Ciúmes?
1 Ciúmes? De mim? - Capítulo único
Notas iniciais
Eu estava conversando com um de meus amigos e mais três garotas, quando senti o telefone vibrar no bolso de trás da calça jeans, provavelmente minha mãe ligando outra vez.
Me afastei das meninas e do meu amigo e atendi o telefone, me surpreendendo ao ouvir a voz de Gabriel do outro lado da linha:
− Marcos − gritou, prolongando a letra A − Onde você está? − questionou.
− Falando com umas garotas − falei, rindo um pouco − Por que?
− Hm.
− Gabriel? Você tá bem cara? − perguntei.
− Hm.
− O que, o que foi? − perguntei − Espere… Você está com ciúmes?
− Hm… Hm.
− Cara… A gente é homem, ficou louco?
− Ah… Deixa quieto então… − murmurou ele.
Parei de falar e fiquei encarando um ponto fixo por alguns instantes: Cara, por que raios o Gabriel está com ciúmes de mim?
− Gabriel? Você ainda está aí?
− Ahn… Não. − respondeu, me fazendo rir um pouco.
− Onde você está?
− No parque aqui perto de casa.
− Quer que eu vá até aí? − perguntei, preocupado que talvez ele pudesse estar triste ou algo do tipo. Essa seria a única explicação viável pela sua ligação repentina no meio da noite, e ainda por cima ficar com ciúmes.
− Você viria? − perguntou ele, parecendo feliz.
− Claro, claro. − respondi, olhando para o meu relógio de pulso: 21:54.
− Obrigado, eu queria mesmo te falar uma coisa… − respondeu ele, me deixando um pouco apreensivo. O que um cara tem que te chamar no meio da noite pra contar que não pode ser dito, não sei, no outro dia?
Voltei para onde as garotas estavam e me despedi, alegando que eu tinha sentido uma dor de cabeça do nada.
[...]
− Gabriel? − perguntei. Eu andava pelo parque tentando o encontrar, mas parecia que ele estava se escondendo, como se tivéssemos sete anos de idade, e não dezesseis.
Olhei em volta, tentando achar ele: algumas árvores espalhadas e alguns bancos também. Então, de repente, senti uma aproximação vinda por trás e me virei a tempo de ser esmagado pelo abraço de Gabriel. Me desequilibrei e nós dois caímos no chão, um por cima do outro.
− Você veio! − exclamou ele, saindo de cima de mim e se levantando, pra depois me estender a mão e me ajudar a levantar também.
− Sim − respondi, rindo − Mas, e aí? O que você queria me falar mesmo? − perguntei, colocando as mãos no bolso do moletom.
− Ahn… Bem, eu meio que… − ele tentava falar, mas parecia que a voz lhe fora tirada.
− Falar o que? − perguntei, curioso.
− Para de me encarar! − reclamou ele.
− Eu só quero saber o que é tão importante que você me tenha feito parar de conversar com as garotas pra vir até aqui!
− Ah, se é assim, volta pra elas então! − resmungou ele, com raiva.
− Cara, você está me assustando − falei, sério − Tá tudo bem? − perguntei, colocando uma das mãos no ombro dele.
− Eu não sei explicar direito − murmurou ele, olhando para os próprios tênis.
Isso não pode estar acontecendo, pode?
− Ah, bem… Então acho que eu meio que não posso ajudar, não é? − perguntei, franzindo as sobrancelhas.
− Pode ajudar sim! − afirmou, levantando o olhar.
− Posso? Então como? − perguntei, confuso.
− Assim… − murmurou ele, aproximando seu rosto perigosamente do meu, de olhos fechados. No reflexo dei três passos pra trás e parei, estático. Mas que raios foi isso?
Fiquei encarando Gabriel enquanto ele olhava para o nada, parecendo perdido e quebrado, ao mesmo tempo. Me senti meio culpado por ter instintivamente me afastado, mas… Quem não teria o feito se o seu amigo do nada quisesse te beijar?
− Me desculpe… − murmurou ele − Eu não deveria ter tentado te beijar.
− Eu.. Ahn, eu… Eu sinceramente não sei o que dizer − falei, frustrado e confuso ao mesmo tempo. Por que meu coração acelerou quando ele se aproximou? Por que eu, em algum canto escuro da minha mente, queria não ter me afastado?
− Eu estou indo − ele disse, se virando de costas pra mim e caminhando pesadamente, quase como se descontasse sua fúria no chão.
− Não, espera! − gritei, correndo atrás dele e o obrigando a parar assim que o puxei pela mão. Ele se virou, com os olhos já vermelhos depois de algumas lágrimas e me perguntou, rápida e cortantemente:
− O que você quer?
Então me inclinei sobre ele e fiz o que eu deveria ter feito quando ele se aproximou: selei nossos lábios e o beijei desajeitadamente. Não é todo dia que a gente beija nosso melhor amigo, ainda mais se os dois envolvidos forem homens. No começo ele se assustou, acho que não esperava que eu correspondesse aos seus sentimentos. Na verdade, nem eu mesmo esperava que eu corresponderia aos sentimentos dele. Mas lá estávamos nós, nos beijando no meio de uma praça escura, a Lua como testemunha.
Nos afastamos depois de alguns minutos, ambos com um sorriso idiota no rosto. Iniciamos uma caminhada noturna, apostando de vez enquanto quem chegaria primeiro até algum ponto imaginário.
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