Eu estava deitada com a cabeça encostada no travesseiro macio e os olhos fixos nas flores que descansavam com seus corpos cortados em uma jarra transparente com água. As pétalas, algumas vermelhas, outras azuis, aos poucos se enegreciam e caíam no piso branco, flutuando para debaixo da maca.

— Você possui amnésia — disse calmamente alguém atrás de mim. Apenas olhei para as flores, com medo de me virar para a médica, com medo de que meus pensamentos se confirmassem verdadeiros e eu visse que ela não se passava de um rosto borrado e distorcido atrás de mim. — Os relatos que tivemos também indicam alucinações, além da perda de memória… É um transtorno muito raro.

“Muito raro”, repeti aquelas palavras mentalmente, apenas mexendo levemente os lábios. Fechei os olhos e quando voltei a abri-los, eu estava em outro lugar.

Eu usava roupas brancas e estava descalça. O chão também era claro e macio, assim como as paredes da mesma cor que se erguiam por todos os lados.

Sentei-me em um canto e abracei meus pés junto ao corpo.

— Muito raro — sussurrei, sem fazer a mínima ideia de quem eu era.