Clarity
24 Last Day And First Times
Notas iniciais
LEIAM AS NOTAS AÍ EM CIMA QUE EU SEI QUE VOCÊS PULARAM
“People always say that my music's loud
Sorry for party rocking'
Neighbors complain, say "turn it down"!
Sorry for party rockin'”
–Sorry For Party Rocking', LMFAO
San Diego, Califórnia – 26 de maio de 2016 – quarenta e oito horas antes do casamento.
Quase derrubei a garrafa de leite quente quando ouvi Dylan chorar, de novo. Era difícil ser mãe de gêmeos, mas Charlotte nunca deu muito trabalho. Era esperado que a essa idade, um mês e meio, eles só dormissem. Dylan era a prova do contrário.
Nascera saudável, com os cabelos escuros e bagunçados, pele cor de âmbar. Seria a cópia do pai se não fossem os olhos, lindos olhos verdes iguais aos meus.
Já Charlotte era o exato contrário. Tinha os cabelos ruivos, mas quase loiros de tão claros. Olhos num tom de dourado surpreendente e a pele no mesmo tom. Sempre dizem que o mais novo é sempre mais complicado, mas naquele momento, o gêmeo mais velho por cinco minutos praticamente controlava o meu dia.
Deixei o leite na mesa e subi as escadas envidraçadas que davam para o segundo andar da nossa casa em San Diego. Segui o corredor e virei à esquerda, no quarto dos gêmeos para dar de cara com Charlotte pisoteando o ursinho preferido de Dylan.
Que os céus tenham pena da minha alma.
Peguei o ursinho e devolvi ao meu menininho, cantando uma canção que quase me falhava na memória, uma canção que me era cantada por minha mãe, tanto tempo atrás. Acalmei os dois e fiz com que dormissem, bem a tempo do motorista bater na porta avisando que estava na hora do meu salão. Já sabia o que isso queria dizer, a uma altura dessas.
Quando desci encontrei todas as minhas primas lá em baixo gritando feito loucas, com garrafas de champanhe na mão.
–Amy! Bem vinda ao fim da sua vida de solteira! – gritou Sinead, me arrastando para fora e quase me jogando para dentro da limusine que nos levaria para (provavelmente) a despedida de solteira mais longa de todas as décadas.
–Para onde vocês estão me levando?
–Diretamente para dentro do paraíso, honey!
Nat gritou e me passou uma taça. Bebi um gole, dois e fui me animando junto com a música dentro do carro.
–Bem, o itinerário – disse Nat – Primeiro, vamos fazer compras e gastar todo o dinheiro do cartão do meu irmãozinho querido – e tirou um cartão com o nome de Ian da bolsa.
–Depois vamos pegar um jatinho para Paris, almoçar no melhor restaurante da cidade e partir para Ibiza! – todas comemoraram – Ficaremos lá até o amanhecer, quando partiremos para Cancun para nos divertirmos mais um pouco e, quando o dia clarear, finalmente de volta para San Diego, para os preparativos e, é claro, o casamento.
Fiquei impressionada e muito feliz com a minha escolha de madrinha. Natalie tinha preparado a despedida de solteiro perfeita, e eu realmente estava precisando.
A família de Ian havia chegado um pouco mais cedo para o casamento e já estavam me deixando loucos com todas aquelas manias esquisitas de gente velha (N/A: só pra dizer que eu AMO a Inglaterra então se eu zoo com ela é de boa fé!).
O motorista parou em frente ao Fashion Valley e descemos todas do carro, entrando no shopping. Paramos na primeira loja que vimos (curiosamente Forever 21 – nossa, nem vou levar a loja toda! -) e já entramos cada uma procurando o meu modelo.
Ao final de uma hora, os braços de todas estavam cheios de sacolas com todo o tipo de roupa, especialmente biquínis para Cancun e Ibiza. Fomos para a próxima e assim por diante até termos varrido o dinheiro do cartão do meu noivinho.
Quando entramos na limusine, recebo uma ligação. De Ian. Falo para todas calarem a boca e coloco no viva-voz.
–Oi Ian, e ai?
–E aí que eu recebo uma ligação no meio do dia do meu gerente bancário dizendo que no meu cartão só restam trezentos dólares. E eu fui checar a conta, todos os gastos em lojas de roupas femininas e em comida. Tem alguma ideia do que aconteceu?
–Eu? Não, que isso, estou indo para minha calma despedida de solteira sabe...
–Que mentiira! Ianzinho, fomos nós mesmas, acabamos com seu cartão, desculpa mesmo, mas olha a Amy tava precisando de umas roupas, tadinha! Ela não pode usar nada do que tem na França!
–Na França?
–É, nem em Ibiza. Ou em Cancun. É definitivamente não em Cancun.
–Em Ibiza? Cancun? Natalie, o que está acontecendo?
–Ah, Ian, chama-se “ter a melhor madrinha de casamento do mundo”. Faz parte, sabe? Organizar a festa de despedida de solteira, e tudo.
–Eu bem sei, mas... – começamos a ouvir uns gritos do outro lado da linha, e um som de telefone caindo ao chão – Desculpem meninas -Dan. – Ian está um pouco ocupado sendo raptado para a melhor noite da vida dele!
Ouvimos risadas e não pudemos evitar sorrir, todas imaginando o que eles teriam programado. E então um pensamento me ocorreu.
–Mas quem vai cuidar dos meus filhos?
–Não esquenta maninha. Esqueceu que a Juliet também tem um bebê? Então, a babá dela vai cuidar dos três. Não se preocupe, ela chamou mais uma para ajudar.
E desligou.
E então era isso. Aqui vamos nós, vida de solteira.
***
–Eu não sei pronunciar nada desse cardápio, praticamente. Eu sei croissants. Mas só. Como vou pedir alguma coisa aqui? – reclamou Reagan, quando sentamos no restaurante dentro da Torre Eiffel.
–Relaxa priminha, eu peço pra vocês.
Natalie chamou o garçom e deve ter pedido o cardápio inteiro, pelo tempo que demorou para o cara ir embora. Mas também, quando ele voltou trouxe a cozinha inteira com ele, por que meu deus quanta comida! Todas olhamos maravilhadas e começamos a rir.
–Nunca vamos conseguir comer isso tudo!
–Para isso servem as quentinhas, love.
Todas nós rimos mais ainda com o comentário de Sinead e começamos a comer. Sinceramente? Melhor coisa que eu já provei em toda a minha vida. Eram doces, salgados também, cada um tinha um gosto diferente.
Mas não comi muito porque o vestido não caberia se eu resolvesse enfiar o pé na jaca, logo dois dias antes do casamento.
Quando acabamos, embrulhamos tudo e saímos por Paris com as quentinhas. Toda vez que encontrávamos alguém dormindo nas ruas, ou mesmo sentado em uma mesa sozinho, oferecíamos a comida. Foi uma das melhores sensações da minha vida, ver um sorriso no rosto de cada uma daquelas pessoas.
(N/A: gente esse é um sonho meu, eu vi que encaixava e pus ok?).
Quando não tínhamos mais quentinhas para distribuir, fomos direto para o jatinho todas rezando para Ibiza chegar logo. Abrimos todas as sacolas ali mesmo, cada uma vestindo e experimentando cada modelo e todas rindo com os que não funcionavam.
No final, guardamos as roupas que não iriamos usar ainda e saímos com (basicamente) biquíni e short jeans. E, mesmo sendo numa pista de aeroporto, longe de toda a gandaia, já dava para escutar a música tocas e sentir todo mundo se divertindo.
Fomos de táxi para o hotel, e entramos na suíte máster. E meu deus.
A suíte tinha três partes: a primeira eram os quartos. Três camas de casal gigantescas acompanhadas de três banheiros completos, com banheira, parede espelhada e tudo.
A segunda parte, cozinha/lavanderia, que eram gigantes. Cinco máquinas e lavar e três de secar faziam uma fila nos fundos da cozinha e, mais para frente, balcões de mármore compunham a cozinha, junto com a geladeira inox, o fogão, uma lava-louças e uma máquina de café.
E a terceira e melhor parte, a sala de estar. Primeiro que todas as paredes eram de vidro, mas como o hotel era muito alto, ninguém conseguiria nos ver. Sofás enormes estavam espalhados num tapete gostoso de pisar e em frente via-se não só uma, mas três tevês de plasma com todos os aparelhos eletrônicos que uma teve poderia ter.
Todas soltaram a respiração ao mesmo tempo, maravilhadas e cada um foi para um canto. Eu me joguei em um dos sofás da sala e olhei a cidade abaixo, o sol brilhando e pessoas se divertindo na praia.
Deixamos as sacolas por aí e descemos para nos divertir. Fomos direto para uma festa em que o DJ era ninguém mais ninguém menos que AVICII himself. Já pegamos umas doses de tequila quando três garçons com chapéus mexicanos vieram oferecer o tratamento completo.
Basicamente, você tomava uma dose de tequila e eles balançavam sua cabeça e você tinha que correr até a pista de dança para, claro, dançar. Mas o problema: tequila é forte. E desce queimando.
Quando corri para a pista de dança, esbarrei em umas três pessoas e quase caí quando cheguei lá, começando a dançar. A música estava boa, o céu estava lindo, e estava tudo ótimo. Minhas primas chegaram três por vez, com as cabeças chacoalhadas pela tequila.
Dançamos tanto que nem reparei nas horas, só percebi que o sol estava se pondo e a pista começou a ficar vazia. Minha cabeça, dominada pelo álcool, não raciocinou aquilo como normal.
Saí por ai puxando as pessoas pelo braço e perguntando onde estavam indo, até que uma finalmente respondeu, com um sotaque australiano.
–Um lual, do outro lado da praia. Todo mundo está vindo, você deveria vir também. Te vejo lá?
–Com certeza.
Fui correndo (o mais rápido que podia, com tanto álcool no corpo) e puxei minhas primas pelo braço, falando sobre o lual. Andamos na areia durante uma boa hora até avistarmos umas tochas acesas e uma fogueira, rodeada por aquelas lanternas de papel do Enrolados. Enrolados, tem um unicórnio, não tem?
Ainda caminhamos mais uma meia hora até chegar ao tal lual, onde ao entrar recebemos um daqueles colares havaianos e eu fui direto para a comida.
–Amy, aonde você vai? Ah, comida! Vem gente, a Amy achou comida! – talvez uma Juliet bêbada não seja muito boa coisa.
Todas nós começamos a pegar das travessas, que estavam cheias de coisas como salgadinhos tipo rufles, mas algumas tinham comidas mais refinadas, tipo a travessa do camarão. A travessa do camarão tava gostosa.
Sentamos em volta da fogueira e começamos a cantar umas musiquinhas em espanhol, acompanhadas pelo Sr. Cara do Violão. Musicas as quais com certeza erramos praticamente toda a letra, porque americanas bêbadas não sabem falar espanhol.
As palminhas começaram logo depois e todos se juntaram em volta da fogueira com a gente. Eu não tinha percebido até agora, mas estava bem cansada. Depois de algumas musiquinhas mais, começamos a danças em parzinhos, menina com menina mesmo, só pra fazer uma graça.
Dançamos até o céu começar a clarear, mas daquele jeito que só tem um raio de sol no céu, lá pelas quatro da manhã.
–Vem Nat, a gente tem que ir embora. Vem, Sinead. Vocês duas também, donas moças.
Passei em cada um das minhas primas chamando-as e fomos até a beira da praia, que dava para uma rua relativamente movimentada, onde ligamos para o motorista.
Ele chegou depois de uns quinze minutos, e todas nós subimos no carro. Acho que estávamos cansadas demais para conversar, então cada uma apoiou a cabeça em um canto e adormeceu.
Algumas demoraram mais, como eu, que fiquei algum tempo ouvindo Mary cantar as músicas que tinha aprendido no dia e vendo os pés de Megan se mexerem ao ritmo da voz de Mary. Não pude deixar de rir dessa cena.
Refleti tudo o que havia passado com essas garotas, tudo o que jamais me esqueceria. Todas as aventuras, durante e depois da caça às pistas, desde a minha festa ano passado. Percebi o quanto elas tinham crescido, o quanto eu mesma havia crescido e finalmente reparei uma coisa: não viveria sem elas.
Meu braço estava preso nas garras de Natalie, então não consegui limpar do meu rosto a lágrima que escorreu. Acho que a maioria ainda estava acorda, porque quando eu falei recebi muitas respostas em murmúrios que eu guardaria para sempre comigo.
–Gente? Amo muito vocês. De verdade.
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