Notas iniciais
"O sangue jovem me satisfaz, faz-me querer a vida. Querer a minha eternidade".

Uma casa praticamente abandonada. Portas e janelas cheias de trancas e um quintal vazio. O lugar perfeito para a imaginação das crianças do Distrito 537. Seria ali palco daquelas histórias de casas mal assombradas? Creio que não. -Saiam daqui! Seus pestinhas… Corria atrás das crianças uma mulher cansada e machucada pelo tempo. Era diferente. Discreta, porém, mantinha uma inimizade com todos do Distrito. Carrancuda e desleixada usava roupas velhas e sapatos furados. Uma viúva largada e sem filhos. Era alvo das más línguas, que insistiam em inventar histórias de seu passado desconhecido. Tinha uma enorme cicatriz ao lado direito de sua bochecha, o que era mais um atrativo para dispensarem sua presença não amistosa. Adélia era mais uma moradora do 537. Uma moradora com muitos segredos e mal interpretada por todos. O Distrito não era o mesmo desde o dia 17 de junho 1997. Época que ele ficara conhecido resultando na massa de novos moradores. Casais recém-casados e de bagagem pequena, haviam escolhido aquele lugar para formarem seus lares. O Distrito basicamente constituía jovens e adultos de meia idade. Toda aquela mudança fora considerada uma revolução, levando em conta que somente havia cinco casas construídas no local. E uma delas era de Adélia.

Todos os finais de semana era motivo de alegria. Aqueles jovens se reuniam em uma praça perto do Distrito, onde cantavam alegres e compartilhavam suas novas experiências como casais. Ah, e acima de tudo, praticar o amor. Lara e Antônio eram os mais queridos, via-se de longe que nasceram um para o outro. Atenciosos e dedicados sonhavam alto. O futuro para eles era uma questão de generosidade, juntos pensavam em criar uma ONG onde poderiam ajudar crianças carentes e fazer delas futuros gênios da humanidade.

Adélia não suportava aquela “queridez” toda. Achava a maior falsidade até que um dia: toc… toc…

– Quem está aí? Se forem vocês seus capetinhas eu saio com a minha vassoura!

– Senhora Adélia? Somos nós, Lara e Antônio.

– Ah, são vocês… Com uma cara de desprezo ela continuou a falar:

– O que gostariam?

– Apenas um minuto de sua atenção. Disse Antônio.

A porta foi abrindo-se devagar e Adélia surgiu diante deles. Mas logo a bateu como um furacão quando viu que Lara estava se esticando para ver o que havia dentro.

–Sim, moça. Pode falar.

– Bom estamos planejando um bazar no Distrito. Ficamos sabendo que algumas pessoas estão precisando e o inverno está chegando.

– E daí? Não percebem que mal tenho o que me vestir e ainda vem me perturbar. Poupe-me, fedelhos.

Adélia estava prestes a fechar a porta na cara deles, quando Antônio interrompeu:

– A senhora nos interpretou mal. Queremos que participe conosco organizando e se quiser ser beneficiada faremos questão que seja. O restante dos moradores precisam saber que há um ser de luz dentro da senhora, Dona Adélia. Eu acredito nisso.

Adélia por alguns instantes pensou e fixou o olhar em Antônio, sentia ali um manifesto de carinho diferente de todos que incomodavam em sua casa. Sem mais delongas, deu um sorriso amarelo e bateu a porta. Lara completou:

– Será dia 20 de novembro. Esteja lá, por favor.

A mulher emburrada nunca havia recebi um gesto daqueles. Fora a primeira vez que alguém lhe colocara em um patamar especial. Seu coração frio, aos poucos foi cedendo e pensava no que seria melhor.

Naquela manhã, Adélia vestiu-se com sua melhor roupa. Um par de sapatos cor vinho, já gastos. Uma saia preta longa e uma blusa neutra com uma costura mal feita logo a baixo dos braços. Saia com uma cara de contentamento achava que realmente alguma vez na vida seria útil. A cicatriz foi esquecida apenas uma vez, não gostava de lembrar como teria a conseguido. Fora a pior noite de sua vida.

Saiu a caminho da praça onde estava acontecendo à arrecadação. Lara e Antônio estavam aflitos, pois realmente queriam que ela fosse naquele evento.

– Será que ela vem, yoshi? (Apelido dado para Antônio por ser fã de Mário).

– Não sei Lara. Desconfio que ela esteja envergonhada. Eu não sairia na rua com aquelas roupas e nem aquela cicatriz. Você viu que estava meio preta? Arg...

– Não fale assim, Antônio. Você deveria ser mais cuidadoso com suas palavras. Diz ser tão humanista e acaba de fazer um comentário infeliz.

– Ai, amor. Não percebi, desculpa.

–Não é a mim que “cê” deve desculpas, e sim a D. Adélia.

– Ok, cometi um erro. Eu tentei convencê-la e você está de prova.

No meio daquela multidão de pessoas caridosas, aparece Adélia. Meio tímida, seus olhos procuravam o casal que ajudá-la a sair daquela casa.

– Oi. Disse ela.

Surpresos o casal abriu um imenso sorriso. Lara com sua impulsividade correu para abraçar Adélia.

– A senhora veio!Com um longo e demorado abraço na senhora.

– É o que parece, menina. Respondeu com sua velha arrogância de sempre.

– Tá bem, mocinha. Agora você pode me soltar, por favor?

– Ah, é claro. Desculpe-me.

O olhar carente de Adélia para Antônio o fez perceber que sua missão foi feita. Estava feliz com que havia feito por aquela mulher.Lara foi apresentando tudo para Adélia. O que fazer, como separar as roupas e receber os que buscariam as doações. Uma amiga do casal se aproximou:

– Antônio?

– Oi, Zefa!

– Por que estão com ela?

– Ah, a D. Adélia? A convidamos para participar do mutirão. Querendo ou não ela faz parte do Distrito, não podemos ignorar a sua existência.

– Meu querido, ela é estranha. Dizem que ela faz feitiços para separar a gente. Lembra-se do Bruno e da Gisele? Mal se juntaram e brigaram feio. Pois bem, nunca mais foram os mesmos.

– Zefa, Zefa, Zefa! Você e sua mania de culpar os outros. Acalme-se, ela é uma pessoa de bom coração.

Zefa com seu olhar de reprovação, falou:

– Quem avisa amigo é, meu caro. Não me culpe se ocorrer algo ainda essa tarde.

Aquelas palavras de Zefa perturbaram Antônio para o resto do dia. Sabia que muitos ali não gostavam daquela mulher de quem havia sido generoso.

– O que Zefa queria Antônio?

– Encher o saco. Respondeu ele encabulado.

O tempo foi passando e Adélia deu lugar a um sorriso de felicidade. Estava feliz em ajudar aquela gente e mais ainda por terem a “aceitado”. Tudo corria bem e o mutirão estava a todo a vapor.

– D. Adélia a senhora poderia pegar aquelas caixas que estão do outro lado das bancas?

– Claro!

Trouxera aquela caixa com empolgação. Estava entre aberta e repleta de maquiagens. O estranho era que todas estavam fechadas. Pensou:

"Se é um bazar para caridade, como alguém pode dar coisas tão novas?"

A pergunta foi respondida logo que chegou perto de Lara e Antônio. Ambos a esperavam com uma cara de surpresa.

– Bom, queríamos agradecer a sua colaboração no bazar e sua gentileza em vir. Ficamos muito felizes com sua presença, já que teríamos perdido nossas esperanças. Essas são maquiagens novas que estamos lhe dando. A roupa a senhora sabe onde está se quiser pode pegar ali.

Adélia não se cabia de tanta felicidade. Maquiagens? Como maquiagens? Ela não sabia nem como usar. Não era vaidosa nem um pouquinho. Ou talvez...

– A senhora gostou? Diga-me, flor!

– Gostei mocinha. Mas não sei usá-las…

–Ah, não se preocupe. Eu mesma a ensinarei e com muito prazer.

Pronto! O aquele dia ficou para história. Nunca recebera algo tão significativo de pessoas que achava não gostar dela.

O mutirão estava no fim. Todos os que receberam doações estavam satisfeitos e alegres. Era um tal de passa caixa para um ladro e para outro, já que todos haviam se comprometido a ajudar na arrumação.

A mulher carrancuda estava ainda lá. Isso que o casal já teria a dispensado. Estava alegre mexendo nas caixas que poderia levar para casa e principalmente na sua de maquiagem. Puxou um rímel de lá, aquele objeto estranho em sua mão passou a ser sua diversão.

Seus olhos encheram d’água. A emoção te ter algo tão bonito, mexera com seu coração. Arriscou-se até em tentar passar o rímel, mas o resultado foi desastroso. Zefa viu de longe que ela estava mexendo nas caixas e achou estranho. Sabia que aquelas pinturas eram de Lara, já que ela teria feito a incomoda para a amiga. Quando viu Adélia saindo sem Lara ver, embestou a gritar:

– SEGUREM A LADRA! ELA ESTÁ ROUBANDO AQUELA CAIXA!

Todos olharam com desconfiança e atentos para onde o dedo de Zefa apontava.

– Eu sabia que não dava para confiar em você, sua imunda! Não sei por que eles a convidaram. Sua ladra!

Adélia estava feliz demais para discutir e sabia que não devia satisfação para ninguém. Deu de ombros para Zefa e pegou o caminho de casa.

– VOCÊ NÃO VAI SAIR IMPUNE!

Lara e Antônio chegaram viram a discussão de longe e gritavam com Zefa.

– Você está louca? Demos a ela aquela caixa em forma de recompensa pelo seu trabalho.

– É mentira! Ela é ruim e não deve ganhar nada!

Zefa não estava mais falando de sua gafe, mas sim do descaso que a Adélia levou a situação. Nunca ninguém teria a peitado com aquele jeito, com prepotência. Dando de ombro para ela. Aquilo foi o fim. Mal sabia Adélia que teria arranjado uma inimiga no momento mais feliz de sua vida.

Notas finais
Aguardem a continuação do capítulo. - Amélia.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.