras certas para confortar o amigo.

Cortaram a língua do Pierre... ALGUM MONSTRO DEIXOU MEU IRMÃO MUDO!

O garoto que antes parecia inofensivo, estava a beira de um colapso. Erik manteve-se frio a loucura de Nico, pois percebeu que ele se referiu a um suposto irmão como Pierre. O mesmo nome do filho do Sr. Loth, envenenado recentemente e que Nico disse ser próximo. Aquilo não podia ser coincidência.

Tim abriu a pequena porta e pulou pra dentro do porão, de la soltou um grito como se tivesse visto um fantasma. Ao olhar pro local, Erik viu a peça que completava seu quebra-cabeças. Pierre, o filho do rico Sr. Loth, amordaçado e preso a uma cadeira.

Erik mantinha-se assustadoramente frio a tudo aquilo. Com aquele acontecimento, provavelmente Nico não iria com ele ao Salgueiro mais, e isso arriscaria sua até então única chance de comunicar-se com aquele povo.

Nico, agora sentado no sofá-cama, parecia psicopaticamente longe da pessoa que era há minutos atrás. Sem gritar, sem encarar o irmão, agora solto e trazido de pra cima por Tim, Nico encarou Erik e respondeu a sua dúvida como se tivesse lido sua mente.

Eu vou ao Salgueiro com você. Vou tirar meu irmão daqui, vamos pra longe daqui. Mas com uma condição. Quero que você me prometa... quero que você jure... que vai me ajudar a vingar meu irmão.

Você vai me ajudar a achar Ma Lin! — gritou a última frase num estrondo quase tão assustador quanto o dirigível do Rei. Erik sentia-se incomodado com aquilo. Nico agia como se o símbolo naquela caixa o lembrasse de um passado sombrio. Agia como se tivesse certeza de que o carrasco de seu irmão era o tal Lin. E agia como se esse homem fosse um antigo inimigo. Nico parecia possuir mais segredos do que Erik gostaria de saber. Os olhos de Nico reluziam tão pesadamente quanto o broche em sua camiseta que Erik até então não tinha notado que estava lá.

Que seja. Vamos logo então, antes que eu me veja obrigado a fazer mais perguntas a vocês. — disse o Capitão, que mantinha-se confuso com tudo aquilo. Quem era Ma Lin? Teria ele envolvimento nos envenenamentos? Saiu pela porta esperando que os outros o seguissem.

E seguiram.

Erik já sabia o caminho pro elevador. Entrou, e sem pestanejar apertou o botão com um "P. A." de "Porto Aéreo" assim que os outros o acompanharam.
Ao desembarcar no Porto, foi direto ao local onde o dirigível ainda estava e algumas pessoas pegavam o que restava de mantimentos. Entrou.

Um comandante assustado o encarou.

Como é seu nome, senhor?

E... Edmund. Edmund Sark. — disse o homem que parecia prestes a urinar nas calças.

Ótimo. Comandante Sark, em nome do Rei, peço que leve eu e meus amigos até o Salgueiro.

O homem assentiu, ainda que confuso.

Erik entrou no dirigível como um porco entrando no abatedouro. Apesar de nervoso, sentou e logo dormiu.

Ao acordar, presumiu que já estivesse longe de Sollaria.
Nos bancos de trás, Tim dormia, e Nico e Amelia cantavam uma antiga canção campelliana chamada "O Rio e o Relógio", sobre uma pessoa que, por mais amor que tivesse no coração, foi derrotada e agarrou-se a ideia de que a justiça, cedo ou tarde, chegaria, com vozes suficientemente tristes para cantar ao lado de um pássaro que perdeu a voz:

"Quando o relógio apontar meio-dia

Sairei em busca da minha missão

Entrarei no rio, em sua água fria

Afim de acalmar o meu coração

Quando o relógio apontar as três

Espero não ter enferrujado

A água cessou meu motor desta vez

Mas não deixou meu coração congelado

Quando o relógio apontar as seis

Irei achar o que resta do amor

O ferro pode ditar as leis

Mas é o puro ouro que tem valor

Quando o relógio apontar as nove

Nem eu, nem o rio seremos iguais

Se a correnteza muda quando chove

Lutar já não me satisfaz

E quando o relógio completar a volta

O amor não mais vencerá

A espada passa e a corda solta

Mas sabemos o que nos protegerá

Pois se precisarmos de algo pra ser nossa escolta

A justiça pra sempre, pra sempre será

A justiça pra sempre, pra sempre será

A justiça pra sempre, pra sempre será"

A última estrofe repetia-se como um refrão tardio. Então o dirigível aterrissou.

Erik foi o primeiro a levantar, e o primeiro a ver a porta do veículo deslizar pra cima.

Ao ver, a distância, o povo do Salgueiro, Erik sentiu-se extremamente culpado. Sabia que aquele povo não era de todo ruim. Sabia que deixar o dirigível metálico um pouco longe antes de entrar não resolveria o problema. Sabia que pisar fora daquele veículo seria declarar guerra. Envenenador nenhum valia a morte de inocentes. E Erik sabia que elas viriam. Sua consciência pesava e ele sabia que, a partir dali, o povo do Salgueiro seria pra sempre um fantasma em sua vida.

E se não for; — pensou sombriamente em voz alta — a justiça, pra sempre, pra sempre será.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.