Matt me acompanhou até em casa. Cheguei lá, tudo estava apagado. O portão estava trancado então o que me restou foi pular o muro. Acenei pra Matt e escalei com facilidade usando as grades do portão e cai de pé do outro lado.

A porta da cozinha estava só encostada, entrei sorrateiramente e meu pai me esperava no sofá da sala com o cinto de couro do lado.

— Eu não criei filha pra ficar vagabundeado na rua.

— Calma pai, eu posso explicar, eu fui conversar com a Meg sobr...

— EU NÃO QUERO SABER GAROTA!

Acho que não preciso narrar a situação depois disso. Fui pro meu quarto entre soluços e deitei na minha cama. Pela minha mente passou um turbilhão de pensamentos e eu não sentia vontade de chorar. Eu só sentia ódio. Um ódio tremendo.

Eu apenas queria minha mãe ali comigo. Ela trabalhava durante a noite, e quando eu acordava pra escola, ela já estava dormindo, então raramente a gente ficava junta. E isso fazia uma falta tremenda pra mim.

Creio que esse meu jeito agressivo e ao mesmo tempo fechado, seja por isso. Não culpo ela. Não mesmo. Ela sempre faz de tudo pra mim, e eu nunca retribuo de forma reciproca. Talvez a culpada disso tudo seja eu (nem mesmo meu pai sendo alcoólatra e me agredindo quando está bêbado tem tanta culpa como eu. E tem também o fato de que cheguei tarde em casa por culpa de Matt).

Fui tomar banho e então vi a gravidade dos meus hematomas: em partes a pele estava esfolada e surgia um pouco de sangue, e em outras já ficava uma cor arroxeada. Pelo menos metade das minhas pernas estava machucadas. E por incrível que pareça, a dor não vinha dali. Vinha de um lugar mais fundo. Vinha de dentro. A pior dor de todas.

No dia seguinte meu celular despertou as seis e meia. Eu não tinha a menor vontade de levantar, mas então escuto passos no corredor e minha mãe abre a porta do meu quarto:

— Bom dia Mel!

Senti uma alegria imensa de ouvir a voz da minha mãe. Olhei pra ela e no mesmo instante comecei a chorar. Ela veio na minha direção e sentou do meu lado na cama, apoiando uma das mãos bem nas minhas pernas. Trinquei os dentes pra não gritar de dor.

— Mãe, hoje eu não quero ir pra escola. Me deixa ficar em casa...

— Desculpa Mel, mas não posso te deixar aqui sozinha. Seu pai saiu pra procurar emprego e eu vou fazer o turno da manhã. Só vim pra casa tomar um banho e já vou voltar.

Não tive outra escolha, tive que levantar. Não deu nem 5 minutos e Meg já me chamava lá fora:

— Mel, a gente tá atrasada, corre!

Peguei uma maçã na mesa da cozinha, dei um beijo em minha mãe e fui correndo pro portão.

— Bom dia Meg!

— Bom dia Mel, vamos logo. Pegou o uniforme de educação física?

Educação física. Eu tinha me esquecido que hoje tinha aula. E na minha situação era meio difícil usar bermuda.

— Ah Meg, estamos atrasadas, não vai dar tempo — bati o portão e fomos andando.

Quando chegamos na classe,o professor já estava lá dentro. Pedimos licença e entramos. Fui andando em direção ao meu lugar e tinha uma garota diferente sentada na minha carteira. Olhei pra ela e disse educadamente:

— Com licença, mas esse lugar é meu.

— Jura? Onde está seu nome? — disse ela em tom irônico.

Respirei fundo, contei até três. Segurei a garota pela blusa e puxei-a colocando-a de pé. Joguei a bolsa dela no chão e me sentei. Olhei pra ele e disse docemente:

— Obrigada.

A classe toda olhava pra mim e a garota tinha um olhar furioso nos olhos, o professor encontrou um lugar pra ela sentar bem do lado de Matt. Ele olhou pra mim e moveu os lábios dizendo: "Tinha que ser tu né Mel?". Dei de ombros e prestei atenção na aula.

Se o desentendimento com a garota já não fosse o bastante, teríamos duas aulas de educação física após o intervalo.

Fomos para o ginásio e a professora mandou todos para o vestiário colocar o bendito do uniforme de educação física. O uniforme.

E agora Mel? — disse Meg colocando o uniforme.

— Vou dar um perdido na professora, tentar ficar atras. Quase ninguém percebe minha presença.

Meg olhou com uma cara pra mim e eu entendi o que o olhar dela quis dizer: "Oh, sério? A garota mais briguenta e invocada da escola. Ninguém repara em você mesmo".

Mas no fim ela só disse:

— Ok Mel, vê se não se mete em encrencas.

Me escondi em um dos boxes do vestiário. Pude ouvir todas as garotas saindo, mas do nada, ouvi uma conversa:

— E o que você vai fazer Claire?- disse uma garota que eu não reconheci a voz.

— Eu não sei. Mas essa tal de Mel mexeu com a pessoa errada — essa voz eu reconheci: a garota que estava sentada no meu lugar.

Mexer com a pessoa errada. Parece que eu tenho um certo dom de fazer isso. Primeiro Matt, e agora essa tal de Claire. Tô bem na fita!

Fiquei ali dentro até ouvir as garotas entrando de novo. Meg veio até mim e disse:

— Mel, a professora sentiu sua falta na aula, e disse que quer ter uma conversinha com você lá no ginásio...

Mal Meg terminou de falar eu ja sai do vestiário e fui em direção ao ginásio e a professora me esperava na arquibancada.

— Matando minha aula né senhorita Strauss?

— Desculpa senhora Johnson é que eu não trouxe meu uniforme hoje.

— Você sabe que quando não trás, temos o reserva.

— Desculpa. Prometo que isso não vai mais se repetir.

— Tudo bem. Mas hoje, como punição, você vai ficar no deposito do ginásio organizando os aparelhos.

— M-Mas o representante de sala que faz isso.

— Sim, é o representante. Mas a senhorita Jones vai participar do conselho hoje.

Olhei pra extremidade do ginásio e Claire olhava pra mim. Ela veio na minha direção, olhou pra professora e disse de uma forma muito meiga e formal:

— Senhora Johnson, te espero na sala do conselho.

— Tudo bem senhorita Jones, já estou indo.

Fiquei perplexa. Como assim Claire Jones era representante? Ela deu um sorriso falso pra mim e saiu saltitando. E então, a professora Johnson me deu o ultimo recado:

— Só saia daqui quando estiver terminado.

Entrei no deposito e fiquei pasma com a bagunça:

— Ual, achei que não existisse algo mais bagunçado que meu quarto.

Ouço a porta abrir e alguém diz:

— Quer uma ajudinha ai?



Notas finais
Eis mais um capitulo!

Comentem o que vocês mais gostaram, e o que precisa melhorar. Elogiem, critiquem, se declarem (que?)

Beijos!