City of Delusion
9 Capítulo 9
Notas iniciais
“Ele quer muito ver você, está sendo procurado e precisa se defender dos crimes que acusam ele. Não quer ouvir a versão dele para tudo? Radamanthys ama você, nunca se esqueça disso.”
“Se vier também saberá algo importante sobre Ikki Amamiya e talvez você repense sua decisão de deixar-se apanhar por ele.”
A vontade de ver o pai se misturava a curiosidade de saber o que Pandora queria lhe mostrar sobre Ikki. Aquele era o principal motivo de estar ali com aquela mulher.
— Venha. – Pandora indicou uma porta e Hyoga seguiu com ela antes de olhar para os lados para ver se não estava sendo seguido, mas a alemã era boa e conseguiram despistar facilmente os seguranças que Camus contratou.
No outro lado da rua na escuridão da viela à frente da entrada do Clube Dominatrix, Shina observava a “irmã” e o jovem russo entrar no Clube.
— Ela entrou e está com o garoto. Vou precisar de reforço em breve Amamiya.
— Afrodite está lá dentro Shina, ele assume a partir daí. Estou a caminho com duas equipes e Kanon chegará com a polícia assim que eu os acionar. – Ikki apertou o celular, fazendo movimentos com as mãos para começar o deslocamento dos seguranças, estava em conferencia telefônica com Afrodite e Shina que estavam lá no Clube – Afrodite Radamanthys não pode encostar no Hyoga!
Desligou enquanto descia as escadas para o pátio em passos rápidos, os homens armados entrando nos carros, ele mesmo estava com seus dois Colts 44, beberia o sangue de Pandora aquela noite.
— Ikki, por favor...
— Nem adianta Shun! Não interceda por ela ou vai sobrar até pra você! – Shun viera correndo impedir o irmão de entrar no carro, mas Ikki estava tão furioso que nem os olhos lacrimosos de seu irmão amoleceriam sua convicção. Traição era um crime imperdoável, Mascherani sempre o ensinou isso e Pandora ultrapassou todos os limites levando Hyoga para encontrar Radamanthys. Se o inglês conseguisse fugir com o garoto do país, Ikki nem sabia o que seria capaz de fazer com Pandora.
Foi em lágrimas que Shun viu os carros partirem para o centro da cidade, Shaka se junto a ele no pátio o abraçando pelos ombros numa tentativa de consolo.
— Do jeito que ele está furioso, Ikki não ouvira ninguém. Pandora é louca! Está tomada pelo ciúme e meteu os pés pelas mãos Shun, não há nada que você possa fazer agora se foram as ações dela que à levaram a isso.
— Ela só ama o Ikki demais, não sabe o que está fazendo Shaka!
***
Pandora seguia dentro do Clube muito à vontade, Hyoga atrás olhava para todos os lados e tentava conter o principio de pânico que ameaçava se instalar nele. Algo não estava certo, já estava arrependido de estar ali.
— Lembra sobre o que eu queria mostrar? – Pandora falou dobrando o corredor e entrando em um quarto amplo, com diversos aparatos que lembravam instrumentos de tortura. Havia muito couro e arrebites, chicotes de montaria e outros maiores e mais esquisitos.
Foram para um nicho acortinado, era um lugar estratégico daquele quarto em particular oferecido a pessoas que tinham o desejo secreto de observar sem ser notado. Havia uma cadeira atrás de uma grossa cortina e de lá se podia ver todo o quarto. Rápida e eficiente Pandora jogou Hyoga na cadeira e começou a amarrá-lo nela antes que o rapaz resistisse, finalizou tudo colocando um pedaço de fita adesiva na boca do russo.
— Agora escute. Seu pai vai chegar logo e ele não vai vê-lo a principio, vamos observar daqui porque quero que fique quieto e observe o que vai acontecer. É exatamente assim que Ikki age, ele não vai ser um DOM sedutor e doce com você, ele é um animal. – Pandora falou no ouvido de Hyoga – Não se engane ao achar que ele será diferente porque é você, por Ikki talvez amá-lo. Não seja tolo porque Ikki não ama ninguém. Pense bem loiro e vá embora com o Juiz, só assim Ikki o deixará em paz.
Pandora se ergueu quando ouviu a porta abrir e logo Wyvern estava no campo de visão deles, dessa vez uma calça de couro com luvas, o rosto descoberto assim como o dorso. Trazia um rapaz por uma coleira fina e ele estava nu e vendado, com as mãos amarradas.
— Esse menino deve ter a sua idade... – comentou Pandora distraída e algo estalou em sua mente quando Wyvern tirou a venda do rapaz. Era a primeira vez que via uma sessão do Juiz com um submisso.
Radamanthys prendeu as mãos do rapaz em uma pilastra que mais lembrava uma espécie de tronco, o rosto dele virado para o lado em que estava Pandora e Hyoga que viam tudo protegidos pela escuridão no nicho. A mulher olhou com atenção o rosto delicado e belo do rapazinho que agora começava a gemer por ter sua carne açoitada por um chicote de montaria com esporas, ele tinha a pele rosada e muito jovem, os olhos azuis lacrimosos fitavam um ponto no quarto para tentar se distrair da dor. Eram três sequencia de vinte golpes, Pandora sabia o quanto era doloroso e sabia também que Radamanthys só estava começando. Olhou para baixo certificando-se que Hyoga estava vendo tudo e agora os olhos lacrimosos estavam olhando diretamente para ela.
Pandora sentiu a biles subir pelo esôfago ao constatar o obvio. O que estava fazendo? Estava tão louca de ciúmes assim? No passado a investigação da Família descobrira que Wyvern frequentava o clube de fetiches e até seus gostos por rapazinhos imberbes, loiros de olhos azuis... Agora entendia que era apenas um modo de aplacar seu próprio desejo imundo!
Hyoga tentou se mexer na cadeira, aquilo era horrível demais e ele estava começando a ter uma crise nervosa, se não saísse dali acabaria sufocando! Não acreditava no que estava vendo, no que estava concluindo! Seu pai, aquele homem que admirava e amava gostava de machucar e queria machucar a ele, Hyoga. Tentava chamar a atenção de Pandora, mas ela parecia tão desnorteada quanto ele.
Os gritos abafados do rapaz excitavam Radamanthys cada vez mais, o seu desejo evidente no volume sob o zíper, e nos músculos retesados enquanto o chicote abria os sulcos na pele acetinada do submisso. Ainda tinham muito tempo e logo teria seu pequeno com ele, Pandora prometera por isso precisava descarregar sobre aquele prostituto tudo. Ainda não era hora de ter Hyoga, só quando estivessem bem longe dali.
Um movimento na cortina e o inglês parou o braço no ar, chegou à cortina no momento em que Pandora tirava a fita adesiva da boca de Hyoga para que ele não engasgasse com o próprio vômito.
A mulher se virou alarmada com a intromissão de Radamanthys, fora reflexo e por um momento se esquecera de onde estavam. O inglês olhou para Pandora com uma expressão de fúria, fora lubridiado por ela e a alemã estava desesperada. Devia ter previsto que ela daria um jeito de assustar Hyoga.
— O desamarre. – ordenou Radamanthys enquanto o garoto ainda vomitava Pandora não fez nada esperando uma reação do Juiz, melhor que o garoto permanecesse amarrado, estava seguro ela pensava.
O Juiz se aproximou e antes que tocasse no jovem russo pandora usou sua força para chutá-lo, foi o suficiente para afastá-lo alguns metros deles. Radamanthys enfim se enfureceu e usando o chicote golpeou Pandora que protegeu o rosto com os braços, Radamanthys a golpeou mais duas vezes até pegá-la pelos cabelos fazendo Pandora arquejar. Dois murros Pandora caiu no chão desacordada e Radamanthys se voltou para Hyoga, o garoto sangrando amarrado na pilastra estava totalmente esquecido.
O juiz tinha um brilho vidrado no olhar cor de ouro, se aproximou de Hyoga ele mesmo desamarrando o russinho. Ele assustado só conseguia tremer, seu estomago revirava e ele já não tinha o que por para fora, era a crise e o pânico que estavam fazendo-o ficar assim.
-Shiu... My dear, shiu... – Radamanthys usou o suéter de Hyoga para limpá-lo dos vestígios do vomito, surpreendentemente estava calmo e murmurando em voz baixa – Vai ficar tudo bem meu anjo.
— Me larga. – Hyoga se afastou assim que se viu livre das cordas e da cadeira, o esforço de se afastar de Radamanthys o fez tropeçar na cadeira e cair, mas precisava sair dali. – Não toca em mim!
— Hyoga, você não pode falar assim comigo eu sou seu pai.
— Você não é meu pai! – gritou o rapaz a plenos pulmões, tentando se erguer para fugir, Radamanthys se ergueu e puxou Hyoga para si apertando os braços dele dolorosamente.
— Eu vou cuidar de você agora, não ouse me desobedecer ou vou puni-lo! – Hyoga se debateu, mas Radamanthys era maior e mais forte que ele. A rebeldia dele estava excitando o Juiz outra vez e Radamanthys olhou para onde estava o submisso amarrado – Você vai tomar o lugar dele, garanto que vai gostar. Você gosta disso, é um puto! Já que deu aquele cão carcamano o que era meu por direito, está na hora de você ter o seu castigo.
— Não! Me solta... Não, por favor! – Hyoga tentava se soltar as lágrimas já banhavam o rosto alvo enquanto Radamanthys o levava até a pilastra para prendê-lo no lugar do outro, rasgando as roupas dele no caminho. Mesmo as palavras desesperadas do loiro não demoviam Radamanthys. Ele não pedira por aquele momento, mas estava ali então que seja!
Quando Radamanthys prendeu o russo nas correntes da pilastra sentiu a palmatória descer sobre sua mente e uma dor lancinante, como se seu crânio tivesse rachando ao meio. Caiu sobre um joelho e um novo golpe o desnorteou, ficou tão tonto que nem ouviu a porta se abrir com um estrondo e o quarto ser invadido por seguranças e Ikki Amamiya, que vinha com Milo e Camus. A um sinal do meio-japonês quatro seguranças pegaram Radamanthys e Ikki foi desamarrar o russinho, cobrindo-o com o seu sobretudo. Assim que viu Ikki o russo começou a gritar e se debater fazendo-o com que ele se afastasse, foi Milo o único que conseguiu se aproximar do rapaz em choque e segurá-lo para que pudessem sair dali.
— Todo mundo para Mansão, incluindo esse filho da puta! Acionem Shaka lá, o garoto vai precisar de atendimento. – gritou para seus homens, olhando em volta e vendo o rapaz ensanguentado e Pandora ofegante em um canto, dois homens haviam segurado ela também – E quanto a nós, nos resolvemos lá Pandora.
***
Camus olhava o sono irrequieto filho tentando controlar a decepção e o desespero, tentava apelar para o seu lado racional para lidar com aquela situação. De novo precisava ser o mais forte porque Hyoga iria precisar dele. Quem pode saber como o rapaz enfrentaria mais aquele trauma? Se enlouquecesse era até justificável. Pela primeira vez Camus não sabia o que fazer.
— Você precisa descansar. – Milo abriu a porta do quarto e foi até Camus que estava sentado em uma poltrona ao lado da cama onde Hyoga dormia. Shaka havia ministrado um calmante no rapaz depois que chegaram ao meio da madrugada e ele ainda não acordara.
— Quero estar aqui quando ele acordar. Eu não consigo pensar em nada agora, só que ele tem que acordar.
— Você não podia prever o que aconteceria. Nem nós imaginávamos que ele fosse capaz disso... Por dezessete anos o menino o viu como pai, todos em volta eram taxativos ao dizer que Radamanthys era um pai cuidadoso e protetor, além de qualquer suspeita.
— Agora ele enlouquece! Radamanthys era o seu ídolo, exemplo de homem integro e partes dos problemas de Hyoga provinham do fato de ele se achar fraco e não consegui ser igual ao pai. E aquele filho da puta não passa de um pervertido imundo! – Camus passou a mão nos cabelos vermelhos em um gesto angustiado – Eu quase estou enlouquecendo!
— Ikki foi tão cuidadoso com a investigação sobre o Juiz, nem a ele passou essa possibilidade. Temos que pensar que o Hyoga vai superar mais essa.
Milo afagou os ombros de Camus, podia se solidarizar com a aflição do amado, era algo terrível até para ele que já vira tantas coisas! Ficaram em silêncio por um tempo até que Hyoga abriu os olhos lentamente e num pulo sentou na cama olhando para os lados assustado.
— Calma petit, está tudo bem agora. – Camus disse devagar se aproximando cautelosamente do loirinho.
— Pai! Ah graças a deus! – Hyoga abraçou Camus com força chorando e o francês o apertou forte junto a si sem conseguir evitar os olhos marejados, era a primeira vez que Hyoga o chamava de fato de pai – Pardon mon père . J'étais stupide, pardon moi! (me perdoa pai. Eu fui um estúpido, me perdoa).
— Oui mon ange, oui mon petit. (Sim, meu anjo, meu pequeno sim).
Milo se afastou e saiu do quarto devagar para deixar os dois a sós, aquele momento era somente deles. Tocou na aliança de prata que estava no anelar direito, que em breve seria de ouro e sorriu. Não precisava temer que Camus o excluísse de sua vida agora.
Caminhou pelos corredores procurando por Ikki, precisava colocar um pouco de juízo na cabeça do japonês que apesar dos argumentos de toda a Família parecia irredutível com relação à Pandora. Para fugir de todos os julgamentos ele se escondera, mas Milo sabia onde achá-lo.
Saiu dos arredores da Mansão e foi para macieira onde estava o túmulo de Mascherani abaixo dela, Ikki estava lá olhando o horizonte sob aquele sol escaldante que nem a brisa e a sombra da arvore amenizava. O Amamiya não parecia se importar, porque ainda nem trocara a roupa da madrugada e preto definitivamente era algo que Milo não usaria naquele calor.
— Venha, vamos comer alguma coisa. Ficar aí remoendo isso não vai ajudar em nada.
— Não estou com fome.
— Hyoga acabou de acordar, está com Camus. Porque não falar com ele antes de decidir sobre Pandora? Ele talvez tenha algo para lhe dizer, acredito que ela está arrependida. Ikki você devia perdoá-la.
— Não seria justo e cansei de me explicar. Shura não foi morto por ser um traidor? Porque Pandora deveria permanecer viva?
— Por que é diferente porra! Nós estamos diferentes, Mascherani morreu levando toda essa sujeira com ele e não há mais motivos para medir forças dentro da Família. Não somos mais uma máfia! Está enganado ao achar que Ettore agiria com ela do mesmo modo que ele agiu com Shura, nós estamos falando de Pandora. Mask ia entender que ela fez isso porque estava cega de ciúme e de fato ela não traiu ninguém além de você Ikki. Pandora acredita estar coberta de razão porque o ama e você a desprezou, fez pouco caso da dedicação e amor que ela lhe dedicou todo esse tempo. Por ter relegado ela em favor do garoto... – Milo lambeu os lados, só ele mesmo tinha coragem de dizer aquelas coisas para o Amamiya mais velho – Não a estou defendendo Ikki, só acho que ver você apaixonado por outra pessoa que não ela já é punição suficiente.
— Depois de todos esses problemas ele provavelmente jamais me deixará tocá-lo, não depois de ontem. Se ele ficar são depois de tudo... – Ikki se virou para Milo e havia muita dor em seu semblante, fazendo o grego emudecer – Hyoga tem horror a mim, você viu! Ele tem todos aqueles problemas, ela não podia ter feito isso, não podia!
— Quem sabe é tempo de mudar Ikki. – Milo passou o braço sobre os ombros do mais novo – Ela lhe deu a oportunidade de deixar isso para trás e ser alguém melhor para uma pessoa que é especial para você, fazer as coisas certas. Você tem que deixar o DOM para trás e ser o Ikki com o loirinho, só assim ele terá segurança para ficar com você. Porque se manter distante agora Ikki se é nítido que não é apenas desejo que você sente por esse rapaz?
— Eu... Ah sei lá! Parece tudo fora de controle! – Ikki deu de ombros se afastando de Milo fazendo-o rir porque o moreno era assim desde menino, evitava contato físico desde sempre.
— Melhor assim, chega de estar no controle e se deixe levar. Não se preocupe em achar que é uma atitude de fraqueza deixar Pandora viva, ela já tem a sua punição então deixe que siga seu caminho. Seja aqui conosco ou fora daqui, só esclareça que agora vocês não têm mais nada a ver.
— Isso ela já sabe, espero que não precise ter que desenhar! – Ikki fez uma careta.
— Venha comer de uma vez, trocar de roupa e eu vou convencer o Camus a dormir algumas horas para que você possa ver o russinho. E Radamanthys?
— Está nas mãos da policia. Seu amado “ruivo” não quis sujar as mãos.
— Ah meu ruivo sempre tão integro e certinho! – Milo disse com um ar sonhador – Ele não é perfeito?
— Até demais! – Ikki torceu os lábios.
***
— No fundo eu sabia... Que havia algo errado. Mamãe nunca me deixava sozinho com ele, sempre estava por perto e Bertie também, ela era quase um cão de guarda e quando mamãe morreu foi a primeira pessoa que ele demitiu.
— Ele nunca tentou algo? – Camus perguntou com cuidado, Hyoga estava agora deitado com a cabeça apoiada sobre as coxas do pai que acariciava seus cabelos.
— Nada tão efetivo. Havia apenas o carinho extremo, algumas situações em que eu o sentia me olhar intensamente... – Hyoga refreou-se, não era bom que falasse sobre aquilo com Camus porque no fundo ele sempre desconfiou, só não admitia a si mesmo. Radamanthys nunca foi um pai muito normal, mas ele o amava e fechava os olhos para tudo porque afinal acreditava que ele era o seu pai.
— Vamos tentar colocar uma pedra nesse assunto mon ange. Será difícil, mas eu estou aqui e vamos superar juntos.
— Pandora não sabia. – Hyoga se remexeu para sentar – Ficou tão estarrecida quanto eu e até tentou nos defender de Radamanthys, mas ele a esmurrou! Ela está bem?
— Parece que sim, não tenho certeza. Você acredita que ela não sabia? Então porque o levou até Wyvern se sabia que ele podia levá-lo da Grécia?
— Ela achava que se eu fosse embora ela poderia ter Ikki de volta. – Hyoga deu de ombros – Eles eram amantes e ela o ama. Foi uma loucura motivada pelo ciúme, pela rejeição e eu a entendo.
— Entende?
— Sim. – Hyoga meio sem jeito fitou o pai – Não é todo mundo que aceita numa boa amar e não ser correspondido da forma que ela ama.
— Principalmente que ela é submissa do Amamiya há muitos anos pelo que ouvi dizer. – Camus franziu o cenho – Milo sempre disse que todos esperavam que os dois se casassem porque Pandora parecia ser a única que aceitava o jeito Dom do Amamiya, não entendo o que aconteceu.
— Porque acha que ele foi até o clube pessoalmente pai? Acha que eu estava sendo feito de isca de novo? – Hyoga olhou para a janela, não queria demonstrar para Camus a comoção que estava sentindo ao revolver aquilo. Agora mais calmo pensava em todos os acontecimentos daquela noite, o olhar aflito de Ikki ao se aproximar dele e a sua rejeição involuntária. Não conseguiu controlar-se, estava em meio a uma crise de pânico e por isso repeliu qualquer contato com o moreno. Embora no fundo quisesse acreditar que Ikki estivera ali para salvá-lo, não apenas para se certificar de que seu plano para capturar Radamanthys tivesse dado certo.
— Se for isso eu juro que tiro o escalpo do Amamiya! – Camus disse entredentes – Eu não consigo nem imaginar que ele estava usando você para capturar Wyvern, Milo jurou pra mim que não era isso, que eles só descobriram que você estava no clube com a Pandora por causa do espião que estava na cola dela.
— O que ele quer de mim? – Hyoga abraçou as pernas, não sabia como reagir a Ikki Amamiya – Não sei o que pensar sobre ele. Naquele dia do confronto com Isaak ele me rejeitou, eu estava ali pronto para satisfazê-lo do jeito que ele quisesse. Mas Ikki me rejeitou... Agora ele foi ao Clube! Por quê?
— Hyoga fique longe de Ikki Amamiya. Para o seu bem, você sabe que do jeito que está hoje, se tornar um submisso está fora de cogitação caso queira ficar limpo e bem.
Hyoga assentiu mordendo os lábios, não tinha plena certeza se cumpriria o pedido do pai porque de alguma forma Ikki mexia com ele, talvez estivesse apaixonado pelo Amamiya mais velho só que isso lhe deixava confuso. Porque não sabia direito se o amava ou apenas era o perigo que aquela relação representava que o impelia a desejar o meio japonês, porque na terapia Hyoga descobrira que era propenso a relações destrutivas.
— Camus que tal um banho para almoçar e descansar um pouco? Agora que viu Hyoga acordado e bem pelo que podemos ver – Milo entrou no quarto com um empregado empurrando um carrinho de serviço de hotel, o loiro foi para os armários onde pegou toalhas e roupões – Aqui estão toalhas e roupões, trouxe roupas para vocês só não sei se as minhas vão servir no Hyoga. Mas, em você Camus eu sei que elas servem venham... Ei mocinho! Já para o banho.
Hyoga bufou, mas fez o que Milo pediu nem que fosse para ficar fora da presença do grego, estava constrangido por ter arruinado o jantar de noivado do pai e na rápida convivência daqueles dias descobrira que o grego tinha um gênio terrível! Camus se ergueu da cama para ir até o agora noivo e lhe deu um beijo surpreendendo Milo, porém o deixou imensamente feliz com a iniciativa. Milo aprofundou o beijo massageando a língua do ruivo com a sua, juntando mais os corpos.
— Merci mon amour, por cuidar de nós. – disse o francês quando apartearam o beijo.
— São meus preciosos agora, tenho que cuidar muito bem. – Milo acariciou a face de Camus com carinho se perdendo um pouco naquele olhar acastanhado – Pode tomar banho no outro quarto ou comigo o que acha?
— Tentador...
— Deixe Hyoga comer e descansar um pouco então e venha comigo francês, tenho uma banheira com sais esperando por nós. O garoto está seguro aqui na Mansão.
— Com Ikki Amamiya por perto não tenho tanta certeza.
— Já disse que se ele quiser, você não vai poder fazer nada. – Milo puxou Camus para mais um beijo – Eles se amam Camus, só ainda não entenderam isso.
****
Shun depois do almoço foi atrás do russo para tirá-lo do quarto. O encontrou ainda de roupão meio sonolento jogado sobre a cama mexendo no celular.
— O que tá fazendo?
— Tô quase dormindo de novo.
— Você ainda tá de roupão? Cadê a roupa que o Milo te deu?
— Era dele ficou grande demais.
— Vamos lá para o meu quarto e eu te arrumo o que vestir, tem TV e videogame lá a gente pode fazer mais que dormir o dia inteiro. O Dite disse que ia lá também
Foram para o quarto do moreninho na outra ala e Hyoga se perguntava qual o tamanho daquela casa porque sempre descobria corredores novos.
— Milo deve ter sequestrado seu pai. Espero que sim porque o ruivo tá uma pilha desde ontem, nem comia nem dormia o coitado.
— Não me faça me sentir mais culpado do que já estou. Foi uma estupidez ter fugido para ver meu outro pai... Ah cara isso ainda é muito louco!
— Se é! Se bem que do jeito que eu achava ele meio pedófilo pra mim não é uma surpresa. – entraram no closet de Shun – O que importa é que Ikki chegou a tempo de evitar o pior, tudo está relativamente bem certo? Pode escolher o que quiser daqui! – indicou algumas portas – Tudo que tem aí é novo, nem usei ainda. Há cuecas na embalagem também, mas me diz aí como você está?
— Melhor do que eu imaginava pra dizer a verdade. Ontem foi bem complicado e eu ainda vou precisar trabalhar isso com o meu terapeuta, mas chega de bancar a donzela indefesa. – Hyoga falava enquanto trocava de roupa. Escolhera uma calça de sarja escura e uma camiseta clara – Hora de amadurecer.
Saiu do closet e encontrou Shun arrumando o videogame, o japonesinho o olhou sorrindo.
— Fico feliz que seja assim, você precisa tomar conta da sua vida agora. Quer um suéter? Pode pegar!
— Estou bem assim e você Shun? Como está tudo?
— Estou muito bem. – Shun soltou uma risadinha – Acho que o luto finalmente acabou e sinto que posso seguir em frente sabe? Ainda sinto muita falta do Ettore, mas a cada dia fica mais fácil lidar com isso.
— Que bom Shun, eu espero que você consiga ser feliz de verdade.
— Eu também espero que você e o Ikki consigam encontrar um caminho. – Hyoga riu de lado ante a fala de Shun. Havia muitos votos sobre ele e Ikki, mas para o russo não era tudo tão claro assim – Você tem medo do quê?
— Medo de voltar a me drogar para suportar estar ao lado dele, medo de voltar a ter prazer com a dor e surtar de novo. Não acha o suficiente?
Shun se arrastou sobre o tapete para ficar próximo ao loiro que apoiou a cabeça no ombro do outro, o moreno passou os dedos pelos fios dourados do russinho. Entendia os medos do amigo, eram os medos de Shun também caso Ikki quisesse transformar Hyoga em seu submisso e apenas isso. Mas às vezes conseguia vislumbrar no irmão algo que até Ikki relutava em aceitar.
— Não posso falar por ele, mas acredito que Ikki esteja começando a rever algumas coisas na vida dele e você é uma delas. Depois do que aconteceu ontem, talvez as perspectivas mudem.
— Não estou tão certo assim. Ainda acho que Ikki estava me usando de isca para pegar meu pai, ele só não imaginava descobrir que Radamanthys tinha aquele desejo perverso por mim.
Shun não retrucou, ele também não estava tão certo de que Ikki não sabia sobre os planos de Pandora, então era melhor se abster.
Hyoga passou o resto da tarde com Shun até Afrodite chegar com um lanche e ficar um pouco com eles. O russo ficou surpreso ao descobrir que eles estavam namorando, mas depois de ver Afrodite e Shun juntos achou que se surpreendeu por nada. Afrodite era carinhoso e cuidadoso com Shun sem sufocá-lo e ambos pareciam ter uma afinidade sem igual. De certa forma eles se pareciam, combinavam.
Alegando que precisava procurar o pai Hyoga os deixou e tencionando voltar ao quarto saiu pelos corredores. O lugar era grande e ele descobriu isso do pior jeito.
— Que droga! – olhou para os lados e para o corredor de onde viera, pareciam todos iguais – Quem sabe se eu voltar...
— Vire a esquerda no corredor em frente e você voltará para o corredor dos quartos na ala leste, o de Milo é com o escorpião entalhado na porta.
Pandora estava sentada em um banco de pedra no pequeno pátio entre as alas, havia uma fonte com ninfas onde a agua jorrava produzindo um barulho relaxante. A morena vestia uma camisa larga e calças skinners preta, havia machucados no belo rosto e o pescoço alvo estava roxo. Hyoga ficou um tempo a fitando, olhando aquelas marcas que evidenciavam os acontecimentos na noite anterior.
Contrariando a expectativa da alemã, o loiro foi sentar-se junto dela. Pandora esperava que Hyoga estivesse bem longe dali depois de tudo, mas pelo visto se enganara de novo ao achar que o afugentaria. Observou o rapaz sentar ao seu lado com seus olhos sobre ela, não podia negar que Hyoga era absurdamente bonito de uma beleza até um tanto comum, mas bonito. Ainda era um garoto que não cresceria tanto, mas ganharia mais corpo e perderia aqueles traços angulosos da adolescência. Seria diferente se ele não fosse bonito e quase um príncipe? Pensou consigo.
— Você está bem? – perguntou ele.
— Eu ia perguntar a mesma coisa, mas pelo visto você está muito bem!
— Eu espero que fique tudo bem com você, de verdade. Obrigado por tentar me ajudar... Sinto muito por tudo.
— Você sabia que eu estive bem perto de morrer duas vezes por sua causa? Primeiro na mão daquele porco que você chama de pai por te defender e depois porque Ikki me quer ver morta por ter levado você até o Juiz?
— Ikki ia cair em si, talvez ele só estivesse com raiva e sua família não ia deixar. – Hyoga deu de ombros, conseguia sentir a hostilidade vinda da mulher.
— Você é tão inocente! Por isso foi tão fácil de pegar você, te sequestrar para usá-lo para controlar o advogado e Radamanthys ao mesmo tempo. Viciado do jeito que você é foi ainda mais fácil, Ikki sabia que ia dar certo o tempo inteiro e não duvido que ele tenha planejado tudo noite passada também. Por que se você não sabe, Ikki é tão filho de Mask que age exatamente igual a ele, não se engane.
— Você quer me intimidar contando essas coisas? Eu entendo o que você fez Pandora, sei que está ferida e entendo seus sentimentos. – Hyoga se levantou porque não queria que ela o perturbasse mais insinuando aquelas coisas – Eu só queria agradecer por ter tentado me ajudar.
— Não vá embora ainda. – Pandora segurou o pulso de Hyoga – Porque acha que com você vai ser diferente do que é com todos? Você está fascinado por ele e vejo que entendeu que Ikki não é como o Wyvern, mas ele ainda é um Dominador. Controlador e possessivo! Dentro de quatro paredes ele exerce isso muito bem, mas com você vai ser muito diferente porque ele vai levar isso além do sexo. Ikki não vai conseguir controlar porque ele nunca se sentiu assim e você vai sofrer.
— Não... Não vai! – Hyoga se desvencilhou de Pandora para sair e foi quando os dois viram Ikki se mexer na entrada do pátio, a expressão dele era indecifrável. Pandora engoliu em seco e Hyoga baixou os olhos sem saber direito como agir.
— Pandora não me faça repensar minha condescendência em relação a você. Faça jus a todos os pedidos da Família por você e mantenha-se viva.
A alemã se ergueu do banco e caminhou em direção a entrada passando por Ikki e ambos trocaram um olhar significativo, na expressão amarga de Pandora estava todo a dor que ela carregava pela decisão de Ikki. Não havia mais nada para eles, amizade amor, nada. Se fosse para ver Ikki refém daquele menino, Pandora não permaneceria ali.
À saída da mulher Ikki se voltou para Hyoga que ainda permanecia ali, não via o moreno desde o episódio no Clube.
— Por que está aqui? Você se perdeu?
— Acho que sim, eu vim do quarto do Shun e devo ter dobrado o corredor errado.
Ikki o chamou com um gesto de cabeça e ambos saíram dali em silêncio, Ikki olhava para frente e Hyoga vez o outra fitava o perfil do moreno. Percebia que o moreno mantinha distância e se mostrava sério, mas o russo não conseguia ficar indiferente ao Amamiya mais velho. Ikki não usava seu habitual terno e gravata, o que o deixava ainda mais atraente naquele jeito casual. De jeans escuro e uma camisa azul marinho de tecido maleável parecia mais jovem e menos intimidador.
— Está com receio de mim? – Hyoga tocou no cotovelo do moreno fazendo-os parar no meio do corredor.
— Achei que deveria manter distância. – foi sincero, estava até evitando encontrar o russo para não desencadear uma nova crise, mesmo que seu desejo fosse ver Hyoga e saber se ele estava bem.
— Eu também achei, mas... Ikki o que você realmente quer de mim? Você foi ao clube de fetiches para ver Radamanthys ou para me ajudar? Eu fico pensando nas suas atitudes e sinceramente não sei o que achar você não se esforçaria tanto por um submisso! Magoar Pandora a esse ponto apenas porque quer satisfazer um desejo? Eu não compreendo...
— Vamos conversar em outro lugar.
Foi a vez de Ikki tocar no loiro pelo cotovelo e guia-lo pelos corredores até chegarem um uma grande porta dupla que Ikki abriu com certa hesitação, mas acabou entrando com Hyoga no seu quarto de jogos.
Um calafrio passou por Hyoga ao se dar conta de onde estava. Por um momento as imagens de Radamanthys na outra noite vieram em sua mente, só que agora se via ali amordaçado e vendado com Ikki a usar o chicote e isso o fez abraçar a si mesmo.
Ikki observou as reações do mais jovem enquanto ele estava parado no meio do quarto e o moreno andava por lá mexendo nos apetrechos e abrindo as gavetas, exibindo toda a espécie de objetos utilizados por ele em suas “sessões”. Mexia naqueles objetos com os olhos cravados no russo que tinha o corpo retesado e um olhar aflito. Características de pânico, não de excitação e ele já esperava por isso. Sabia que mesmo que fosse recente por conta da descoberta de Radamanthys, Hyoga nunca se sentiria bem ali. Talvez cedesse por Ikki e porque sua submissão viria através do medo e dos seus problemas psicológicos, não porque aquilo lhe agradava. Isso causaria mais mal do que bem ao rapaz e Ikki percebia que jamais o machucaria a tal ponto.
Pela primeira vez Ikki Amamiya pensava no bem estar sentimental de alguém, não apenas em satisfação física. Com Pandora havia companheirismo e ele sabia que ela gostava que não fosse por amá-lo que ela se entregava aos jogos e sim porque aquele estilo de vida lhe era prazeroso ao extremo. Ela se submetia por prazer, o que nunca ocorreria com Hyoga.
— Você...
— Não vou fazer nada com você aqui, é obvio que você não vai suportar. Você me perguntou a pouco se era apenas para satisfazer um desejo, um capricho e a única coisa que posso afirmar a você que o que sinto ultrapassa qualquer entendimento que eu tenha sobre. – Ikki falava se aproximando de Hyoga. Levou a mão ao rosto alvo acariciando a pele macia com carinho e verificando que havia uma leve vermelhidão na maçã do rosto – Eu o desejo como nunca desejei ninguém, é incontrolável e eu que sempre tive o controle de mim mesmo perco a cabeça só de pensar em você. Chego a pensar que talvez nunca lhe tocar. Ter você ao meu lado será o suficiente, esperar que você me aceite... Isso é loucura.
— É uma loucura não é? Sinto-me um doido varrido por querer você dessa maneira. – o polegar do moreno seguiu o desenho dos lábios carnudos do russinho – Você me sequestrou, me dopou...
— Foi o Padrone e você foi para cama com ele. – o polegar parou sobre os lábios de Hyoga – Você estava drogado, mas quis isso desde o inicio.
— Eu sempre quero Ikki, é um dos meus vícios. A minha vida toda é um vicio continuo, instigar meu pai e a sua perversão, as drogas e a culpa, os relacionamentos destrutivos... O sexo. Meu terapeuta disse que isso é uma espécie de adicção, alguém que sempre está em busca de uma recompensa ou compensação que eu não sei qual é. Será o seu amor o meu novo vicio Ikki?
— Você é viciado no perigo.
A mão de Ikki enveredou pelos cabelos da nuca de Hyoga e ele inclinou o rosto parando à centímetros da boca do russo, os olhos índigo fixos nas aguas marinhas que eram as orbes do russo. Desejo incontrolável de beijá-lo, mas sua razão lutava contra isso! “Deixe-o, ele é alguém muito doente para satisfazê-lo” sua mente dizia “Faça Ikki, ele precisa disso tanto quanto você!”.
Por o beijo e os lábios se provaram com ardor por um momento até que as línguas se encontraram ávidas pelo sabor um do outro. Esqueceram até que estava ali tamanha a voragem, Hyoga enlaçou Ikki pelo pescoço deixando que ele devastasse sua boca como quisesse e o desejo crescendo nele até que todos os seus pensamentos fossem apenas um borrão.
— Vamos embora daqui ou eu não vou conseguir parar.
— Vamos tentar Ikki, por favor... – Hyoga o segurou pelo colarinho, ambos ofegantes do beijo findado segundos antes.
— Não, ainda não. – Ikki beijou a testa de Hyoga o apertando junto a si para controlar sua comoção – Quando estivermos prontos, os dois. Venha, há muito que conversar ainda.
Ikki o levou dali para sua própria suíte e lá eles ficaram conversando sobre outras coisas, sobre eles, sobre a Família. Hyoga acabou adormecendo na cama larga ao lado de Ikki que viu o sol se por na janela de pé alto e os raios alaranjados emoldurarem o anjo que dormia nos lençóis de linho, pensando em porque aquela simples cena o emocionava daquela forma. Como ele disse há Hyoga tê-lo ali bastava e naquele momento teve certeza que bastava mesmo.
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