Civil War
13 Tatuagem
Notas iniciais
—Como você vai esconder isso deles? — Tyler perguntou, segurando minha mão com cuidado e a encarando.
Ele tinha acabado de tomar banho e quando eu disse que iria fazer o mesmo, ele me ajudou a retirar a atadura. Tyler foi cuidadoso ao extremo, mas a real é que ela não estava doendo tanto como ontem.
—Não acho que eu precise esconder. Posso dizer que foi quando eu criei um escudo na explosão em Lagos e que acabei absorvendo o calor de um jeito nenhum pouco legal. — suspirei, vendo que as queimaduras estavam menores do que ontem. — O que não é de todo uma mentira. Minhas mãos ficaram levemente vermelhas após a explosão e foi por isso que eu achei que... enfim, vai dar certo. — sorri para ele.
—Sabe que pode contar a verdade, né? Eles iriam entender você. —
—Sim, sei. Eu só... não quero preocupá-los a toa. Já tem todo esse negócio do Tratado e nem um lado eu, de fato, escolhi. — revirei os olhos.
—Pelo que você me disse, o Tratado será ratificado em 3 dias em Viena, certo? — assenti. — Se você precisa de um ultimato, tem três dias para decidir, mas não acho que isso é algo que dá para decidir de uma hora para outra, Melinda. Estude as possibilidades, as consequências que pode ter ao escolher um lado e tudo mais. —
—Eu sei. — murmurei. — A única certeza que tenho até agora é que se todos, absolutamente todos, assinarem, eu vou assinar. Como Nat disse, ficarmos juntos talvez seja o melhor. —
Tyler sorriu, beijou o dorso da minha mão com cuidado e levantou.
—Sei que fará aquilo que acha certo. Vou preparar o café, te espero lá em baixo. —
—Não vou demorar. — sorri de lado.
Observei ele sair do seu quarto e então suspirei, levantando. Entrei no banheiro, retirei a camisa e a calcinha que usava e entrei em baixo do chuveiro.
Terminei meu banho e me enrolei na toalha, enquanto parava em frente a pia e pegava a minha escova, começando a escovar meus dentes.
Sai do banheiro, caminhando até o guarda-roupa de Tyler e abrindo as portas. Abri a gaveta de lingerie e peguei uma branca, a vestindo.
Optei por usar uma saia marrom de couro com uma fileira de botões na frente e uma camisa social azul claro. Calcei as botas que eu usei ontem a noite e arrumei meu cabelo, prendendo metade dele em um coque e deixando algumas mechas soltas na frente.
Passei apenas rímel e um gloss incolor. Peguei minha bolsa, meu celular e uma atadura limpa no kit de primeiros socorros que tinha no banheiro de Tyler.
—Esqueça o Tratado só por mais um dia, Melinda. Só mais um dia e depois você escolhe um lado. — murmurei antes de sair do quarto.
Quando cheguei na cozinha, todos estavam lá tomando café e eu me arrependi de ter decidido pedir ajuda a Tyler para colocar a atadura.
—Bom dia. — desejei, forçando um sorriso.
—Bom dia, Melinda. — tia Mary desejou sorrindo. — Dormiu bem, querida? —
—Ah, tia, a senhora acha mesmo que a Melinda e o Tyler dormiram durante a noite? — Nicole falou, sorrindo com malícia.
—Deixa de ser suja, Nicole. Meu Deus. — Nathan repreendeu, jogando um pedaço de pão na irmã.
—Poderiam, por favor, parar de gritar? Eu agradeço. — Dani pediu baixinho tomando um generoso gole de café.
—Eu disse para você não abusar da bebida ontem, maninha. — Nathan riu.
—Ty, você poderia me ajudar? — ergui a atadura.
—Claro. — ele deixou de colocar café nas xícaras, vindo até mim.
—Você se machucou, ruiva? — Nicole perguntou preocupada.
—Foi ontem, na missão. — respondi me sentando no balcão que dividia a cozinha da sala. Deixei minha bolsa sobre o mesmo. — Quando eu... quando eu fiz um escudo ao redor do Ossos Cruzados, minhas mãos absorveram o calor da explosão e isso resultou em uma mão queimada. —
Tyler enfaixava minha mão com cuidado, mas mesmo assim, vez ou outra, eu mordia o lábio inferior segurando um gemido de dor.
—Então você poderia ter absorvido a energia da explosão? —
—Danielle! — os irmãos mais velhos repreenderam a mais velha, fazendo-a fechar os olhos com força.
—Não gritem, caralho. — resmungou.
—Está tudo bem, gente. — falei, encarando-os. — A real é que eu não tenho resposta para a pergunta da Dani. Eu achei que era possível, que eu poderia absorver uma energia de uma explosão, mas não entendo porque isso não aconteceu. — suspirei.
—Você pode absorver outros tipos de energia, certo? — tia Mary questionou. Assenti. — Então talvez seja possível você absorver energia de uma explosão. Só que isso não é algo que você pudesse prever, entende? Pelo que o Tyler me contou, seus poderes no início não podiam fazer tudo que fazem hoje. Talvez no futuro você possa abastecer uma cidade inteira só com seus poderes, vai saber. —
Sorri com as palavras de Maryse. Essa mulher é realmente incrível.
—Obrigada. — falei, observando Tyler terminar de enfaixar minha mão.
—Prontinho, mademoiselle. — ele beijou minha mão, arrancando-me um sorriso. — Acho que hoje mesmo você se livra disso. Agora vamos comer que eu personalizei suas torradas. — ele pegou dois pratos com torradas colocando sobre o balcão.
—Torradas personalizadas por Tyler Pierce. Isso sempre torna meu dia melhor. — sorri, puxando o meu prato e vendo carinhas nas minhas torradas.
—Vocês deviam casar, sério mesmo. — Nicole falou mordendo uma maçã. — Eu consigo imaginar vocês em uma fazendinha, com três filhos e um cachorro. — arqueei a sobrancelha. — Também consigo imaginar você trocando os filhos por cachorros. —
Sorri.
Tyler trouxe mais dois pratos, dessa vez com ovos e bacon e logo em seguida nossas xícaras com café.
Começamos a comer em silêncio, mas era um silêncio confortável o que eu achei que não seria devido ao foco inicial da conversa.
Dani foi a primeira a terminar, disse que iria para o quarto e tentar a sorte de morrer dormindo. Nicole e Nathan terminaram logo depois.
—Nate e eu vamos até o shopping. Vocês não querem vir conosco? —
—O que vocês vão fazer no shopping uma hora dessas? São 09:35 AM de um sábado. — Tyler questionou.
—Ah, a nossa irmãzinha aqui vai mimar a namorada. — Nathan revirou os olhos.
—Não revira os olhos, palhaço. — ela deu um tapa na cabeça do irmão. — Maddie me comprou um presente antes de eu vir para New York então nada mais justo eu levar um presente de New York para ela, não? —
—Certíssima, bebê. — sorri comendo meu bacon. — Ah, amor de sapatão é muito lindo mesmo. Traga a Maddie da próxima vez. —
—Pode deixar. Vou pegar minha bolsa, Nate, vai pegando o carro. Aliás, você pode emprestar seu carro, não é? — Nicole fez sua melhor cara de pidona para Tyler que arqueou a sobrancelha.
—Você realmente ama me explorar, não é? —
—Ih, irmão, você ainda não viu nada. — Nathan riu.
—Podem pegar o carro, acho que vou passar o dia em casa mesmo. — deu de ombros.
—Te amo. — Nicole jogou um beijo para ele, saindo da cozinha e subindo a escada.
—A falsidade reina desse jeito também com seus irmãos, Melinda? —
—Ah, não, Nathan. Sei que o Will e o Adam me amam. Afinal, quem não amaria esse amor de pessoa que eu sou? — sorri convencida.
—É, quem não amaria? — ironizou rindo. — Vai precisar de alguma coisa, tia? — encarou Maryse.
—Que vocês se divirtam, querido. — ela sorriu.
—Se a Nicole não demorar tanto lá e depois pagar meu almoço, eu vou me divertir. —
—Eu ouvi isso. — ela falou descendo a escada. — Vamos, cara pálida. —
Os dois se despediram da gente e saíram.
—Acho que já vou indo também. — disse, bebendo o último gole de café.
—Tudo bem. Me manda mensagem mais tarde? — sorri, levantando e depositando um beijo no topo da cabeça dele.
—Fechado. — peguei minha bolsa e fui até Maryse, beijando a testa dela. — A festa estava ótima, tia. —
—Obrigada, querida. Fique bem, sim? —
—Pode deixar. — sorri, caminhando até a porta e saindo da casa.
—Maratona dos filmes do DiCaprio ou da Julia Roberts? — ouvi Tyler perguntar a Maryse.
—Sandra Bullock. — sorri, abrindo a porta do carro.
***
—Queridos, cheguei. — cantarolei, entrando em casa.
—Tia Mel! — Theo saiu da cozinha, vindo correndo até mim.
O peguei no colo, abraçando-o.
—Achei que você não fosse vir mais. —
—Eu disse que viria, não disse? — sorri enquanto caminhava até a sala com ele no braço.
—E os nossos presentes? —
Parei no lugar, encarando o pirralho.
—Seus presentes, é? — murmurei, me xingando mentalmente.
—Theo, eu acho que ela esqueceu. — Will riu. Castiel estava em seu colo, maior do que da última vez que eu o vi.
—Você esqueceu, tia? —
—Não, eu apenas não dormi em casa então não tinha como pegar seus presentes. — respondi. — Ou seja, se eu não fui para o Complexo eu não esqueci eles. —
—Que desculpa furreca, hein, maninha? — Adam falou da cozinha. Chris riu.
—Cala a boca, idiota. — voltei minha atenção para Theo que estava cabisbaixo. — Prometo que eu mando os presentes pelo correio. Ok? —
—E se você esquecer de novo? —
—Não vou. Eu prometo. — ergui meu mindinho para ele.
—Você não pode quebrar essa promessa, tia. — ele prendeu seu mindinho com o meu. Sorri.
—Não vou. — Theo sorriu. — Cadê seus avós? — coloquei ele no chão.
—No mercado. Foram comprar nosso almoço. — respondeu, voltando para a cozinha e sentando no balcão que estava repleto de seus brinquedos.
—E aí, como você está? — perguntei a Will, sentando do lado dele. — Oi, Cas. Como você cresceu, menino. — fiz carinho na cabeça do vira-lata.
—Eu estou bem. E você? — ele apontou para minha mão. — O que foi isso? —
—Foi ontem, durante a explosão. Minhas mãos não aguentaram a energia da explosão e acabou queimando elas um pouco. Mas eu estou bem, pirralho. — sorri.
—Por que não nos contou ontem? — foi Adam quem questionou.
—E dar um clima chato para a festa do Tyler? Não. Fora que já está curando então sem motivo para alarde, ok? —
Ele assentiu, voltando a enxugar a louça.
Peguei meu celular na bolsa, vendo que tinha algumas mensagens de Amy e Wanda.
"Hey, você vem dormir em casa?"
"Melinda, se você não for voltar para dormir aqui poderia avisar ao menos, né"
"Eu vou te matar quando chegar em casa"
Pressionei os lábios, me preparando para responder a bruxinha.
"Hey, bebê, como você está? :) Desculpa por não avisar, acabei dormindo no Tyler e agora estou na casa dos meus pais. Não se preocupe, volto para o Complexo hoje"
Abri a conversa com Amy.
"Obrigada por ter me trazido em casa e me colocado na cama, me senti um bebê gigante embalado por todo carinho e amor da mamãe Melinda"
Soltei uma risada, mandando uma foto do Thor fazendo coração com as mãos e um monte de emojis de coraçõezinhos ao redor.
O motor do carro de Michael anunciou que eles estavam chegando. Bloqueei o celular, deixando sobre a mesinha de centro junto com minha bolsa.
—Eles estão chegando. Vem, você vai me ajudar a carregar as compras. — falei a Will, levantando.
—Sabe que eu odeio guardar compras. — ele resmungou.
—Não te perguntei. Vem logo, pirralho, antes que eu te faça flutuar. —
***
O dia com os Hunters foi divertido.
Todos ajudaram a preparar o almoço, inclusive o Theo que colocou a mesa. Jogamos conversa fora, jogamos Banco Imobiliário, briguei com o Adam (o que eu sentia falta) e agora estávamos assistindo Rei Leão.
Chris tinha preparado a pipoca, eu tinha feito brigadeiro, minha mãe fez a batata-frita e Adam tinha saído para comprar sorvete. Estava sendo uma ótima sessão de filmes com bastante comida.
Toda vez que alguma música começava nós cantávamos todos os juntos. Eu filmei quando todos cantávamos Hakuna Matata e quando meus pais performaram a música de Simba e Nala, detalhe: Will e Adam eram Timão e Pumba, respectivamente.
—Tia, acabou o brigadeiro. — Theo falou baixinho.
—Eu vou fazer mais. — falei, pegando a panela e levantando do chão.
Caminhei até a cozinha, pegando mais duas caixas de leite condensado e o pote de chocolate em pó.
Coloquei a panela no fogo e comecei a preparar o doce.
—Quer conversar, querida? — olhei sobre o ombro, vendo minha mãe apoiada no balcão com os braços cruzados e um sorriso doce nos lábios.
—Hoje não é dia para falarmos disso. Dia da família. Melinda não tem poderes e não é uma Vingadora, logo não existe Tratado. — sorri.
—Não se esconda atrás dessa desculpa. Sei que você está ignorando o Tratado para não ter que pensar nele. — senti ela se aproximar. — Conversa comigo, filha. —
—Não tem muito o que conversar, mãe. — suspirei. — O Tratado diz que os Vingadores não devem ser uma organização privada e que um painel da ONU quem irá nos supervisionar. Se não aceitarmos o Tratado, saímos de cena. —
—Já tem uma opinião formada sobre ele? —
—Já. É uma porcaria. Digo, quem o Estado pensa que é para simplesmente dizer que não nos preocupamos com os destroços que ficam para trás? A Fundação Stark foi criada pelo Tony para ajudar nesse tipo de coisa, ora essa. — minha voz subiu alguns tons, sentindo outros olhares nas minhas costas, tratei de me acalmar. — A única coisa que eu sei é que não quero virar marionete do Governo. —
—E é um argumento válido. — ela suspirou. — Os outros já decidiram? —
—Rhodey, Tony, Visão e Nat querem assinar, os outros não acham que o Tratado seja um bom caminho. Só que, sei lá, se por algum motivo todos assinarem, eu assino também. — dei de ombros. — Nat disse que ficarmos juntos pode ser o melhor e eu confio nela. —
—Saiba que a apoiaremos independente de qual seja sua escolha. Amamos você, Melinda, do jeito que você é. E jamais deixe que os comentários das pessoas influenciem na sua decisão. Escolha o melhor para você. — sorri, continuando a mexer o brigadeiro.
—Você tem sorte por eu ter que mexer sem parar essa panela, porque se não ia te abraçar até acabar seu ar. —
Michelle sorriu e veio até mim, me abraçando por trás.
—Amo você, querida. Nunca se esqueça disso. —
—Também te amo, mãe. — beijei seu rosto.
—Melinda, seu telefone está tocando. —
—Acho que é a Wanda. Atende para mim, Chris. — pedi, ainda mexendo o brigadeiro.
Michelle me soltou do abraço.
—Não é a Wanda, é o Tyler. — falou. — Melinda está ocupada fazendo guloseimas para a gente. Ligue novamente mais tarde, obrigada. —
—Virou secretária da Melinda agora, Chris? — ouvi a voz dele do outro lado da linha.
—Nas horas vagas, sim. Ela me paga com brigadeiro e cuida do meu filho. — Chris respondeu vindo até mim e me entregando o celular.
—Fala, chuchu da minha horta. — falei, prendendo o celular entre minha orelha e meu ombro.
—Está ocupada? —
—Estou terminando de fazer brigadeiro. Por quê? —
—Estou querendo fazer algo que eu não tinha coragem de fazer até então. — sorri.
—Assaltar um banco? Finalmente, Tyler, achei que nunca me pediria isso. Eu tenho algumas máscaras que podem esconder nossos rostos e... —
—Você é uma Vingadora, eu sou um agente da SHIELD. Por que iríamos assaltar um banco? —
—Doar o dinheiro para uma instituição de caridade? — sugeri. — Brincadeira. O que foi? — desliguei o fogo.
O brigadeiro tinha chegado no ponto.
—Quero fazer uma tatuagem. — segurei o celular com a mão.
—Não brinca. Quer dizer que você finalmente se rendeu e quer ter seu corpinho marcado pelo resto da vida? — sorri, colocando a panela na geladeira.
—Falando assim a dúvida está começando a bater. — murmurou.
—Ah, não. Tem essa não. — falei, voltando para a sala. — Se arruma. Chego aí em dez minutos. Talvez menos. — encerrei a ligação.
—Tyler está com problemas? —
—Um problema chamado "que tatuagem devo fazer?" — sorri, pegando minha bolsa. — Theo, seu brigadeiro está esfriando na geladeira. Assim que eu chegar em casa mando os presentes pelos correios. — falei, procurando a chave do meu Audi. — Eu agradeço pelo dia, vocês me ajudaram bastante. — sorri.
—Sempre que precisar, os Hunters estarão aqui para você. — Michael sorriu.
—Me senti abraçada por todo amor de vocês. — confessei. — Eu amo vocês. Tchau. — acenei, caminhando até a porta.
—Você não muda mesmo, hein. —
—Não posso demonstrar que sou manteiga derretida. — respondi a Adam, saindo de casa.
***
—Hey, Melinda! Tyler! O que os trazem no meu humilde estúdio de tattoo? Não me diga que a Melinda quer fazer outra tatuagem. — Karl sorriu, nos olhando sobre o ombro.
Ele estava terminando um desenho de uma fênix de uns 5cm ou mais nas costas de uma mulher.
—Dessa vez a visita não é por minha causa. — respondi me aproximando de alguns desenhos expostos nas paredes. — Tyler quer fazer uma tatuagem. —
—Ele finalmente aceitou? Não acredito. —
—Não estou entendendo o porquê dessa euforia toda. Parece até que estou contando que estou prestes a perder minha virgindade. — Ty revirou os olhos.
—E você vai, a virgindade da sua pele. — Karl respondeu. — Já sabe o que vai fazer? —
—É, talvez eu tenha algumas ideias. — murmurou.
—Ele está mentindo. Não faz ideia do que tatuar. — expus, cruzando os braços. — Eu dei algumas sugestões, mas ele achou péssimas. —
—A maioria das suas sugestões envolviam filmes da Disney. — frisou. — Ou desenhos de cobra. Eu sou da Grifinória, não da Sonserina. —
—Sério, Tyler, dentre todas as casas, por que a Grifinória? — perguntei em tom de crítica. E eu estava criticando mesmo.
—Eu fiz o teste, Melinda, não tinha como adivinhar. —
—Ela é da Lufa-Lufa, a casa dela é melhor que a sua. —
Apontei para a mulher que estava fazendo a tatuagem da fênix, observando o brasão da casa da Lufa-Lufa no braço dela.
Ela sorriu.
—Estou começando a achar que cometi um erro ao decidir tatuar meu corpo. — resmungou baixinho.
—Eu ouvi isso. — falei voltando a encarar os desenhos.
—Por que não tatuar uma frase? — a mulher sugeriu. — A saga Harry Potter é repleta de frases bonitas. Posso sugerir algumas, se quiser. — sorriu.
—Está vendo, Melinda? É assim que se ajuda alguém com dúvidas. — ele falou exibindo um sorriso arrogante.
Revirei os olhos, fazendo um gesto de dispensa.
Tyler se aproximou da mulher, que disse se chamar Priscila, e logo eles começaram a dialogar.
Peguei um dos inúmeros cadernos de desenhos do Karl, sentando-me no sofá enquanto folheava o mesmo.
—Como você está, ruiva? —
—Sobrevivendo. — sorri sem humor. — Não é nada com que eu ou os Vingadores não possamos lidar, certo? — Karl sorriu, ainda mantendo os olhos no desenho da Priscila.
—É claro que vocês conseguirão lidar com isso ou qualquer outra coisa. Vocês são os Vingadores, os heróis mais poderosos da Terra! — sorri de verdade com esse comentário de Karl.
Voltei a folhear o caderno.
Eu não pretendia fazer nenhuma tatuagem quando Tyler me ligou.
Meu corpinho já tinha abrigado duas tatuagens: a que estava entre meus seios e a que estava no meu braço, a dos Vingadores.
No entanto, olhando o caderno eu senti a vontade fazer outra tatuagem. Então comecei a procurar um desenho que me agradasse e que eu não fosse me arrepender depois.
E vendo o desenho de um cubo mágico, uma ideia passou pela minha cabeça.
Pressionei os lábios.
—Ahm, Karl? — chamei.
—Sim? — ele me olhou rapidamente.
Aparentemente já estava acabando com a Priscila.
—Sua agenda está lotada? —
—Não. Na verdade, a Priscila seria minha última cliente. Os outros estão marcados lá para às 06:00 PM. Por quê? —
—Eu quero fazer outra tatuagem. — falei, após um suspiro. — Acabei de decidir. —
—Ah! Finalmente vai fazer aquela do irmão do Thor? —
Eu estava fazendo sinais para Karl não terminar aquela frase. Só que como ele estava parcialmente de lado, não tinha entendido.
—Você quer fazer uma tatuagem do Loki? O vilão que trouxe o exército para New York e tentou governar a Terra? —
Tarde demais.
—Obrigada, Karl. Você acabou de me arrajar uma discussão com o Tyler sobre o Deus da Trapaça. — resmunguei, revirando os olhos.
—Foi mal. — pediu com um sorriso sem graça.
—Então é verdade? Impressionante. — Tyler balançou a cabeça.
—Eu queria, ok? Pretendia fazer o capacete dele, aquele com os chifres retrocidos e que eu desejo demais colocar na minha cabeça e ver como fico. — expliquei. — No entanto, eu queria fazer no quadril e na mesma hora desisti quando notei que quando você visse, nunca mais transaria comigo. — cruzei os braços.
—Que bom que seu desejo de transar comigo é maior que sua noção. — ele também cruzou os braços.
—Prontinho, Priscila. — Karl falou, terminando de colocar o papel filme sobre a tatuagem. — Os cuidados você já sabe. Pode ir falar com o Paul que ele ajeita os preços para você. —
—Obrigada. Tchau para vocês. — ela acenou após arrumar a alça da blusa e sair.
—Quem vem primeiro? — Karl indagou preparando as coisas.
—Já sabe o que fazer? —
—Pensei na frase "Melinda querendo fazer uma tatuagem de um vilão e Karl feliz com isso. Os dois a 80km/h, quem é o mais sem noção?" — revirei os olhos.
—Eu vou primeiro então. — resmunguei, me sentando na cadeira.
—O que vai querer, ruivinha? —
—Uma tatuagem dupla. — falei de supetão, fazendo-o arquear a sobrancelha. Me virei para Tyler. — Oferta de paz. Na verdade, eu quero fazer outra, mas tudo bem, eu rabisco meu corpo mais duas vezes. — dei de ombros.
—Quer tatuar meu nome? E eu o seu? —
—Credo, não! — fiz uma careta. — Uma coisa menos clichê, por favor. —
—O sol e a lua? — neguei. — O Yin e Yang? Âncora e navio? Pássaro e árvore? — balancei a cabeça negativamente.
—Eu disse menos clichê, Tyler. —
—O que então? —
Passei meu olhar pela sala, quando vi um desenho do Sistema Solar, soube o que queria.
—Uma frase da Disney? — ele me encarou sério. — Estou falando sério dessa vez. —
—Qual? Hakuna Matata? —
—Em pensei na do Buzz. — dei de ombros.
—Ao infinito e além? — ergueu a sobrancelha.
—O além é minha. Falei primeiro. —
—Mas eu nem disse se concordava. — rebateu.
—Você vai concordar que eu sei. — sorri. — Eu deixo a escolha do local por sua conta. —
Tyler encarou seu corpo primeiro e logo depois o meu.
Então ele se aproximou, segurando minhas mãos e analisando meus braços.
—Aqui. — pousou o polegar sobre a lateral do meu pulso direito. — Eu faço no esquerdo. —
—Fechado. Karl, a outra tatuagem que eu quero é aqui. — apontei para meu braço esquerdo, mais precisamente o local onde as pessoas costumam tomar injeção.
—O que vai ser? —
Procurei pela foto no meu celular, virando na direção dele. Tyler se esticou para ver.
—Sério? — assenti. — Tem certeza? Você não vai se arrepender no segundo seguinte ou, sei lá, toda vez que olhar para isso remoer o que aconteceu? —
—Tenho certeza absoluta, Ty. Depois de ontem e todos os comentários positivos de vocês, as palavras carregadas de amor e carinho... eu me toquei que isso realmente faz parte de mim. Meus poderes tornam o que eu sou hoje e eu jamais deveria ter negado eles por tanto tempo. — sorri. — Mérida Walker e Melinda Hunters são uma única pessoa. —
—E as duas são maravilhosas e incrivelmente fortes. — ele sorriu.
—Eu senti que tem alguma coisa a mais nessa conversa, mas eu não vou me meter. Você parece feliz, Melinda, e para mim isso basta. — Karl falou, sorrindo. — Será só esse Cubo aí? —
—A única coisa que importa, Karlito, é que eu ganhei meus poderes de um reator de energia, aquele que explodiu no laboratório em Washington, e o reator era alimentado pelo Tesseract. Então, de certa forma, eu devo meus poderes a esse Cubo Cósmico. — expliquei resumidamente. Karl assentiu. — Eu pensei em abaixo do Tesseract ter a data que tudo aconteceu, 21.04.2004, e uma frase. —
—Que frase? —
—É da Disney também. — soltei uma risada. — "Lembre-se quem você é" —
—Grande Mufasa. — Tyler falou sorrindo. — Acho que ficará incrível. —
—Obrigada. Agora, Karl, não faça muito grande. O Cubo é 5cm, no máximo, e a data e a frase 1cm. — pedi.
—Você quem manda. — sorriu, começando a limpar minha pele.
***
—Devia colocar um M aí no final da frase, eu sei que é sobre mim. — falei, com os braços cruzados e um sorriso exibido nos lábios.
—Não se ache tanto, Melinda. —
—Vai me dizer que você não escolheu essa frase pensando nela, Tyler? — Karl indagou rindo.
—Melinda não é a única coisa que eu amo nessa vida. — respondeu.
—Mas sou a principal. — Tyler arqueou a sobrancelha.
Karl terminou de limpar a tatuagem de Tyler e colocou o papel filme por cima. Repetiu os cuidados que ele deveria ter e então estava finalizado.
Observei a frase nas costelas do lado direito dele. Tyler tinha escolhido uma frase de Harry Potter, afinal.
"Porque eu tenho algo pelo qual vale a pena viver"
—Fotinhas? Por favor, deixa. — ele riu, vestindo a camisa.
—Mais tarde. Quando eu puder tirar esse plástico. — assenti contrariada. — Não tenho um fator de cura avançado como você. — ele segurou meu braço que tinha a tatuagem que fizemos juntos.
Observei elas juntas.
A do Tyler tinha um planeta roxo com um anel e as palavras "TO INFINTY" e no meu braço tinha "AND BEYOND" e um foguete vermelho.
—Preciso de uma foto assim. —
—Daqui a pouco. — ele beijou meus lábios rapidamente. — Vamos lanchar depois daqui? —
—Só se for comida mexicana. — fiz biquinho.
—Pensei em japonesa. — ele fez biquinho também.
—A gente compra as duas e come naquele parque que tem perto de casa que costumávamos ir quando crianças. — sugeri. — Fechado? —
—Fechado. — ele sorriu.
—Karl, meu chapa, quanto deu todas essas tatuagens? Pode meter a facada. — me virei para o tatuador que sorriu.
—Uma barca de comida japonesa. — cruzou os braços. — Na verdade, eu ia me oferecer para ir com vocês, na maior cara de pau, mesmo com a possibilidade de segurar vela. Porém, daqui a pouco mais clientes vão chegar e hoje é o dia de foga da Rachel. —
—Se quiser podemos pedir a comida para cá e te fazemos companhia. — falou Tyler, me abraçando por trás. — O que você acha? —
—Por mim tudo bem. — ele sorriu. — Se não for atrapalhar vocês. —
—Que nada. — fiz um gesto de dispensa com a mão. — Vou usar o telefone do estúdio e chamar o Paul para comer com a gente quando a comida chegar. —
—Eu acho que ele prefere a mexicana. — Karl falou.
—Vou falar com ele. —
Me soltei de Tyler, saindo do cômodo que era reservado para Karl trabalhar. O da Rachel era do lado.
Caminhei até o balcão, onde tinha um cara com quase dois metros de altura, robusto, careca e barba grisalha estilo lenhador. O corpo era coberto de tatuagens e nas orelhas alargadores tamanho 10.
—Hey, Paul. Eu decidi pedir comida japonesa e mexicana para a gente. Você tem alguma preferência? — sorri, me apoiando no balcão.
—Não quero nada de você. — falou seco.
—Qual é, Paul. Eu vou pagar a comida, relaxa. — peguei o telefone, o tirando do gancho. — Então, mexicana ou japonesa? As duas também vale. Se preferir pizza eu peço uma para você. — comecei a discar o número do meu restaurante mexicano preferido.
—Já disse que não quero nada de você. — sua voz ganhou um tom mais agressivo, fazendo-me arquear a sobrancelha um pouco confusa. — Não era nem para você ter vindo aqui. O Karl é um completo idiota ao permitir que você venha até o estúdio depois daquilo. Vai acabar destruindo a imagem da empresa. —
—Depois daquilo o que? — indaguei, colocando o telefone de volta no gancho. — Fala do incidente em Lagos? —
—É assim que você está chamando? Incidente? Todo mundo sabe que se vocês não tivessem metido o nariz onde não foram chamados nada daquilo teria acontecido. Aquelas pessoas ainda poderiam estar vivas. — apontou o dedo grande dele na minha direção. — Vocês, heróis, se acham superiores a nós só porque tem poderes. Nossas vidas não valem nada para vocês. A única coisa que importa para vocês é vencerem, sem se importarem em como irão vencer. Estou mentindo? —
—Queria poder dizer que não, mas está sim, e demais da conta. Sua mãe não lhe ensinou que mentir é feio, Paulito? — cruzei os braços. — Que coisa feia. —
—Vocês deviam estar todos presos. Por todas as vidas que tiraram. Vocês não são heróis, são criminosos, assassinos! —
—Hey. O que está acontecendo aqui? — Karl perguntou saindo do espaço em que estava.
Tyler vinha logo atrás.
—Paul acha que sou uma criminosa. Uma assassina, melhor dizendo. — sorri.
—O que? Paul! —
—Você não devia aceitá-la mais aqui no estúdio, Karl. Acabará espantando os clientes. —
—Olha, não sei se você lembra, mas o estúdio pertence a mim e a Rachel. Você apenas atende os clientes e agenda os horários. — Karl respondeu. — Por mais que você trabalhe aqui, não pode sair julgando meus clientes. Muito menos clientes que são meus amigos. Eu confiaria a minha vida a ela, se o que te preocupa é o incidente de ontem. —
—Você dá confiança demais a ela. Na primeira oportunidade, irá te apunhalar pelas costas. —
—Acabou de perder uma barca de sushi. — falei, saindo da recepção e entrando de volta na sala de Karl.
Tyler me seguiu e, sem falar nada, apenas me abraçou.
—Paul, arruma suas coisas. Você está demitido. — ouvi a voz de Karl sair firme. — Essa sua atitude não combina com o perfil da R&K Tattoos. —
—Você mesmo disse que o estúdio pertence a você e a Rachel. Não pode me demitir sem consultá-la. —
—Posso, sabe por que? Porque a Rachel também é amiga da Melinda e ela jamais admitiria essa sua atitude. Fora, Paul, ou irá acabar espantando os clientes. —
A última coisa que eu ouvi foi o sino anunciando que alguém tinha aberto as portas de vidro.
—Melinda, me desculpa. — Karl pediu assim que entrou na sala. — Eu não sabia que o Paul estava pensando aquilo de você e... —
—Está tudo bem, Karlito. — me separei de Tyler, sorrindo. — Eu sei lidar com pessoas que não gostam de mim ou dos meus poderes. Também sei que você não tem culpa de nada, você não é telepata, ou é? — arqueei a sobrancelha.
—Sou. E sei o que você está pensando nesse exato momento. — ele sorriu.
—O que? —
—Uma barca de sushi e algumas iguarias mexicanas me fariam mais feliz. — fiz uma cara de surpresa.
—Karlito! Você é telepata! Por que não me contou? Por acaso você tem parentesco com o Professor Xavier? —
—Professor Xavier? Os poderes deles não são nada comparados aos meus. — gabou-se. — Pode pedir nossa comidinha? — fez biquinho.
—Claro. —
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