Cinzel, Angel, Rigel.
3 O Lobo
Antes que meus olhos se abrissem lentamente para se acostumar aos poucos com a claridade do quarto, senti que estava sobre algo macio e confortável. Havia um formigamento no meu braço.
— Você acordou! — disse uma voz feminina, vagamente familiar. Levei minhas mãos em direção ao rosto e notei uma espécie de pregador com fios grudado em um dos dedos. — Como se sente?
Meus olhos ficaram um pouco incomodados quando a mulher os iluminou com uma lanterninha. Minha visão estava embaçada então tive de esperar para conseguir focalizar seu rosto me encarando.
— Você… Você é linda. — consegui dizer. As palavras saíram estranhas para mim, após conseguir contemplar nitidamente a face da mulher. Ela tinha a pele escura, cabelos crespos e feições simplesmente incríveis. — Seu rosto. Ele é…
A mulher se adiantou quando tentei me levantar, com dificuldade. Ela pousou as mãos nos meus ombros e me ajudou a sentar na cama.
— Não se esforce muito. — disse ela, de forma amigável. — Você esteve dormindo durante bastante tempo.
Levantei a cabeça e olhei para cima, onde uma bolsa de soro erguia-se diante de uma tela com linhas e números.
— Dormindo? — perguntei, piscando os olhos. — Por quanto tempo?
A mulher apenas me olhou, sem responder a pergunta.
— Irei chamar o doutor. Ele saberá te dizer melhor. — disse ela, rapidamente. Ela fez algumas anotações em uma prancheta antes de sair, consultando seu relógio de pulso. Reparei que na minha direita, na direção oposta à porta, havia reparei um jarro transparente com água repleto de flores.
Com esforço, estiquei minha mão e arranquei uma pétala vermelha com indelicadeza.
— Adorável. — sussurrei para mim mesma, sentindo a textura da flor nos meus dedos e o cheiro doce quando a espremi contra meu nariz, esboçando um sorriso. Ajeitei meu corpo, com cada músculo sentindo um desconforto que eu não sabia como lidar.
Alguns minutos se passaram quando comecei a puxar os fios que estavam grudados no meu peito e no meu braço quase no mesmo momento em que a porta atrás de mim se abriu. Uma das máquinas começou a emitir um som agudo constante. Não reparei quando a enfermeiro voltou para a sala, desta vez acompanhada de um homem.
— Hey, está tudo bem! — disse ele, pegando nos meus braços com suas mãos quentes. Assim como a mulher, seu rosto também era bonito. — Vá com calma.
— Estou em um hospital, não é? — perguntei, com ingenuidade, apenas para que alguém confirmasse o questionamento óbvio. Ele e a mulher se entreolharam.
— Sim, está em um hospital. — O médico concordou, calmamente, ficando ao meu lado. — Você se lembra de alguma coisa que aconteceu? Do seu nome, talvez?
Franzi a testa enquanto buscava qualquer informação da minha mente. Apenas um nome me veio à memória.
— Cinzel. Meu nome é Cinzel?
— Com licença. — disse a enfermeira apenas, saindo do quarto logo em seguida. O homem olhou para baixo por alguns momentos.
— Qual seu nome? — perguntei a ele, inclinando minha cabeça para o lado, com curiosidade. Ele hesitou.
— Meu nome é…. — disse ele, me observando. Atentei-me ao movimento de seus lábios e franzi a testa, sem conseguir entender o que ele havia dito. Não consegui compreender aquela última sequência de letras e muito menos atribuí-las a ele. — Pode me chamar de Regulus
Repeti o nome umas duas vezes.
— Regulus.
— Consegue se lembrar de mais alguma coisa? — perguntou ele.
— Não — admiti, depois de pensar mais um pouco. — Não consigo me lembrar. O… O que está acontecendo?
— Não se preocupe com isso agora — Regulus deu a volta ao redor da cama. — Consegue se levantar, sim? Vou pedir para que a enfermeira lhe dar um banho para a gente conversar depois, tudo bem?
Eu assenti.
— Ok
Demorou alguns minutos até que a mesma mulher voltasse, fazendo alguns testes rápidos comigo enquanto me levava até o chuveiro. Aos poucos eu ia me acostumando aos movimentos.
— Quero que você conte até noventa. — disse ela de forma amigável. — Pode ser?
Assenti e enquanto ela me ajudava a me despir, fiz tranquilamente a contagem.
— Oitenta e seis, oitenta e sete, oitenta e oito… — Minha mente parou subitamente e então eu percebi algo que não havia perguntado antes: — Qual seu nome?
Ela disse alguma coisa, mas tive dificuldade em conseguir distinguir as palavras. Era como se eu estivesse tentando compreender uma palavra rabiscada, levando em consideração que cada linha e garrancho formavam letras únicas e que possuíam diferentes sons em suas formas.
— O doutor, ele disse o nome dele? — perguntou a enfermeira com curiosidade, após me observar. No banheiro, sentei-me em um banquinho de madeira e a mulher ligou a ducha de água morna e agradável sobre meus cabelos.
— Disse que poderia chamá-lo de Regulus. — disse eu, sentindo a água descendo em filetes úmidos pela pele. A mulher pegou uma esponja ensaboada e começou a esfregar minhas costas.
Repentinamente, me sobressaltei e me virei.
— Não. — As palavras escaparam de mim, subitamente, no momento em que ela tocara minhas costas..
— Ok, tudo bem. — disse ela olhando para mim, com ambas as mãos levantadas. Eu só havia me sentido desconfortável. — Está doendo?
— Não, não sei. Pode continuar. — disse eu, após me recuperar do breve susto. — Qual seu nome?
Depois que terminou as costas, ela passou para a parte da frente, continuando a me ensaboar. Eu hesitei.
— Pode me chamar de Cass. — disse ela. — Pode repetir para mim?
— Cass, como Cassiopéia. — falei, em voz alta, feliz. Ela assentiu e eu indiquei a esponja em sua mão. — Posso?
Ela consentiu e eu terminei de ensaboar o resto do corpo enquanto Cass me ajudou a me enxaguar, secar e vestir novas roupas. Ela ainda continuava ali, do meu lado, quando parei em frente ao espelho para contemplar meu reflexo. Ela penteou meus cabelos para trás enquanto eu ficava completamente fascinada com meu próprio rosto.
— Tão linda… — sussurrei, baixinho.
Depois que terminei de me arrumar concordei com Cass de esperar por Regulus do lado de fora. Ela não pareceu se incomodar muito quando me agarrei ao seu braço e caminhamos juntos pelo lugar.
Depois do meu quarto havia um corredor branco que se estendia para ambos os lados. Algumas macas e equipamentos estavam nos cantos e algumas outras enfermeiras passavam. Enquanto andávamos em uma direção, espiei brevemente os outros quartos pelas janelinhas de vidro gradeado que havia na altura dos olhos.
— Por que está usando essa máscara? — perguntei à Cass. Depois do corredor havia um amplo salão principal com uma recepção e alguns bancos de espera, mas não ficamos muito tempo ali. Logo adiante havia enormes portas duplas de madeira e foi por elas que saímos em direção ao jardim.
— Alguns pacientes costumam se assustar com rostos de pessoas. — foi a explicação dela.
No horizonte, o Sol brilhava fraco ao longe, já começando a se esconder atrás das árvores distantes e pintando a paisagem com um véu laranja. O vento ali era refrescante e parecia renovar minhas forças, fazendo meu cabelo castanho esvoaçar na frente do meu rosto, sem me incomodar.
— É lindo aqui. — comentei, maravilhada. Era um jardim amplo com dezenas de calçadas estreitas de pedra que se serpenteavam e cruzavam-se entre si em meio ao gramado, as árvores e os banquinhos. Havia bastantes pessoas ali. A maioria dos outros pacientes estava acompanhada de alguém usando roupas azuis como o céu. — Que dia é hoje?
Ela hesitou um pouco antes de responder.
— Vinte de Março. — afirmou ela, me observando com cuidado.
— Está vendo aquelas duas estrelas lá? — apontei para horizonte, estusiamada, acima de onde o Sol se punha. Os dois pontinhos brilhantes encontravam-se lado a lado. — O avermelhado é Marte e o maior e mais brilhante é Vênus. Estão na constelação de Peixes, bem no começo.
Eu bati palmas e dei uns pulinhos em comemoração.
— Você se lembra dos planetas? — perguntou a mulher, impressionada. Eu soltei uma risada.
— Sim, acho que sim.
Cass indicou que eu me sentasse em um banquinho e ficasse observando o parque ao redor.
— Irei chamar Regulus para você. — disse ela, fazendo com que uma onda de euforia e liberdade me invadisse. — Já volto!
— Tudo bem! — disse eu, balançando a mão em despedida. Fiquei contemplando as árvores até que, poucos minutos depois, percebi um garoto atrás de mim, brincando na grama com dezenas de pecinhas brancas.
Inclinei a cabeça e me aproximei.
— O que são essas coisas? — perguntei, curiosa. Eram pedras finas com pontos em diferentes quantidades gravados em sua superfície. Consegui me lembrar: dominós. — Posso pegar um?
O garotinho, deveria ter uns treze anos, certamente, levantou os olhos cor de avelã para mim e assentiu. Analisei as peças e escolhi uma cuja superfície era marcada com um espaço vazio em uma metade e um único ponto no outro.
— Eu gosto dessa. — comentei com o garoto, mostrando para ele a peça e repousando-a sobre a grama. Peguei outras duas: Uma que havia apenas uma divisória na superfície, com os espaços vazio; outra com apenas um ponto em cada espaço. — E desses daqui também.
O garoto esboçou um sorriso largo, estendendo a mão para mim, segurando as três peças.
— Pode ficar com elas. — disse ele baixinho, quase inaudível. Olhei por cima do ombro quando percebi que alguém nos observava.
— Obrigada! — respondi, antes de me levantar e me juntar à Regulus.
— Fazendo amigos? — ele perguntou quando começamos a caminhar. Olhei para trás e vi um homem de roupa azul acompanhando o garoto de volta para a mansão.
— Sim. — comentei, mostrando para Regulus as peças. — Ele disse que eu poderia ficar com elas.
Regulus reduziu o passo, com a testa franzida. Uma expressão de surpresa até, com as sobrancelhas arqueadas.
— Ele nunca fala, não é? — foi o que eu consegui deduzir.
— Não. — admitiu. — Ele nunca fala.
Andamos em silêncio por alguns poucos segundos enquanto tentava compreender melhor o que havia acontecido. Minha mente estava confusa.
— Você vai me contar quem eu sou? — perguntei a ele.
— Não posso responder essa pergunta pois não sei a resposta, infelizmente. Gostaria de poder ajudá-la melhor quanto a isso — foi o que Regulus disse. — Mas posso lhe contar a história que sabemos sobre você. Está pronta para isso?
— Sim, estou. — admiti, confiante.
— Ok, muito bem. — começou ele. — Você chegou aqui há quatro meses e seu nome é Angel Silva Martins — ele segurou com delicadeza meu braço direito e permitiu que eu visse as cicatrizes profundas de cortes na pele. Minha respiração se acelerou subitamente e eu puxei o braço para junto de mim.
— Angel? — repeti. Era um nome terrivelmente familiar e acolhedor. Regulus assentiu e começou a contar minha história. Com suas palavras, comecei a imaginar tudo na minha cabeça, na tentativa de resgatar inutilmente as lembranças do que eu havia vivenciado até chegar ali.
— Você se lembra de onde conseguiu esse nome, Cinzel? — perguntou ele. Depois de pensar um pouco, neguei com a cabeça. — Venha comigo.
Já era noite quando ele me levou à sua sala, no segundo andar da mansão. Fiquei observando com fascínio sua coleção de livros enquanto ele fuçava alguma coisa em uma gaveta. Regulus tirou de lá uma pasta e duas fotografias do tamanho de uma folha, cada uma. Ele colocou as duas, lado a lado, em cima da mesa.
— Essa é a constelação de Caelum. — disse ele, indicando a fotografia de um grupo de estrelas unidas por linhas desenhadas em zig-zag. A outra fotografia não era tão diferente quanto a primeira. — Essas são as cicatrizes que você possui nas costas.
Comparei as duas imagens. As marcas da pele, ainda vermelhas, seguia a mesma linha do desenho da constelação. Ergui a mão por cima do ombro e tateei as costas. Consegui sentir com a ponta dos dedos e repeti, para mim mesma.
— Caelum, a Cinzel. — disse eu. Aquelas marcas indicavam quem eu havia sido um dia, mas, por algum motivo, eu sabia que não era mais aquela pessoa. Não me identificava mais com aquele nome. — Agora, sou Angel.
…
Cassiopéia entrou em meu quarto trazendo consigo uma bandeja com uma tigela de sopa. Ela colocou uma espécie de plataforma na minha frente, para que eu conseguisse comer sem muita dificuldade, mesmo na cama. Enquanto Cass me ajudava com a comida, fiquei revisando mentalmente as informações que Regulus havia me passado na noite anterior.
— Posso comer sozinha, obrigada. — disse eu, segurando a colher com um pouco de curiosidade. Usei o talher para dar a primeira colherada na sopa enquanto a mulher me observava. — Viu?
Cass riu.
— Tudo bem. — disse ela, saindo do quarto. — Assim que terminar terá de tomar alguns remédios, apenas para se adaptar a estar acordada.
Assenti para ela e continuei a comer.
Meu nome é Angel e eu estive dormindo durante bastante tempo. Havia sido encontrada em um sono profundo. Não haviam conseguido encontrar minha família ou qualquer outro conhecido. Ninguém havia me procurado.
— O que as pessoas de vinte e um anos costumam fazer? — perguntei para Regulus enquanto caminhávamos pelo jardim mais tarde naquela manhã. — Acho que estou um pouco atrasada quanto a isso.
— Geralmente as pessoas trabalham ou estudam, sabe. — Respondeu ele, gentilmente. — Não quero que se preocupe com isso por enquanto. Gostaria de fazer faculdade? Algo que gostaria de estudar?
— Ah, até que tem bastante coisa que eu acho interessante. — disse eu, alegre e pensativa. — Acho que eu gostaria de ser média, sabe. Mexer nos corpos das pessoas para impedir que elas morressem ou, talvez estudar mais a mente humana. É interessante.
— Sim, é muito interessante. — concordou ele, sorrindo. Eu o considerava uma pessoa bastante complicada de conseguir decifrar. — A Assistência Social deverá vir aqui na semana que vêm para conversar melhor com você. Tudo bem?
Assenti, sem entender muito bem o que aquilo significava, à princípio. Uma semana foi o suficiente para que eu conseguisse me adaptar à minha nova família.
— Por que eu não consigo compreender o nome das pessoas? — perguntei a ela em outro dia. — Sei que Regulus é apenas o nome que eu o chamo, mas não consigo assimilar nenhum outro nome de verdade a você. Não entendo.
— Sabe, é realmente um mistério. — Admitiu ele. — Pelo que pude observar, todos os nomes que você consegue atribuir às pessoas são nomes que, na sua mente, já existiam antes de você perder a memória e já foram atribuídas a alguma coisa. Você poderia tentar chamar alguém de Café, por exemplo, que não teria nenhum problema de assimilação. Mas, por algum motivo, você possui um conhecimento e fascínio impressionante sobre as estrelas.
Aquilo até que fazia bastante sentido, afinal. Da mesma forma que Cinzel era uma constelação, Regulus era uma estrela.
Pensei nas marcas nas minhas costas.
— Quando me encontraram eu já estava com essas cicatrizes? — perguntei a ele, apenas para tirar uma dúvida. Ele hesitou. Na fotografia que havia me mostrada as marcas estavam bem nítidas.
— Tudo indicava que haviam sido feitas em você pouco antes de ter sido encontrada. — explicou ele. — Tanto os cortes no braço quanto nas costas. Foi você que fez?
Tateei as marcas.
— As do braço, talvez sim. — respondi, engolindo em seco. — As marcas das costas… Definitivamente não.
Ele apenas assentiu, pensativo.
Os dias seguintes passaram tranquilos enquanto eu me adaptava à rotina da mansão. As refeições tinham horários fixos todos os dias, mas alguns outros internos como eu tinham permissão para almoçar no refeitório também, junto com os demais funcionários. Eu ficava bastante feliz porque eu podíamos andar livremente pelos corredor e pelo jardim e conversar livremente com as outras pessoas sem nenhum problema, apenas respeitando determinadas recomendações e horários: Depois das sete da noite não poderia ter mais ninguém nos jardins e, depois das nove da noite, ninguém mais poderia sair dos quartos até de manhã.
Peguei a bandeja de comida e me sentei na mesma mesa que um grupo de três adolescentes. Percebi que o garoto dos dominós não estava ali, no refeitório.
— Então, você é a bela adormecida ou algo assim? — um dos garotos me perguntou, monotonamente. Seus olhos eram castanhos claros e sua barba se estendia em ambos os lados do rosto.
— Bom, creio que não. — respondi, em um tom um pouco mais otimista. — Sou Angel.
Comecei a comer e vez ou outra, lançava olhares em direção às outras pessoas que almoçavam. Regulus não estava à vista.
— É um nome bonito. — comentou a outra garota. Ela tinha cabelos escuros e ondulados e observava atentamente sua comida, na altura de seus olhos. Reparei que não havia garfos ou facas. — Significa anjo.
— Não consegue compreender nossos nomes, não é? — O garoto perguntou novamente, com um olhar malicioso. — Meu chamo Mark.
— Meu nome é… — disse a garota de cabelos lisos
— Sou… — Apresentou-se o outro.
— Mark… — eu repeti. Os outros se entreolharam, sorrindo. — Eu entendi seu nome. Mark!
E todos riram e comemoram com a minha descoberta.
— Mark? — perguntou Regulus, no outro dia. Eu ficava na sala dele com bastante frequência, conversando. Ele me dizia a respeito de sua vida, de como vinha se arrumar para trabalhar, se despedindo da esposa e do filho pequeno. Das roupas que escolhia e das comidas que gostava… Por outro lado, eu o atualizava sobre mim, o tempo todo.
Era bom conversar.
— Sim, Mark. — confirmei com a cabeça. — Poderia ser alguém que eu conhecesse antes de perder a memória? Um vizinho ou um amigo talvez? Um colega de quarto!
— Não acho que deveria se preocupar com essas coisas. — disse ele. — É uma informação interessante, claro, mas é melhor pensar no futuro, não acha? Talvez devesse falar mais com esse Mark..
Concordei com ele, alegre. Mais tarde eu e Mark fomos caminhar no jardim mais uma vez. Havia um canteiro repleto de flores vermelhas e azuis.
— Quando eu acordei havia essas flores no meu quarto. — disse eu, arrancando uma com um puxão e acidentalmente furando o dedo com um espinho. Não doeu muito, mas foi o suficiente para eu soltar um “Ai” e deixar a flor cair.
— Cuidado! — Mark pegou a flor com cuidado e segurou na minha mão. Estava sangrando. — Se machucou?
— Sim, mas não é nada demais. — disse eu, sem preocupação. Apontei em direção ao limite do jardim, onde um muro de pedra contornava toda a propriedade. — O que tem lá fora?
Ele observou o horizonte junto comigo. Quando anoitecia, conseguíamos ver melhor as luzes de uma cidade ao longe. Entretanto, nunca ficávamos muito tempo para contemplá-la pois sempre tínhamos que voltar para a mansão.
— É onde as pessoas normais vivem. — explicou ele, tranquilamente. — Não somos normais, por isso estamos aqui. A… Hm. Quer dizer. Aquela garota, ela não come para poder ficar magra. O outro garoto tem problemas com sua personalidade. Em um segundo está de um jeito e no outro, completamente diferente.
— E você? — perguntei. — Qual o seu problema?
— Acho que não tenho problemas. Eu era triste, apenas, mas estou melhorando. — admitiu ele, pegando a flor da minha mão e a cheirando, com os olhos fechados. — Ah, e também acabava fazendo coisas bem loucas.
Ele me lançou um sorriso largo.
— Fazer coisas loucas é legal. — admiti, sorrindo de volta.
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