Claraboia
6 Capítulo 5 - Possibilidades
Notas iniciais
Capítulo 5:
Possibilidades
-Eu ainda não sei como é que só encontro Ways com música envolvida. – disse Ray, pegando Mikey de surpresa.
-Ray! – Mikey sorriu e puxou Ray para um abraço. – Que boa surpresa!
-Tá falando como se estivesse falando mal de mim.
Mikey riu e se voltou para a turma sentada na mesa.
-Pessoal, este é Ray Toro, um antigo amigo meu e do meu irmão. Ray, esses são Gabriel, August, Vivian e Claudia. – Mikey apontava para cada um e eles acenavam quando anunciados. – Gabriel e Claudia são amigos só do Centro. Vivian e August são da minha escola.
-Olá, Ray. – disseram os quatro, quase ao mesmo tempo.
-Prazer em conhecê-los. – Ray sorriu. – Escutem, se importam se eu roubar Mikey por alguns minutos?
-De jeito nenhum. – respondeu Gabriel. – Só cuidado com nosso medalha de ouro.
-Pode deixar. Vem, Mikey?
Ele acenou positivamente e seguiu Ray.
A casa estava cheia, mas a maioria preferia ficar de pé diante do palco. Por isso as mesas do fundo estavam quase todas vazias.
-Desculpe não oferecer nada para beber. – explicou enquanto puxava a cadeira para se sentar. Mikey sentou no lado oposto. – Helena não me perdoaria se incentivasse você a beber. – Ray pensou melhor. – Aliás, como é que você entrou aqui?
-Você não sabe de nada, ok?
-Supondo que me responda algumas coisas com sinceridade...
-Você sabia que eu estaria aqui? – Ele ergueu uma sobrancelha, desconfiado.
Ray achou, no momento em que viu Mikey, que seria exatamente essa a sensação que passaria. Mas precisava tanto esclarecer coisas com ele que não se importou de bancar o perseguidor.
-Acredite ou não, foi coincidência. – respondeu. A turma na frente começou a aumentar. – Então, como entrou aqui?
Mikey apontou para o palco.
-Um dos membros da banda que vai tocar hoje é nosso amigo. Passagem de graça. E o que você está fazendo aqui às 5 da tarde?
-Procurando integrantes. E sou eu quem faz as perguntas aqui, esqueceu?
Dando de ombros, Mikey riu.
Ray suspirou. Percebeu que, sabe o que queria saber não resolvia o problema que seria falar. O caminho mais curto era o ir direto ao ponto.
-Gerard falou comigo sobre montarmos uma banda.
Mikey pareceu surpreso.
-Isso não deveria ser bom?
-Mikey, há quanto tempo ele usa drogas? – perguntou, olhando direto para Mikey.
O garoto ficou tenso, mas não desviou o olhar.
-Francamente, não sei. Só comecei a notar depois que ele foi para a universidade. Aparecia cada vez mais magro, algumas vezes com os olhos vermelhos, agindo estranho. Quando perguntei, ele não negou, mas não disse quando. Eu suspeito que em meados do terceiro ano.
-E ele contou o... os... motivos?
-Só descobri mês passado.
Começou a batucar a mesa, buscando as palavras certas para descrever o que Gerard era para si sem ofender Mikey. Os dois tinham a mesma mãe, então os adjetivos se limitavam.
-Mikey, ele é um drogado. Só vai causar problema.
-Só se faltar droga. Acho que, em um mês, ele já tem algum plano na manga.
-Ainda não deixa de ser um. Como espera que eu simplesmente coloque meu nome ao lado do dele, sendo que ele pode estragar nossa imagem eternamente no mundo da música?
-Até onde eu sabia¹, você era amigo dele.
Ray parou de batucar, absorvendo as palavras. Olhou abismado para Mikey.
-Garoto, quantos anos você tem para dar conselhos tão maduros?
-Bom, tenho...
-Não é pra responder.
-Você disse que eu deveria responder...
-Tá falando demais, Mikey.
Mikey riu e finalmente relaxou.
-Você é quem sabe.
Uma gritaria veio com tudo da direção do palco. Ray e Mikey viraram-se ao mesmo tempo para olhar. Três garotos haviam acabado de subir e já se ajeitavam com seus instrumentos. Todos usavam uma espécie de uniforme negro e tinham no mínimo dois piercings no rosto. O vocalista tinha uma guitarra branca pendurada no ombro enquanto acenava e piscava para a turba. Gritos femininos foram os mais ouvidos, além de declarações um pouco mais absurdas.
-Ah... – Mikey voltou a rir. – O Frank. Ele é que é meu amigo. Não tenho a menor ideia do que as garotas veem tanto nele. Ele é um porre.
Mas, em poucos segundos de avaliação, Ray viu o porquê.
Definitivamente não gostava de homens. Mas estavam na cara os atrativos do tal Frank para o sexo feminino.
Em primeiro lugar, baixinho de rosto simpático. 'Fofo', a definição perfeita. Mas os músculos que a regata mostrava não tinham nada de fofo. Os piercengs eram um acréscimo na sua imagem de bad boy, principalmente com o sorriso que o fazia lembrar estranhamente uma raposa negra. O cabelo era o sonho de qualquer playboy: liso para fazer o que quiser. O dele, no caso, gritava “PENTE!”
Frank era o perfeito exemplo da sexualidade masculina.
Ele ajustou a guitarra no ombro e se aproximou do microfone, sorrindo para o público.
-Boa tarde. – disse com a voz rouca. – Nós somos The Blood Storm².
Primeiro a introdução da bateria, então a guitarra e o baixo. O público se movia ao som da música de um rock pesado e com a pose estranha do vocalista. Ray percebeu que Frank tinha experiência em distribuir carisma ao público e também tocava muito bem para um garoto que ainda estava na High School. Até ali, estava gostando do som.
Franziu o cenho quando ele começou a cantar.
No vento da noite, junto ao luar,
O corvo chega para logo partir.
Assim como eu, ele não espera.
Pela esposa, companheiro ou a Lua.
Ele só quer aproveitar a noite.
Cutucou Mikey.
-Seu amigo, certo? – Apontou para Frank.
-Ele mesmo. – Mikey parecia estranhamente orgulhoso. – O mais novo da banda, depois dele, é três anos mais velho. Gostou?
Com a luz que ilumina esse caminho mórbido, nós caminhamos.
Caminhamos para conhecer o desconhecido.
A noite é só uma criança, por isso estamos indo.
Cercados de neblina, ouvindo o corvo crocitar.
Caminhamos para conhecer o desconhecido.³
-Diga para ele desistir do vocal. – disse, sério. O sorriso sumiu do rosto de Mikey. – Essa banda e nenhuma outra com ele sendo guitarrista irá para frente se ele também for o cantor. – Voltou a avaliar Frank. – Fora isso, ele é um excelente curinga.
Mikey piscou. Abriu e fechou a boca três vezes sem dizer nada. Fez até uma careta. Foi a vez de Ray rir.
-Se quiser, não precisa dizer. Ele vai descobrir por si só, com certeza. – deu dois soquinhos na mesa e se levantou. – Foi ótimo encontrar você aqui na biblioteca.
-Bibli... Ah, sim. Já vai?
-Vim para ver a banda do seu amigo e já sei o que queria. – Deu um tapinha em seu ombro. – Até mais, Mikey.
-Mande lembranças à Gerard.
Ray balançou a cabeça, ainda sorrindo.
-Mando sim.
~0~0~0~
Já estava começando o período chuvoso. E só foi perceber isso quando ergueu o rosto e uma gota caiu bem no seu olho. Não levava nada além da roupa do corpo, o dinheiro contado de duas passagens de ônibus e sua guitarra dentro do suporte. Se ficasse na chuva, nada de bom aconteceria.
Uma garoa começou quando visou a esquina da rua do pub. Ele tinha uma grande placa de neon, apagada, escrito Pub Valentine’s. E, logo abaixo dele, encostado no muro estava Gerard, olhando de um lado para o outro, com um copo de café na mão. Não o havia visto.
Ray esforçou-se para manter a seriedade enquanto se aproximava.
-Chegou cedo.
Gerard se virou, surpreso. Porém, repentinamente feliz.
-Fiquei ansioso e achei melhor evitar atrasos. – ele disse, surpreendentemente animado.
Quase explodiu de orgulho. Manteve a pose e se limitou a conferir o relógio. Internamente, estava pulando.
-Seguinte... Faltam dez minutos. Mas vamos ter uma conversa rápida antes que a chuva piore.
Gerard ficou surpreso.
-Ok.
-Gerard, acha... Não. Pode me dar certeza de que se entrarmos nessa banda, você não vai perder o controle? Porque, se prometer e perder mesmo assim, nunca mais falarei contigo.
Era uma seriedade que ele mesmo não estava acostumado. Gerard também pareceu surpreso com seu tom. Porém, não hesitou em acenar positivamente.
-Pode contar comigo.
“Ufa... Menos um problema.” Quase suspirou aliviado e mais uma vez quase sorriu. A situação exigia sua completa seriedade, já que não queria nenhuma sombra de dúvida quando Gerard pensasse quais seriam as consequências.
-E você não vai largar a universidade. De jeito nenhum.
Gerard franziu os lábios. Suas bochechas se incharam. Ray ergueu uma sobrancelha. Então, Gerard deu uma gargalhada.
Havia contado alguma piada ou alguém disse e ele não ouviu?
-Vou terminar meu período porque eu quero. – explicou-se, qianda rindo. – Ainda amo a arte, seu doido. Não entrei na universidade de Belas Artes só pra... sair correndo.
Finalmente, respirou aliviado. De alguma forma, confiava em Gerard. Antes de falar com Mikey, havia uma voz insistente que gritava a descrença de que Gerard conseguiria. Mas ela agora falava como se estivesse no fundo de um poço. Ele havia lhe confirmado com as próprias palavras. Agora estava feliz.
-Muito bem. – disse Ray, esfregando as mãos. – Vamo entrar que eu não quero tomar chuva.
Já tomava o caminho para as portas quando foi chamado.
-Ray?
-Oi?
Gerard tinha um sorriso singelo estampado no rosto, lhe olhando com a mais verdadeira alegria.
-Obrigado. Pelo voto de confiança.
Então ele entrou. Ray ainda ficou pouco tempo parado.
Aquela voz tão baixinha, agora já não existia mais.
O Pub Valentine só abria suas portas às 18hrs para a clientela. Às duas da tarde só havia um garoto limpando copos. Quando os viu, indicou uma escada nos fundos sem olhar nada. Desceram, sentindo o chão tremer e ouvindo uma guitarra tocando.
O chão e teto do corredor eram feitos de madeira que rangia sob seus pés. Não muito longo, só com três portas. Em uma delas havia um papel com letras escrito as pressas.
Tá ouvindo? Então fica longe, seu merda!
-Que recepção... – murmurou Gerard.
Uma nota particularmente alta fez poeira se soltar do teto. Ray e Gerard se olharam.
A guitarra parou junto com um forte som de algo caindo. Passos, gritos incompreensíveis e então a porta se escancarou. Um garoto com cabelo vermelho que lembrava muito um porco-espinho de pelúcia os encarou. Seu lábio superior tremia de raiva e vê-los parecia enfurecê-lo ainda mais.
Ele bufou e, com um a guitarra no ombro, saiu pisando duro e derrubando mais poeira do teto.
-Vocês aí!
E dentro da salinha, havia três alfineteiros ambulantes que os olhavam. Dois estavam sentados em banquinhos, o outro, o que falava, estava encostado na parede ao lado da porta, quase virando a cabeça como uma coruja para olhá-los.
-Estão aqui pro teste? – Havia tantos piercings em seu rosto que Ray quase perguntou como ele conseguia mexê-lo.
-Sim. Guitarra e vocal.
O sujeito os olhos de cima a baixo.
-Entra aí.
Entraram. Pelas expressões, Ray achou melhor não esperar uma ordem para tirar a guitarra.
-Vão tocar o quê? – perguntou o de cabelo obviamente oxigenado.
-Iron Maiden, Out of the silent planet. – respondeu Ray. Buscou o olhar de Gerard. Além de não encontrá-lo, viu o Way tenso. – Gerard?
-Tudo bem. – Ele olhou o redor. – Vocês têm microfone?
-Vai ter que ser no gogó mesmo. – disse o loiro.
Ray sorriu relaxado para Gerard. Ele sabia que ambos davam conta do recado. Havia feito pesquisas o suficiente para saber. Mas Gerard parecia não acreditar muito nisso. Por um momento, temeu algo inesperado dele.
E realmente foi algo inesperado. Gerard ficou calmo. Ele fechou os olhos, suspirou e voltou a encarar os três alfineteiros com firmeza.
“E aqui está o velho Gerard Way.”
-Vamo lá. – disse Gerard. E Ray, sorrindo, deu os primeiros acordes.
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