Clarisse
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado
Quem diz que me entende nunca quis saber
Sou desprezada, incompreendida e várias vezes descartada, como se não fizesse falta e pudesse ser facilmente substituída.
Todos os dias as pessoas me perguntam se eu estou bem, mas a verdade é que elas nunca querem saber. Para elas não importa se eu estou bem ou mal. Elas não entendem o que eu sinto e não se importam.
Aquele menino foi internado numa clínica
Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças
Dos sonhos que se configuram tristes e inertes
Como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha
Não sou como as outras pessoas. Importa-me o bem estar dos outros. Eu sempre querendo saber a causa e ajudar aqueles que estão mal. Esqueço de mim, dos meus problemas. E fico ao lado daquele menino, Aquele menino que foi internado em uma clínica. Fico ao seu lado, parada só o observando como se eu pudesse descobrir todos os seus segredos e o ajudar.
E Clarisse está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete
Deitada no canto, seus tornozelos sangram
E a dor é menor do que parece
Quando ela se corta ela se esquece
Que é impossível ter da vida calma e força
E mais uma vez eu estou aqui, no banheiro, local que se tornou o meu refúgio. Faço marcas em meu corpo, o meu pequeno canivete já está todo sujo com o meu sangue. Deitada no canto, já não há mais espaço para uma nova marca em meus tornozelos. A dor já não me incomoda, depois de um tempo é normal se acostumar com a dor. Quando estou fazendo novas marcas eu me esqueço de todos os problemas, de tudo que é impossível.
Viver em dor, o que ninguém entende
Tentar ser forte a todo e cada amanhecer
Uma de suas amigas já se foi
Quando mais uma ocorrência policial
Ninguém entende, não me olhe assim
Com este semblante de bom-samaritano
Cumprindo o seu dever, como se eu fosse doente
Como se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente
Vivo na dor, sinto-a cada e todo dia da minha vida. Ninguém entende. Tento ser forte, mas isso é uma coisa difícil quando se é abandonada várias vezes. Uma amiga ao meu lado faz falta, uma amiga para me ajudar. Ninguém entende o porquê das marcas, todos me olham com pena na rua. É como se eu fosse doente, como se eles soubessem a dor que eu sinto.
Nada existe pra mim, não tente
Você não sabe e não entende
Já não lembro que tenho sentimentos. Nada existe para mim. E não tente me entender. Você não sabe me entender, pois você não sabe o que aconteceu comigo.
E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito
Clarisse sabe que a loucura está presente
E sente a essência estranha do que é a morte
Mas esse vazio ela conhece muito bem
Os antidepressivos e calmantes já não tem mais efeito. Esse vazio que eu sinto há tanto tempo, a essência da morte ao meu redor. A loucura está presente.
De quando em quando é um novo tratamento
Mas o mundo continua sempre o mesmo
O medo de voltar pra casa à noite
Os homens que se esfregam nojentos
No caminho de ida e volta da escola
O medo de voltar para casa me consome toda noite, tento passar o máximo tempo possível longe de casa. Na rua os homens nojentos estão ao meu redor. Todos os dias no caminho que percorro na ida e volta da escola os vejo.
A falta de esperança e o tormento
De saber que nada é justo e pouco é certo
E que estamos destruindo o futuro
E que a maldade anda sempre aqui por perto
A falta de esperança que eu tenho que a minha vida pode mudar. Nada é justo nesse mundo capitalista. O futuro está sendo cada vez mais destruído. A maldade está em todos os lugares.
A violência e a injustiça que existe
Contra todas as meninas e mulheres
Um mundo onde a verdade é o avesso
E a alegria já não tem mais endereço
A violência se faz cada vez mais presente nesse mundo perdido e desgraçado. Assaltos, assassinatos ou suicídio cada vez mais presentes. Pessoas sem comida, roupa ou moradia. Animais com fome, sofrendo conseqüências de humanos sem escrúpulos.
Olha o ponto em que chegamos. Desgraça para todos os lados e a violência aumenta mais a cada dia que se passa. Seja na rua, na internet, até mesmo dentro de casa.
Talvez um mundo dentro de um quarto seja melhor, com música, sonhos e alegria.
Clarisse está trancada no seu quarto
Com seus discos e seus livros, seu cansaço
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo existir e vou voar pelo caminho mais bonito
Clarisse só tem 14 anos
E mais uma vez eu estou trancada em meu mundo, longe de todas as desgraças desse mundo perdido. Talvez mais feliz. Não completamente. A felicidade só vem com a liberdade, o que eu não tenho. Eu sou como um pássaro trancado em uma gaiola, eu não consigo cantar ou sorrir verdadeiramente, não consigo o fazer me sentindo prisioneira. Posso ter só 14 anos mas já sofri e espero que algum dia eu consiga existir e sair para o caminho mais bonito.
Notas finais
Comentários, criticas e afins são sempre bem-vindos.
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