Claraboia
8 Capítulo 7 - 11 de Setembro de 2001
Notas iniciais
Capítulo 7:
11 de Setembro de 2001
-Às 8:48hs de hoje, um avião colidiu com uma das...
-Outro! Outro!
-Jesus Cristo...
-Acabamos de receber a informação de que outro avião colidiu com a outra torre. Ambas, neste momento, estão em chamas. O presidente ainda não foi alertado da notícia. Nova York e Washington estão um caos.
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-Ray! – A porta foi esmurrada. – RAY!
Ray abriu minimamente os olhos. O relógio digital mostrava 9:10 AM, como se risse dele.
-Me diz que é brincadeira.
Os murros ficaram mais fortes, com certo desespero. Embora tivesse virado a noite e a tentação de simplesmente ignorar o chamado fosse enorme, alguma coisa gritava para que se levantasse e conferisse.
Quando abriu a porta, afastou só alguns centímetros para se esconder da luz do outro lado.
Um dos garotos da república estava lá, respirando muito rápido e com o rosto aflito. Outra peça dos veteranos?
-Olha, se não tem sangue envolvido... – nem teve tempo de ameaçar.
-Ataque terrorista! – disse e correu.
Ray não demorou tanto para processar.
-O quê?!
Obviamente, o cara não ouviu.
Imagens fluíam em sua mente enquanto pensava. Um medo congelante o invadiu da cabeça aos pés. Saiu correndo do quarto, ainda de samba-canção, desejando com todas as suas forças que fosse somente outro trote.
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Depois do barulho fenomenal, Gerard ficou paralisado na calçada, assim como muitos outros. Todos olhavam em volta, não encontrando nada de errado. Uma brincadeira de mal gosto?
Já estava atrasado para o trabalho. Apertou o passo e ao redor, as pessoas começaram a afazer o mesmo.
Poucos minutos depois, o mesmo barulho. Os gritos e comentários começaram tão de repente que não soube o que fazer. Carros pararam com freadas bruscas, pessoas correram, uma ou duas começaram a chorar.
-Terroristas! – Foi o único comentário gritado que entendeu.
Um aglomerado praticamente brotou em frente à loja de eletrônicos. Gerard tirou as mãos do bolso e correu para ver. Cabeças e mais cabeças. Empurrou algumas pessoas até alcançar um bom lugar.
Havia pelo menos dez televisões de todos os tamanhos na vitrine. Nenhuma dispunha de som, o que não fazia diferença com todos falando ao mesmo tempo. Mas todas mostravam a mesma imagem. E não havia necessidade de som para que Gerard fosse engolido por um profundo terror.
-Terroristas! – Novamente, alguém gritou.
Os choros aumentaram.
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Em outro momento teria rido do senhor Way e seu samba-canção de patinhos azuis. Teria discutido sobre sua a decoração rústica do quarto muito belo. Reparado o quanto o tapete na porta era bonitinho. Analisado a foto com os quatro Ways e outra pessoa foto moldurada no criado-mudo.
A única coisa que conseguia reparar agora era que havia fogo demais.
Donna teria caído se ele e Mikey não estivessem ali para segurá-la.
-Senhora Way... – murmurou Frank.
-Por Deus... – ela sussurrou.
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O silêncio na minúscula sala perto de tantos adolescentes era massacrado pelos gritos que vinham da tv. Todos olhavam hipnotizados para a tela e toda a fumaça subindo. Ninguém estava dando a mínima para trajes, cabelos ou rostos verdes de creme.
O que viam era aterrorizante demais.
Uma ideia perturbadora cruzou a mente de Ray. Achou sensato pronunciá-la para todos.
-Alguém aqui tem parentes em Manhattan? – perguntou.
Uma dúzia de rostos se virou para ele, quase ao mesmo tempo. Viu aquele medo que sentia refletido em todas as faces.
-Preciso usar o telefone. – disse uma garota se levantando num pulo.
Outros a seguiram.
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O bolso do sobretudo vibrou. Não havia esquecido o celular dessa vez. Tirou-o do bolso e leu 'Fofa'. Atendeu.
-Helena? – Aumentou o volume.
-Gerard, onde você está? – A aflição presente em sua voz o feriu.
-Ainda estou no centro, perto da Time Square. Está tudo bem com você?
-Sim, estou bem, fisicamente. Viu o que está acontecendo?
-Vi...
A câmera aproximou a imagem. Pontos negros caíam da fumaça numa horrenda chuva negra, chegando até o chão com velocidades assustadoras. Do fogo, onde os andares já estavam destruídos, era de onde mais surgiam pontos negros.
E eram grandes demais para serem apensa cinzas.
-Gerard? Está me ouvindo?
A imagem em nível amador se aproximou mais e a cena se tornou mais distinta.
-As... – Um sujeito tentava falar, mas ele mais abria a boca do que produzia sons. – ... eles estão... estão...
-... se jogando. – Gerard completou, ao constatar que uma mulher acabara de pular do prédio.
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-Telefone para Gerard! – gritou Donna. Ela segurou Mikey pelos ombros e o sacudiu com desespero. – Veja se ele está bem! Onde está meu filho?!
-Mãe, calma... – Mikey segurou suas mãos e as pôs longe de seus ombros. – Vou telefonar, agora fica calma.
-Querida... – Donald puxou a esposa para abraçá-la. Donna escondeu o rosto na curva de seu pescoço chorou copiosamente. – Nada aconteceu com ele.
-Quero meus filhos comigo... Aqui, comigo... Donald, e Helena? Deus...
O olhar que Donald lhe lançou foi recheado de significado.
-Meninos, descubram onde e como estão os dois. – disse seriamente. – E tragam água com açúcar para nós dois, tudo bem?
Frank acenou com a cabeça. Mikey fez o mesmo. Não esperaram outra palavra para descerem. Mikey foi para a sala, para o telefone. Frank pegou água da geladeira e encheu dois copos. Estava errando a mira. Sua mão estava tremendo.
Onde estava o açúcar?
-O telefone de Helena tá ocupado. – ouviu Mikey. – Então ela tá em casa.
Debaixo da pia, no armário. Colocou um pouco em cada copo e misturou com uma colherzinha de chá, respirando fundo, esperando calmamente todo o açúcar diluir e Mikey falar alguma coisa de novo. A tremedeira estava passando.
Mikey apareceu no batente da porta.
-Não consigo falar com Gerard. – falou com um controle ornamental.
Frank pegou mais dois copos.
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-Ok, pessoal! Se todos falarem ao mesmo tempo, não vai dá pra resolver nada! – Bateu palmas, fortemente.
Após o pedido de Ray, a turba passou a falar mais baixo e pedirem silêncio entre si. Ouviam-se gemidos e fungares constantemente, e isso era impossível de conter. Também, bem baixinho, os gritos da TV se sobressaiam, causando arrepios em todos.
-Abaixem essa televisão por agora. – pediu mais uma vez. Um garoto próximo a ela deixou o volume no zero.
Enfim, com um silêncio razoável, a “governanta”, uma pequena garota de 25 anos e com cara e voz de uma pré-adolescente, conseguiu elevar sua voz.
-Preciso da colaboração de todos a partir de agora. – ela começou com a voz trêmula. Havia vestígio de uma única lágrima em seu rosto, tão discreto quanto a tensão que ela conseguia esconder quase perfeitamente. – Temos quatro carros e duas motocicletas. Vamos avaliar aqueles que precisam mais de carona e faremos um revezamento de quem fica aqui na república.
Ray admirou o sangue frio que ela conseguia manter. Ele estava quase segurando as próprias pernas para que não tremessem diante de todos. Mal sabia como iria dirigir seu carro para levar muitos outros, tão apavorados quanto ele.
-O pentágono também foi atingido! – gritou o mesmo menino que abaixara o volume da televisão.
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Correu. Trombou com muitos que não tinham voz para brigar. Viu tantos rostos marcados pôr lágrimas que podia fazer uma coleção deles, cada um marcado a ferro em sua mente. Mas mantinha o caminho na mente e seguia sem parar.
Via a fumaça e ouvia toda a bagunça desde que saíra da loja de televisores. Agora, tão perto, sabia que não havia comparação em estar vendo por uma tela e estar ali presente.
A polícia e incontáveis carros de bombeiros já estavam ali para controlar a situação e muitos outros chegavam. Os curiosos estavam começando a serem barrados e afastados. Qualquer coisa, diria estar indo para o trabalho, o que não era ao todo uma mentira.
Helena o havia chamado para voltar logo, mas precisava ver.
E foi o que viu.
Pessoas se atirando, gritos apavorados, seu próprio coração se apertar.
Tanto sangue e tanto desespero.
Ali mesmo, em uma calçada cheia das mais variadas pessoas, Gerard caiu de joelhos, observando o fogo consumir e ruir todo o concreto.
Não tinha força para mais nada.
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-Ainda é desconhecido o número de mortos que esse incidente causou. Estimasse que 5 mil pessoas foram fisicamente afetadas somando as vítimas no recém-atingido Pentágono e nas duas torres. Nosso presidente, George Bush, ainda prefere não discursar enquanto a situação não se controlar. Enquanto isso, toda a América e grande parte do mundo choram.
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