Claraboia
5 Capítulo 4 - Aquele com mais sabedoria
Notas iniciais
Capítulo 4:
Aquele com mais sabedoria
Não bastava Helena acordar com dor nas costas. Também não bastava ter cheirado todo o seu pó sem perceber. Seu ônibus estragou em plena rodovia, um bastardo passar com o carro numa possa d'água perto da turma que esperava o próximo ônibus, ficar perdido naquela porcaria de Centro Esportivo E perdera a vitória de Mikey.
Um ótimo dia, claro.
E o baixinho do cabelo engraçado estava praticamente voando com os pés pelo corredor.
Gerard deu meia volta. Qual era o caminho mesmo?
Subiu as escadas com pressa. Quem sabe, com um pouco de sorte, não encontrava Mikey no caminho?
Pediu informação para o tal cara de branco. O sujeito o olhava como se estivesse sendo ameaçado de morte quando tentou explicar onde diabos ficava a pista de corrida, com a voz gaguejada sob as vozes de tantas pessoas que chegaram repentinamente no corredor.
Já estava começando a ficar estressado quando ouviu um chamado distante.
-Gee!
Havia uma onda de pessoas vindo pelo corredor, mas estava se tornando rarefeita. E sobre as cabeças conseguiu a vista um rosto extremamente molhado, cabelos revoltos e inconfundíveis óculos quadrados, trazendo uma medalha dourada pendurada no pescoço.
-Tá. – Acenou para o coordenador. – Obrigado por nada. Passar bem.
Correr não era seu estilo. E sim andar, de braços abertos. Mikey correu até ele, com um sorriso de genuína alegria, sendo devidamente retribuído por si.
O último abraço que dera no irmão fora no ano novo, quando foram ver juntos com Helena a bolota descer e subir do prédio na Time Square. Ele mesmo achava uma tremenda bobagem sem graça e um ótimo recurso para se perder tempo. Coincidentemente, seus pais também tinham esse conceito. Então se tornou uma boa desculpa para ficar com Mikey e a avó sem ter de dar explicações aos pais, como a cor de seus olhos.
Riu de orelha a orelha, e Mikey também se sacudia em gargalhadas nos seus braços. Deviam ser a atração do corredor: dois seres pálidos, molhados, se abraçando e rindo.
-Desculpe por chegar atrasado. – disse verdadeiramente culpado. – Eu não credito que perdi a sua vitória.
-Perdoável. – Mikey se afastou e olhou de cima a baixo. – Caiu na piscina, é?
Gerard soltou um grunhido.
-Longa história. – Afastou Mikey pelos ombros para vê-lo melhor. Ainda um magrelo, mas um magrelo com mais massa muscular que ele. E com uma fosca medalha dourada pendurada no pescoço. – Ok. Você tem mais uma medalha de ouro. Mas eu continuo sendo o mais bonito.
Mikey riu.
-Oi. – disse um completo desconhecido para si. Ele estendeu a mão para Gerard. – Sou August.
-Gabriel. – disse outro, também estendendo a mão. Gerard apertou ambas. – Você deve ser o irmão de Mikey.
-Eu mesmo. Gerard Way, prazer.
Eram um trio um tanto heterogêneo. Gabriel parecia um punk. Cabelo oxigenado arrepiado e piercing na orelha. Mas falava com a calma de um diplomata. August tinha a cara dos nerds que Gerard e Ray costumavam torrar a paciência. Nunca fora valentão. Até se tornava amigo de suas 'vítimas'. Mas não resistia a tentação de brincar com um quando via.
-Aqui, vocês são um grupo só de homens? Não gostam de um toque feminino não?
Os três riram.
-Temos sim. – respondeu Gabriel. – Vivian e Claudia. Foram guardar lugares na frente para vermos Frank.
-Elas querem ver Frank de perto. – completou August.
-Outro membro do clube do Bolinha?
-Se vê assim... – Mikey deu de ombros. – Vamo lá ver. A medalha já tá no pescoço dele, mas é legal torcer. E ele toca guitarra.
Gerard hesitou responder ao ver o sorriso de Mikey. O efeito da coca parecia estar passando e seu coração doía com uma facilidade incrível.
Só percebeu ter ficado tempo demais em silêncio quando viu o sorriso de Mikey ser substituído por uma dura expressão de compreensão.
-Pessoal... – Baixou os olhos para os próprios pés. Pareceu que uma mão estava segurando o coração de Gerard. – ... vão na frente. Já alcanço vocês.
-Mikey, você... – começou Gabriel.
-Sim. Tenho. Vão logo antes que as meninas devorem Frank.
Gerard não conseguia erguer o rosto. Nem para se despedir dos amigos do irmão. Eles hesitaram por um instante, mas passaram sem uma palavra por Gerard, seguindo pelo corredor.
Mikey esperou até que eles estivessem longe puxar Gerard pelo braço de volta para o campo de corrida. Agora se seguia a maratona de 4000 metros que levaria x tempo para acabar. Os telespectadores não pareciam muito animados em esperar e simplesmente saíam.
Foi levado para trás da arquibancada de equipamentos. Mikey não baixou os olhos e não hesitou em falar.
-De mais, de novo? – perguntou, um tanto irritado. Gerard desejou no fundo de seu âmago que o chão se abrisse sob seus pés.
-Desculpe.
Mikey balançou as mãos cansado. Observou o irmão ficar completamente desanimado, quieto, pesaroso. Mikey encostou-se na parede e colocou as mãos nos bolsos do short. Ele soltou um suspiro e ficaram em silêncio por um tempo, longo demais para Gerard.
-Gerard, o que aconteceu dessa vez?
Sem tristeza. Sem decepção. Mikey falou com uma naturalidade que o fez se sentir um monstro, por ter feito seu querido irmão se acostumar com esse seu estado.
-Nada relevante.
-Algo não-relevante não te deixaria assim.
Gerard hesitou. Mas achou que não esconder era o melhor meio de se desculpar por tudo que estava o fazendo passar.
-Ray me convidou para formarmos uma banda. Eu tenho um acordo com o bar, de que eu cantaria lá e teria coca como pagamento, mas sair significa ter de trabalhar dobrado para comprar no lugar mais barato de Nova York.
Mikey ponderou por alguns segundos.
-Não acha que um tratamento resolveria tudo?
-Mikey, você ainda não chegou na universidade. Você não faz ideia de como lá é o inferno. É minha única fonte de consolo por lá.
-E Helena?
-Eu não quero que ela se preocupe com bobagens.
-Bobagem ou não, está acabando com você.
-E o que eu faço? Revidar os apelidos? Brincadeiras? Me recusar a fazer o que me mandam?
Mikey ficou confuso.
-O quê?
Gerard coçou a cabeça. Tinha vertigem só de pensar.
-Uma loira... Dorothy... me chantageia.
-Com o que, exatamente?
-Ela sabe do... – Fez um gesto com os dedos e Mikey entendeu na hora.
-Ah. Entendi. – Ele suspirou. – Bom... Quanto à isso, eu não sei o que faria. Nem consigo te censurar. Mas, sei lá, ouvir o que os outros dizem não me parece muito você. Esqueça os outros. É sua opinião que importa, não é? Mas você tá perdendo uma oportunidade boa demais com Ray. – Mikey coçou a cabeça. – Gerard, eu odeio saber que você está se drogando. Nunca apoiei e nunca apoiarei. A minha opinião sobre isso, creio eu, está muito clara. Mas, se não quer mesmo abrir mão dessa... desse maldito vício, acho que vale a pena tentar um caminho diferente. Vai estar nos palcos, com alguém que nós dois confiamos e, pelo menos, num lugar aprovado por mim. Também acho que vai ser muito mais divertido do que ser um... empacotador, não é?
Gerard pensou nas possibilidades. Sem a droga, os sorrisos voltariam flutuando no ar, tolerar Stephany seria ainda mais difícil, corria o risco de desabar diante de Helena, os medos e ansiedades voltariam com força total, sem falar que teria de abrir mão da única sensação de paz que experimentava nos últimos anos. Não abriria mão da droga.
Mas agora queria discutir certas coisas com Ray. Ficaria a semana inteira remoendo e matutando alguma coisa para falar ao amigo. Ao menos se desculpar. E em menos de cinco minutos, seu caçula havia achado um bom meio-termo.
-Quem é o irmão mais velho aqui, hein? – perguntou com um sorriso. Mikey lhe retribuiu com um não muito animado.
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