Clara de Neve
1 Capítulo único
Notas iniciais
- Vamos acordar princesa! – grita a minha madrasta forçando uma voz alegre ao abrir as cortinas da janela. Por um momento a claridade me cega e levanto meu cobertor até a cabeça.
- Aaaaah, não acredito! O que você tá fazendo aqui Suzana? – Adoro minha madrasta, mas detesto quando me acordam no meu cochilo da tarde. Ainda bem que ela não leva isso pro lado pessoal, na verdade, ela acha divertido me irritar nessas horas.
- Teu pai não avisou que eu chegaria mais cedo? Que homem desligado. Estou aqui porque senti muita falta do seu amor e sua gentileza querida, principalmente porque nunca vi alguém acordar cedo de bom humor, mas virar o cão quando é acordada de tarde. Isso é uma raridade, sabia?
Não consigo conter o riso. Me sento na cama e decido ser menos chata com minha “boadrasta”.
- Como foi a viagem? – Há umas duas semanas ela tinha ido passar um tempo com a irmã na capital.
- Você sabe, minha irmã é uma chaaaata. Mas isso não interessa, o que eu quero saber é se você já está namorando o seu príncipe encantado! Você me disse que iria “investir” nele durante o tempo em que eu estivesse fora, e aí?
- Ai, eu nunca deveria ter te contado sobre ele. – Pra falar a verdade nunca cheguei a trocar mais de duas palavras com o Guilherme. Sim, sou péssima nisso. – Olha, eu preciso me apressar, se ficar conversando vou me atrasar pra festa junina da escola hoje. – já vou me levantando para tentar fugir das perguntas dela.
- Iiih, já vi que não fez nenhum avanço. Tudo bem, quem sabe hoje você não consegue pelo menos conversar com ele ao invés de só dizer um “obrigada” por ele ter pegado a sua caneta do chão. – Diz ela antes que eu saia do quarto. Fico paralisada. Como ela sabe disso?!
- O, o... quê? — Dou meia volta e encaro seu rosto com espanto, mas parece que ela está prestes a cair na gargalhada.
- Eu confesso, tenho conversado com a Yasmim pelo Facebook.
- Não acredito que eu vou ter que matar a minha melhor amiga! Aaaaaaah! – Suzana começa a rir de mim, acho que ela conseguiu o efeito que queria. Isso me faz relaxar um pouco, mas não consigo evitar ficar vermelha.
- Calma, não vai ter um ADP! Vai se arrumar e não se esqueça de levar uma arma para o crime.
- Tá bom. – Me dirijo até ela e lhe dou um abraço. – Senti sua falta.
Ela coloca os braços a minha volta e me aperta.
- Eu também.
Eu realmente gosto da mina madrasta. Nunca tive uma presença feminina muito forte na minha vida desde que minha mãe morreu quando eu era pequena. Sou extremamente grata pelo fato de ela gostar de cuidar de mim e do meu pai. Mesmo que a sua diversão preferida seja me deixar envergonhada.
Tomo banho e levo um lanche pro quarto para comer enquanto me arrumo. Então lembro que essa é a minha oportunidade de fazer o Guilherme me notar. Que ótimo, agora não tenho ideia do que vestir. Alguém bate a porta do meu quarto.
- Usa aquele vestido azul, o Guilherme vai adorar – Diz a minha madrasta. É incrível a habilidade que ela tem de ler meus pensamentos. Até que não é uma má escolha, coloco o vestido e passo maquiagem, pelo menos isso eu sei fazer. Termino de me arrumar e me olho no espelho, talvez eu realmente tenha alguma chance com meu príncipe hoje.
Ao chegar à escola logo vejo a Yasmim, ela acena pra mim e vem em minha direção com um sorriso no rosto. Eu conheço essa expressão, ela tem uma novidade pra me contar.
- Branquela, você não vai acreditar em que barraca você vai ficar na festa de hoje! – Não sei por que ela tá tão feliz em falar nisso. Se eu pudesse, nem viria, mas vai contar ponto pra quem ajudar nas barracas e isso vai me ajudar a passar em Matemática.
- Por favor, diz que é uma barraca bem chata, que quase ninguém vai se dar ao trabalho de me incomodar pra comprar algo.
- Não, é o contrário. Você vai ter bastante trabalho, mas vai valer a pena por causa da pessoa que vai te ajudar.
- Deixa de enrolação e me conta logo que barraca é essa.
- Eu te coloquei pra vender maçãs do amor com o Guilherme!
- O quê?! Como assim? – Não dá pra acreditar, meu príncipe na mesma barraca que eu?!
- Sim, e vocês vão vender maçã do amor, não é romântico?!
- Ai, eu não acredito, isso não tá acontecendo! – Com certeza uma crise de pânico não era a reação que a Yasmim esperava provocar com sua notícia.
- Que é isso, Clara?! Era pra você ficar feliz!
- Feliz? Como eu posso ficar feliz? Sabe qual a probabilidade de uma pessoa desastrada como eu estragar tudo nessas circunstâncias?! A forma perfeita de a gente se conhecer é a dos filmes clichês, lembra? Com a gente se esbarrando no corredor e ele me ajudando a pegar os livros até que acidentalmente nossas mãos se tocam e trocamos olhares e nos apaixonamos instantaneamente. – Ela me encara por uns segundos mas não se contém e dá uma gargalhada.
- Ai Clara, só você mesmo. Olha só, deixa de frescura e parte pra cima. Não fica preocupada, você tá linda de Branca de Neve. É só começar a conversar com ele na barraca. Até o final da noite vocês já terão jurado amor eterno, exatamente como você imagina. – Esse sarcasmo não diminui em nada o meu nervosismo.
- Ai, eu não sei por que eu sou sua amiga, não sei por que tô falando com você! Eu estava pronta pra te dar um gelo mas não resisti à novidade que você tinha pra contar.
- Posso saber por que você queria me dar um gelo?!
- Não se faz de inocente não, a minha madrasta me contou hoje que você conta tudo da minha vida pra ela.
- Ai, me desculpa Clara! Ela só queria saber sobre você e o Guilherme e eu não resisti.
- Tá, deixa pra lá. Agora eu tenho que arrumar um jeito de não surtar na frente dele.
- Olha, só vou te dar um conselho. Tem uma turma de alunos da 1º série que tá tocando o terror, parece que os pestinhas estão dispostos a fazer esse lugar desabar, então toma cuidado.
- Ah, que ótimo! Tô muito mais tranquila agora.
- Tá bom, deixa de drama e se concentra porque você tem que ir pra essa barraca agora! Olha, o professor tá vindo.
É agora. Me dirijo à barraca de maçãs do amor e vejo meu príncipe. Não sabia que ele conseguia ficar mais lindo do que já é. Respiro fundo enquanto me aproximo e falo:
- Oi, sou eu quem vai te ajudar na barraca hoje. Eu sou a...
- Eu sei quem você é, Ana Clara, certo? Eu sou o Guilherme. – diz ele exibindo um meio sorriso perfeito. Juro que as minhas pernas já estão tremendo, mexo no meu cabelo pra disfarçar o nervosismo.
- Eu também sei quem você é. Então, vamos começar? Acho que você pode ser o caixa e eu fico com a parte mais fácil. – Ele começa a rir.
- Tudo bem. Ah, se me permite dizer, você está linda hoje. Hum, é.. quero dizer, você é linda mas hoje tá... linda. – Ai meu pai, ele tá nervoso, que lindo.
- Eu entendi, haha. Muito obrigada, você também não está mal.
- Obrigado.
Ficamos dando meios sorrisos fingindo estar preocupados com as maçãs e a caixinha de dinheiro. Não consigo acreditar que consegui começar a conversar com ele sem estragar tudo. Tenho o pressentimento de que o resto da noite vai ser ótimo. Até que vejo Suzana acompanhada do meu pai na entrada. Eles me veem e se dirigem até a minha direção.
- Calma, calma. Vai dar tudo certo. – Digo pra mim mesma.
- Você tá falando comigo? – pergunta o Guilherme.
- Ah, n-não.. é que...
- Oi querida, nós viemos! Você esqueceu o seu telefone. – Diz minha madrasta com um sorriso enorme no rosto. Os olhos do meu pai passam do Guilherme pra mim tantas vezes que quase fico tonta ao tentar acompanhar. Qualquer chance de eu me dar bem hoje foi completamente dizimada.
- É, e a festa aqui parece tão legal que acho que vamos ficar por mais um tempo. – Diz meu pai.
- A-ah, que ótimo então. Querem uma maçã do amor?
- Filha, você não vai nos apresentar o seu amigo?
- Claro. Guilherme, esse é o meu pai, Carlos e essa é a minha madrasta, Suzana. Vocês querem uma maçã do amor?
- Prazer em conhecê-los – Diz o Guilherme com um sorriso amigável.
- É um prazer, querido. Não, não queremos Clara. Só viemos lhe entregar seu celular, seu pai vai me levar ao shopping depois de darmos só mais uma olhada na festa, ok? – Ela me abraça e sussurra um “me desculpe” em meu ouvido.
- É, diz meu pai. Além do mais, não vamos atrapalhar o trabalho de vocês, tem uma fila se formando, acho que todo mundo quer maçã do amor.
Ah, que ótimo. Acabei de passar de um sufoco pra outro, são as crianças da 1º série. Mas, pra minha surpresa, eu e o Guilherme nos damos muito bem com elas, exceto por um grupo de uns sete, acho que a Yasmim se referia à eles quando me mandou tomar cuidado.
- Eca! Essa maça tá horrível! – Diz o primeiro dos baixinhos. Os outros começam a rir. – Quero meu dinheiro de volta!
- Não posso fazer isso – digo — E tenho certeza que ela está gostosa.
- Você já experimentou? – pergunta outro.
- Não, mas ninguém tinha reclamado até agora.
- Isso só quer dizer que todo mundo que comprou é idiota. – responde o mais alto, que faz os outros caírem na gargalhada.
- Não, só quer dizer que vocês é que são chatos!
- Você que é chata!
- Eu não sou chata, saiam daqui!
- Eu quero meu dinheiro de volta!
Estou prestes a perder o controle com esses pestinhas até que o Guilherme resolve interferir.
- Olha só, vamos fazer um trato. Deixa eu experimentar a sua maçã e se tiver ruim eu devolvo o seu dinheiro, que tal? – Ah, ele é tão fofo. Eu discutindo com uma criança e ele tenta ser legal. O garotinho pensa por um minuto e responde:
- Tá bom, mas eu quero que ela experimente pra ver como tá ruim.
- Ok, me dá essa maçã. – Ele me entrega e eu dou uma mordida. A aparência é ótima mas o gosto é terrível, parece que a maça tá estragada. Tento engolir e fingir que tá gostoso mas minha primeira reação é tentar cuspir aquilo, o que só me faz engasgar. Começo a tossir desesperadamente e o Guilherme me segura e começa a bater nas minhas costas. Cuspo a coisa nojenta pra longe e quando penso que não podia piorar minha visão começa a escurecer e meu corpo parece pesado demais pra eu me sustentar de pé.
Sinto uma coisa estranha, como se o ar tivesse sendo soprado em minha boca. Abro os olhos e percebo que o Guilherme está me beijando. Beijando não, fazendo respiração boca a boca. Ouço uma voz gritando e ele é empurrado pra longe de mim. Quando clareio os pensamentos percebo que quem estava gritando era meu pai.
- O que você tava fazendo com a minha filha!
- Me desculpe, ela desmaiou e eu não sabia o que fazer! – responde o Guilherme na defensiva. Me levanto e fico entre eles.
- Pai, tá tudo bem, ele não fez nada de errado. Eu desmaiei e ele tentou me ajudar.
- O quê? O que aconteceu? – Pergunta a Suzana. E eu percebo que praticamente todo mundo da festa tá olhando pra gente.
- E-eu, preciso de um médico. – Finjo que estou prestes a desmaiar de novo e rapidamente consigo fugir daquela situação. Meu pai e Suzana me levam para o hospital e depois de uns exames sou liberada.
Em casa, antes de ir pra cama minha madrasta vai no meu quarto me desejar boa noite.
- Que noite, hein? – diz ela.
- Das mais desastrosas possíveis.
- Eu juro que não queria que nada disso tivesse acontecido. Mas, que foi engraçado você não pode negar. – Ela começa a rir e eu começo a rir também. De repente estamos gargalhando juntas e minhas bochechas começam a doer. Suzana enxuga os olhos e respira fundo.
- Pode não ter sido tão ruim quanto você pensa.
- Como assim?
- Quando você tava no hospital a Yasmim ligou para o seu celular e eu atendi, ela disse que o Guilherme tava todo preocupado e não parava de perguntar sobre você.
- Ele só tá sendo fofo como sempre.
- Mas isso não é tudo. Ela deu o seu número pra ele e você acabou de receber uma mensagem do seu príncipe. – ela põe o celular em minhas mãos — Não se preocupa, eu não li. Boa noite.
Ela me dá um beijo no rosto e sai do quarto. Abro a mensagem com certo nervosismo.
“Oi Branca de Neve, aqui é o Guilherme. Você está bem? Me desculpe por hoje a noite, não era bem dessa forma que eu imaginava nosso primeiro beijo. Espero que os próximos sejam melhores, se você quiser que tenham outros. Boa noite”
Abro um sorriso que parece que nunca vai sair do meu rosto. Quem diria que engasgar podia ser a coisa mais charmosa que eu poderia ter feito essa noite. Parece que esse conto de fadas tem um final mais feliz do que o esperado.
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