Circulo de Fogo - E.N.D
29 Filho da morte
Notas iniciais
Queda — capitulo 5
Filho de Anúbis
* Ícaro *
– Pai, eu o servi com todo o meu orgulho — Sussurro. — Agora você pesará a minha alma?
Estou andando pelo vale do Inferno, observando as punições que meu pai determina sobre aqueles que não foram puros em vida.
Novamente me vejo em outro ambiente, dessa vez, no dia de meu nascimento, os sacerdotes lutavam para salvar minha mãe durante meu parto, ela sangrava muito, mas não sobreviveu, ela nunca disse quem era meu pai, e no Egito, isso é considerando uma desonra para toda uma geração.
Novamente o cenário muda; me vi quando criança, na escola, sofrendo abusos e agressões pelos outros alunos, sendo chamado de bastardo e impuro, até mesmo os professores achavam isso, eles não se pronunciavam em minha defesa.
Eu era repulsivo. Chorei escondido por muitos anos e amaldiçoei os deuses todos os dias da minha vida.
Sem mãe e sem pai, cresci nas periferias do templo, era cuidado pelos baixos sacerdotes, até o dia que a conheci, Iris, a única garota que não temia a mim, por muito tempo, foi minha paixão secreta, até meus quatorze anos e começar a ser feliz.
Em outro salto, me vi no pior dia da minha vida, Lacaios carniceiros atacaram meu vilarejo, Iris estava comigo, não pude protegê-la, e ela morreu em meus braços, me vi coberto pelo seu sangue, apenas confirmando para todos que eu era um amaldiçoado.
Só sobrevivi porque aqueles homens em armaduras lutaram e mataram todos os demônios, somente depois eu soube que esses homens eram os caçadores.
No dia que o próprio deus Anúbis veio até mim para me conceder seus dons, fui recrutado pelos caçadores, mas até mesmo entre eles não era diferente, ter um representante da morte por perto não era uma coisa muito boa.
Trabalhei em nome de Anúbis por meses e anos, muitos morriam em minha presença e muitos jogavam a culpa das baixas em minhas costas.
Até o dia em que conheci Ramon, nos tornamos melhores amigos, e mesmo ele sabendo quem eu era, ele nunca me abandonou, depois vieram Kylie, Thommy, Diego... Desde então, eu tenho sentido amor pela vida, mesmo servindo a favor da morte.
Tudo fica escuro ao meu redor, todas aquelas lembranças sumiram de minha mente, e em minha frente, o próprio Anúbis me olhava nos olhos, em sua mão esquerda o seu cajado negro e em sua mão direita, o meu coração.
– Filho meu — Diz o Deus. — Se aproxime.
Dou alguns passos em direção a Anúbis.
– Você é mesmo o meu pai? — Pergunto sem pestanejar
– Não. — Responde o Deus. — Mas desde o seu nascimento, eu o reclamei como meu filho, pois eu sabia que você seria especial.
– Quem é meu pai?
– Seu pai se chamava Bastet. — Diz Anúbis. — Meu filho legítimo, ele não pode assumi-lo com sua mãe por ser um sacerdote de Anúbis, ele morreu na guerra, em meu nome, antes de saber que sua mãe estava grávida.
Sinto o vazio aonde deveria estar meu coração, eu não conseguia sentir nada, remorso, raiva, rancor, pesar, absolutamente nada.
– Você é meu herdeiro na terra. — Continua do Deus. — O único desde o seu pai a ter sangue legítimo, por isso você é tão especial.
– Eu sofri a minha vida toda, em seu nome, fiz tudo o que você me pediu e nada disso me libertou de sofrimento. — Digo. — As pessoas me odeiam e preferiam me ver morto.
– Eles têm medo de você e do que é capaz. Mas, você sabe que achou a felicidade, eu sinto dentro do seu coração.
Anúbis ainda tinha meu coração nas mãos, pingava sangue entre seus dedos.
– Você fez amigos e ganhou o respeito de muitos. — Continuou Anúbis. — Cumpriu perfeitamente o seu dever como meu representante no mundo, por isso não posso permitir que fique aqui.
– O que quer dizer com isso?
Logo meu coração começa a pulsar em sua mão, rapidamente ganhando ritmo.
– Significa que você ainda tem um destino a cumprir. — Afirma. — E você não pode morrer agora... Meu filho.
Anúbis põe meu coração em meu peito, e em segundos, sinto todas as emoções crescendo dentro de mim novamente.
Anúbis ergue a mão e o céu que antes era escuro se rompe em luz, meu corpo levita para o céu.
– Mostre a eles meu filho. — Diz o Deus. — Mostre que você é digno de ser um líder, o melhor entre todos
– Sim — Respondo. — Sim, meu pai.
*******************
*Derek*
Todos estavam tristes, Ícaro não mexia a mais de uma hora, seu corpo já estava frio e pálido, seus membros já estavam enrijecidos, Kylie o tinha nos braços e derramava lagrimas incessantemente, sussurrava coisas que eu entendia perfeitamente.
"- Quantos mais amigos eu vou perder nessa guerra?"
Ethan o observava a distância, dando espaço para seu namorado sentir o luto, Scott se manteve em silêncio, Stiles estava no canto, mas eu sentia que ele estava arrasado por dentro, e eu, não me dei conta, mas tinha lágrimas escorrendo de meu rosto.
Tínhamos lutado lado a lado, eu já estava gostando dele, e mesmo com meus esforços de diminuir sua dor, ele não sobreviveu, eu me senti culpado por sua morte, assim como me senti culpado por não ter protegido Thommy.
Estávamos sobre a Uganda, já tínhamos percorrido quase a metade do caminho graças aos esforços de Ícaro, sabíamos que Astaroth ainda estava atrás de nós junto com o escorpião Rei, mas com essa vantagem, eles jamais nos alcançariam.
– Vocês não vão se livrar de mim tão facilmente — Sussurra Ícaro abrindo os olhos.
Observo espantado, não somente a mim, mas, todos; como era possível? Ele estava morto, eu tinha absoluta certeza.
Sem dizer uma única palavra, Kylie apenas o abraçou forte, soluçando pelo choro.
– Como? — Indaga Stiles. — Você estava morto, tínhamos certeza.
– Filho do Deus da morte, esqueceram? — Diz Ícaro ainda com voz fraca.
Kylie carrega ele nos braços e o leva para o convés inferior.
– Ele precisa descansar ao máximo agora, tem que se alimentar também — Diz Kylie.
Ethan não protesta, dá espaço para que Kylie cuide do amigo, ele melhor que ninguém sabia o que esse sentimento significava.
– Temos que parar para abastecer — diz um caçador se aproximando de nós — logo anoitecerá e não podemos viajar durante a noite na mesma velocidade que durante o dia.
– Com Ícaro fora de combate e Kylie com ele, Stiles assume — o caçador continuou. — É o que tem a maior patente dentre a tripulação.
Stiles acena com a cabeça em concordância e sobre para a sala do capitão a fim de programar todo o percurso da viagem.
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A noite já estava caindo, paramos em Kigali na capital da Rwanda, precisávamos abastecer e repor os suprimentos, contar baixas, munição e todo o trajeto de vôo, Stiles e eu descemos do dirigível para comprar medicamentos, provavelmente Ícaro iria precisar, e Kylie se recusava a deixá-lo sozinho.
O país pequeno estava em ruínas, a guerra religiosa já havia destruído boa parte do país, as doenças, miséria e pobreza extrema não ajudavam muito a imagem da região.
– Derek, sei que não temos tido muito tempo para nós — Começa Stiles. — A guerra e tudo mais, eu sinto sua falta.
Fecho meus olhos por alguns instantes, eu já tinha sentido isso, estávamos distantes, não conversávamos muito, e quando acontecia, era sobre planos e estratégias de guerra.
Paro e ponho a mão em seu ombro, giro seu corpo em direção ao meu e olho no fundo de seus olhos.
– Eu te amo Stiles — Digo deslizando minha mão por sua bochecha. — E também sinto a sua falta.
Stiles põe sua mão sobre a minha, com a outra, aproxima nossos corpos e encosta a cabeça em meu peito.
– Ele ficará bem — Digo. — Vamos protegê-lo.
– Eu gostaria de acreditar que as coisas são fáceis assim Derek. Nós não estamos conseguindo proteger nem os nossos...
– Ei, nós vamos da um jeito! — Afirmo. — Seu pai é um homem forte! Ele ficará bem, confie nele, confie em mim.
Sinto sua respiração pesar próximo a meu peito, sinto um dè javú, ele me lembrou aquele Stiles de meses atrás, exposto, frágil, preocupado com sua única família, seu pai.
Voltei ao passado me lembrando de como as coisas eram fáceis comparadas ao que passamos os últimos meses, Beacon Hills, o pack, Scott sendo o alfa e nossa única preocupação era manter o distrito a salvo, e agora, nossa preocupação era proteger o mundo.
– Perdemos muito – Falo. – Não podemos mais nos dar o luxo de perder mais nada.
Vários nomes vem em minha mente, Aiden, Allison, Erika, Boyde, Thommas. Perdemos tantos, e agora, quase perdemos Ícaro.
Sinto os lábios de Stiles deslizarem por meu rosto, devagar até minha boca, em um beijo calmo e suave.
Colamos nossas testas olhando um nos olhos do outro, entrelaço nossos dedos, passo meu polegar por cima de sua cicatriz na mão.
– Vamos dar o melhor de nós — Digo. — E quando isso acabar, seremos uma família.
– Não se esqueça que vai ter que enfrentar meu pai — Brinca Stiles. — Isso tudo não vai ser nada comparado ao que ele vai fazer com você.
– Acho que aguento — Respondo.
– Eu sei que vai — Sussurra.
Voltamos para o dirigível após comprar alguns itens que Kylie nos pediu.
– Quando chegarmos à África do Sul, e o cajado estiver a salvo, iremos para outro continente — Diz Stiles.
– Vamos viajar mais uma vez?
– Sim, quase todos os artefatos já estão a salvo, parece que Astaroth esta mesmo recebendo ajuda de outras criaturas.
– Ele deve estar convencendo-os a participar disso — Digo. — Então, pra onde vamos?
– Vamos ter que nos separar, alguns irão ficar na sede na África, enquanto nós vamos para o Brasil.
– Brasil?
– Sim, vamos nos encontrar com Diego, chefe da resistência na América do Sul — Diz Stiles. — As coisas no Brasil não estão muito boas, poucos da resistência conseguiram sobreviver à rebelião.
– Estão sendo caçados?
– Como ratos encurralados — Afirma. — E Diego está com uma das últimas armas mágicas, ele não vai conseguir esconde-la por muito tempo.
Aceno com a cabeça, subimos para o quarto de Ícaro, aonde Kylie rapidamente preparou bebidas energéticas para ajudar a recuperação de Ícaro.
Eu sentia a presença de Ethan, ele não se metia, mas não estava nada satisfeito com toda a atenção que Kylie dava a seu amigo.
Stiles rapidamente voltou ao salão principal para emitir as ordens de vôo, em poucas horas, estaríamos partindo para a África do Sul, e a onde provavelmente estaríamos a salvo.
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