Claire's Anatomy

34 Capítulo 31 – Confessions.


Notas iniciais
Meus amigos, voltei, que eu estava ficando doida! Bora ler que eu tô postando de novo! ♪♫ Brincadeiras a parte, gente, mil perdões pelo sumiço. Dessa vez eu bati meu record, fiquei uns 4 meses sem postar. Desculpem-me de verdade! Eu entendo se a maioria dos meus leitores terem me abandonado. É que esse primeiro semestre da faculdade foi uma loucura, tive que me adaptar à cidade nova, casa nova, ritmo novo, passei por um término de namoro... Enfim, loucura. Infelizmente, não posso prometer que esses sumiços não vão se repetir, ainda mais que estou com um puta bloqueio criativo. Mas, se você ainda estiver comigo, por favor, não desista! Eu vou dar meu melhor para dar continuidade à fic, porque realmente amo isso daqui. Queria aproveitar para comemorar que a fic chegou às 5000 visualizações o/ essa é minha história com mais leituras, então muuuuuito obrigada gente, essa foi uma conquista que me deixou muito feliz! Amo vocês! ♥ Sei que não estou com essa bola toda, mas queria também aproveitar para divulgar uma short fic que escrevi para o desafio do Dia dos Namorados. É da série Suits, mas é UA, então não precisa ter assistido a série para entender. Foi uma coisa bem curtinha, apenas para eu espairecer um pouco, e é focada em romance, com uma pitadinha de drama. Aqui o link, caso alguém se interesse: https://fanfiction.com.br/historia/761729/Lawve/ A música do capítulo de hoje não tem muito a ver em ritmo, mas o nome combina com o tema e o caso foi baseado na letra. Link: https://www.youtube.com/watch?v=5Sy19X0xxrM Sei que falei um monte, mas agora vamos logo para o capítulo! Boa leitura, espero que gostem.

Nós já falamos sobre a verdade. E como ela é importante, e pode impactar quando revelada. Ela pode vir à tona nos momentos mais inoportunos. Mas quase sempre acaba sendo revelada, de qualquer forma. Seja à força, ou seja por escolha própria.

Encontrava-me na cozinha, cercada de potes e talheres sujos espalhados pela pia. Minha missão daquela manhã era fazer panquecas para o café da manhã, mas aquilo parecia mais difícil do que uma cirurgia.

— Mas o que...? – questionei a mim mesma, vendo a massa não obtendo a consistência certa na frigideira – O que eu fiz de errado dessa vez? – franzi o cenho, encarando a cena, frustrada. Estiquei o pescoço para ler pela centésima vez a receita, não me lembrando de ter errado em nada.

De repente, para ajudar, meu bipe disparou, lembrando-me do que estava acontecendo aquele mês. Corri até o aparelho e olhei-o, confirmando o que já desconfiava.

— Droga! Droga! – amaldiçoei, apaguei o fogão e peguei as mamadeiras dos gêmeos, colocando na bolsa deles. Pendurei minha bolsa num ombro e a deles no outro, coloquei-os no carrinho duplo e apressei-me para fora, correndo contra o tempo.

Em alguns minutos, já estava dentro do hospital, andando rapidamente pelos corredores. Finalmente alcancei meu destino inicial, podendo respirar um pouco.

— Bom dia. Aqui estão eles, agora eu preciso ir. – afirmei ofegante à funcionária da creche do hospital, e dei meia volta logo em seguida e corri para o vestiário, me trocando o mais rápido que pude.

Disparei até a Emergência, onde havia sido bipada mais cedo. No entanto, quando cheguei lá, dei de cara com Owen Hunt, que olhou-me com ironia.

— O que temos aí? – questionei, tentando disfarçar meu atraso.

— Para você, nada. Todos os pacientes daqui já estão sendo atendidos. Devido ao seu atraso, você está livre, então poderá trabalhar sob os serviços do Dr. Roger King, que está solicitando um residente para auxiliá-lo hoje. – explicou como se não fosse nada, fazendo-me suspirar. Mais uma mancada na frente do Chefe.

— Okay, vou procura-lo. Tchau, Dr. Hunt. – forcei um sorriso.

— Tchau, Dra. Scofield. – imitou-me, deixando-me ainda mais sem jeito.

Dei as costas para ele e segui até o elevador, apertando o botão de chama-lo. Bipei meus internos enquanto esperava, e em poucos minutos já estava no andar da Obstetrícia. Sentia-me um pouco receosa em trabalhar com aquele médico, já que seu término com Rebecca ainda estava recente. Tentaria separar as coisas, mas ele deixara-me com bastante raiva de sua pessoa, e mudara totalmente a visão que eu tinha dele.

— Bom dia, Dr. King. O Chefe mandou-me para trabalhar a seus serviços hoje. – cumprimentei-o, tentando não parecer hesitante.

— Bom dia, Dra. Scofield. É um prazer tê-la como minha residente do dia. Espero que meus problemas com a Dra. Cooper não atrapalhem nosso trabalho. – pegou-me de surpresa com sua última frase, sendo mais direto do que eu imaginava.

— Não vão. – disse, não sabendo muito bem se era verdade.

— Que bom. – sorriu educadamente – Agora vamos começar. Teremos algumas consultas, alguns partos... Nada fora do comum, por enquanto.

— Infelizmente. – murmurei apenas para eu ouvir, mas falhei, recebendo um olhar feio do médico – Eu poderei fazer alguma cesárea, dessa vez? Por favor...

— Deixe-me adivinhar... Você está naquela maldita competição cirúrgica. – começou a caminhar, não parecendo muito satisfeito.

— Sim. E estou em desvantagem aqui, então preciso fazer alguma coisa que me dê pontos. Nem se for apenas suturas... – falei, praticamente implorando.

— Veremos se você vai merecer. – abriu um sorriso irônico, irritando-me um pouco. Justo eu...

Logo meus internos juntaram-se a nós, e começamos a seguir o Atendente por onde ele ia, todos entediados. Eu não podia acreditar que justo na reta final da competição, eu iria ficar naquele paradeiro da Obstetrícia. Eu até me interessava na área, mas naquele momento ela era um pesadelo. Parecia que, mais uma vez, o Universo estava conspirando para me desfavorecer.

Após várias consultas, uma chama de esperança por fim se acendeu em mim: o bipe de Roger disparou, fazendo minha mente encher-se de possibilidades do que poderia ser.

— Mulher em trabalho de parto na Emergência... Preparados? – disse o obstetra, depois de checar o aparelho. Sorriu fraco e partiu em direção ao local em que fora chamado, sendo seguido por todos nós.

Quando chegamos ao nosso destino, um médico também vestido no uniforme cor-de-rosa parou na frente de Roger, fazendo-nos brecar.

— É ela. – afirmou, olhando para o cirurgião seriamente. O mesmo arregalou os olhos, parecendo entender de quem se tratava – Ela me bipou, mas não posso ser visto perto dela aqui, então quebre esse galho para mim, por favor.

— Deixe comigo. – o homem assentiu e contornou o outro, continuando seu caminho – O que temos aqui? – perguntou, abrindo rapidamente a cortina que separava os leitos.

— Rita Casari, 22 anos, está em trabalho de parto há aproximadamente 4 horas. – respondeu uma enfermeira, enquanto King colocava as luvas.

— Você não é o Duncan. – falou a paciente, negando com a cabeça – Eu quero o Duncan.

— Srta., você sabe que ele não pode ser visto com você... Principalmente aqui. Então eu serei o seu médico hoje. – retrucou o obstetra, o mais educadamente que pôde. Puxou um banquinho e sentou-se no meio das pernas da mulher, estudando sua situação – Pouca dilatação... Teremos que esperar mais um tempo. Você deseja analgésicos?

— É claro que sim! – exclamou impaciente.

— Dê a ela Meptazinol. – ordenou a uma enfermeira, virando-se para mim logo em seguida – Mande um de seus internos ficar de olho nela, checando a dilatação de hora em hora e cronometrando as contrações.

— Okay... – voltei-me para meus internos, que pareciam todos prestes a morrer de tédio. Passei os olhos por todos eles, até parar em um – Daniel, você ouviu o Dr. King. Fique de olho nela.

O jovem bufou e revirou os olhos, puxando uma cadeira para perto da maca e sentando-se nela.

— Okay, agora o que nos resta é aguardar. De volta ao trabalho. – falou Roger, aproximando-se do interno – Se o Dr. Duncan, aquele que encontramos agora à pouco, se aproximar qualquer pouquinho daqui, ou se ela chamar por ele, não deixe que os dois fiquem perto um do outro. Impeça qualquer comunicação entre eles, okay? – sussurrou para Hughes, que assentiu, e deu as costas para a paciente, seguindo para fora dali.

— Hey! – tentei chamar sua atenção, apressando o passo para conseguir chegar ao seu lado – Você vai me explicar o que está acontecendo, ou o quê?

— É complicado... – ergueu as sobrancelhas, parecendo um pouco preocupado.

— Nada é complicado para mim. – dei de ombros, na tentativa de convencê-lo a me contar. A curiosidade estava me comendo por dentro.

— Okay, eu vou te contar, mas você vai ter que guardar segredo. Não pode contar a absolutamente ninguém. – parou e encarou-me seriamente, e eu apenas concordei com a cabeça, querendo saber logo de uma vez – Duncan costumava namorar aquela mulher. Até que ela apareceu grávida, e ele continuou sendo o obstetra dela. Mas, por motivos que ninguém compreende, ela o processou por assédio sexual, e conseguiu uma ordem de restrição contra ele. Contudo, o x da questão é que ele é casado com uma enfermeira desse hospital. Ele contou a ela sobre o caso que tinha com essa mulher, e os dois conseguiram superar. E agora ela voltou do nada, e querendo que ele seja o médico dela. – explicou, falando extremamente baixo, para que só nós dois ouvíssemos.

— Isso não faz o menor sentido! Se ela acusou-o de assédio e conseguiu até uma ordem de restrição, por que ela quer tanto tê-lo como médico? – franzi o cenho, sem entender absolutamente nada.

— Essa é a pergunta que não quer calar. Mas por favor, não se envolva nisso. Apenas faça seu trabalho e finja que não sabe de nada. – pediu, quase soando como uma ordem.

— É claro. – menti, já obviamente pensando em como descobrir o que acontecera.

— Agora temos mais o que fazer do que ficarmos fofocando sobre a vida dos outros. Vamos. – afastou-se e continuou andando, deixando-me para trás com a pulga atrás da orelha.

— Dra. Scofield, aí está a Srta. – uma voz feminina surgiu do nada, fazendo-me virar em sua direção para ver o que era. Avistei uma moça empurrando o carrinho duplo, com meus filhos acomodados nele – Eu sinto muito, mas os gêmeos estão com uma gripe muito forte, e estamos com medo de que eles possam contaminar as outras crianças da creche. Então eu peço com gentileza, em nome da creche, que você tome conta deles até estarem curados novamente. Não podemos arriscar a saúde das outras crianças, certo? – disse simpaticamente. Medi-a com o olhar e bufei, fechando os olhos por um instante. Eu obviamente já sabia da gripe das crianças, mas decidira ignorar e deixá-los na creche de qualquer forma. Agora, minhas chances de ganhar a competição eram totalmente nulas.

— Droga... – murmurei, irritada – Tudo bem, eu assumo daqui. Obrigada. – peguei o carrinho, totalmente contrariada. A funcionária apenas sorriu e assentiu, deixando-me ali com eles. De repente, a ideia mais óbvia brotou em minha cabeça, e eu abri um sorriso vitorioso, voltando meu olhar para meus outros quatro internos, que pareceram entender na hora.

— Ah, não... – falaram uníssonos, fitando-me desconfiados.

— Ah, sim... – fiz que sim com a cabeça, passando os olhos por cada um, escolhendo qual seria o melhor ou menos pior como babá – Cecelia. Você vai ter a honra de tomar conta dos meus maravilhosos filhos por hoje. – empurrei o carrinho em sua direção – Tudo o que você vai precisar está na bolsa deles. Se tiver algum problema de verdade, pode me bipar. Divirta-se. – instruí rapidamente, não dando tempo de ela dizer qualquer coisa – Agora o resto, siga-me. – afastei-me apressadamente, sendo seguida pelos outros três.

—-

A provável hora mais torturante daquele dia chegara, que era a hora do almoço. Não sabia se estava preparada para ouvir o quão bem meus colegas estavam se saindo nessa competição, enquanto eu estava em último lugar.

Coloquei minha bandeja sobre a mesa e sentei-me, começando a comer em silêncio, apenas ouvindo os três tagarelarem sobre seus casos, discutindo quem havia sido o melhor.

— Fiz 200 suturas nas últimas 12 horas. Real oficial. – afirmou Diego, com o peito estufado.

— Também, você tomou uns 200 litros de energético nas últimas 12 horas. – Anastasia revirou os olhos – Como vocês conseguem ficar tanto tempo acordados? Eu dormi tão profundamente que nem escutei meu bipe hoje de manhã. E olha que as camas desse hospital não são nada confortáveis...

— É que precisa ter garra, coisa que a patricinha aí não tem. – zombou Rebecca, rindo sarcasticamente – E você, Claire, como está?

— Prefiro não comentar para não deixá-los desanimados. – blefei, dando de ombros para tentar disfarçar.

— É claro. – Cooper ironizou – Para alguém que não está dormindo no hospital, deve estar muito bem.

— Eu tenho mais o que fazer do que acampar no hospital. – tentei manter a pose – Sem contar que eu não preciso disso para ganhar, vou descobrir um mistério médico hoje, e colocar todos vocês no chinelo com meus 80 pontos. – fingi um sorriso confiante.

— Na Obstetrícia? Boa sorte com isso. – riu-se Gomes, arrancando risadas dos outros dois.

— Não duvide de minhas capacidades. – continuei na linha de confiante, mas não pareci ser muito convincente. Respirei fundo e voltei a concentrar-me em meu almoço, ficando desapontada novamente. Parecia que as coisas nunca davam certo para mim.

Diego e Anastasia saíram poucos minutos depois, competindo para ver quem acabava primeiro, deixando-me a sós com Rebecca, que olhou-me com pena, provavelmente sabendo de tudo o que estava acontecendo.

— Está tão ruim assim? – indagou, estudando-me com o olhar.

— Se por ruim você quer dizer estar em último lugar com uma diferença gritante de pontos, sim, está tão ruim assim. – rebati, um pouco irritada – Para ajudar, os gêmeos estão gripados a creche expulsou-os de lá até que eles melhorem. Hoje eu coloquei uma interna para cuidar deles, mas não sei até quando vou poder fazer isso. Eu sei que a competição acaba hoje, mas mesmo assim, isso vai me atrapalhar muito a trabalhar.

— Se você deixá-los com sua mãe, talvez as coisas fiquem mais fáceis... – sugeriu um pouco hesitante, parecendo já saber minha desaprovação.

— Essa não é uma opção! Faz um mês que eu me mudei, não quero pedir ajuda e mostrar a ela que ela estava certa e que eu não estou dando conta de tudo sozinha. – neguei com a cabeça, totalmente contra aquela ideia.

— Você pelo menos conversou com ela depois de tudo? – questionou, franzindo o cenho.

— Não, só conversei com meu pai desde que me mudei. – respondi, sentindo-me um pouco culpada por aquilo.

— Olha, eu sei que não sou um exemplo de filha, e que não tenho muita moral para falar sobre relacionamentos mãe-filha, mas posso te dizer baseada em minha experiência, que sua mãe está sim errada por ter dito aquelas coisas a você, mas ela é uma boa mãe. Ela só precisa de um incentivo para se desculpar e você poder perdoá-la. Você é uma médica, e sabe que a vida pode mudar num piscar de olhos. Ela não vai estar aí para sempre, e você pode se arrepender de não tê-la procurado antes. Minha mãe morreu e nós nunca tivemos a chance de nos entendermos, e isso vai me assombrar pelo resto da vida. Não cometa os mesmos erros que eu. Sua mãe não é igual a minha, e tenho certeza que ela está disposta a acertar as coisas. Então mesmo que não seja para pedir a ajuda dela, ligue, visite-a, sei lá, mas converse com ela e façam as pazes, antes que seja tarde demais. – aconselhou, surpreendendo-me. Aquilo seria mais comum vindo de mim, não o contrário, e foi naquele momento que notei como minha amiga havia mudado com o decorrer daqueles poucos anos. E ela fez-me pensar em como estava minha vida naquele momento, e como alguns diálogos seriam necessários para melhorá-la.

— Obrigada, Rebecca. Eu não vou procura-la para me ajudar, mas sim para acertarmos as coisas. – assenti e sorri fraco, agradecida.

— Você é sempre a garota com os conselhos. Estava na hora de mudar um pouco. – riu levemente e levantou-se, pegando sua bandeja – Agora tenho uma competição a vencer. Vejo você por aí. – despediu-se e afastou-se, deixando-me ali sozinha.

Meus devaneios só foram interrompidos com o som de meu bipe, fazendo-me dar um pulo de susto. Olhei o aparelho e vi que era Daniel me bipando, logo pensei que fosse algum problema com a paciente, ou que ela já estava com a dilatação correta. Deixei minha bandeja no refeitório e corri para a Emergência, onde ela ainda se encontrava. Dei de cara com meu interno, que me parou antes de aproximar-me mais da paciente.

— Ela não para de chamar pelo tal de Duncan, eu não sei o que fazer. Parece que ela vai ter um taquicardia se não ver esse homem. O que devemos fazer? – falou o garoto, parecendo impaciente.

— Nós devemos acalmá-la, porque trazer esse homem aqui não é uma opção. – afirmei e cheguei mais perto da maca, onde a mulher grunhia de dor – Srta. Casari, está tudo bem, o analgésico às vezes não corta totalmente a dor. – disse, numa tentativa de acalmá-la.

— Eu quero ver o Duncan! – berrou, aparentando estar furiosa.

— Você não pode vê-lo, e sabe disso. – rebati seriamente – Como está a dilatação? – perguntei ao meu interno.

— Da última vez que chequei, estava com 6 centímetros. – respondeu, surpreendendo-me.

— Só isso? – franzi o cenho – Quanto tempo faz que você está em trabalho de parto?

— Umas 7 horas. – falou, deixando-me ainda mais perplexa. Ela pareceu ler minha expressão, ficando preocupada – Tem alguma coisa errada? Eu quero ver o Duncan!

— Ainda não tenho certeza, mas não é nada que não podemos lidar com. – dei a resposta mais vaga que pude, ignorando seu pedido – Traga-me o ultrassom. – pedi a Hughes, que moveu-se rapidamente. Pouco depois, ele trouxe-me o aparelho, então passei o gel na barriga da mulher e procedi com o exame – O que você vê, Daniel? – decidi testá-lo.

— O bebê não está posicionado corretamente... – afirmou, observando a imagem.

— Você está certo. – concordei e desliguei a máquina.

— O que isso significa? – questionou Rita, encarando-me com preocupação.

— Isso significa que temos duas opções: ou fazemos uma cesárea, ou eu tento posicionar o bebê corretamente pressionando sua barriga. Mas essa segunda dói para caramba. – expliquei, fazendo-a começar a chorar.

— Por favor, chame o Duncan... Eu não peço mais nada. – implorou, sucumbindo-se à lágrimas.

— Se você mesma pediu uma ordem de restrição contra ele, por que está tão desesperada em vê-lo?! – indaguei, não conseguindo me segurar mais.

— Porque ele é o pai desse bebê! – finalmente revelou, chocando ao meu interno e a mim – Eu disse a ele que não era dele, mas eu menti. – continuou, soluçando devido ao choro – Por favor...

— Nós temos que chama-lo logo de uma vez. – sussurrou Daniel, parecendo irritado com a situação.

— Não podemos. O cara tem uma ordem de restrição, se ele chegar perto dela, pode ir em cana, e ainda por cima sobra para nós. O Dr. King foi claro ao dizer que esses dois não podem ter contato. – retruquei, relutante quanto à minha decisão.

— O cara é o pai dessa criança! Sem contar que ela está pedindo para ele se aproximar, o que não faz muito sentido, mas pode ser usado como argumento. Eu não aguento mais essa mulher chamando ele, então ou você faz ela calar a boca, ou arruma um jeito de ele vir aqui logo. – revidou, perdendo totalmente a paciência. Ele estava certo em partes, e mesmo sabendo que aquilo era errado, meus instintos gritavam o contrário.

— Bipe o Dr. Duncan, e diga para ele vir o mais discretamente possível. – mandei, cedendo – Isso fica entre nós, ninguém mais pode saber. – abaixei a voz, e o mesmo assentiu, fazendo o que pedi.

Ficamos esperando por alguns longos minutos, nervosos pois sabíamos que estávamos prestes a quebrar uma lei. As possibilidades de aquilo dar errado ferviam em minha mente, e imaginei todos os cenários possíveis em que eu me ferrava, inclusive o que perdia minha licença médica e acabava indo parar na prisão. Pode parecer exagerado, mas como as coisas tendiam a dar errado para mim, não duvidava da probabilidade de algo assim acontecer.

— Que diabos aconteceu? – perguntou o médico, finalmente aproximando-se e fechando todas as cortinas em volta, a fim de esconder-se o máximo possível – Você sabe que não posso te ver, e tudo graças a você. Então o que você quer?

— Será que eles podem nos deixar a sós? – indagou, aparentemente desconfortável com nossa presença.

— É claro que não! Se nos pegarem sozinhos, a merda fica maior ainda. Só diga o que quer logo de uma vez e vamos acabar logo com isso! – retrucou hostilmente.

— O bebê é seu. – soltou Rita, encarando-o emocionada. Um silêncio trucidante formou-se no local, e eu não via a hora de sair correndo dali.

— Mas que porra... – xingou, e começou a caminhar de um lado para o outro no pequeno espaço que tinha, com uma mão na testa – Quando você pretendia me contar? – parou e voltou a fita-la.

— Eu não sei... – a mulher parecia estar escondendo alguma coisa, e isso ficava visível em seu rosto.

— Tem alguma coisa que você não está me dizendo. – acusou-a, com um olhar desconfiado.

— Eu não posso... – afogou-se em lágrimas novamente, deixando-nos confusos.

— Você tem carregado um filho meu por 9 meses, sendo que uns 4 desses meses eu fui seu médico, mas fui obrigado a parar depois que você me processou por assédio. Você sabe que poderia ter acabado com minha carreira, não é? E agora diz que está me escondendo mais alguma coisa que não pode contar. Inacreditável! – riu de nervoso, negando com a cabeça.

De repente, o som de uma das cortinas sendo puxada bruscamente interrompeu a conversa, e todos viraram-se assustados para ver quem era.

— Que diabos você está fazendo perto dela? – questionou uma enfermeira, parecendo possessa de raiva.

— Amanda, ela insistiu em me ver... – o homem pareceu abaixar a guarda, olhando-a com um olhar culpado.

— Ele sabe. – disse a paciente, e a recém chegada olhou-a chocada, ficando ainda mais vermelha, o que indicava que sua raiva acabara de aumentar.

— Como? – perguntou depois de fechar os olhos, com uma voz cortante.

— Eu contei. – respondeu Rita, aparentemente em um momento de coragem.

— Sua vadia imunda. – a enfermeira abriu os olhos e encarou-a, demonstrando toda a sua fúria. Em um piscar de olhos, ela partiu para cima da grávida, sendo segurada por Duncan, que moveu-se rapidamente.

— Amanda, controle-se! – exclamou, segurando-a firmemente – Como assim, eu sei? Quer dizer que você sabia que eu era o pai desse bebê? – indagou, também começando a se alterar novamente.

— É claro que eu sabia! – gritou Amanda, lutando contra os braços de quem eu deduzi ser seu marido – Quando ela te procurou para consultar, eu já desconfiei. Só precisei jogar o verde, que colhi maduro. Inclusive, descobri algumas outras verdades sobre sua querida amante. E usei-as para conseguir que ela prestasse queixa contra você, assim vocês ficariam longe um do outro por um bom tempo. – explicou, soando praticamente como uma psicopata – Mas essa filha da puta tinha que dar um jeito! Aposto que é culpa dessa desgraçada da Scofield, que mal dá conta de cuidar da própria vida, e ainda quer se meter na dos outros! – virou-se para mim, fazendo eu sentir-me ofendida – Sim, todo mundo sabe que você leva uma vida miserável, que foi pega porque estava dando para um paciente casado, que assinou um ONR da mãe da própria amiga, que é a residente que mais perdeu pacientes desde que pisou os pés nesse hospital. Tenho pena daqueles gêmeos órfãos. Aposto que seu querido Akira está se revirando no túmulo.

— Chega! – o obstetra interrompeu-a, olhando-me com pena. As palavras dela ecoavam em minha mente, levando-me a reviver momentos que eu detestava. Não pude evitar, mas senti meus olhos encherem-se de lágrimas, sentindo como se alguém havia minha apunhalado no peito – Sua louca, eu sabia que não deveria ter me casado com você. – segurou o braço da mulher com mais força.

— Você está me machucando! – reclamou, ainda tentando se livrar de seu aperto – Falando em casamento, sua namoradinha aí é especialista nisso, sabia? – abriu um sorriso vitorioso, olhando para a paciente – Ela é casada com dois caras diferente, e nenhum deles é você. Isso mesmo, ela é bígama! Você achava que me enganava, quando esse tempo todo você é que era enganado, otário! – revelou, chocando-nos ainda mais.

— Que diabos está acontecendo aqui? – questionou uma voz masculina, que logo reconheci ser a de Roger. Virei-me rapidamente para ele, e notei que havia uma multidão assistindo à cena toda, pois aquela maluca deixara a cortina arreganhada. O homem estudava-nos com um olhar de julgamento, não parecendo muito feliz – Estou eu aproveitando meu horário de almoço, quando de repente recebo um bipe dizendo que minha paciente e minha residente estão envolvidas em um barraco aqui na Emergência. Eu disse explicitamente que ele não podia chegar nem perto daqui, mas parece que ninguém segue ordens nesse hospital. – fez que não com a cabeça, encarando-nos com desaprovação – Se vocês nos derem licença... – virou-se para a plateia e fechou a cortina brutamente, virando-se para nós novamente – Como está a paciente, que é o que realmente importa aqui?

— Ela não está dilatada o suficiente, sem contar que as imagens de ultrassom mostraram que o bebê está mal posicionado. Eu aconselho cesárea. – respondi com a voz baixa, totalmente abalada.

— Então prepare-a para a cirurgia. – ordenou-me, ainda com raiva na voz – Duncan, dê o fora daqui. Você não pode ficar mais um minuto perto dessa mulher. – apontou para fora, olhando-o seriamente.

— Mas eu sou o pai dessa criança. – argumentou o médico, ficando na defensiva.

— Eu não ligo! – rebateu, erguendo o tom de voz – Saia. Agora. E você também. – voltou-se para a enfermeira, que manteve-se calada, ainda sendo segurada por seu marido.

— Isso não vai ficar assim. – Duncan soltou sua esposa e deixou o local.

— Definitivamente não vai. – Amanda ergueu as sobrancelhas, abrindo um sorrisinho sarcástico.

— Já chega! Esse assunto acaba agora. – exclamou Roger, e a mulher olhou-o assustada, também saindo dali logo em seguida – Você, tome conta dessa cirurgia, e vê se não estraga tudo dessa vez. Eu vou dar um jeito nessa situação. – encarou-me com seriedade, antes de seguir para fora, pisando duro de raiva.

— Estamos muito fodidos... – disse a paciente, com um olhar distante.

— Agora temos que focar no seu bebê. As primeiras coisas primeiro, depois resolvemos essa pilha de merda que aconteceu. – afirmei, ainda retomando a postura.

Alguns minutos depois, já estávamos prontos para a cirurgia, então convoquei uma equipe de enfermeiros para leva-la para a SO. Caminhei até as pias e comecei a lavar as mãos e braços, assim como Daniel. Os acontecimentos de mais cedo se repetiam na minha cabeça, e as palavras daquela enfermeira me deixaram uma dolorosa marca. Então era daquela forma que todos naquele hospital me viam? Como uma azarada cuja vida era miserável? E se ela sabia de meu caso com Ronan, então o resto também sabia... inclusive Erick, que não demonstrava saber.

— Dra. Scofield! – ouvi uma voz feminina me chamando, o que me tirou do transe – Eu não queria atrapalhá-la, mas não tive outra opção... Os gêmeos não param de chorar, não importa o que eu faça. Eu já levei-os na Pediatria, mas eles disseram que está tudo bem, que é só uma gripe mesmo, mas não tem o que os pare de chorar. Creio que só você, como mãe, pode resolver. – explicou Cecelia, aparentando estar desesperada.

E ali estava eu, tendo que decidir entre meus filhos e ganhar alguns pontos na competição cirúrgica. Olhei para a interna, e depois desviei os olhos para a paciente, que ainda encontrava-se consciente na mesa de cirurgia. Fiquei encarando-a por um tempo, decidindo o que fazer. Eu havia decidido pôr aquelas crianças no mundo, então teria que arcar com as consequências daquela escolha. Não podia desampara-las quando precisavam de mim, nem se isso custasse uma parte da minha carreira.

— Bipe o Dr. King ou qualquer um da Obstetrícia com urgência, e diga que eu não vou poder operar devido a uma emergência familiar. – pedi a Daniel, que concordou com a cabeça.

Deliguei a torneira e sequei-me rapidamente, jogando a toca fora no caminho. Segui a interna apressadamente, ainda com a mente na cirurgia que acabara de furar.

—-

Encontrávamos reunidos no corredor, esperando para sabermos o resultado da competição. Eu já sabia que havia perdido, provavelmente em último lugar, mas ainda queria poder ter ganho. Para variar, eu estava ficando para trás. Parecia que eu nunca me destacaria ali...

— Então, tenho aqui comigo o tão esperado resultado da competição cirúrgica da qual vocês estavam participando. – disse Richard Webber, aproximando-se de nós e arrancando olhares curiosos de todos – E o vencedor é... – fez um suspense, intercalando olhares entre nós quatro – Dr. Diego Gomes. – revelou finalmente.

— De novo?! Mas que caralho! – reclamou Rebecca, incrédula.

— Acho que já deu pra perceber quem é o melhor de nós quatro, não é... – Diego abriu um sorriso vitorioso, exibindo-se – Primeiro ganhei a primeira cirurgia, agora ganhei essa competição... Podem se curvar. – provocou, rindo-se.

— Abaixa a bola, Diego. – Anastasia revirou os olhos e cruzou os braços, parecendo decepcionada.

— Agora é hora de receber seu prêmio. – afirmou o cirurgião, tirando algo do seu bolso – Aqui está. – segurou um bipe todo coberto de pedrinhas brancas e vermelhas, muito bonito por sinal.

— Um bipe brilhante? – questionou Cooper, franzindo o cenho – Que prêmio legal, hein? – ironizou, rindo fraco.

— É um bipe cintilante. – Webber corrigiu-a – Esse é o Santo Graal da cirurgia. Passado de residente para residente, e agora pertence ao Dr. Gomes. Durante três meses, sempre que ganharem uma cirurgia, terão que bipar esse bipe e, se Diego quiser sua cirurgia, terá o direito de tirá-la de vocês.

— O que?! – Rebecca e Anastasia exclamaram juntas, parecendo não acreditarem no que estava acontecendo. Detive-me apenas a bufar, surpreendendo-me por não saber da existência daquilo.

— Desfrute o poder, Dr. Gomes. – o antigo Chefe entregou-o o aparelho – Agora parabenizem seu colega, e por favor, vão para casa. Esse hospital não aceitará mais vocês morando nele.

— Parabéns. – todas falamos uníssonas, sem disfarçar o desânimo na voz.

— Tenham uma boa noite. – o homem despediu-se e deu as costas, afastando-se.

— Chupem, perdedoras. – o jovem zombou, também seguindo seu caminho pelo corredor.

— Alguém por favor dá uma surra nesse otário... – a inglesa disse entredentes, não parecendo muito feliz.

—-

Encontrava-me deitada no centro do heliporto, olhando as estrelas e pensando no dia péssimo que tivera. Estava tão perdida em pensamentos, que nem notei quando Rebecca deitou-se ao meu lado.

— Dia ruim hoje? – perguntou, ajeitando-se ao meu lado.

— Péssimo. – respondi, com a voz cansada.

— Vamos fazer o seguinte, o que dissermos nesse heliporto hoje, não sairá daqui nunca. – sugeriu, o que me pareceu uma ótima ideia, já que eu precisava desabafar – Conte-me o que te faz se sentir uma pessoa horrível, e eu te contarei o que faz eu me sentir uma pessoa horrível. Vamos lá. Sem julgamentos.

Pensei duas vezes antes de responder, já que o que estava prestes a dizer, provavelmente seria a pior coisa que eu diria minha vida toda. Porém, estava me assombrando constantemente, e, talvez, dizendo em voz alta, eu me sentiria melhor. Respirei fundo e decidi falar logo de uma vez.

— Às vezes eu me arrependo de não ter abortado meus filhos. – confessei, sentindo um peso sair das minhas costas.

— Eu desejo todos os dias que eu que tivesse morrido naquele tiroteio, ao invés do Akira. – afirmou, ainda olhando para o céu – Talvez se eu tivesse morrido no lugar dele, hoje em dia você não sentiria vontade de ter abortado seus filhos.

— Eu não imagino minha vida sem você. Você é meu Suporte à Vida. – falei, olhando-a.

— Não seja falsa. – riu-se fraco – Se no dia anterior ao tiroteio, te mandassem escolher quem morreria, entre Akira e eu, quem você acha que escolheria? – questionou, um pouco irônica.

— Nós não nos conhecíamos muito na época. – rebati, fechando os olhos.

— Exatamente. Se eu tivesse morrido, não faria falta para ninguém... Não tenho família, namorado, filhos... Mas o Akira tinha. Era para ele estar vivo, não eu.

— Mas ele não está, então lide com isso... Vai ter que aturar a mim e minha vida bagunçada até o fim, agora. – tentei quebrar o clima tenso, e ela riu. Ficamos em silêncio por mais um tempo, até que quebrei-o – Nós somos pessoas horríveis por pensar nessas coisas? – perguntei, observando o céu.

— Bom, de acordo com minha mãe, eu vou para o inferno de qualquer jeito por me apaixonar por pessoas que têm a mesma coisa que eu no meio das pernas, então nem preciso me preocupar. – respondeu rindo, e eu a acompanhei.

Ficamos caladas por mais alguns minutos, apenas curtindo a companhia uma da outra enquanto encarávamos o céu. No entanto, o silêncio foi interrompido pelo som de meu bipe, fazendo-me estranhar. Peguei o objeto e olhei-o, vendo que Roger me chamava com urgência na Emergência.

— O que é? – perguntou Rebecca, provavelmente notando meu olhar confuso.

— Roger está me bipando com urgência. Preciso ir. Vejo você mais tarde. – levantei-me rapidamente e apressei-me até o meu destino, curiosa para saber o que estava acontecendo. Minhas perguntas foram respondidas quando dei de cara com Kathleen, que estava sendo examinada pelo obstetra.

Aproximei-me mais, ficando preocupada com a situação. Por fim, avistei Ronan, pessoa que eu não vira nem ouvira falar pelo último mês, mas era predominante em meus pensamentos. Ele estava diferente do que aparentava no hospital, e pela primeira vez eu o vi usando roupas casuais, o que o deixou ainda mais atraente.

— O que aconteceu? – indaguei, tomando coragem de falar.

— Ela estava sangrando, e eu... não sabia o que fazer. – respondeu o homem, mostrando claramente que sentia-se culpado.

— Não é sua culpa, você fez o que pôde... – sua esposa tentou confortá-lo, mas não pareceu obter muito sucesso.

Voltei meus olhos para o monitor, que mostrava as imagens de ultrassom. Logo foi possível ver o formato do bebê, no entanto, mesmo depois de algum tempo procurando, Roger não encontrou nenhum sinal de atividade cardíaca. Era oficial: Kathleen perdera o bebê.

— Diga-nos o que está acontecendo. – pediu Ronan, extremamente preocupado, mas não teve uma resposta do médico – Claire? – encarou-me com súplica no olhar, fazendo meu coração vacilar por um segundo.

— Seu bebê... – comecei a falar, sem saber como dar aquela notícia. Se fosse para qualquer outra pessoa, já seria difícil, mas para ele parecia impossível.

— O que tem de errado com nosso bebê? – questionou a mulher, arregalando os olhos.

Virei-me para Roger, pedindo ajuda com o olhar. Eu não conseguiria dar aquela notícia a eles, nem se me esforçasse muito. Provavelmente eu iria começar a chorar antes que pudesse falar.

— Seu bebê está morto. Eu sinto muito, Sr. e Sra. O’Kelleher. – o obstetra finalmente afirmou, e as expressões de tristeza misturada com choque do casal foram como uma facada em meu peito.

— Não... – murmurou a paciente, deixando as primeiras lágrimas escorrerem por seu rosto. Seu esposo deteve-se a abraça-la fortemente, olhando-me por cima do ombro dela com os olhos marejados.

De repente, senti um peso na consciência. Eu ficara tão magoada quando eles descobriram que Kathleen estava grávida, que até desejei que ela perdesse logo o bebê, ou até mesmo que a criança não fosse de Ronan. Tudo por um egoísmo da minha parte, porque queria que as coisas entre nós dessem certo. Meu desejo se tornara realidade, e eu sentia como se tudo aquilo fosse minha culpa. E, bem lá no fundo, uma chama de esperança se acendeu, mas eu tentava reprimi-la, pois aquele momento era totalmente inoportuno. Eu não podia estar minimamente feliz com aquilo, porque era muito errado. No entanto, não podia negar que, sem a criança, as chances de um relacionamento com o homem que eu infelizmente amava eram mais altas.

— Eu tenho que fazer alguns procedimentos, então vou movê-la para uma sala na Obstetrícia, depois para um quarto no qual você ficará em observação essa noite. Eu sinto muito mesmo. – disse Roger, e Ronan assentiu e soltou-a, possibilitando que ela fosse movida em sua maca – Será que você pode ficar de olho nesse homem, sem fazer nada de estúpido? – perguntou a mim, quase como um sussurro.

— É claro. Eu tomarei conta dele. – respondi e tentei esconder o carinho nessas palavras. O homem concordou com a cabeça e seguiu a maca da paciente.

— Siga-me, por favor. – chamei o marido da paciente, que acompanhou-me até um quarto que eu pedira para internar sua mulher. Adentramos o local e ficamos em silêncio por um tempo. Eu não sabia o que dizer, e tinha medo de falar alguma coisa que me comprometesse – Ronan, eu sinto muito... – decidi falar, apenas para acabar um pouco com aquele clima horrível.

— Não, você não sente. Pelo menos não sente por causa da morte do meu filho. Você sente muito por estar feliz com essa situação, já que o bebê era a única coisa no nosso caminho. – retrucou, e eu não consegui decifrar se ele estava bravo ou de certa forma flertando.

— Isso é mentira! Eu não queria que as coisas fossem assim... – neguei com a cabeça, sentindo-me ofendida.

— Bom, mas as coisas são assim, e agora não tem nada me prendendo à Kathleen. Talvez a melhor forma de lidar com isso seja arrancando o Band-Aid de uma vez e contando tudo a ela logo. – deu de ombros, ainda indecifrável.

— Eu não quero que você faça isso de forma precipitada. Agora não é o melhor momento para contar a ela sobre nós. Vocês precisam lamber as feridas um pouco. – continuei fazendo que não com a cabeça, sentindo-me totalmente inapropriada.

— Toda vez que eu olhar para ela, eu vou lembrar do nosso bebê morto! – gritou, agora fazendo-me começar a compreender seus sentimentos – E nós vamos adiar cada vez mais, tendo nosso luto como desculpa para um casamento infeliz. Isso foi a gota d’água. Nunca mais seremos os mesmos. Eles dizem que o amor pode superar qualquer coisa, mas nós não temos amor, logo não poderemos superar isso. Você me aceitando ou não, eu vou deixa-la. Amanhã, ou até mesmo hoje. Eu cansei de dar murro em faca. – desabafou, permitindo-se chorar.

Por impulso, aproximei-me dele e o abracei, tentando confortá-lo. O homem desabou em lágrimas, molhando meu jaleco. Apertei seu corpo contra o meu o máximo que pude, sentindo seu cheiro maravilhoso novamente. Eu sabia que não ia resistir ao fato de ele estar se divorciando e de não ser mais meu paciente, coisas que nos impediam de ficarmos juntos. E, de repente, estava novamente imaginando um futuro ao lado daquele homem, que me fizera sofrer tantas vezes.

— Vai ficar tudo bem... Eu aceito você. Nós ficaremos juntos. Vamos superar isso como um casal, porque como você disse, o amor supera tudo, e há amor entre nós. – falei em seu ouvido, sem pensar muito nas consequências.

— Eu te amo. – disse em voz alta, não parecendo se preocupar muito.

— O que está acontecendo? – indagou uma voz feminina, e eu empurrei o homem para longe, tentando disfarçar o que acontecera ali. Virei-me bruscamente para ver quem era, e dei de cara com Kathleen, que havia sido levada para o quarto numa cadeira de rodas.

— Não é o que você está pensando. – tentei amenizar a situação, negando com a cabeça.

— Eu ouvi, Claire. Eu ouvi o Ronan dizendo que te ama. – afirmou com rancor na voz – Eu confiava em você, Claire. Não acredito que fizeram isso...

— Kathleen, nada aconteceu entre nós. Eu juro. – aproximei-me dela, implorando com os olhos.

— Só porque vocês nunca tiveram a chance de transar, não quer dizer que não foi traição. – cortou-me, franzindo o cenho – Começou a ser traição a partir do momento que ele flertou com você e você correspondeu.

— Eu juro que não sabia que ele era casado quando tudo começou. – continuei tentando me explicar.

— Você acha que isso tira toda a sua culpa, né? Você também não sabia que ele é casado há dois minutos atrás, quando estavam se declarando aí? – ironizou, acabando com meus argumentos – Querem saber, que sejam felizes. Não quero ver os rostos de vocês nunca mais na minha vida. Agora deem o fora do meu quarto. – ordenou, apontando para fora.

— Eu sinto muito... – pedi, sentindo meus olhos encherem-se de água.

— Eu sei que não sente. Agora vá. – retrucou, ainda apontando para fora.

Suspirei e saí dali, mas fiquei observando de longe os dois dentro do quarto. Depois de alguns gritos, Ronan finalmente deixou o cômodo também, parando na porta ao me ver. Caminhou até mim lentamente, com uma expressão indecifrável.

— Acabou. Kathleen e eu terminamos. Vou pedir o divórcio. – afirmou seriamente, encarando-me com as mãos no bolso – Eu preciso de tempo.

— Eu sei. – sorri fraco e assenti – Nos veremos por aí, então.

— Nos veremos. – manteve seus olhos presos nos meus, carregados de emoções.

A verdade dói. A verdade destrói. A verdade machuca. A verdade causa impactos inimagináveis. Não posso dizer que é sempre a melhor opção, afinal, há situações que uma mentira cabe melhor do que um fato real. Por outro lado, a verdade sara, a verdade constrói, a verdade nos faz seguir em frente. Confessar uma verdade que pesa em sua consciência, é a mesma coisa que se livrar de uma âncora que te arrasta para baixo. A verdade machuca, mas também sara, e depois que cicatriza, nos deixa mais fortes e preparados para a próxima.

Respirei fundo e dei as costas a ele, seguindo pelo corredor. Adentrei o banheiro feminino e tranquei-me em um box, sentando-me no vaso sanitário. Peguei o celular e disquei o número um da discagem rápida. Esperei tocar por um tempo, até que alguém finalmente atendeu.

— Claire? — disse a voz do outro lado, parecendo surpresa.

— Oi, mãe. – cumprimentei, um pouco sem jeito – Tem janta para três pessoas aí? – abri um sorriso leve, sentindo as coisas finalmente encaixarem-se.

Notas finais
E aí, gostaram? O que acharam de todo esse rolo de caso? E vocês acham que a Claire vai aguentar se virar sozinha com esses bebês? E as coisas com o Ronan, como vocês acham que vão ficar agora? Uma curiosidade sobre esse capítulo: a cena da Claire e Rebecca no heliporto, foi uma das primeiras que eu criei na minha cabeça, e logo passei pro papel. Mesmo antes de elas se tornarem amigas, eu já tinha essa cena em específico escrita, só estava esperando a oportunidade de encaixá-la na fic. E, para mim, é uma cena preciosa, que eu amo muito. Enfim, obrigada pela leitura, e até o próximo!