City Lights
1 Capítulo 1
O vento no topo do prédio era muito mais forte do que lá em baixo e, consequentemente, fazia muito mais frio. Noah tremia com os braços em volta do tronco largo, observando sua colega de casa sentada no parapeito com pouco mais do que uma camiseta de malha fina.
Ele sorriu observando os cabelos cacheados serem chicoteados pelo vento de forma desconexa, pensava em qual seria a próxima piada que faria com ela, eram tantas possibilidades e quase todas tinham a ver com seus cabelos despenteados que ela tentava insistentemente organizar com as mãos de dedos longos ou com o frio que ela parecia não sentir. Sabia de cor cada uma das reações que ela teria. Primeiro o encararia com o rosto fechado, mas logo cederia em um sorriso de dentes perfeitos e brancos antes de retrucar com alguma piada pensada na hora.
Por mais tempo que se conhecessem, aquela cumplicidade havia sido rápida e natural, mesmo que só houvesse se tornado mais íntima com o tempo, mas a implicância sempre estivera ali.
—- Vai cair ou se jogar? -- ele disse olhando de longe.
Amélia não moveu as pernas, apenas olhou por sobre os ombros com um sorriso plácido nos lábios. Estava feliz apesar de qualquer coisa.
—- O que faz aqui em cima? -- ele perguntou ainda no mesmo lugar -- Jogando Baleia Azul?
—- Só nos seus sonhos -- respondeu apoiando as mãos no umbral e jogando a cabeça para trás a fim de olhá-lo, formando uma cascata de cachos negros que terminavam no chão. Depois voltou preguiçosamente a sua posição inicial. -- Porque não chega mais perto e senta aqui, medroso?
Noah soltou um riso anasalado. Sempre tivera medo de altura e nunca subia ao último andar, exceto se houvesse alguma reunião dos amigos ali, bem longe das beiradas, mas não podia negar o motivo real de ter chegado até lá em cima, pois quando viu as pernas penduradas ao lado do prédio foi tomado por um medo indescritível, mais do que aquele que sentia ao se aproximar do parapeito.
Ele apoiou os braços sobre o local, evitando olhar para baixo. O sol se punha pintando o céu em tons laranja e avermelhados, iluminando tudo com um brilho cálido. Amélia suspirou antes de se apoiar sobre o ombro de Noah.
—- Quem deixou você fazer isso? -- perguntou o jovem, observando o rosto iluminado pelo crepúsculo.
—- Você me deve -- respondeu fechando os olhos.
O silêncio se estendeu por um longo momento. Noah evitava olhar para a jovem em seu ombro, mas vez ou outra era impossível evitar. Os cachos caiam em suas costas e faziam cócegas em seu pescoço, por outro lado Amélia se preocupava apenas em respirar o cheiro de sabonete e perfume que ele exalava e tudo estava perfeito.
—- Você não respondeu o que faz aqui? -- ele perguntou quando sentiu o nariz gelado da amiga contra o seu pescoço, fazendo arrepios se espalharem por sua coluna, não iria abraçá-la, ela acabaria se retraindo ou bateria nele até que a deixasse ir de qualquer forma nunca mais voltariam a ficar daquele jeito.
—- Só tive um dia ruim -- mais uma vez ela permitiu que o nariz corresse pelo pescoço descoberto. Ele fechou os olhos em um impulso, não entendia o que acontecia ali talvez fosse o momento, o horário ou apenas as cores do crepúsculo dançando no céu, mesmo assim beijou os cabelos castanhos de leve.
Os olhos se encontraram, lá embaixo a vida seguia enquanto os dois se encontravam ilhados no topo do prédio. Os olhos castanhos sustentaram a intensidade daquelas orbes azuis profundas do rapaz que sorriu ao sentir o corpo estremecer, ela também sorriu antes de juntar os lábios ao dele levemente.
Ele não teve tempo de reagir antes de sentir os cachos escuros batendo em seu rosto como o vento gelado que congelava seu corpo agora que voltava a noção de realidade. Ainda houve tempo de ver os cabelos sumirem pelas escadas.
Por mais que tentasse conversar com Amélia sobre o que aconteceu, tudo o que conseguiu foi um bilhete deixado sobre a península da cozinha que dizia.
“Eu consegui uma oportunidade única. Desculpa não falar com ninguém, mas eu tinha que ir.
Espero que entendam a minha partida abrupta.
Não vou trocar o numero do meu telefone.
Com amor,
Amélia Rachel”
Mesmo sem saber ele havia chegado tarde demais e aquele beijo solitário havia sido apenas uma despedida mais informal do que a carta sobre a mesa.
~~ anos mais tarde ~~
As escadas estavam escorregadias sob os pés desajeitados da jovem e a visão obstruída não ajudava em nada o caminho. Podia sentir as mãos grandes de noah em seus olhos e vez ou outra tropeçava em seus pés e ia de encontro ao peito largo do homem.
—- Sério, se eu cair, você vai sofrer tanto -- disse a mulher tateando o degrau com os pés incertos. -- Pra que me acordar às 5 da manhã?
—- Não vou te deixar cair -- respondeu ele, como se não ligasse para a pergunta -- Eu jamais faria isso -- o riso era claro entre as palavras que ele dizia.
—- Não, você só vai me derrubar.
Não houve resposta. Há muito tempo o silêncio incomodava os dois quando tomava o espaço, mas já havia deixado de ser há muito. Os dois apreciavam o silêncio agora, era confortável e ela nunca se livrava daquela vontade de deitar sobre os ombros.
—- Eu pensei em algo para o dia de hoje -- ele disse quebrando o silêncio ao saírem no frio de um espaço aberto. -- Espero que goste.
Retirou as mãos dos olhos da mulher que os abriu devagar e olhou em volta. Estavam no topo de um prédio, uma chama ardia em uma espécie de lareira para quintal, o chão ao redor era forrado com almofadas e cobertas e no horizonte era possível ver as luzes da cidade se desvanecendo contra o nascer do sol.
Lágrimas rolaram por sua bochecha sem razão.
—- Eu pensei que seria uma boa surpresa pelo nosso aniversário -- respondeu ele abraçando ela e deixando que a cabeça repousasse sobre seu ombro. -- Eu quis te dar a cidade inteira, Amy, como você me deu aquela praça. Por favor não chora.
—- Eu se faz isso com uma mulher grávida -- ela respondeu com calma, sentindo o peito do rapaz se mover com a risada contida -- Eu to chorando por qualquer coisa. Eu te amo.
—- Eu te amo também -- ele respondeu com o nariz enfiado nos cabelos cacheados e assim ficaram até que o céu estivesse todo azul e as luzes da cidade apagadas.
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