Clarity
21 Where Am I?
Notas iniciais
“I'm gonna pick up the pieces
And build a lego house
If things go wrong we can knock it down”
–Lego House, Ed Sheeran.
–Alguém atende a merda do telefone, por favor? – gritei pra ninguém em particular já que estavam todos na sal. Ninguém se mexeu. – Eu tenho que fazer tudo sozinha mesmo... Só você me ama, não é Fleur?
Mesmo assim, ninguém se mexeu. Quando Ian chegou com esse buldogue francês, esse nome foi o primeiro que veio na minha cabeça. Graças a deus que era fêmea, senão ia ser gay. Mas todo mundo odiou esse nome. Toda vez que eu brincava com ela, cada um dava um nome novo.
–Alo?
–Boa tarde, aqui é o Detetive Parrish. Poderia falar com Amy Rose Cahill, por favor?
–É ela.
–Gostaria de lhe informar que a investigação sobre o incêndio na mansão foi concluída. Constatou-se que o incêndio foi em fato culposo, mas não conseguimos prender o suspeito. A casa está pronta para uso agora. E quanto à vítima do incêndio, Senhor Alistair Oh, o corpo acabou de ser averiguado e está pronto pra o velório.
–Ah... Obrigada... Eu acho...
–Sempre um prazer ajudar. Até.
Desliguei o telefone um pouco confusa. Já tinha até me acostumado com esse hotel sendo nossa casa... Voltar para lá traria tantas lembranças que eu não queria que voltassem.
E o tio Alistair... Temos que enterrá-lo. As únicas pessoas que já enterrei na vida foram meus pais, e não foi exatamente uma experiência agradável. Só de pesar nisso as memórias daquele dia voltam à minha cabeça. Coloco o telefone no gancho e sacudo a cabeça.
Esquece isso, Amy.
Eu subo e todos continuam a não falar comigo. Tomo um banho e me visto. Enquanto coloco meu perfume novo, Fleur começou a bater na porta com a patinha e tentar entrar. Eu abri a porta e sentei no chão.
–Ei coisinha. Tudo bem? Você sabe por que ninguém está falando comigo? Eu to ficando preocupada. Eu vou ter que organizar um funeral. Um funeral. Como se faz isso de qualquer jeito? Você chega à funerária e encomenda um funeral? Eu não faço ideia.
Olha pra mim, eu estou falando com um cachorro. Levantei e desci as escadas e todos estavam ali em baixo. Decidir falar logo pra todo mundo, era mais fácil.
–A gente já pode voltar para casa e temos que planejar o funeral do Tio Alistair. Eu estou saindo para falar com a funerária e acho que vou almoçar fora. Nat cuide de Fleur pra mim, sim? Obrigada.
Não esperei a resposta e sai pela porta, fechando e pegando o carro de Ian. Dirigi até uma funerária que achei no Google, e estacionei na porta. Desci do carro e fui até a assistente.
–Olá. Eu... Bem... Meu tio morreu, e eu realmente não sei como fazer isso. Só sei escolher flores. Isso ajuda?
–Claro. A maioria das pessoas não sabe como organizar enterros o que se você pensar bem é muito bom. Você poderia me passar as informações do falecido?
***
Ao entrar na floricultura, cheirei as flores azuis. Muito doce. Isso é um enterro de um homem. As rosas. Cheiro muito forte, Tio Alistair não gostaria disso. Cheirei as laranjas. Esse é melhor. Não é muito forte, mas tem cheiro. E laranja é uma cor neura, feminina e masculina.
–Vou levar essas por favor.
– falei para a balconista da floricultura, que me olhou com um sorriso no rosto.
–Ótima escolha. É para um namorado? As rosas laranja simbolizam o entusiasmo e a paixão...
–Pensando bem, vou levar as brancas mesmo, obrigada.
Saí da loja avoada: nem escolher flores eu sei mais. Risquei flores da minha lista de afazeres de hoje e sentei num banco, no meio da pracinha. Puxei da minha bolsa uma lista com nomes de conhecidos do Tio Alistair e comecei a digitar os números.
Quando era pequena, uma colega minha da escola (cujos pais também tinham morrido) me ensinou uma técnica: você coloca pessoas em categorias diferentes. Conhecidos, amigos antigos e entes queridos. Para cada categoria você tem uma resposta diferente. Na maioria das vezes foi assim:
–Sim, realmente uma pena. O funeral de Alistair será em cinco dias, aqui mesmo em Nova York. Podemos contar com a sua presença? Maravilha, até mais.
Quando comecei a digitar um dos números da lista, fui ver o nome: era o advogado do Tio. Tinha esquecido completamente do testamento. Fiquei uns bons quinze minutos pensando antes de finalmente conseguir ligar para ele.
–Alô, senhor Eustáquio? Aqui é Amy Cahill, sobrinha do falecido Alistair Oh. Acredito que ele era seu cliente?
–Ah, sim, claro, estava prestes a te ligar. Meus pesamos. Senhor Oh modificou seu testamento pouco antes do incidente, dois meses para ser preciso. Haverá uma recepção, onde poderemos ler o testamento?
–Sim, claro. Será na nossa casa mesmo, logo após o funeral, em cinco dias. Mas quem seriam os interessados na leitura? Quero dizer, quem está no testamento?
–Estão presentes no testamento Amy e Dan Cahill, Ian e Natalie Kabra, Sinead, Reagan e Megan, Hamilton, Ned e Ted, e senhor Jonah. O resto dos integrantes faleceu, eu temo.
–Não duvido. Mas o senhor receberá um convite para o funeral e chamaremos os interessados na reunião.
–Ótimo. Te vejo em cinco dias.
–Até.
Desliguei o telefone e fiquei parada naquela posição, naquele banco, pensando. Eu estou no testamente de tio, mas não sei quase nada da vida dele. Não estive na maioria dela.
–Você é linda.
Levei um susto quando reparei que uma menininha, uns cinco anos no máximo, me encarava com o rosto muito perto do meu.
–Posso tirar uma foto com você? – perguntei para a menina. Ela era tão linda.
–Só se eu puder ficar com a foto. Vem mamãe, tira uma foto nossa!
A mãe dela se aproximou, tirando o telefone do bolso e eu puxei a menininha para o meu colo. Ela tinha um cabelo cachoado, longo e loiro. Seus olhos eram castanhos e seu rosto tinha sardinhas parecidas com a minha.
–Pronto. Desculpe pelo incômodo.
–Incomodo nenhum, ela é linda! – a menininha me deu um abraço e foi acenando enquanto sumia na esquina.
Levantei e fui até o carro e, sem muita cabeça pra dirigir, liguei o GPS e fui seguindo suas instruções. Eu já tinha visto aquela menina em algum lugar eu tenho certeza... Mas onde? Tantas meninas loirinhas por aí, talvez eu tenha me confundido...
Freei bem a tempo de quase bater numa casa branca e alta, aparentemente abandonada. Onde diabos eu estou? Abro a porta e
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