Cinza para onde quer que eu olhe

1 Para onde quer que eu olhe... procuro por você


Onde tudo que o rodeava já era tão cinza, jamais esperaria ser atraído por essa mesma cor, um tom específico de cinza, que fazia seus olhos sempre mudarem em direção a ele.

Tentava se aproximar do garoto, apenas para vê-lo mais de perto, nada mais nada menos. Deixava-se escorregar entre a multidão de corpos que lotavam o vagão, até que estivesse próximo o suficiente para observá-lo.

Sempre a mesma blusa cinza listrada. A máquina fotográfica, e a bolsa transversal desbotada, que um dia fora amarela. O cabelo ondulado e escuro, num corte brega e reto, que por controvérsia, lhe caia bem. Fones no ouvido, totalmente alheio ao mundo. Sempre o mesmo.

Cruzou com ele numa manhã ao pegar o metrô, e na volta, encontrou com ele outra vez. No dia seguinte, a mesma situação. Tornou-se comum que pegassem o metrô juntos todas as manhãs.

Começara a imaginar detalhes sobre ele. Nenhum uniforme, nenhuma mochila. Uma bolsa pequena, que mal caberia um livro. Sempre descia antes dele, e quando entrava, ele já estava lá. Alguém mais o via ou era apenas sua mente entediada buscando alívio?

Não sabia o que o tornava tão especial aos seus olhos. O que o fazia desviar o olhar de todos os outros tons para focar apenas naquele.

O garoto era de todo comum. Nada que o destacasse. Outro adolescente cinza numa cidade cinza. Aparência simples, marcas de espinhas nas bochechas e nariz fino. No entanto, seus olhos logo o procuravam ao entrar no vagão de manhã. Buscavam e buscavam. Para que então o observasse com atenção o tempo que permanecesse por ali. Até que reparasse e aprendesse um novo detalhe sobre ele.

Talvez fosse a forma como ele soava intocável, dentro de uma bolha, um mundinho só seu, distante de todos ao seu redor. Quieto, quase imóvel. Parecia sobrar na cena, como se, mesmo tão igual, ainda sim não se encaixasse de forma alguma.

Aquilo fazia Pedro impossível de desviar os olhos.
*

Pedro saíra mais cedo naquele dia, e ao cruzar a praça que levava à estação, reconheceu o casaco cinza sem esforço algum.

Lá estava ele. Agachado no chão, a câmera em mãos, cobrindo o rosto, capturando imagens das pombas que estavam por ali.

Era a primeira vez que o via fora do vagão. E fora da pose imóvel do metrô, parecia real, muito mais normal.
Parou e observou por alguns segundos, antes de retirar o telefone do bolso e tirar uma foto rápida do garoto. Era uma prova para si mesmo de que o garoto cinza não era uma invenção do tédio diário de 30 minutos dentro do transporte. Que ele de fato existia na mesma realidade.
*

Pedro sentia a mochila lhe pesar nos ombros, com tantos livros a serem levados a pedido dos professores desalmados. Que falta fazia uns armários na faculdade.

Ainda que carregasse a mochila com as duas alças sobre os ombros, como uma criança do fundamental, não ajudava em nada e continuava a lhe doer, mas não arriscava colocar no chão quando seu notebook estava dentro dela. No meio de tanta gente, sabia que resultaria numa tela quebrada em poucos minutos.

Apesar da agonia interna, observava o garoto cinza mais uma vez. Tivera a sorte de conseguir ficar perto, segurando na barra do assento dele.

O garoto cinza estava sempre mirando o além, pela janela, de rosto virado e sem expressão alguma. Concentrado. Olhos que até então, poucas vezes se desviavam da janela, pairaram sobre Pedro por poucos segundos. Um sorriso discreto e leve surgiu no garoto cinza.

Ao ser pego encarando, Pedro sentiu a vergonha subindo pelo rosto. Havia desacostumado a disfarçar os olhares em direção ao outro, já que estes nunca se cruzavam.

— Parece bem pesada. Quer que eu carregue pra você? — Sugeriu a voz baixinha do mesmo garoto cinza.
Mesmo com vergonha, não pensou duas vezes antes de estender a mochila. Seu corpo inteiro gritava por alívio e não deixaria a gentileza passar, quem quer que lhe oferecesse.

— Obrigado. — Agradeceu timidamente, tanto por fazê-lo carregar a mochila no colo, tanto por finalmente falar com o garoto.

Encolheu os ombros e virou o rosto, decidindo não voltar a olhar mais para o garoto cinza naquele dia. Pegara a mochila de volta rapidamente quando começou a se aproximar da estação que desceria, estendendo o braço e ao segurá-la, se encaminhando para a porta.

Ainda estava um tanto envergonhado ao ser pego encarando o outro, mesmo que esse provavelmente achasse que era porque queria que alguém segurasse sua mochila.

Ao cruza-las, ouviu uma voz baixinha num "até amanhã" simples. Virou, poucos segundos antes das portas fechadas, para ver quem havia dito. Seus olhares cruzaram pela segunda vez no dia.

O garoto cinza sentava ao lado das portas.
*

Percebeu que talvez fosse algo ocorrendo há algum tempo. Ou uma espécie de hábito. Imaginara que ter ouvido aquele "até amanhã" fosse coisa da sua cabeça, então nos dias seguintes dedicara atenção especial para tentar ouvir novamente. Desejava que fosse real, e não apenas um mal entendido de ouvidos iludidos.

Aos dias que se seguiram, em alguns, ele carregaria sua mochila, em outros, estava distante demais para que o pedido pudesse ser feito.

E em todos os dias, ao descer, quando as portas estavam prestes a fechar, a voz baixinha do garoto cinza pronunciava "até amanhã" novamente. Sabia que não era para outra pessoa. Era o último a passar pela porta.

Lhe consumira alguns dias de minutos longos gastos relembrando das despedidas e sorrindo por minutos ainda mais longos.

Após alguns dias, mesmo que receoso, arriscou, falando no mesmo tom em que recebia a despedida e devolveu com um "até" também simples. Também arriscou olhar para trás, e a recompensa de ver o garoto cinza surpreso, encarando-o milésimos antes do metrô seguir viagem, insensível aos dois garotos, valeu todos os riscos cometidos naquele dia.
*

Após dias de uma interação puramente unilateral, esperava uma mudança após ter respondido ao garoto. Talvez até um medinho inconsciente de que o garoto cinza nem estivesse ali na manhã seguinte.

Cruzou o vagão muito mais rápido que normalmente, seguindo para o lugar habitual do garoto cinza. Não pôde evitar sorrir ao vê-lo.

Sentadinho, porém não olhava para fora, totalmente disperso. Olhava para frente, para as pessoas. E quando seus olhares se cruzaram, o rosto do garoto cinza se abriu num sorriso e ele acenou em sua direção.

Pedro retribuiu o gesto, também sorrindo. Algo tão simples daquele jeito havia mudado seu dia. E os dias que se seguiram, onde permanecia recebendo os habituais cumprimentos e despedidas. Nada mais, nada menos.

Agora seu próximo objetivo era estritamente direto e simples: iniciar um conversa com o garoto cinza.

Não fazia ideia do que dizer ou como conversar com ele, mas sabia que queria fazê-lo. E isso bastava para que tentasse.
*

Procurara até na internet como começar uma conversa com alguém. Não perguntara para os amigos, porque aos 19 anos, sabia que pedir um conselho desses era a mesma coisa que pedir para que rissem da cara dele por dias. Passara a noite treinando algo para dizer e não havia bolado nada.

Ainda que tivesse, quando entrara no ônibus e a chance de falar alguma coisa surgira pela proximidade e o aceno matinal, toda a coragem esvaíra em segundos.

Na ida à faculdade, não abrira a boca. Na volta, tivera um pouco mais de esperança e iria tentar outra vez, mas assim como naquela manhã, desistiu por nervoso.

Não importava o quanto imaginasse uma conversa toda enquanto longe do metrô, na real possibilidade, seu cérebro ficava branco. Esquecia qualquer início, qualquer olá planejado.

Fora só três dias depois, repetindo o mesmo processo de tentativa-desistência que conseguira falar com o garoto outra vez, quando ele novamente oferecera segurar sua mochila. Talvez não merecesse tanto mérito pois recebera ajuda do garoto cinza, mas gostava de acreditar que sim.

Mesmo que o assunto que sugira não fosse dos mais interessantes ou criativos. Talvez próximo do tosco. Esfregara as mãos nos braços, como quem sentia frio.

— Esse ano o frio começou cedo, né? Hoje tá tão frio...

Não teve certeza se o garoto o ouvira e se arrependera de ter tentado conversar logo nos primeiros segundos. Ele virara para si, dando um sorriso simpático antes de responder:

— Fiquei surpreso também... Tive que tirar os casacos do fundo do armário. — Riu, apontando para si mesmo, usando um casaco enorme e escuro, mesmo que a blusa listrada pudesse ser avistada de relance por baixo.

— O pior de tudo é que esses dias mesmo tava' super quente. Uma loucura.

— Bom, mas é bem melhor assim. É ruim andar por aí quando tem muito sol.

— Achei que sol fosse bom para as fotografias. Iluminação e tal. — Apontou para a câmera que vinha pendurada ao pescoço do outro.

— Bem, de fato é... Mas ainda sim, dias nublados e frios são os melhores, definitivamente-

O aviso da próxima parada cruzou os autofalantes e Pedro sabia que teria de se despedir: era ali que desceria.

— Ah, é aqui que eu desço. Até mais. — Acenou, sentindo o metrô parar aos poucos.

O garoto cinza acenou de volta, e Pedro não pôde deixar de pensar em como a cena soou toda natural e confortável.

Fora do vagão, comemorou, tanto por dentro e por fora o que havia feito, enquanto planejava próximas conversas com possíveis tópicos.
*

— Parece que o frio ainda continua por hoje, huh? — O som da voz do garoto cinza chegou a seus ouvidos. Pedro ergueu os olhos do celular, encarando-o.

— Boa coisa, né? — Brincou, lembrando de como o outro parecia gostar do tempo frio.

— Não é?

Ficaram quietos novamente, e Pedro não conseguia pensar em nada melhor para falar.

— Luís. — Ouviu aquela voz outra vez, vindo do banco à sua frente.

— Hm?

— Meu nome... Luís. — O garoto cinza apontou para si mesmo. — Sabe, não tínhamos nos apresentado antes.

— Ah... Pedro. — Murmurou, imitando o gesto do outro. Realmente, não sabia muito bem o que dizer.
*

Nunca pareciam ter conversado o suficiente, os poucos minutos que compartilhavam por dia pareciam durar quase nada. Ter que se despedir era ainda mais ruim.

— Escuta... Aquele filme que a gente vem falando vai lançar sábado. O que acha de vermos juntos, se... não estiver ocupado? — Luís parecia sempre ler seus pensamentos. E tomar atitude antes dele. Por um lado, lhe poupava o nervosismo, por outro, se sentia um idiota.
Não precisou pensar duas vezes antes de aceitar o pedido.

— Claro! — Soltou, soando um pouquinho mais agudo do que o normal. — Tem um café no caminho do cinema, então a gente pode se encontrar lá, umas 14:30, quem sabe. — Sugeriu.

Luís concordou rapidamente, para em seguida sorri de leve.

— Fica marcado então.

Pedro olhou para fora, e assim como todos os dias, o tempo havia passado rápido demais e havia chegado ao seu destino.

E assim como em todos as outra vezes, prestes a descer, ouvira seu "até amanhã" desejado. De pouco em pouco, pareciam subir uma escada em relação a amizade.
*

Ouviu o barulho da câmera ao seu lado novamente, mas quando se virara, diferente da última vez, a lente estava apontada na sua direção. Luís havia parado para fotografar algumas vezes durante o caminho até o cinema, já que o caminho até lá era desconhecido para ele.

Luís desviu os olhos e coçou a cabeça ao ser pego no ato.

— Ah, desculpe... Esqueci de pedir permissão... — Sabe, estou trabalhando num projeto sobre a cidade e queria levar mais para o pessoal, além de do comum, prédios e essas coisas, para fotografar coisas que passam despercebidas, mas estão ali todos os dias. Vemos várias pessoas todos os dias, em metrôs, no trabalho, escola. — Gesticulou, apontado para as outras pessoas. — E te vejo todos os dias, então... se você não se importar...

— Você gostaria de me colocar no seu projeto? — Sentiu as bochechas ficarem vermelhas. Definitivamente, incômodo era a última coisa que sentiria ao ser fotografado por Luís.

Bem, sim... E o pôr do sol criou um efeito bem bacana, então eu me distraí e... — Luís parecia cada vez mais sem graça. Não que o próprio Pedro não estivesse.

— Ah, não tem problema nenhum! Eu não me importo. Pode tirar quantas fotos quiser. — Chacoalhou as mãos na frente de si.

O ombros de Luís baixaram, num suspiro aliviado.
— Bom, se é assim, fico feliz então! — Riu. E não tardou em começar com as fotos desejadas. — Sorria! — O clique da câmera soou outra vez. — Poderia se virar para a direção de antes?
*

Àquela altura, seus pés já haviam memorizado o caminho até o café. Mesmo depois de terem começado a irem para outros lugares, após terem experimentado o menu todo, aquele era especial, e encontravam-se ali antes de qualquer outra coisa.

Os fones seguiam tocando uma música qualquer que Luís recomendara. A atendente deu um sorriso simpático na direção de Pedro enquanto ele sentava na mesa habitual, reconhecendo-o.

Sentiu os olhos serem tampados, e não teve dificuldade alguma em reconhecer o toque. Não depois de ter acostumado a ele há tanto tempo.

Luís beijou sua bochecha, sentando-se à sua frente. Pedro tirara os fones, no tempo de Luís iniciar a conversa com certa empolgação, nem um pouco desconhecida nos encontros que tinham.

— Pedro, você não vai acreditar nas fotos que tirei no caminho! — Exclamou, entregando a câmera. Quando Pedro olhou outra vez, Luís olhava em sua direção, observando-o com um sorriso. Pedro devolveu, assim como a câmera, as mãos tocando-se e entrelaçando sobre a mesa.

— Então, para onde hoje?

Notas finais
Apesar de eu ter tido a ideia logo no começo e me decidido, ainda me perdi um pouco, sempre por falta de confiança no que escrevo e recomeçando. Eu queria ter escrito mais algumas cenas, mas infelizmente não consegui encaixar da forma como eu queria.
De qualquer forma, obrigada por ler!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!