Clãs Sombrios: o Despertar de Piedoso
3 Uma Alma Levada
Logo teria um descanso da escola. Já não agüentava mais tanta cosia. Por hora, tudo estava normal. Sedutora me olhando com os olhos de quem espera que eu saia voando de lá e o Pequeno dando em cima dela em cada segundo de cada dia. Queria estrangular aquele garoto.
No fim de semana. Fizemos uma viagem até cachoeiras, nos arredores da cidade, seguindo para o interior. Pegamos um ônibus para ir para lá. Eu não entendia como o Pequeno ainda não tinha percebido que a Sedutora não queria ficar com ele, muito menos namorá-lo, como ele queria.
No ônibus, eu deitei na última cadeira. Na minha frente, Luke e K sentavam juntos com Roberta e o Pequeno, enquanto Thaty estava na frente deles, falando com uma garota que eu não conhecia. Do nada, Sedutora levantou-se e deitou sobre mim, que estava deitado com o peito para cima, e cochichou para mim:
- Se não quiser que o seu amigo vire meu próximo lanchinho, é melhor você arranjar uma boa refeição, pois estou faminta. Afinal, tu disseste para me comportar e ainda não comi desde aquela vez – levantou-se e voltou para seu lugar.
Alguns me olhavam com curiosidade, outros me olhavam com raiva – o Pequeno, por exemplo. Fiquei lá, pensando no que faria agora. Não podia simplesmente escolher um pessoa para morrer, assim, tão cruelmente.
O ônibus parou e todos desceram do veículo, menos eu, ficando lá no meu lugar, até que ela veio. Lira – esse não é seu nome verdadeiro, mas vou usá-lo, por enquanto.
- Oi! Você vai ficar aí deitado? Vamos, nós já chegamos nesse lindo acampamento!
- Você sabe que só nos mandaram para esse lugar para poderem investigar sobre o desaparecimento daquele garoto. Como nunca irão encontrar nada, então voltaremos logo.
- Como tem tanta certeza? Sabe de alguma coisa? – perguntou ela desconfiada.
Levantei-me e fui até a porta.
- Vamos logo! Não era você que estava com pressa? Ah, falando nisso... – parei na porta do ônibus – Quem era aquela com a Thaty?
- A gente a chama de Teteca. Ai! Acho que estou pegando essa sua mania de usar apelidos. Ela é uma aluna nova lá da minha sala.
- E é a Thaty que fala com ela, e não você? Nem comento!.
Lira era da mesma série que eu, tinha cabelos longos, castanhos e presos em um coque e usava o uniforme da escola como todos os alunos. Tinha a pele branca, com algumas espinhas e seus olhos eram da mesma cor que os cabelos
Saí do ônibus ignorando qualquer coisa que ela falava. Saindo de lá, havia um superior do acampamento reunindo o pessoal. Ele usava chinelos, uma bermuda vermelha e preta, com uma regata azul. Sua pele era bronzeada e tinha cabelos pretos e olhos castanhos – sim, por aqui é normal ter cabelos e olhos escuros. Ele falava de segurança no acampamento e tudo o mais. Coitado. Provavelmente seria demitido quando um garoto sumisse misteriosamente. Bem, isso aconteceria naquele dia. Em seguida, ele indicou o caminho para uma pequena barraca, onde seria o refeitório. Patético, eu diria. Ah! Quase ia me esquecendo: o nome dele... Bem, todos o chamam de Guto.
Dentro do refeitório havia uma estante onde os alimentos estavam. Após servir-me de macarronada, fui em direção a uma mesa, quando, como por palhaçada do destino, Lira, que estava me seguindo desde o ônibus, tropeçou e caiu em cima de mim, fazendo a comida cair toda sobre minha camisa. Olhei para ela furioso enquanto ela dizia que tinha sido por acidente e pedia desculpas. Minha raiva sumiu quando senti um leve cheiro de sangue vindo de Lira: ela estava menstruada. Logo uma ideia veio em minha cabeça, um jeito de me livrar do meu problema com a Sedutora.
* * * * *
Era de noite, estava na beira da cachoeira com a vítima da Sedutora: Teteca, a garota nova, morena, com longos cabelos pretos, lábios carnudos, olhos comuns, e um corpo avantajado. Perfeito! Se Sedutora não gostasse... Bem, eu poderia me alimentar bem.
Quando Sedutora chegou e viu Teteca, fez uma cara de desaprovação. Devia estar esperando um homem, porém não fez cerimônia: agarrou a garota e a mordeu.
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- THATY... THATY... THATY... THATY!
- AH! – acordei morrendo de susto.
Que voz era aquela me chamando? Estava aterrorizada. Maldita cabana perto da cachoeira. Olhei para todos os lados, mas não encontrei nada.
- THATY...
Droga! De novo era aquela voz chamando, mas dessa vez eu percebi que vinha do lado de fora da cabana. Corri, procurando a origem da voz, parando em um rocha longe da cachoeira. Era uma voz sinistra. Pude ver o que emitia aquela voz: era um livro com capa feita de couro de animal, marrom, com um olho aberto bem no centro, olhando para mim fixamente.
- THATY! THATY! FINALMENTE VOCÊ VEIO ATÉ MIM!
- Quem é você, e o que quer comigo?
- CHAMO-ME ARCANO. SOU UM LIVRO CAPAZ DE REALIZAR QUALQUER DESEJO PELO PREÇO DE APENAS ALGUMAS ALMAS ROUBADAS. POSSO ATÉ DAR-LHE PODER PARA VINGAR-SE DO SEU EX-NAMORADO!
- Se você é tão poderoso, por que precisa de mim?
- ORA, MINHA JOVEM, SOU DE UMA MAGIA MUITO ANTIGA E MAGIAS ANTIGAS SEMPRE TÊM REGRAS PODEROSAS. NÃO POSSO AGIR DIRETAMENTE, APENAS COM A AJUDA DE UMA SERVA DE BOM GRADO.
- Hum... Então, você vai me dar poder para matar meu ex-namorado?
- SIM.
- E só tenho que roubar algumas almas para você, enquanto sigo suas ordens cegamente?
- ENTENDEU PERFEITAMENTE.
- Ok, aceito. Estou louca para me vingar do viado do meu ex.
De repente, senti meu corpo ficar mais quente e estranho. Senti uma onda de energia negra me envolver e, quando dei por mim, estava sem roupas. Quando parei de sentir a energia ao redor de mim, voltei ao normal, mas o livro não estava mais lá.
- OLHE – disse uma voz na minha cabeça.
Ao me virar, vi um espelho enorme e percebi que meu reflexo estava totalmente diferente. Primeiro, estava magra. Quando isso iria acontecer? Segundo, minha pele estava perfeita, sem nenhuma espinha ou mancha que fosse. Terceiro, eu tinha seios e quadril definidos! Estava me sentindo a gostosa naquele momento. Eu estava linda! Meus cabelos agora estavam na altura da cintura e escureceram mais, chegando a ser mais escuro que a noite, meus olhos estavam próximos à cor dos cabelos, e estava mais alta.
- Hum.. Gostei! Droga! Agora vou ter que comprar roupas novas, porque as minhas antigas, com certeza, não me servirão mais e as que estava usando sumiram...
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Já estava cansado de ver Sedutora comendo a garota, nos dois sentidos, quando ela fez algo que eu não esperava. Soltou Teteca antes de ela ficar fraca demais.
- Ah! Não vais terminar de comer?
- É que é tão bom provar uma virgem! – exclamou rindo e falando muito feliz – Usar algo que nunca havia sido usado, ser a primeira a possuir alguém, isso me deixou tão feliz que decidi poupá-la. Afinal o gosto de uma virgem é inesquecível. Fizeste muito boa escolha. Estou começando a gostar de ti.
Ela riu e foi embora, deixando o corpo despido da garota com a mordida aberta para que eu cuidasse, ou melhor, dizendo, para que eu arrumasse a bagunça que ela fez.
Deixei-a em seu quarto, mas ela deveria dividir o cômodo com a Thaty e ela não estava lá. Fui para o mato atrás dela, seguindo o rastro que havia deixado até uma pequena clareira, porém não havia nada lá.
De repente apareceu uma garota linda, mas não tinha reconhecido-a.Percebi que tratava-se de Thaty, porém não era ela mesma. Ela, com certeza, havia mudado, se transformado em algo não-humano, algo novo para mim. Não sabia o que era nem o que fazer com aquilo.
- Thaty, és tu? – perguntei muito surpreso – Ah! Tu ficaste tão linda! O que aconteceu?
- VAMPIRO! – essa palavra soou tão áspera que parecia estar sendo cuspida por ela. Espera um minuto, como ela sabia que eu era um vampiro?
- Como assim? Vampiro? Onde? – disse, tentando disfarçar minha identidade.
-NÃO SE FAÇA DE TOLO, SER INÚTIL! VOCÊS, VAMPIROS, SÃO TODOS IGUAIS: SERES INFERIORES QUE NÃO MERECEM PERMANECER NESSA TERRA – disse com a voz muito alterada – CUIDAREI PAA QUE NÃO POLUAS MAIS ESSE MUNDO AFINAL, ESSE É O MEU TRABALHO, PORÉM, COMO SOMOS AMIGOS, FAREI ISSO SER RÁPIDO E NÃO MUITO DOLOROSO PARA VOCÊ.
Não sabia o que fazer. Aquelas palavras haviam me atordoado completamente. Não sabia o que tinha acontecido com ela nem o que a tinha transformado, mas era algo maligno. Se eu não reagisse, iria morrer, com certeza. Não me restara escolha. Era hora de tirar a máscara e mostrar meu lado vampiro e que meus olhos atormentassem os sonhos dela.
- Interessante. Parece que foste possuída – disse um tanto alegre, desdenhando dela – Tanto faz! Não ligo para o que a comida faz. Apenas a devoro. Bem, se queres me matar, tente e veja se consegues.
Mal sabia que logo me arrependeria do que tinha dito Rápido, muito rápido, até para mim. Ela moveu-se, parando atrás de mim. Socou minha coluna, me fazendo chocar-me contra uma árvore.
- Merda! Vadia, devia ter te matado há muito tempo atrás – disse, limpando um fio de sangue que escorria em minha boca.
-COMO SE PUDESSE, SANGUESSUGA! – disse ela triunfante e cheia de si.
Ao levantar a mão, milhões de cobras apareceram e prenderam-me. Tentaram quebrar todos os meus ossos, meu cordão de prata foi estilhaçado – merda, agora estava vulnerável à luz solar. Meus músculos cediam, mesmo com minha força superior a de qualquer animal. Aquelas cobras não eram normais, era algum tipo de família especial. A dor percorria meu corpo, minha mente gritava por ajuda, mas sabia que não tinha ninguém que pudesse me salvar. Em um piscar de olhos, apareceu um lobo gigante. Um lobisomem negro, maior que um urso, pulou, derrubando-a no chão, desfazendo seu feitiço e me libertando. Estava fraco demais para sequer ficar de pé. Caí de joelhos no chão e a última coisa que vi foi ela transformando-se em névoa para fugir do lobo. Então, tudo ficou preto e eu apaguei.
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