Circle
1 Capítulo I - A Carta
Segure a minha mão, vamos...
A algum lugar onde possamos descansar nossas almas.
Sente-se onde está fresco...
Olhe em volta, estamos aqui sozinhos.
INTRO
Ela dizia que o vento frio trazia cinzas frescas do topo das grandes e imponentes montanhas, e jogava-as ao mar.
Ela falava que, no inverno, nossas almas escapavam do corpo, singela e constantemente em nossas respirações pesadas.
Ela contava que simples pecados eram suficientes para destruir o paraíso.
Ela recitava que nós erámos como dois amantes trágicos de uma obra shakespeariana.
Ela confabulava que nós parecíamos almas gêmeas, destinados a ficarmos unidos, mesmo aquém de nossas personalidades profundamente distintas.
Ela era um anjo, camuflado em uma terrível tempestade de neve, que olhava e guardava meus erros ao longe e, através de meus olhos, guiava-me em segurança distante do perigo.
Ela significava para mim algo além do verdadeiro... ou falso.
Ela se resumia a minha outra metade.
1
21 de novembro, 1999.
Querida Annebeth,
Estou aqui, admirando esse plástico e melancólico luar tocar as vastas e profundas águas do Bourn Lake, um dos seus lugares favoritos.
Agora, lembro-me de cada palavra sua ressoando em minha cabeça, palavras duras, frias e contestáveis... ah sim, querida... como eram.
Talvez elas agora representem os pequenos vestígios soltos de sua alma que, assim como aquelas cinzas frescas que são jogadas ao mar, insistem em coexistir dentro do meu subconsciente.
Contudo, acho que esse lago a minha frente parece questionar todas as minhas expectativas sobre notícias de uma velha amiga...
A roda gigante do parque temático à minha direita grita solidão aos meus ouvidos... algo tão frio quanto o vento que bate em minhas costas.
Possivelmente... frio demais.
Quem sabe a velha lanchonete à minha esquerda possa acabar minha depressão com comida? Não seria a primeira vez que eu tentaria (e não seria a primeira que isso daria certo).
Atrás de mim ainda jaz o velho e abandonado estacionamento desse lugar. Contudo, a região parece ter se tornado ponto de tráfico de drogas, sexo, entropia e encontros entre jovens infratores. É uma cena triste presenciar nosso amado parque povoado por tantas más influências...
Tão perdido... tão... melancólico.
Bem, Anne, você me conhece o suficiente para perceber nessas breves palavras que eu não estou bem.
Meu ar frio e depressivo sempre a assustou um pouco, ainda mais em contraste com o seu conhecido savoir-faire, mas eu quero que entenda que, sem você aqui, isso é tudo o que me resta.
A luz do poste ao meu lado está começando a fraquejar. Creio que irá se apagar em breve, afinal, é quase hora de a cidade dormir.
“Boa noite...”
Não consigo afastar a ideia de apenas mergulhar nesse lago e me sentir afundando, profundamente. Pode ser que eu encontre alguns de seus vestígios presos às gotas d’água que compõem esse nostálgico lugar.
É claro que eu não desejo isso. Quero que a sua luz ainda esteja acesa, brilhando incandescente por vida.
Quase hora de ir embora e, bem... apenas me diga onde está, se está bem, essas coisas.
Sinto-me um tanto tolo escrevendo essa carta, tendo certeza de que, onde quer que esteja, não voltará até aqui para ler minhas palavras.
Porém, na remota hipótese de isso acontecer, quero que saiba que: eu sinto sua falta.
Tem estado muito frio, e eu odeio isso, odeio sentir frio, mais do que sou e mais do que gostaria de ser.
Eu quero te reencontrar, não sei onde está, mas sinto sua...
Presença.
Estou finalmente partindo agora, e não irei me prolongar muito...
Não sei se virá aqui em busca de algo... ou alguém (?), contudo, quero que saiba que voltarei sempre que puder para tentar ter notícias suas.
Por ora, deixo-lhe essa carta e uma rosa branca, sua preferida.
Estarão guardadas em nosso antigo esconderijo no lago, onde eu costumava esconder suas sandálias quando éramos menores. Se vier até aqui, sei que as encontrará.
Por favor, volte logo...
Gwyn.
2
Hoje, finalmente, decidi partir em busca dela após dois meses sem notícias.
A única coisa que consegui pensar foi em deixar aquela carta, endereçada a ela, em nosso esconderijo no parque. Fora ali a última vez que a vi, e fora ali também a primeira vez que nos encontramos como... amantes?
Se ela for a mesma Annebeth que conheci, sei que ela a achará.
Cedo ou tarde.
Tarde?
Talvez o destino a leve até lá e, quem sabe, ela leia a minha carta e decida voltar.
Isso parece aliviar um pouco, todavia... eu...
Sinto que estou ficando doente a cada dia frio que se passa. Não parece ser algo físico, mas mental. Tão profundamente em minha cabeça que me perco ao tentar procurar.
Pelo quê?
Seria uma boa pergunta, só que, não saberia responder. Algo está esmagando meus miolos, as dores de cabeça se tornaram mais frequentes e beber não irá me ajudar em nada.
“És, por acaso, um Doutor agora, Sr. Parker? ”
Ha-ha... é óbvio que não. Mas, pelo menos, a bebida me faz esquecer.
Esquecer que esse apartamento frio e solitário parece muito maior agora. Esquecer dessa escuridão que me rodeia e a qual não tenho forças para lutar.
Há um medo contínuo de senti-la abraçar-me e roçar suas frígidas costelas com as minhas, algo que causa uma repulsa agoniante na espinha.
As janelas parecem me observar e zombar de minha quase sentenciada loucura. Um sarcasmo tão pérfido parece me convidar a tentar voar, talvez não seja sensato ridicularizar tal ideia, pelo menos não por enquanto.
Minha vida parece seguir o roteiro de um filme trash de terror.
Minha chistosa consciência parece me pregar peças.
Eu vejo vultos, às vezes rostos; outras, escuto nomes e vozes indistintas. Tudo consolidando um perfeito cenário fictício (ou será que não?) de uma trama que só está começando a se desenrolar na minha cabeça.
Como um velho bêbado e desprezível, a cada dia eu enlouqueço mais.
Neste momento, estou sentado nessa sorumbática poltrona, bebericando um uísque velho e assistindo a essas coisas estúpidas que passam na TV de madrugada.
Pareço um protagonista perfeito de um filme à lá Psicose, não?
Só espero que as drogas que tomei para dormir não funcionem agora, estou receoso em fechar meus olhos.
Onde você está, Anne? Você disse que estaria aqui para me ajudar sempre que precisasse, certo? Bem, eu preciso de sua ajuda agora, diga-me que pode ler meus pensamentos mesmo à distância, diga que consegue me ouvir.
Tolice...
Pois é... você não pode me ouvir e, mesmo que pudesse, talvez não me respondesse.
É, soa apenas egoísmo da minha parte afinal... eu, sempre tão egoísta e egocêntrico, como você já me chamou tantas vezes antes.
Os remédios parecem estar fazendo efeito. O mundo está girando em loop, as formas tornando-se borrões sem cor, creio que irei apagar em breve.
Espero conseguir acordar amanhã, e espero te encontrar amanhã.
Boa (?)... noite.
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