Claire's Anatomy
19 Capítulo 18 – My Heart Will Go On.
Notas iniciais
Quando eu era criança, meu filme preferido era Titanic. Naquela época eu não tinha muito medo da morte, provavelmente porque eu não entendia muito bem como ela funcionava. Mas, desde aquela idade, eu já queria combater a morte. Eu não gostava do renomado filme do James Cameron apenas por causa do romance água com açúcar, eu gostava de pensar em como todas aquelas mortes poderiam ser evitadas. Como um erro às vezes pode causar uma catástrofe. E eu ficava imaginando como eu agiria naquela situação, e só consegui me ver salvando vidas. Respiração boca-a-boca, qualquer coisa. E foi uma das vezes que descobri que queria ser médica.
3 meses haviam se passado desde que eu acordara do coma. Ninguém ainda sabia ao certo como eu tinha conseguido despertar e com mínimas sequelas, e eu ainda era submetida a um milhão de exames, como se procurassem um problema em mim. Mas eu estava bem, eu me sentia bem. Apesar de não ser a mesma de antes, eu estava feliz à medida do possível.
Meus filhos já estavam com 6 meses, e, mesmo me derretendo com cada gracinha que eles faziam, eu já estava exausta. Não aguentava mais ouvir choro de criança e trocar fralda, e, para minha sorte, meus pais, os pais de Akira e até mesmo meus amigos do hospital estavam ajudando muito. Eu definitivamente não daria conta de cuidar daqueles gêmeos sozinha, e nem podia. Como eu disse, as sequelas haviam sido mínimas, mas não inexistentes. Eu tinha espasmos de vez em quando, tontura, me esquecia das coisas... Shepherd dissera que era mais do que normal, mas não deixava de ser preocupante.
— Você tem certeza de que está pronta? Não tem necessidade de voltar, eu posso ligar no hospital e dizer que não é uma boa ideia... – falou minha mãe, seguindo-me até a porta ao lado de meu pai, ambos segurando um dos gêmeos.
Hoje seria meu primeiro dia de trabalho desde o coma, e eu mal podia esperar para voltar à minha rotina normal. Aqueles meses sem praticar medicina estavam me matando, e eu sentia que estava ficando para trás. As histórias que meus amigos contavam eram a prova disso. Porém eu ainda sentia um pouco de medo, pois minhas capacidades cognitivas não pareciam mais as mesmas. Mas eu só saberia se voltasse de vez a trabalhar, então precisava pôr a cara a bater.
— Mãe, eu estou bem... Estou mais do que pronta. – afirmei, abrindo a porta e parando antes de sair – Tome conta dos meus bebês, e qualquer coisinha que tenha a ver com eles, me ligue. – voltei a me aproximar deles, arrumando a roupinha do menino, cuja gola da camiseta estava torta.
— Nós temos cuidado desses bebês por muito mais tempo que você, querida. Não se preocupe. – disse meu pai, rindo fraco – Se sentir qualquer coisa...
— ... pare e descanse um pouco. – cortei-o, revirando os olhos – Eu sei, gente, não tenho mais 10 anos. Agora eu preciso ir, Anastasia já está me esperando lá fora. Tchau, meus amores, a mamãe já está morrendo de saudades... – fiz uma voz ridícula no final da frase, dando um beijo na bochecha e uma cheirada em cada um dos bebês – Tchau para vocês também, e por favor, só me liguem se for uma emergência, não para perguntarem de 5 em 5 minutos se eu estou bem. – me despedi de meus pais também.
— Nós vamos tentar. – o homem ergueu as sobrancelhas, não parecendo muito convincente.
Saí da casa antes que eles estendessem a conversa, dando de cara com o carro impecável de Anastasia, que chamava a atenção só pelo som que fazia. Sorri e entrei no banco de trás, animadamente.
— Desculpa o atraso, gente. Vocês conhecem meus pais. – falei, ajeitando-me no banco.
— A gente perdoa, mas só porque é seu primeiro dia de volta. – a loira riu, olhando-me pelo retrovisor interno.
— Agora mete o pé nesse acelerador, e vamos logo de uma vez para esse hospital. – disse Diego, não parecendo muito feliz.
A motorista fez o que ele disse e acelerou até o hospital, e em poucos minutos estávamos no prédio. O caminho foi quieto, apenas com algumas músicas pop que tocavam no rádio para quebrarem o silêncio.
Adentramos o hospital e fomos recebidos com vários pares de olhares curiosos, e algumas pessoas ainda por cima cochichavam. Eu já não aguentava mais essa vida. Quando algum acontecimento me envolvendo era parcialmente esquecido, vinha algum outro e lá estava eu de novo, sendo a celebridade do hospital. Se ainda fosse por alguma coisa boa, eu não ligaria, mas as pessoas me olhavam com pena, o que me matava por dentro.
Seguimos ainda em silêncio pelos corredores até o vestiário dos residentes, onde as encaradas foram ainda piores: nós mal entramos e todos os presentes se viraram para nos olhar. Sorri fraco, extremamente sem graça, e fui até meu armário, tentando ao máximo ignorar os olhares. Troquei-me rapidamente e logo que acabei, os outros dois residentes se juntaram a mim.
— Com quem você está hoje? – perguntou Anastasia, enquanto saíamos do cômodo, ainda sendo observados.
— Emergência. – respondi, suspirando.
— Nossa, algo bem leve para o primeiro dia de volta. – ironizou Diego, erguendo uma sobrancelha.
— Pois é, mas eu não quero moleza... – dei de ombros.
— E você tem conversado com a Rebecca? – questionou a loira.
— Sim, o navio dela parte hoje. – afirmei, sorrindo fraco.
Desde que Meredith Grey arruinou o experimento do Alzheimer, algumas coisas mudaram, e Rebecca teve que tomar algumas decisões. Primeiramente, o pai dela e ela resolveram internar a mãe dela na mesma clínica que Ellis Grey, a mãe de Meredith, havia sido internada antes de morrer. E, depois de tentar ajudar a mulher a se adaptar à vida em sua nova “casa”, Rebecca e seu pai decidiram viajar, para colocarem o assunto em dia e descansarem um pouco a mente. Os dois estavam bem mais próximos desde então, e eu acreditava que a morena havia finalmente perdoado, no mínimo, seu pai.
— Eu espero que eles se divirtam nessa viagem, os dois andaram passando por momentos bastante difíceis nos últimos meses. – disse Lewis, e eu assenti.
— É, eu também... – suspirei e parei no meio do caminho – Eu tenho uma consulta com meu psicólogo agora, vejo vocês depois?
— Okay, claro. – falou Diego, concordando com a cabeça.
— Até mais. – Anastasia sorriu fraco.
Acenei e parti em direção ao elevador, e pouco tempo depois estava na porta do consultório de meu psicólogo. Bati na porta e esperei alguns instantes, até que o homem careca veio me atender.
— Claire! – abriu um sorriso simpático, e estendeu a mão para que eu apertasse – Entre, por favor. – deu espaço e assim o fiz, entrei na sala e esperei que ele fechasse a porta e ficasse de frente para mim – Pode se sentar, vamos começar. – assenti e sentei-me, respirando fundo enquanto aguardava suas perguntas – Então, hoje é seu primeiro dia de volta ao trabalho, como se sente?
— Aliviada. – respondi, sorrindo fraco – Não aguentava mais ficar trancada em casa, essa vida não é para mim. Não que eu não goste de ficar com meus filhos, muito pelo contrário, eu amo, é só que... eu também amo medicina, entende?
— Você não precisa escolher amar apenas um. Você pode amar ambos, e aprender a conciliar os dois na sua vida: seus filhos e seu emprego. Muitas mulheres conseguem. – afirmou, e eu assenti.
— Eu sei, vai ser difícil, mas eu estou disposta a lutar por isso.
— É bom ver que você está sólida quanto a isso. Agora me diga, como estão os espasmos?
— Eles vêm aleatoriamente, assim como os esquecimentos. Às vezes eu derrubo as coisas que estou segurando sem querer, ou esqueço que dia é. Mas logo as coisas voltam ao normal, e o Dr. Shepherd disse que é natural essas coisas acontecerem com quem acabou de acordar de um coma, e que elas podem sumir com o tempo, ou não.
— E tem como tratar esses espasmos?
— Se eles ficarem piores, eu vou acabar tendo que fazer fisioterapia. – notei um olhar um pouco estranho vindo do homem, e logo captei o que ele estava pensando – Olha, eu sei que isso pode ser uma ameaça à minha carreira como cirurgiã, tanto os espasmos quanto os apagões na mente... Mas o Derek disse que eu posso superar isso, e que por enquanto nem é muito bem uma ameaça, então estou tentando não me preocupar com isso agora. Seria só mais um problema para eu lidar, e estou tentando focar na esperança de que vai ficar tudo bem no final do dia.
— Você está certa, em sua posição, o jeito é se agarrar à esperança, afinal, depois de tudo que você passou, eu diria que você estar aqui já é um milagre.
— Eu concordo. – sorri, um pouco emocionada.
— E você lembrou de mais alguma coisa de quando estava no coma?
— Sempre as mesmas coisas, vozes aleatórias, mas não consigo me lembrar de frases exatas... – dei do ombros, negando com a cabeça.
— Entendo... E você mencionou algo sobre sua amiga Rebecca ir viajar.
— Sim, o navio dela parte hoje.
— E como você se sente quanto a isso? Quer dizer, ela esteve aqui em todos os momentos mais difíceis, e essa é a primeira vez que ela parte assim.
— Na verdade, nos últimos meses desde que eu acordei, ela não esteve mais tão presente. Eu não a culpo, afinal ela e o pai dela estavam passando por um momento muito complicado também, mas ela fez o possível para me ajudar. Eu me sinto péssima por não ter a apoiado mais nessa fase, mas é que eu estive tão embolada em meus próprios problemas, que nem dei tanta importância para os dela... Você acha que eu fui egoísta?
— Você acha?
— Não redirecione a pergunta para mim. Você pode dar sua opinião.
— Na verdade, eu não posso. Mas, dado as circunstâncias, você não podia ajuda-la, porque também estava passando por uma fase muito difícil. Você tinha acabado de acordar de um coma, e teve que se adaptar a ser mãe de gêmeos, cujo pai está morto. Acredite, ela deve compreender.
— Mas ela, mesmo com todos os problemas dela, me ajudou tanto com minha bagunça... Eu sinto como se eu tivesse o dever de apoiá-la também, mas falhei com isso.
— Ela teve uma adolescência complicada, pelo pouco que você me contou. Ela está acostumada a cuidar de si mesma e dos outros à volta dela. Sem contar que ela sente a necessidade de ser para as outras pessoas, o que a mãe dela não foi para ela. Então quando ela encontra alguém com quem ela se sente confortável, e sente que pode abaixar a guarda, ela fica superprotetora. Podendo até deixar seus problemas de lado para ajudar a essa pessoa. Então não se culpe por não ser como ela, afinal você foi criada numa família que fazia tudo por você, o que faz você tender a ser a protegida ao invés da protetora.
— Você está dizendo que eu tendo a me vitimizar? – questionei, sentindo-me um pouco insultada.
— Sinceramente, sim. E não é sua culpa, está no seu subconsciente. É por isso que Rebecca e você têm uma amizade tão boa. Ela tem o instinto de superproteção, e você tem tendência a ser a vítima.
— Não me chame de vítima, por favor. – pedi, não gostando muito do que ele dissera. Eu não me fazia de vítima!
— Eu sei que parece um insulto, mas não é. Você é uma guerreira, Claire, todos reconhecem isso.
— Obrigada.
— Então, quer falar sobre seu primeiro dia de volta? Como se sente, quais são suas expectativas...
— Eu já disse que me sinto aliviada, e estou ansiosa. Eu vou trabalhar na Emergência, então o barato vai ser grande. Mas eu estou um tanto quanto receosa também, por causa das minhas sequelas.
— Você tem que entender que, se alguma coisa não sair como você planejou para seu primeiro dia, está tudo bem, afinal você acordou de um coma, as consequências disso são inevitáveis, e todos entendem que você precisa se adaptar novamente. Não sinta vergonha de se mostrar frágil, porque não é nenhuma vergonha.
— Eu não vou sentir vergonha, afinal eu tendo a ser a vítima, não é? Sou boa em me mostrar frágil. – ironizei, e o mesmo ergueu uma sobrancelha.
— Você não vai esquecer disso tão cedo, não é?
— É claro que não. Você me chamou de vítima, agora vai sentir as consequências.
— Ainda bem que nosso tempo acabou. – olhou no relógio e levantou-se – Boa sorte em seu primeiro dia de volta.
— Obrigada. – sorri um pouco forçado e me levantei, estendendo a mão para ele.
— Desculpe eu não ter visitado as crianças ainda, é que a vida de psicólogo é meio corrida.
— Eu imagino. – falei com uma pitada de ironia – Não se preocupe quanto a isso. Eu posso apostar que eles não se importam. – brinquei e ambos rimos fraco – Vejo você semana que vem. – soltei sua mão e deixei a sala.
Caminhei para o elevador e segui até a Emergência, procurando Owen Hunt com o olhar.
— Claire! – exclamou o ruivo, surgindo de trás de mim – É bom te ver de volta. – sorriu, demonstrando compaixão – Se você se sentir cansada, tonta, ou qualquer coisa fora do normal, sinta-se à vontade para parar um pouco e respirar, okay?
— Eu sei, Dr. Hunt, obrigada pela preocupação. – tentei não parecer rude, mas é que aquele discurso estava ficando cansativo.
— Dr. Hunt, um navio afundou no Porto de Seattle, os feridos estão sendo enviados para cá. – avisou uma enfermeira, segurando o telefone.
— Um navio afundou? – questionou Owen, franzindo o cenho, aparentemente incrédulo – Preparem os leitos, tragam cobertores, mantas térmicas, kits de sutura, soro, remédios... – ordenou o homem, e a equipe começou a se mover rapidamente – Vamos esperar as ambulâncias lá fora, e bipem os residentes que estiverem livres.
Assenti e segui-o até a entrada das ambulâncias, colocando o avental amarelo no caminho. Pouco depois, alguns veículos já se aproximaram, e eu parti em direção ao primeiro, de onde saía um homem moreno deitado na maca.
— O que temos? – perguntou Owen, já próximo da ambulância comigo.
— Ronan O'Kelleher, 32, estava consciente quando o encontramos, mas desmaiou no caminho. Parece ter se afogado por um tempo. – afirmou um paramédico, e o ruivo ao meu lado assentiu, seguindo comigo e a maca para dentro.
— Batimentos estáveis. – falei, observando o monitor.
— Tragam uma manta térmica e faça um ultrassom. – ordenou o homem, e uma enfermeira foi pegar o cobertor enquanto eu fazia o exame.
— Dr. Hunt, dê uma olhada nisso. – pedi, vendo algo estranho no ultrassom.
— O quê? – questionou aproximou-se de mim, também observando as imagens – Isso não parece bom... Peça um hemograma completo e um CT abdominal.
— Isso foi por causa do naufrágio? – franzi o cenho, não vendo conexão com o que via e o acidente.
— Não, esse paciente pode estar com insuficiência renal, e isso vem de muito antes do naufrágio. – respondeu Hunt, negando com a cabeça.
Assenti e fui até uma enfermeira pedir os exames, enquanto o traumatologista voltou à entrada de ambulâncias. Foi quando ouvi os aparelhos de meu paciente dispararem, e corri até ele, já temendo o pior. Quando adentrei o local, ele estava acordado e agitado, e seus batimentos cardíacos atingiam o telhado.
— Senhor, acalme-se, por favor. – pedi, aproximando-me cautelosamente dele.
— O que aconteceu? As pessoas estão bem? – indagou com um olhar aterrorizado no rosto.
— Eu não tenho certeza de quantos feridos foram, mas ainda não houve nenhuma morte, você pode se acalmar. – respondi, tocando-o sutilmente, na tentativa de confortá-lo.
— É tudo minha culpa... – falou, encarando o nada, parecendo preocupado.
— Por que você pensa assim? – uni as sobrancelhas, sem entender muito bem.
— Eu projetei aquele navio, a culpa é minha que ele afundou. – explicou, deixando-me boquiaberta.
Antes que eu pudesse responder alguma coisa, ouvi uma voz feminina conhecida adentrando a Emergência pela porta das ambulâncias, e virei-me bruscamente para vê-la.
— Eu estou bem, eu fiquei num bote salva-vidas, está tudo bem. – afirmou Rebecca, caminhando para dentro do hospital e sendo seguida por Owen.
— Rebecca, você precisa passar por alguns exames, para termos certeza de que você está bem... – disse o ruivo, andando atrás dela.
— Eu estou bem! Ou você acha que eu vou perder a oportunidade de ajudar com os feridos de um naufrágio? – a morena riu fraco, ainda caminhando – Relaxa, Hunt, eu estou perfeitamente bem! – virou-se para trás rapidamente e seguiu para dentro, aparentemente sem notar que eu estava ali observando.
— Essa garota... – bufou o médico, negando com a cabeça.
— Aqui estão os exames. – afirmou a enfermeira, e eu até estranhei a rapidez. Peguei o papel e li rapidamente, temendo o resultado.
— Dr. Hunt, espere! – chamei-o, que já saía dali novamente – Dê uma olhada nisso. – mostrei-o o exame, e o mesmo fez uma cara preocupada.
— É quase certeza que esse cara está com insuficiência renal, vamos fazer o CT para confirmarmos e vermos se o caso é muito grave. – falou o cirurgião, e fez sinal para que os enfermeiros lavassem o paciente.
— Você acha que é grave? – questionei, preocupada.
— Só saberemos com as imagens. – respondeu, mas isso era um disfarce para "sim, eu acho que é grave".
Concordei com a cabeça e virei o rosto ao ouvir uma voz masculina que também conhecia.
— Eu estou bem... – disse o pai de Rebecca, caminhando para dentro do hospital. O mesmo estava com a testa cortada, e eu diria que estava atordoado também.
— Sr. Cooper, deixe-me ajudá-lo. – ofereci aproximando-me dele – Venha se sentar, o senhor parece um pouco tonto... Está se sentindo bem? – guiei-o até uma maca disponível, ajudando-o a se sentar.
— Eu estou bem, já disse! Só um pouco nervoso, mas está tudo bem... – respondeu o homem, e eu tratei de colocá-lo no medidor de pressão.
— Sua pressão está mais alta que o normal, vou pedir para darem um remédio para o senhor se acalmar, e terá que ficar em observação. Sem contar que terei que dar alguns pontos nessa sua testa, mas vai ser rapidinho. – expliquei e pedi um kit de sutura e um calmante para a enfermeira, que logo veio trazer.
Coloquei as luvas e preparei a anestesia na seringa, concentrada no que fazia. Quando mirei no rosto do homem, num piscar de olhos o objeto escapou de minha mão e caiu no chão, e senti minha mão trêmula, enquanto a observava assustada. Olhei para o chão e por sorte a seringa não havia quebrado, mas mesmo assim não poderia ser reutilizada. Senti-me extremamente constrangida, afinal, que tipo de cirurgiã deixa uma seringa cair de sua mão? E se tivesse acontecido quando eu estivesse dando os pontos? Só a possibilidade já me deixava arrependida além do normal.
— Você está bem? – perguntou o homem, olhando-me com uma pitada de pena. Ele sabia tudo que eu passei, então acredito que ele compreendia minha situação.
— Desculpe-me Sr. Cooper, eu deveria ter sido mais cuidadosa. Vou chamar alguém para fazer sua sutura. – desculpei-me, enquanto me levantava do banquinho no qual estava sentada.
— Não tem problema, eu sei que depois do coma, as coisas devem estar difíceis... – falou, e eu sorri tristemente, tentando parecer grata.
Saí dali e fui atrás de qualquer médico para realizar os pontos, e acabei trombando com Rebecca no caminho.
— Hey, garota... Você não deveria estar sendo atendida? – indaguei, erguendo uma sobrancelha para ela.
— Eu já disse que estou bem, que droga! – rebateu, revirando os olhos – Não consegui nenhum paciente dos bons. – bufou – E você tem visto meu pai? Eu acabei até esquecendo dele.
— Ele está logo ali, eu... – comecei a falar, mas fiquei com vergonha de admitir meu evento.
— Qual é o problema? – perguntou, parecendo começar a se preocupar.
— Eu ia dar alguns pontos na testa dele, mas tive um espasmo e deixei a seringa da anestesia cair no chão, e aqui estou, procurando alguém para suturar para mim. – expliquei, suspirando.
— Oh, Claire... Não se preocupe, eu mesma vou fazer, assim não precisamos contar a mais ninguém sobre isso. – disse, olhando-me com piedade.
— Mas ele é seu pai, não podemos tratar membros da família... – contestei, mas ela deu de ombros.
— São só alguns pontos, não tem problema.
— Leito 7. – afirmei, e a jovem seguiu até lá.
Suspirei e olhei minha mão, esticando os dedos e fechando-os, sentindo-a um pouco dormente. Fechei os olhos tristemente, mas fui interrompida por meu bipe disparando. Olhei o aparelho e descobri que o exame de meu paciente estava pronto, então segui para a sala de CT, onde Hunt já se encontrava observando as imagens.
— E então? – questionei, parando de frente para o computador.
— Diga-me o que você vê. – mandou o ruivo, apontando para a tela.
— Eu... – encarei as imagens, mas simplesmente não conseguia entender nada. Era como um borrão com algumas partes coloridas, e eu não fazia ideia do que aquilo significava. O pior é que minha mente entrou em conflito, pois eu me lembrava que eu sabia ler aqueles exames, mas naquele momento não fazia o menor sentido.
Continuei olhando para os exames e estreitei os olhos, numa tentativa obviamente inútil de forçar meu cérebro a se lembrar. Engoli em seco e olhei para Owen, abrindo a boca para falar alguma coisa, mas nada saiu, pois não fazia ideia do que falar.
— Você sabe ler uma imagem de CT, não é? – perguntou calmamente, com uma ponta irônica.
— Eu sei... quer dizer, sabia. Eu estou confusa. – admiti, voltando a olhar para as imagens, com cara de desgosto – Desculpe-me Dr. Hunt, mas simplesmente deu branco... – neguei com a cabeça, sentindo-me humilhada. Como uma médica, além de derrubar seringas, ainda não sabe ler exames?
— Está tudo bem, são só as consequências do coma. Eu tenho certeza que você sabe ler essas imagens. – afirmou o homem, num tom compreensivo – Esse exame foi conclusivo, o paciente está com insuficiência renal. Eu aconselharia abri-lo para dar uma olhada melhor, mas creio eu que ele vai entrar para a fila de transplante de rins. Vou pedir a opinião de um Cirurgião Geral, mas acho que não há nada para ser feito. – explicou, e eu concordei com a cabeça.
— Eu devo dar a notícia ao paciente, então? – desviei o olhar do monitor para o homem, um pouco melancólica.
— Sim. Depois o Cirurgião Geral ou eu irei falar sobre as opções. – respondeu, assentindo.
— Okay, você precisa de mais alguma coisa?
— Se não estiver se sentindo bem, pode dar uma parada...
— Eu estou bem, Dr. Hunt. Obrigada pela preocupação. – cortei-o – Se você não precisar de mais nada, eu vou falar com o paciente.
— Pode ir. – autorizou, suspirando e me olhando com dó.
Segurei-me para não revirar os olhos e saí dali, com vontade de socar alguma coisa. Caminhei rapidamente até a Emergência, contando até dez no caminho para tentar me acalmar. Não sei se isso funcionava com alguém, mas nunca deu certo comigo. Aproximei-me da maca do paciente e descontei a raiva puxando a cortina bruscamente, para tentar nos dar um pouco de privacidade.
— Eu fiz alguma coisa errada? – questionou o homem, e foi quando eu notei seu forte sotaque irlandês.
— Não, me desculpe, é só que eu estou tendo um dia difícil. – respondi, rindo sem graça.
— O meu também não está sendo dos melhores. – afirmou, dando um sorriso irônico e erguendo as sobrancelhas – Meu primeiro projeto de navio que consegui realmente pôr na água, afundou no primeiro embarque. – continuou, suspirando. Ele já estava devastado, e só de pensar em dá-lo mais uma notícia ruim, já me doía por dentro.
— Talvez o erro não tenha sido seu, você não deveria se culpar antes do laudo oficial sair. – falei, na tentativa de consolá-lo um pouquinho antes de soltar mais uma bomba.
— Mas o erro muito provavelmente foi meu, afinal era meu projeto... Mas não vamos falar sobre meus sonhos sendo esmagados, você veio aqui por algum motivo, certo? Não apenas para apreciar minha beleza. – disse, sorrindo malicioso no final.
Só ali eu realmente prestei atenção em sua aparência, e até perdi o fôlego por um segundo. Ele tinha a pele alva e os cabelos negros, que combinavam perfeitamente com seus olhos azuis penetrantes, que mesmo ali naquela cama de hospital e tristes, pareciam estar flertando comigo. Sem contar que a barba por fazer deixava-o com um toque ainda mais sexy, e seu corpo também não parecia nada mal, coberto ainda por suas roupas normais, que contavam com uma camisa social azul-escuro e uma calça também social, só que preta.
Depois de passar nem sei quanto tempo analisando-o, engoli em seco e respirei fundo, corando ao notar sua sobrancelha erguida, ironizando meu momento. Limpei a garganta e retomei a pose, estufando o peito para tentar disfarçar que estava até um pouco tonta.
— Infelizmente eu... não tenho boas notícias. – comecei a falar, ainda um pouco atordoada.
— Hm, pode falar, o dia já está uma droga mesmo. Vai me dizer que eu tenho câncer? – deu de ombros, rindo fraco no final da frase.
— Você está com insuficiência renal, que pode ter sido causada por diversos motivos. Seu estágio já está muito avançado, mas os cirurgiões especializados nisso irão discutir como suceder. – expliquei, seriamente. A tristeza misturada com choque em sua expressão me matou por dentro, e o mesmo fechou a cara, demorando um pouco para falar alguma coisa.
— Pelo menos não é câncer. – riu tristemente, provavelmente para disfarçar.
— É, pelo menos não é câncer. – concordei, sorrindo fraco, para talvez ajudá-lo a se confortar – Se você dissesse o que acha que causou o problema, poderia ser mais fácil para o tratamento. Algum abuso de remédios, falta de hidratação...?
— Eu andei muito estressado para a inauguração do meu navio, então eu andei tomando de tudo. Calmantes para dormir, energéticos para ficar acordado, analgésicos... – respondeu, com o olhar longe – Sem contar que eu andei sentindo alguns sintomas, mas não queria perder tempo com hospitais, afinal estava na reta final, e queria esperar pelo menos até depois da primeira viagem.
— Eu entendo, mas o senhor realmente deveria ter procurado um médico antes, seus rins parecem bem ruins agora. – afirmei, soando meio que como uma bronca – Quais foram os sintomas que você teve?
— Eu raramente urinava, senti falta de ar, falta de apetite, fiquei inchado em algumas partes do corpo, às vezes náusea... Eu achei que fosse ansiedade, mas agora vejo que não era. – explicou, suspirando.
— Os sintomas são muito facilmente confundíveis. – falei, tentando fazê-lo não se sentir culpado. Ficamos num silêncio deprimente por algum tempo, até que eu decidi quebra-lo – Eu vou pedir para movê-lo para um quarto, onde você poderá ficar mais confortável, e os médicos especialistas irão conversar com você. Mais tarde eu passo para checa-lo.
— Aye, obrigado. – sorriu agradecido, e eu acompanhei-o no sorriso, devido à expressão que ele usara. “Aye” é usado pelos europeus para dizerem “sim”, e isso combinado com seu sotaque deu um charme a mais.
Ficamos nos encarando por mais um tempo, e eu poderia jurar que rolara um clima. Senti meu rosto queimar e limpei a garganta novamente, sorrindo sem graça antes de sair dali.
Apressei-me pelo corredor, querendo deixar aquele homem maravilhoso, mas por qual eu não poderia me envolver para trás. Quando já estava relativamente longe da Emergência, parei um pouco para descansar, um pouco ofegante. Estava ficando fora de forma depois da gravidez.
Foi quando vi Rebecca aproximar-se, e notei que ela estava estranha. Seu rosto estava pálido, e ela parecia um pouco atordoada, com o olhar distante e sem rumo.
— Rebecca? – chamei, e a mesma me olhou, mas com os olhos apagados e aparentemente perdidos – Você está bem? – perguntei, chegando mais perto e franzindo o cenho. A jovem não respondeu nada, e, em questão de segundos, suas pernas cederam e seu corpo caiu, fazendo-me estender meus braços em um ato reflexo para impedi-la de atingir o chão – Alguém pode ajudar aqui?! – exclamei, e algumas enfermeiras se aproximaram – Ajudem-me a leva-la para um quarto, por favor. – pedi, e as mulheres apoiaram o corpo da moça em seus próprios.
Seguimos para um quarto vazio e eu pedi alguns exames de sangue, fazendo também alguns exames de reflexo e de tato. Concluí que não era nada de grave, ela apenas estava com a pressão baixa, talvez por exaustão, então pedi para que dessem soro e um calmante para ela.
—-
Estava sentada numa maca no corredor, enquanto comia alguns biscoitos de um pacote, e preenchia alguns prontuários. Meus pensamentos, na verdade, estavam no paciente de mais cedo. Não sei porque, mas eu sentia que havia algo diferente nele. Além de seu charme claro, ele parecia ser muito inteligente, e ter um bom coração. Okay, e ele era muito, mas muito sexy mesmo.
Amaldiçoei-me internamente, negando com a cabeça por ter pensamentos impróprios com um paciente. E eu não podia negar que sentia como se estivesse traindo Akira. Eu já havia aceitado sua morte, mas toda vez que sentia atração por qualquer outro homem, um aperto no coração vinha junto, e eu imaginava que o pai de minhas crianças estava vendo, e parecia uma traição. Por outro lado, sabia que um dia teria que seguir em frente, mesmo ainda amando Akira. Eu o amaria para sempre, mas ficar presa num sentimento que era impossível ser recíproco, era burrice. O que me confortava, era pensar que ele gostaria que eu fosse feliz, e provavelmente mandaria eu seguir logo em frente.
Meus devaneios foram interrompidos pelo som de meu bipe, que mostrava que Bailey estavam me chamando no quarto de um paciente. Logo deduzi que seria Ronan, então levantei-me da maca num pulo, estranhamente animada. Juntei os prontuários e os devolvi a uma enfermeira, enfiei o pacote de biscoitos no bolso do jaleco e segui para o quarto indicado, usando o celular como espelho para ver se estava apresentável antes de entrar no local.
— Dra. Bailey, você me bipou? – indaguei, tentando parecer o mais natural possível.
— Sim, o Dr. Hunt e eu chegamos a uma conclusão para o caso do Sr. O’Kelleher. – respondeu a cirurgiã, trocando olhares com Owen.
— Parem com o suspense, pelo amor do bom Deus. – pediu o paciente, intercalando olhares entre nós.
— Seu estágio está muito avançado, e tememos que seus rins não irão aguentar muito tempo... Nós o colocaremos já na fila do transplante, contudo gostaríamos de fazer uma laparoscopia, ou seja, uma cirurgia exploratória para termos certeza do que está acontecendo. – afirmou o ruivo calmamente, olhando-o com compaixão. O paciente ergueu as sobrancelhas e bufou, claramente aborrecido.
— Transplante de rins? – questionou, negando com a cabeça e rindo tristemente – Quanto tempo eu posso aguentar, nessa situação?
— Não podemos ter certeza, pode ser dias, meses... Mas ficaremos na cola da UNOS, e conseguiremos um rim para você o mais rápido possível. Se você quiser contatar sua família para testarmos se alguém é compatível, é uma boa opção também. – disse Miranda, olhando-o diretamente nos olhos.
— Minha família toda está na Irlanda, não vou incomodá-los por causa disso. Teremos que nos virar com o que temos aqui, mesmo. – falou o paciente.
— Tudo bem, então vamos marcar a cirurgia para amanhã, e viremos tirar suas dúvidas e explicar o procedimento. – o cirurgião assentiu e virou-se para mim – Atualize o prontuário dele, e esteja pronta para participar dessa cirurgia amanhã. Você acha que consegue?
— É claro que sim! – respondi, um pouco animada demais. Olhei com o canto do olho para o paciente, que não parecia muito feliz, então fechei o sorriso e tentei disfarçar – Eu estou pronta para voltar ao jogo.
— Que bom. – o homem concordou com a cabeça, e virou-se para o outro homem – Vejo-o amanhã. – despediu-se e saiu do quarto.
— Se estiver com qualquer problema, chame as enfermeiras, e fique à vontade. – afirmou Bailey, sorrindo fraco antes de seguir Hunt.
— Você parecia muito animada com a ideia de me cortar ao meio. – disse Ronan, quando finalmente ficamos a sós.
— Eu estou aprendendo a ser uma cirurgiã, toda cirurgia que participo é uma conquista. – falei, rindo fraco.
— Você acha que eu consigo esses rins a tempo? – perguntou, suspirando.
— Eu espero que sim. – ergui os ombros, fazendo cara de quem não fazia ideia.
— Você está preocupada com minha vida, Dra. Scofield? – sorriu maliciosamente, erguendo uma sobrancelha, deixando-me extremamente sem graça. Eu estava preocupada, e era além do normal, mas não poderia admitir.
— É claro que sim, você é meu paciente, meu trabalho é me preocupar com sua vida. – respondi, tentando disfarçar minha vergonha – Se você não precisar de mais nada, eu irei me retirar, Sr. O’Kelleher. – sorri brincalhona, pegando o prontuário como se fosse sair.
— Ronan, por favor. Você vai me ver pelado e vai ver meus órgãos, acho que podemos cortar as formalidades. – pediu, e ambos rimos fraco, me constrangendo novamente – E esse travesseiro não está na posição certa, será que você pode arrumá-lo, Claire? – ergueu uma sobrancelha, claramente inventando uma desculpa.
— Meu nome é Dra. Scofield, você não vai me ver pelada e nem meus órgãos, então vamos manter as formalidades. – rebati, ainda com um sorriso debochado no rosto. De certa forma, eu quis provoca-lo, e o mesmo olhou-me surpreso. Como eu podia estar tendo um momento daqueles com um paciente que estava extremamente doente?
Deixei o prontuário sobre a mesa portátil novamente e me aproximei de sua cabeça, e o mesmo desencostou-a do travesseiro, possibilitando que eu o mexesse, mantendo meu corpo bem perto da maca, e meus seios estavam de certa forma próximos de seu rosto.
— Assim está bom? – perguntei, olhando-o. Notei que ele encarava meu corpo com sua cara de sarcasmo, e me perguntei o que ele estava pensando.
— Ótimo. – afirmou de maneira sugestiva, deixando espaço para segundas interpretações.
— Que bom que está confortável agora. – falei e afastei-me, sorrindo vitoriosa ao ver sua cara de desapontamento – Você quer que eu contate alguém? – peguei o prontuário novamente e segurei-o contra meu peito, de forma um pouco provocativa.
O homem abriu a boca para responder, mas uma voz feminina nos interrompeu, adentrando o quarto rapidamente.
— Ronan, oh meu Deus, eu fiquei tão preocupada! Vim o mais rápido que pude, assim que fiquei sabendo! – exclamou a mulher, correndo até o homem e abraçando-o.
— E você é...? – questionei franzindo o cenho, ficando desconfiada.
— Desculpe-me a falta de educação, meu nome é Kathleen Uí Kelleher, sou a esposa do Ronan. – afirmou a mulher, estendendo a mão para que eu apertasse.
Fiquei completamente sem reação e boquiaberta, trocando olhares entre os dois. Aquilo não podia estar acontecendo.
É engraçado como um erro pode custar caro. No caso do filme, a falta de botes salva-vidas para manterem a estética do navio, a necessidade de fazer o percurso em tempo record, foram as coisas que causaram a morte de um monte de pessoas. Milhares. Às vezes um erro pode causar algo pequeno, mas que para determinada pessoa é uma catástrofe. Lidar com humanos é difícil. Nós todos erramos, e há casos que não notamos que machucamos e iludimos as pessoas à nossa volta. Mas nós o fizemos, e desculpas nem sempre são o suficiente.
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