Clarity
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Não havia nada para Shinoa que merecesse uma recordação. Até aquele dia em especial. Havia aquela nova garota chamada Mitsuba, de um olhar intrigante, diferentes de todos ali. Trabalhava dia e noite sem cessar, parando apenas quando o corpo exigia. Ela tinha olhos de que cresceria em pouco tempo. Dizia que voltou ali apenas cumprimenta-la pelo seu bom trabalho. Contudo, logo suas visitas se resumiam para conseguir trazer àquela face vários tons de carmim.
Era uma aposta imprudente, arriscada e precipitada. Para o bem ou para o mal, Mitsuba nunca se pronunciou sobre uma possível amizade entre elas, apesar disso, não afastava as palavras de Shinoa. Enquanto que as próprias palavras eram carregadas de tom artificial, Mitsuba lhe dizia o que vinha a cabeça, mesmo que por vezes pudesse soar como indelicado.
— Você não é uma garota ruim. — Mitsuba lhe tinha dito enquanto a encarava.
Passavam-se alguns meses desde que estavam juntas. Shinoa tinha deixado de calcular depois de algum tempo. “Não era necessário” Shinoa pensava, e a afirmação da namorada lhe dera ainda menos contentamento. Não pelas palavras em si, contudo, pelo que Mitsuba não tinha ideia e ela sim. Era um daqueles momentos em que seu peito se apertava, bem como seu sorriso saia mais forçado que o habitual.
— Não diria isso se soubesse o que eu gostaria de fazer com você nesse momento. — Shinoa disse, disfarçando o que realmente procurava dizer.
O que realmente “gostaria de fazer” era fugir dali junto de Mitsuba, contudo, isso não se passaria na cabeça da outra garota.
Mitsuba demorou para lhe responder, acabando por saírem do prédio em que trabalhavam. Shinoa viu como a namorada estava evitando indagar sobre o que estava errado. Mitsuba não iria pressioná-la a falar, contudo, claro que notaria quando não estava agindo normalmente. Shinoa não se decidia se ficava agradecida ou não.
Quando chegaram ao apartamento em que Mitsuba morava, ela lhe abraçou pelos ombros e disse que estava tudo bem, que ficaria tudo bem. Os lábios se tocaram com carinho. Era um contato reconfortante. Onde as palavras ainda não conseguiam chegar por vezes o corpo conseguia.
O que realmente lhe causava um amargor nos lábios, um mal-estar no coração, era algo que manteria consigo o quanto pudesse. O quanto possível evitaria no rosto dela uma expressão dolorosa, apesar de que não conseguiria evitar a sua quando o mês seguinte viesse.
Poucos tinham ideia do quanto aquele mundo era fragmentado, o quão frágil era a vida de alguém, mais do que um dia poderia ter sido. As memórias das pessoas eram tomadas sem que qualquer um tivesse controle, no tempo que apenas seu superior julgava conveniente, quando a produção estava em baixa, ou eram atrasos, ou eram mau comportamento. Simplesmente acontecia. Era a forma como aquela sociedade trabalhava.
Não demoraria para Mitsuba se tornar uma alma perdida na terra, um “deles”, vivendo sem qualquer traço de memória ou personalidade antes de ser descartada. Ela já havia passado por muitos apagões, elas já tinham repetido aquele ciclo de conquista várias vezes até chegarem ali, uma quantidade que não a deixava contente.
Shinoa era o único mal para que as coisas acabassem assim para Mitsuba, porque ela era a distração, e isso lhe gelava a espinha de medo. Essa realização a faria não ir mais para o local de trabalho de Mitsuba. Contudo, sempre chegava o dia em que, quando estava prestes a sair da sala, após a entrega de alguns documentos, Mitsuba lhe segurava a mão e dizia:
— E você... quem seria?
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