Cinza Alone

2 Sozinho no Escuro


Beber na fonte do passado era uma experiência que trazia conforto ao seu coração.

Seu passado jamais deixara de ser seu presente; aquilo que fora e que vivera era o que era. Sentia cada sensação que já sentira como se fosse sua e imediatamente presente.

Mas também era aquilo que nunca fora. A angústia crescente em seu peito não era pelo que lembrava e sabia, no fundo, que jamais teria de novo. A angústia era pelo que ainda não fora, o que desejava e não sabia se teria.

O passado, bom profeta que é, mostrava o caminho. A sombra do temor, acalentada pelas mais belas melodias, se jogava no seu futuro. Um futuro brilhante para um ser sombrio. Atormentado pela solidão, por um passado melancolicamente feliz, atormentado por suspeitar que seu futuro lhe guardava tormentos parecidos com os que já tinha.

Queria viver numa mentira, às vezes. Muitas vezes pedia para ser burro, para fugir da dor que lhe assolava, por que sabia que era uma dor irremediável.

Nem toda a sua resistência, seu coração de pedra poderia sobreviver imerso no mar de ácida dor. Mergulhava no passado para sentir o coração leve, lembrando do passado como um futuro brilhante de tempos mais remotos.

Mas agora, enquanto amanhecia, tinha a certeza de que, embalado pelo sentimento cantado -- mesmo que por outras vozes --, ele sabia, sim:

Talvez o futuro lhe reservasse um sorriso piedoso.

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