Isso não vai começar muito bem, nada que começa bem pode terminar bem... Mas se eu escrever-la começando mal eu posso ter a retardada sorte de ter um bom final. Eu estava trancada no reformatório a três dias, mas parecia uma eternidade... Meu quarto parecia uma gaiola, a cama era um colchão fino jogado numa armação de ferro, o chão era úmido e frio; sem contar que as paredes cheiravam mofo. Nem o demônio merecia um tratamento "vip" daqueles. Me levantei e me olhei no pequeno espelho que estava preso num prego enferrujado na parede. Eu estava horrível, parecia que não dormia a anos, e que eu estava mais velha que uma mulher de oitenta anos. Ajuntei meu cabelo em um longo rabo-de-cavalo, eu estava usando uma camiseta branca, e uma calcinha preta. Eu tinha privacidade para usar aquele tipo de roupa?! Não sei, mas eu usava. Sentei-me novamente na cama, eram cinco horas da manhã. Pelo menos era o que parecia. Olhei pela pequena janela espremida no canto do quarto, só conseguia ver a lua que parecia rir da minha desgraça. Me levantei novamente, fui até o meu "armario" e peguei uma calça jeans, que já estava gasta e a coloquei. Vesti meu casaco de capus preto, e uma bota que já estava bem velha. Arrumei meu cabelo mais uma vez e botei o capuz sob a cabeça. Abri com cuidado a porta do quarto, olhei de um lado para o outro. E andei até chegar ao corredor escuro do patio. As paredes pareciam me engolir com cada passo que eu dava. Chegando no patio, a lua ainda estava no céu. Continuei a caminhar, até chegar no jardim. O contato da minha bota com o piso molhado fazia um barulho que me dava calafrios... Parada no grande portão de grades enferrujadas do jardim, lá eu estava... Olhei para trás, para ter certeza de que não havia alguém por perto, então entrei jardim a dentro. Caminhei até o cume do jardim, e me sentei no pedra grande, ao lado de outras pedras cobertas de musgo. Respirei fundo e fiquei esperando a chegada do sol. Parecia idiota, mas eu amava ver como o sol expulsava a lua do céu; com todo aquele brilho que me deixava cega. Eu adorava ver como a lua corria para longe quando o sol chegava. Quando você fica trancada em um lugar por determinado tempo qualquer coisa te encanta... Olhei no meu relógio imaginário e já eram seis e vinte, eu estava dez minutos atrasada pra aula. Levantei-me rapidamente do pedra, e corri feito louca até chegar ao grande portão de grades. Com a respiração ofegante, e com o coração quase pulando pela boca abri o grande portão, dei a última olhada para o sol e sorri. Voltei a correr até chegar ao patio, olhei em volta e não tinha uma alma viva lá. Eu realmente estava muito atrasada. Subi as escadas sem olhar por onde pisava, até chegar ao fim do corredor, lá estava a sala de aula, com a porta fechada. Era aula de Religião com o Sr.Tomphson, que desculpa eu daria... Tirei o capuz, respirei fundo e bati na porta. Então, escutei a maçaneta girar e a porta abrir e um alienado "Pois não!?" Quando ele olhou e viu quem era disse — Mais uma vez atrasada Srta. Dara E. Petterson. Dei um sorriso amarelado, e sem prensar disse — O Sr. tão pontual.... Ele me fitou alguns segundos e disse para eu entrar. Todos os olhos voltados para mim, sem jeito caminhei até o fim da sala e me sentei na carteira ao lado da janela. Só então eu percebi que estava sem mochila, mas não ligava. Sempre dormia nas aulas de religião. O assunto era sempre o mesmo, Santos e mais Santos. Eu não me considero uma garota muito ligada a religião, eu acredito em Deus. Mas esses Santos são muito entediantes... Olhei em volta e quase metade da sala estava dormindo. Olhei para o Sr, Tomph e ele estava falando sobre uma maldição, que foi rogada nos egipcianos em não sei qual ano e que de alguma forma veio para na Inglaterra. Me ajeitei na cadeira quando escutei ele dizer Inglaterra, que legal nós estávamos na Inglaterra e havia uma "maldição" que os egipcianos trouxeram antes das guerras. Me sentia uma criança naquela aula, realmente o assunto era mais chato que os Santos. Deitei-me sobe meu braço e fechei meus olhos, lembrando de como o majestoso sol expulsava a lua do céu. Eu quase não escutava o que estava sendo dito na aula... Até escutar o Sr. Tomph dizer que a família que trouxe a tal praga á Inglaterra era a família Eustáquio. Me levantei rapidamente, e olhei para ele, todos os olhos se voltaram para mim. Sr. Tomphson disse — Algum problema Srta. Dara?! — eu fiz que não com a cabeça. Eu conhecia aquele sobrenome de algum lugar... Ele era familiar, mas não conseguia me recordar de onde. A aula parecia não ter fim, parecia que estavamos lá a séculos, até o sino tocou. Eram nove e meia, tínhamos um intervalo de dez minutos. Fui até meu quarto pegar as minhas coisas, pois teríamos aula de educação artística. Ainda com aquilo em mente, cheguei ao meu quarto, peguei a minha chave que estava no fundo do meu bolço; abri a porta, peguei minhas coisas e sai a caminho da sala de artes e danças. Chegando no galpão úmido que falavam que era a sala de artes, vi a Srta. Amanda sorridente ao nos ver chegar. Ela nos deu um bom dia alegre e sorridente, em seguida completou — Hoje vamos ter aula de pintura, e o tema é livre. Peguem seus pinceis e sintam-se livres para expressar a paixão de vocês pela arte.- Lá de trás escutávamos piadinhas sem graça de dois idiotas da classe, mas Srta. Amanda os ignorou. Tirei meu moletom e coloquei um avental meio roxeado, prendi meu cabelo em coque, e suspirei. Peguei meu pincel com um determinado cuidado, fechei os olhos e encharquei meus pulmões com o ar úmido da sala. Sentia um vento sobre meu rosto que me fazia ficar perdida no espaço, eu realmente me sentia amada fazendo aquilo. Então, mergulhei meu pincel na tinta vermelha e comecei a traçar uma linha sem saber o que estava fazendo. Então fui usando a tinta roxa, a cinza, o magenta, o azul... E em cada pincelada eu me apaixonava por aquele momento. Quando me dei conta havia feito uma lua que descia até o mar e sumia entre as águas.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.