City Of Future
2 I
sins for love, sins for pain. confusion in my brain.
(pecados por amor, pecados por dor. confusão em meu cérebro.)
xx
– Um café, por favor.
A pequena garçonete, com o avental preto sobre parte da saia plissada, de um vermelho tão intenso quanto a cor do seu batom, algumas vezes maior que ela, encarou. Os olhos castanhos brilhando, esperando uma continuação no pedido.
Anotou em um pequeno bloco de folhas amareladas, talvez tornadas dessa cor pelo tempo que passara sem receber nenhum toque, visto que o Jenn’s Burguers nunca recebia nenhum cliente.
– Mais alguma coisa?
Melissa Evans limitou-se a negar com a cabeça, sem emitir qualquer ruído. Às vezes comia algum salgado gorduroso nesses restaurantes sujos, para fingir que a pessoa pela qual a esperava não a tinha deixado plantada, e que o único motivo pelo qual teria visitado uma dessas espeluncas era provar um dos maravilhosos pratos de insetos ou bichos asquerosos que vinham junto com a comida. Entretanto, não parecia ser necessário fazer isso naquele dia.
A garota virou-se, decepcionada, provavelmente por esperar algumas gorjetas maiores do que receberia vendendo só um café. Quando saiu, Mel não pôde deixar de sentir pena por aquela menina. Era tão jovem, tão inexperiente. Poderia ter um futuro brilhante, se estivesse estudando no lugar de trabalhar. Ainda assim, achava melhor vê-la trabalhando que assaltando alguém, era o que sempre diziam seus pais.
Mirou seu olhar para fora da janela, encarando a estrada deserta – tanto pela falta de pessoas, quanto pela areia em todos os arredores e no próprio asfalto – e imaginou quanto tempo demoraria para receber seu ilustre visitante.
Não costumava ficar apreensiva diante de encontros inusitados. Apenas em encontros inusitados relacionados ao seu trabalho. O que era o caso. E era um caso três vezes peculiar, porque clientes do prédio administrativo preferiam jantares em lugares ornamentados de jóias, não uma refeição entre almoço e lanche da tarde em restaurantes sujos e isolados. Aquilo parecia quase um filme de psicopatas estupradores, onde um mocinho salvava a mocinha no final, ou um dos dois morria. Ou os dois.
Mas, no caso de Melissa, não haveria um mocinho.
Com vinte e cinco anos, Mel usufruía de uma emprego promissor e uma capacidade intelectual avançada, porém, não havia encontrado um parceiro. E não foi por falta de tentativas, nem por opção própria.
Todas as vezes que encontrara alguém, tinha sido pela Internet. Um recurso maravilhoso, inclusive. Entretanto, aqueles que iam aos encontros marcados – porque, muitos não iam –: ou não eram o que pareciam, ou não gostavam dela, ou utilizavam a desculpa de “você é ocupada demais para um relacionamento”, ou não passavam do famoso “caso de uma noite”.
“O problema não é com você, querida. Você é uma pessoa maravilhosa”, sua avó dizia. Obrigada, vó.
Mas, isso não era o suficiente para ela. Muito menos para o pai. Ah, sim… O pai detestava ver sua filha, uma mulher adulta, sem nenhum companheiro. Era quase vergonhoso.
Há algum tempo já havia parado de examinar a janela e encarava a tela de cristal derretido do celular, trocando mensagens freneticamente sobre a economia do prédio e os problemas que haveriam de vir, e levantou a cabeça imediatamente quando os sinos da porta tilintaram, anunciando a entrada de alguém.
Três horas em ponto. Aparentemente, estava diante de um homem pontual. Tinha um apreço por pontualidade; seguir os ponteiros do relógio conforme marcado era um sinal de responsabilidade.
Ele examinou o pequeno restaurante – não que este fosse grande demais, ou cheio demais para esse ato – e lançou um meio sorriso. Não como se estivesse feliz; como se o fizesse pelo intuito de ser educado. E era elegante.
Parado naquele terno preto e com a gravata azul, estava tão esplendidamente bem vestido que a empresária até se remexeu no estofado banco de couro vermelho do restaurante, imediatamente desconfortável no uniforme preto.
Um bonito rapaz, não podia deixar de constatar. Era alto e particularmente forte. Ele caminhava em sua direção, decidido, como se soubesse que era ela quem viria, não outra pessoa, como se esperasse por ela. O sorriso tornou-se mais simpático, e ele estendeu o braço para ela quando estava suficientemente perto para isso.
– Você deve ser Melissa Evans – a voz firme e masculina afirmou, talvez um pouco mais imponente do que sua tenra idade sugeria. – Sou Jesse. Jesse Aaron. Você já deve ter ouvido falar de mim.
– Você é o nosso novo investidor. Todos já ouviram falar de você – ela comentou, fazendo-o rir brevemente, ato cujo qual fê-la indagar-se mentalmente se utilizava a formalidade correta, retribuindo o sorriso simpático. – É um prazer conhecê-lo, Sr. Aaron.
– O prazer é todo meu, Srta. Evans – ele sentou-se no banco de frente com o dela, o estofamento vermelho mais rasgado, com partes do algodão saindo. – Vamos falar de negócios?
Ele não aparentava ter mais que vinte e três anos. Repassou a cena da reunião diversas vezes na cabeça, esperando “falar de negócios” com um homem velho, gordo, calvo e egocêntrico, não com um quase adolescente, forte, com todos os fios de cabelo e com um sorriso simpático. Aquilo era um tanto quanto bizarro para ela.
Iniciaram a conversa, enquanto a mulher espiava algumas vezes para fora da janela, esperando encontrar algo diferente da Audi R8 do garoto. Esperando encontrar um homem mais experiente no asfalto arenoso, avisando que a reunião que estava tendo era uma farsa, e que o garoto era um assaltante procurado por suas técnicas de espionagens. Mas, com toda certeza, isso não aconteceria.
Não estava dizendo que o garoto não era experiente; pelo contrário, sabia muito bem do que estava falando. Mel não pôde deixar de notar o sotaque sarcástico e persuasivo em sua voz, o que deveria ser extremamente útil em ocasiões como aquelas.
Algumas vezes, eram interrompidos ora pela garçonete que a atendera – jovem que Melissa descobrira se chamar Camille – ora por outra garçonete, um pouco mais velha, mais corpulenta e negra, que pareciam se dar por satisfeitas na presença de Aaron. Não que fosse difícil imaginar o por quê.
Ao final de trinta minutos, talvez uma hora, de introdução entraram no assunto que realmente interessava: a proposta.
Os rumores sobre o novo investidor não poderiam ser mais benéficos para ele. Todos diziam que ele seria a solução para todos os problemas. Uma inovação, sem dúvidas. Alguns até arriscavam dizer que conheciam empresas pequenas que tornaram-se grandiosas após conhecer o seu trabalho.
– Uma máquina do tempo – ele pronunciou, por fim.
– Sim, seria ótimo se tivéssemos uma máquina do tempo, Sr. Aaron. – ela soltou uma breve risada, e colocou o cabelo atrás da orelha. – Mas, sinto que estou atrasada para outro compromisso, e realmente preciso que você me diga o que tem em mente.
– Srta. Evans – o tom era firme, afastando brincadeiras. – Eu acabei de dizer e você riu de mim. Sei que parece absurdo, mas é grandioso. É desejado e procurado por cientistas há séculos. Porém, para a sua sorte e a da sua empresa, eu tenho a solução.
Naquele momento, a ideia de um velho gordo e egocêntrico aparecer, anunciando que era tudo uma farsa, pareceu extremamente plausível.
– Por algum acaso o senhor está falando sério?
– Com todas as letras.
Ela se limitou a abrir a carteira, que retirou do dentro do bolso, e colocou algumas notas em cima da mesa de madeira. Esperava mais que um surto de marketing do imponente e esperado investidor. Mas, era claro que havia criado expectativas demais, a começar por acreditar que um empresário com tal fama iria querer “falar de negócios” em uma espelunca, continuando por achar que um moleque, poucos anos mais novo que ela, teria capacidade de conduzir um patente tão alto, e a terminar por achar que tudo aquilo não era maluquice.
Naquele horário, o verdadeiro Jesse Aaron, cujo qual ela esperava e precisava atender, deveria estar em um jatinho fretado, tomando martíni, sem sequer ter ciência que a reunião era naquele horário, e que um pirralho usava seu nome para fingir importância.
Ela levantou e ajeitou a saia justa. O homem a encarava, com uma expressão enigmática, sem demonstrar se estava bravo, decepcionado ou envergonhado. Melissa esperava, sinceramente, que estivesse envergonhado. Apesar de não ser experiente, já era crescido o bastante para saber o que era certo e errado, e que enganar uma mulher ocupada era demasiadamente errado.
Mel caminhou para a porta, sem emitir qualquer ruído, além dos baques surdos do seu salto colidindo contra o chão de mármore que, anteriormente, deveria ter sido branco, mas agora beirava em um tom entre cinza e marrom.
A areia do local era completamente irritante. Os pequenos grãos voavam contra a fina pele a cada passo que ela dava. Não que houvesse dados muitos passos quando o charmoso Sr. Aaron parou sua caminhada.
– Srta. Evans – ele impôs, como se estivesse mandando, não mais pedindo. – Creio que sua atitude tenha sido extremamente estúpida e desnecessária. Por isso, peço que entre no meu carro – ele apontou para a Audi prateada com os pneus sujos pela estrada em que se encontravam. – Escute o que eu tenho a dizer e não ria das minhas propostas – antes que ela pudesse responder, recebeu um “É a sua única chance de se redimir com o cara que vai salvar a sua empresa e o seu emprego”.
xx
Aquilo tudo era ridículo, ela pensou, deitada na cama, encarando o teto. Já não era mais uma adolescente, e aceitar uma ordem daquela maneira fora ridículo. Inaceitável.
As empresas Bass estavam passando por um momento delicado de sua vivência. O novo diretor tivera a brilhante ideia de assinar um tratado com as empresas Lyne, concorrente forte há vários anos e, como já era de se esperar – e não havia sido por falta de avisos –, o tratado fora um fracasso. Os clientes da Bass viram essa tentativa como uma falta de poder. Nesse momento, as vendas caíram, e a única solução sugerida pelo incrível investidor era…
… uma máquina do tempo.
Nada poderia ser mais perfeito e oportuno.
Ela era uma das advogadas do local. Uma das várias. E, dentre várias, parecia ter sido escolhida a dedo pelo destino para conhecer a insanidade de perto.
Encolheu-se na cama e puxou o cobertor para próximo do queixo, sendo aquele, talvez, o único momento em que poderia se sentir tão vulnerável o dia inteiro. Não que a sensação de ter o corpo aquecido tivesse durado muito tempo, porque logo em seguida sua sobrinha entrou no quarto e anunciou que “a vovó avisou que tem um cara alto te esperando lá na porta”.
O caminho até o andar de baixo se deu a passos rápidos, já imaginando quem estaria na porta com o intuito de se desculpar e dizer que costumava testar o senso de humor das pessoas que ele viria a atender. Entretanto, não era o Sr. Aaron que a aguardava.
Lá na porta da sua casa, estava um velho, alto e esguio. Contava com fios de cabelos ralos, da mesma cor que seu jaleco branco, e era quase assustador, quando contrastado com os gigantescos olhos escuros.
– Pois não? – foi o máximo que pôde dizer, aproximando-se com cautela.
– Melissa Evans, creio que a senhorita precisa vir comigo – o velho falou, com a voz clara, mas não completamente alta. Aparentemente, tinha um apreço pelo discreto.
Ela cruzou os braços e passou a encarar. Os cachos soltos que caiam sobre o ombro nu e a irritavam, mas retirá-los de lá seria expor-se mais ainda . Se sentia vulnerável, e, ainda assim, não sabia o que pensar daquele homem, que, contrariando a mulher, parecia estar confortável e alheio à situação.
– Por algum acaso, eu posso saber quem é você?
– Oh. Mas é claro – ele exibiu os dentes amarelados em um sorriso, como se fosse uma espécie de Chapeleiro Maluco do Século XXI. – Me chamo Emmett Brown. E eu estou morto.
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