Clãs Sombrios: o Despertar de Piedoso
1 Os Laços de Sangue
Hoje é meu primeiro aniversário. Bem, não que eu tenha apenas um ano de vida, pois tenho dezessete. É que hoje completa um ano que me tornei um vampiro. Devo dizer que a paisagem está linda, a Lua cheia parece maior do que nunca, as ruas estão desertas, o que é estranho, pois vivo em numa metrópole. Estou em uma rua pequena que geralmente fica cheia de adolescentes – bem, não preciso dizer o que eles fazem aqui –, o ar da noite exala algo muito peculiar. Definitivamente, tem algo de estranho aqui. Posso ser um vampiro novo, nem tanto agora, mas já aprendi a identificar o perigo.
Meus olhos de vampiro podem enxergar muito melhor no escuro, porém acho que, para um garoto alto, de um metro e oitenta centímetros de altura, cresci bastante no decorrer desse ano. De ombros largos e pele perfeita, devido à transformação em vampiro. Ela corrige muitos erros estéticos do corpo, como espinhas, gorduras localizadas, manchas, estrias, defeitos de visão, e por aí vai. Já é estranho o suficiente e não precisa de um par de olhos vermelhos para chamar a atenção.
Usando minha blusa pólo preta, jeans azul escuro e sapatos All Star pretos – não que eu goste de me vestir assim. É que é mais fácil caçar quando as pessoas acham você bonito –, estava pronto para me alimentar. Meus cabelos castanho-claros na altura da nuca já estavam perdendo o brilho de tanta demora.
Merda! Por que não tem ninguém aqui? – perguntava-me inquieto. Logo isso sumiu no silêncio da noite. Como eu queria sumir como minhas palavras. Na minha frente estava uma figura maciça e pêlos escuros. Já era vampiro o bastante para saber que aquilo significava perigo. Um lobisomem! Merda, que sorte a minha! Fraco e faminto como estava, mal conseguiria fugir – pensei furioso. Dito e feito: em menos de um segundo estava deitado no chão com a pata do monstro sobre meu peito. Queria que minha corrente de prata não tivesse voado nesse segundo. Ela seria muito útil.
A pressão era tanta que achei que iria desmaiar, como se ele tivesse enfiado uma estaca no meu coração. Senti por um instante algo quente perto da pata dele, um cheiro horrível infestava o local. Ele, então, aproximou mais suas presas. Estavam perto de meu rosto. Eu iria morrer a qualquer momento e, dessa vez,não voltaria. Nesse momento, senti novamente a coisa quente. Estava caindo no meu pescoço. Percebi que ele estava ferido, bem perto do pescoço. As gotas de sangue caiam cada vez mais perto da minha boca. Raiva! Aquilo era sangue de lobo! Deveria ter um gosto tenebroso!
Perguntava-me por que ainda estava vivo. Percebi que a resposta viria logo: ele estava tão fraco quanto eu. Estava ferido e perdendo sangue, havia me atacado para tentar se salvar, mas não tinha forças para continuar. Seu sangue havia alcançado minha boca. O gosto era realmente horrível, mas pelo menos me deu um pouco mais de força.
Poderia matá-lo naquele momento, mas algo me impediu. Ao invés disso, fiz algo que depois, provavelmente, me arrependeria. Levantei minha mão, colocando-a sobre o ferimento. Concentrei-me em meu dom e, então, sua ferida começou a se curar. Sei que deve estar pensando: Um vampiro que cura? Que inútil! Bem, também acho, porém poucos vampiros têm dons especiais como eu – bem, não reclamaria se pudesse lançar raios com as mãos, como meu irmão, porém, às vezes, meu dom era útil.
O ferimento dele fechou por completo, porém ele já estava muito fraco e desmaiou sobre mim. Ainda bem que ele voltou para a forma humana, assim eu não ficaria tão preso. Ele, na forma humana, era um homem um pouco mais baixo que eu e diria que era um ano mais novo também, era branco como eu, porém muito peludo – não como um lobo, mas sim como um Tony Ramos da vida – e cabelos negros, como a de seu pelo na forma de lobo.
Levantei-o e o coloquei sobre meu ombro. Percorri o local com meus olhos de vampiro e achei meu cordão de prata. Não podia perdê-lo, pois era ele que me permitia andar sob a luz solar, devido ao poder mágico da pedra do vampiro que estava dentro dele.
* * * * *
Já era de manhã, estava nublado, o que era bem agradável. Fazia tempo que não ficava acordado durante o dia, apesar de poder. Havia deixado o homem em minha casa e ele logo acordaria. Só que naquela hora eu estava alimentado e, consequentemente, forte, mesmo com o Sol drenando meus poderes, pois, apesar de o colar estar me protegendo, ainda perdia parte de meus poderes, e ele, durante o dia, era um humano e não seria mais forte do que eu. Chegando em minha casa, ele ainda estava dormindo, sem roupas. Como queria que ele estivesse vestido, mas ele devia ter perdido as roupas na noite passada com a transformação e eu não queria que as minhas roupas cheirassem a vira-lata. Então, deixei-o como estava.
Ele abriu os olhos. Havia acordado, mas estava atordoado.
- Onde estou? Quem é você? – perguntava.
Estava sonolento. Repentinamente, pareceu desperto. Devia ter percebido que eu era um vampiro.
- Sou Piedoso e tu estás em minha casa. Salvei-te noite passada da morte por hemorragia. – disse.
- Uma vida salva por um sanguessuga não vale nada!
- Se te fizeres sentir melhor, não pertenço a nenhum dos três grandes clãs. Sou um vazio – mostrei-lhe meu pulso esquerdo, onde havia minha marca negra, um círculo prata com um ponto negro dentro, indicando que eu não possuía clã.
- Você é um inferior, não é? Que patético! – começou a rir.
Explodi de raiva e pulei em cima dele, agarrando-o pelo pescoço e levantando-o sobre além do chão.
- Controle sua língua, vira-lata! – segurei-o contra a parede – Qual o seu nome e o que faz na terra dos vampiros?
Ele começou a rir e falou:
- Por que diria meu nome verdadeiro se você não me disse o seu nome de vampiro? Piedoso? Que ridículo! E de que terras está falando? Que eu saiba, Manaus é uma terra livre, qualquer um pode andar por aqui!
- Diga logo, escória, ou não serei piedoso! – gritei enfurecido.
- Tanto faz! Meu nome é Henrique e estava atrás de comida, mas fui atacado e acabei perdido e machucado. Falando nisso, por acaso foi você quem me curou? Estava fraco demais para ter me curado sozinho.
- Sim, esse é meu dom, Quito. Tenho o dom da cura. – afirmei rindo.
- Quito? Que merda é essa? E que dom mais inútil você tem, hein?! – disse ele enfurecido.
- “Qui” vem de Henrique e “to” vem de Totó e, sim, eu sei que é inútil – falei rindo bastante. Que divertido irritar ele – Tu deves saber que nós, vampiros, não usamos nossos nomes verdadeiros, pois eles representam um poder, o que é muito perigoso – soltei-o e me distanciei um pouco.
- Hã? Ah, esquece! Vou indo. Não estou a fim de me socializar com sanguessuga nenhum, principalmente um de nome tão estranho – passou por mim e foi embora.
— Ham... Será que ele se tocou que estava nu? Bem, não quero mais saber disso – virei-me e fui para meu quarto. Ao abrir a porta, avistei meu irmãos, olhando-me com uma cara nada bonita.
Trovão era o mais baixo de nós cinco. Era moreno, tinha cabelos curtos e negros usava uma jaqueta de couro preta uma camisa branca por dentro dela, calça jeans rasgada nos joelhos e tinha um brinco de prata na orelha esquerda. Bela, loira, alta, com uma pele linda, era realmente belíssima. Usava uma camiseta preta e minissaia jeans escura e sapatos de salto alto vermelho vívido. Não é coincidência nossos nomes de vampiro serem baseados nos nossos dons ou quando temos alguma característica marcante, seja na personalidade, seja na aparência, como no caso de Bela. Bruto era levemente bronzeado, com mãos grandes, mas não eram anormais. Usava uma camiseta regata, pois destacava os músculos, calça jeans meio caída, mostrando a roupa de baixo, que era preta, o que dava contraste à cor escarlate da regata. Gentil, um sedutor nato, tinha pele um pouco mais escura que a de Bruto, alto como ele e eu. Usava camisa pólo branca, calça jeans clara e tênis branco Nike. Sempre andava na beca e adorava se achar o máximo. Era meio musculoso, mas muito menos definido que Bruto. Os últimos tinham o mesmo cabelo curto no estilo militar e usavam brincos com pedras vermelhas em ambas as orelhas.
- Por que trouxe aquilo para a nossa casa? – perguntou Trovão muito irritado.
- Desde que me tornei irmão de vocês, há um ano, nunca lhes escondi nada! Até consegui esse cordões de prata, que nos protege do Sol. Porém não sou mais uma criança e não devo explicações – virei-me e fui embora.
- Você ainda é muito infantil, sabia? – disse exaltadamente em resposta.
Era tarde da noite, ainda não voltara para casa. Não queria encarar meus irmãos. Sentia como se tivesse os traído. Todos nós éramos vazios, não pertencíamos a nenhum clã, nenhum de nós queria. Não tínhamos nada especial, exceto Trovão. Ele, uma vez, foi convidado a se aliar ao clã dos lobos, mas rejeitara para ficar conosco e nos proteger. Até onde sei, apenas ele e eu tínhamos dons, mas o meu era tão inútil que não chamava a atenção de nenhum dos três clãs. Os vazios eram considerados escórias, inúteis, escravos, fracassados e desprezados.
Estava atrás de uma vítima para alimentar-me. Vi uma mulher baixa de cabelos negros, trajando um vestido vermelho. No momento que a vi, virou-se para mim. Já tinha visto ela antes há um ano atrás, quando me transformei em vampiro: era ela quem tinha me transformado. Precisava chegar até ela. Ela correu, “andou rápido”, pois não fazia movimentos bruscos, como os que teria de fazer para correr, mas, mesmo assim, eu não a alcançava. Era uma vampira experiente, pelo visto. Não sabia o motivo de querer alcançá-la, mas precisava falar com ela, saber o motivo pela qual me escolheu, etc.
Ela entrou em um pequeno beco o qual eu conhecia muito bem. Ele terminaria em um terreno baldio onde um vampiro poderia alimentar-se sossegado, o que já havia feito anteriormente. Quando chegamos, ela virou-se e disse:
- Quem és tu, inferior que ousa me incomodar com sua presença?
Curvei-me em respeito, pois havia visto sua marca negra. Ela pertencia ao clã do morcego, o clã mais antigo que existia desde os primórdios da era dos vampiros. Não existia nenhum inferior, vampiros que nasceram transformados a partir de outro vampiro, nele.
- Sou “Piedoso”, um vampiro que tu criaste há um ano.
- Falas como se eu me importasse. Foste um burro! Inferiores apenas servem para degradar nossa imagem. Nascera de um erro meu, o qual me arrependo. Devia ter te deixado para os insetos.
- Perdoe-me. Posso, ao menos, saber vosso nome?
- Sou “Graciosa”. Agora te afasta e sai da minha presença! Estás a me irritar.
- Perdão – abaixei a cabeça.
Fui tomado por uma fúria causado por tudo o que pensei nesse último ano. Como ela tinha direito, transformara-me, e agora fala aquelas coisas para mim, foi horrível. Senti-me uma escória ambulante.
Ao olhar novamente para ela, meus olhos estavam brilhantes de ódio. O poder vampiro emanava de meu corpo. Ela olhou com desdém para mim e. de repente, apaguei. Não conseguia ver absolutamente nada.
Quando dei por mim, estava sendo pressionado por um homem, era um pouco mais baixo que eu, tinha cabelos negros e lisos, com uma franja caída sobre o olho direito e usava roupa social. Digo, vampiro, pois sua marca era do clã do lobo, o mais numeroso dos clãs, e fraco também, pois predominava a presença de inferiores. Eu estava muito machucado e perdendo muito sangue. O vampiro à minha frente não estava muito diferente de mim. Percebi ao ver seu braço direito, que estava dilacerado. Ele usava o braço inteiro para me prender contra a parede, enquanto eu estava com três costelas quebradas, uma perna deslocada e arranhões por todo o corpo, assim como ele.
Atrás dele estava Gloriosa, olhando com olhos céticos para mim. Virou-se e disse:
- Cuide dele, Juiz. Esse inferior é, no máximo, interessante. Talvez não tenha errado tanto assim. Talvez... – envolvida pela sombra, desapareceu.
Juiz ainda pressionava-me contra a parede. Levantei minha mão direita e coloquei-a sobre o ombro direito dele. Ativei meu poder de cura e, em alguns minutos, estava inteiro novamente, mas eu estava exausto e desmaiei. Acordei ao perceber que estava sendo carregado por ele, como um animal morto em cima de seus ombros, para dentro de uma grande casa. Na entrada dela havia uma figura com dois grandes lobos, indicando que era uma sede do clã dos lobos.
Na sala de estar havia um grande sofá e, de frente para ele, uma poltrona, toda acolchoada. Meus irmãos estavam sentados no sofá, onde o cara me largou. Bela correu em minha direção, perguntando se eu estava bem e tudo mais, o que era óbvio que não estava.
- O que você fez a ele? – perguntou Trovão enfurecido.
- Salvei a vida dele! Ele tinha criado confusão com uma “morcego”. Teria morrido se eu não tivesse interferido.
Você é o Juiz, o líder do clã do lobo – Gentil levantou-se muito calmamente – Por acaso ela era uma pura...
- Não. Era uma primordial como eu, criança. Bem, Piedoso arranjou um grande problema. Terei de torná-lo membro do clã. É o único modo de ficar de olho nesse moleque encrenqueiro.
Nossa! Estavam discutindo minha vida como se eu nem estivesse presente. Que merda! Queria dizer algo, mas Bruto tirou as palavras da minha boca.
- Estamos juntos desde antes de nos tornarmos vampiros, o que faz um bom tempo. Não iremos nos separar por uma coisinha dessas. Sabemos nos defender!
- Crianças infernais! Só me causam problemas! – disse Juiz já bastante enraivecido – Que seja!Se isso for acabar com meus problemas, agora todos vocês são membros do clã! Felizes? – indagou ironicamente – Só não me criem mais confusão!
Ele estava muito irritado falando isso, mas o pescoço dele também estava em perigo. Afinal, uma primordial do clã do morcego, o tipo de vampiro mais perigoso, havia dado uma missão para que ficasse de olho em mim, ou seja, ele teria que aceitar meus irmãos no clã também. Caramba! Tudo acabou dando estranhamente certo! Éramos membros de um clã e estávamos juntos ainda!
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