— Moça, acorda!

Hinata foi praticamente chacoalhada pela mão impaciente de um jovem rapaz loiro de olhos azuis.

Assim que ela abriu os olhos, na verdade, achou que continuava sonhando e estava cara a cara com um anjo, nas portas do paraíso, tamanha era a beleza e a graça contida naquele sorriso que emanava um calor absurdo pelo seu corpo dormente.

— Ahn? — Ela conseguiu soltar, e então o som de um disco arranhado soou em sua cabeça.

Ela estava acordada, e aquele anjo era, na verdade, um garoto adolescente como ela.

— É que a gente já chegou, o motorista tá bravo e quer que você desça para conseguir limpar o ônibus!

Diante a voz animada do loiro, a garota corou e levantou-se de um pulo, quase caindo em seguida, mas foi amparada pela mão gentil do rapaz pousando em sua cintura.

— Calma, vamos lá, não caia!

Envergonhada, Hinata prosseguiu para fora do ônibus e pegou suas malas no compartimento exterior. O motorista não estava nada feliz e tinha uma carranca, também pudera, a garota apagou ainda em Tóquio e acordou apenas seis horas depois, já em Konoha.

Konoha… Ela pensou, olhando admirada para a mera rodoviária local. Aquilo não era nada, mas ainda assim, o ar já soava diferente, meio salgado e meio floral, bem como sua mãe descreveu certa vez em um antigo diário da adolescência.

— Você é nova aqui? Eu estava em Tóquio passando as férias com o meu padrinho, mas tive que retornar! Infelizmente, ainda pretendo fazer faculdade lá um dia — disse o loiro com empolgação, parecia ser muito gentil. — E aí, vou me tornar o primeiro-ministro do país! Dattebayo!

— S-sou — a garota corou, não conseguindo esconder de si mesma o quanto havia achado aquele loiro bonitinho. — V-vim para estudar no Instituto Genius-Konoha!

— Não brinca?! Também estudo lá — ele se inclinou com um sorriso, balançando-se para os lados como uma criança feliz. — Aliás, meu nome é Naruto Uzumaki! E o seu?

— Hinata Hyuuga — conseguiu dizer sem gaguejar.

— Maravilha! Prazer em te conhecer, Hinata! Nos vemos na escola, agora eu preciso ir, ou minha mãe vai me matar por chegar atrasado para o jantar novamente…

Hinata o viu partir e pegou as próprias malas, indo em direção ao estacionamento, onde pediu um táxi e então partiu para a casa dos Uchiha, seu novo lar.

O trato com Hiashi foi que Hinata poderia estudar em Konoha, desde que fizesse parte do programa de negócios da escola e morasse com os Uchiha, com quem a Byakko Group tinha uma parceria amigável há muitos anos.

///

Sasuke Uchiha tinha má reputação.

E, apesar disso, ele escondia um segredo sórdido: era um completo nerd, com cada passo do seu futuro previamente planejado por ele. E ele gostava dos seus planos, principalmente os que envolviam estudar direito em Tóquio, morar sozinho e participar de um clube de astronomia aos sábados. Talvez, adotasse um gato e frequentasse algum clube do livro, quem sabe.

Mas isso só quando ele se livrasse daquela reputação que construiu, tijolinho por tijolinho, desde o fundamental.

— Olha isso — Sai o tirou de seus próprios pensamentos lhe oferecendo o celular. Havia uma loira de biquini na foto mostrada. — A Ino passou as férias no verão da América Latina, ela tá uma Deusa!

— Não vejo nada demais — Sasuke devolveu o aparelho. — Tipo, ela é bonita, mas sei lá.

— Você já ficou com ela, não ficou? Ela não perdeu a virgindade com você?

— Não saio por aí falando das minhas conquistas, Sai — ele bufou, levantando do sofá e indo em direção a cozinha na intenção de pegar um refrigerante, sendo seguido pelo amigo.

— Mas qual é, Sasuke, você podia me dar uma dica! O que eu faço pra ela sair comigo?

Revirou os olhos e ofereceu um refrigerante para Sai, que aceitou de prontidão, abrindo a garrafa com o dente.

— Sei lá, cara. Você podia ser normal e só convidar ela pra sair.

Sai pareceu pensar por um momento, mas logo descartou a ideia e voltou a implorar de forma cansativa. Suas lamúrias só foram interrompidas pela campainha da porta da frente que tocou, fazendo Sasuke se encaminhar até ela para atender.

Assim que abriu a porta, seus olhos escuros travaram na figura à sua frente. Ele se lembrava daquela garota baixinha, de cabelos azulados e olhos clarinhos.

— Hinata Hyuuga — ele falou, embasbacado em vê-la ali.

— Sasuke Uchiha — ela sorriu com uma leve timidez.

— O que te traz aqui?

De repente, seus olhos observaram as malas que ela carregava consigo. Uma de rodinhas, uma de mão e outra mochila grande nas costas. Não precisava ser muito esperto para perceber que deveria ser ela a garota de quem sua mãe falou de manhã.

“Sasuke, à tarde vai chegar uma garota que era filha da minha antiga melhor amiga, ela vem de Tóquio e vai passar um tempo aqui com a gente para estudar o ano letivo na Genius, vai ficar no quarto de hóspedes ao lado do seu. Você recebe ela, filho?”

Então Hinata Hyuuga que moraria com eles durante o próximo ano inteiro? Sua antiga rival de infância nas competições de soletração, matemática, modelo da ONU, debates e artes marciais?

Ele recordava-se de ter ficado desolado quando ela se mudou para Tóquio depois que a mãe dela morreu, aos catorze anos. Depois daquilo, as competições pararam de ter graça, já que nenhum oponente chegava ao seu nível como a Hyuuga.

A partir daquele dia, Sasuke decaiu em diversos conceitos e sua má reputação começou a ser construída. Um boato aqui, outro acolá, vários mal entendidos, quando viu já estava metido no meio das maiores mentiras do Instituto Genius-Konoha antes mesmo de entrar naquela escola para cursar o ensino médio, e nem se esforçou para fugir das consequências. No fim das contas, não valia a pena, até mesmo se acostumou em ser o famoso bad-boy com quem ninguém se metia e que tinha regalias inimagináveis para os mais recatados.

Assim que Hinata explicou o que ele já sabia — estava ali como hóspede da Mikoto para passar o ano escolar —, Sasuke a ajudou com as malas e subiu as escadas sendo acompanhado da garota e deixando Sai para trás. Apresentou ligeiramente o corredor principal do segundo andar e percebeu que não estava sendo acompanhado quando virou-se e se deparou com Hinata de olhos grudados no grande quadro perto da escada.

Era uma pintura impressionista do centro de Konoha em um dia chuvoso, com borrões que deveriam ser pessoas ou coisa do tipo. Sasuke não era um grande apreciador das artes visuais, mas sua mãe colecionava aquele tipo de coisa, e pelo brilho nos olhos da Hyuuga, ela deveria ser outra entusiasta.

— Minha mãe coleciona quadros — ele explicou. — Se ela souber que você gostou, vai te obrigar a sentar no escritório dela e te mostrar todos que já comprou, e vai falar durante horas. Então cuidado.

— Isso parece bem legal, na verdade.

Ela voltou a segui-lo até o final do corredor, que formava um triângulo entre portas. Abriu a da ponta e entraram em um cômodo de tamanho médio, com paredes azul-claro, móveis brancos impecáveis, roupa de cama com estampa de conchinhas e cavalos-marinhos desenhados no centro do papel de parede.

— Você pode se instalar aí. É verdade que você vai estudar na Genius?

— Sim, você também estuda lá?

— Aham. É meio diferente da nossa escola do fundamental.

— Menos competições? — ergueu uma sobrancelha em desafio. — Ainda perde em todos os debates, Uchiha? Aposto que já desistiu de ser advogado.

Sasuke riu com escárnio. Então ela se lembrava.

— E você ainda é tão horrível em matemática quanto eu me lembro?

— Talvez a gente descubra nas próximas olimpíadas dos matletas. Sei que vai ter uma em abril.

Os olhos do Uchiha brilharam. Ele sempre gostou de ser desafiado por Hinata, mas agora tinha uma reputação muito diferente, e duvidava que a diretora Tsunade fosse permitir sua entrada nos matletas ou no clube de debates depois de todos os boatos que circulavam sobre Sasuke pela escola.

— Vou ficar te devendo a derrota que tanto procura, não faço mais essas coisas de nerd.

O semblante da Hyuuga fechou ao ouvir aquelas palavras. Coisas de nerd. Em um tom prepotente e arrogante, típico do Uchiha. Entretanto, ele nunca se envergonhou de ser um completo nerd, normalmente usava disso para se sentir superior ao resto dos alunos.

Antes que ela pudesse responder, Sasuke aproveitou o momento de triunfo para deixá-la sozinha, voltando para a sala enquanto imaginava que faíscas saíam dos olhos prateados de sua antiga arqui-inimiga.

Infelizmente, por mais tentador que fosse a ideia de vencê-la nas mais diversas modalidades, Sasuke tornara-se um encrenqueiro, cafajeste e delinquente inveterado. E precisava agir de acordo com o personagem que criou, sustentá-lo até o final.

— Aí, quem é aquela? Você nem me apresentou — Sai fez um bico, claramente indignado com a falta de consideração do amigo.

— É a princesinha dos Hyuuga, da Byakko Group. É a Hinata.

— Ela é gata pra caramba, tenho certeza de que vai dar o que falar na Genius.

“Vai mesmo”, Sasuke pensou consigo, considerando que ver seus amigos idiotas cobiçando aquele anjo seria o seu inferno pessoal nos próximos dias.

Assim como saber que jamais teria o gostinho de vencê-la em uma olímpiadas de matemática novamente. Daria tudo para ver seu rostinho bonito de princesa retorcido em uma carranca após a derrota, lembrava-se nitidamente do quão triunfante sentia-se ao ganhar da Hyuuga.

Talvez ele tentasse uma vaga no clube de debates, pelo menos, ou no modelo da ONU. A diretora Tsunade não poderia impedir um aluno de querer melhorar o currículo no último ano do ensino médio.

Uma notificação pipocou na tela do seu celular e ele segurou o aparelho entre os dedos lendo a prévia. Revirou os olhos assim que viu o remetente, mas ainda assim, expandiu a notificação e leu até o fim.

"Karin: meu primo vai dar uma festinha semana que vem e você tá me devendo uma, não esquece, Sasukezinho. É hora de acertar as contas comigo, então acho melhor você colocar a sua melhor roupa de bad-boy e fazer o seu papel certinho, ou eu te entrego."