Cinquenta Tons de Tristeza
32 Eu não a salvei.
Notas iniciais
Olho para a parede do quarto de Nik, ou pelo menos tento enxerga-la, pois as minhas lágrimas de uma certa forma embaçam a minha visão. Sinto o chão frio embaixo de mim, e não me incomodo, é como se ele fizesse parte de mim, parte de minha alma.
Passo o dedo em cima da cama e começo a fazer desenhos em volta das minhas lágrimas presentes sobre a colcha de Nik.
Ouço alguém bater na porta e levanto o meu rosto, ao invés de ir atender a porta fico apenas olhando para a mesma enquanto penso se alguém realmente bateu, ou se finamente estou enlouquecendo.
– Lia? – Ouço uma voz grave me chamar do outro lado e franzo o cenho. Ouço duas batidas e então ouço a porta se abrir, mas não tento fugir, não tento me mexer, hoje infelizmente não tenho mais forças para absolutamente nada.
A porta do quarto é aberta, e logo Christian entra pela mesma e anda apressadamente até onde estou e eu apenas o olho, dentro dos olhos e vejo um certo tipo de preocupação dentro deles, todos se preocupam com o que pode acontecer, e eu só queria que alguém tentasse me entender.
Sinto os meus olhos se encherem de lágrimas de novo, e penso que talvez um dia eu me compreenda, e alguém também me compreenda, e com esse pensamento as novas lágrimas caem pelo meu rosto, e sinto que isso realmente está se tornando um rio de lágrimas, pois sinto um bolo presente em minha garganta e a minha respiração irregular.
– Vamos... – Diz Christian um tanto sem jeito, e então ele passa os braços pelas minhas costas e pela parte de trás de meus joelhos e me carrega como uma criança pequena. Isso faz com que eu me lembre de quando passe a negar o colo de minha mão pelo fato de não saber quem era meu pai, e eu continuava negando, apesar de quere-lo mais que tudo.
Ele pega a minha bolsa que está sobre o sofá, apaga as luzes e fecha a porta do apartamento. Me lembro de quando Cam foi embora, de uma forma um tanto mais dramático, mas não pude chorar, tive que ser a parte forte, por Dalila, para Dalila.
Christian aperta o botão do elevador e espera o mesmo enquanto continuo chorando sem me importar se tem alguém vendo, sem me importar de que tenho que deixar as coisas passarem, sem me importar se pareço uma criança chorona, talvez eu em meus plenos dezenove anos esteja infeliz de ter crescido, de ter tido uma adolescência livre, de ter tido liberdade o suficiente para caminhas até o meu inferno.
Christian entra no elevador, e para a minha infelicidade ele não está vazio, ele fica de costas para as outras pessoas as quais não consegui decifrar seus rostos e passa a mão em meus cabelos os descolando de meu rosto.
Quando o elevador se abre ele sai e eu vejo ainda dentro do prédio que a rua está cheia. Assim que coloca os pés na calçada uma chuva de flashes voa em cima de nós e isso faz com que eu queira me esconder, ainda bem que estou sendo carregada, pois se não estivesse eu acabaria desabando.
Christian tenta se desvencilhar daquela quantidade de paparazzis enquanto eu passo a mão no meu rosto tentando limpa-lo e esconde-lo, mas penso que isso é um tanto inútil.
Vejo Taylor correr em nossa direção e me cobrir com algo, não ouço nada além de gritos, flashes, e meus próprios soluços. Sinto o meu corpo mudar e algo embaixo de mim, meu corpo é descoberto e vejo que estou no banco traseiro de um carro, agora posso olhar para a rua e ver o caos que se instalou nela.
Isso não pode ser bom, fui morar com os Greys para não ser descoberta e agora provavelmente vão cair fotos na internet minhas com Christian e isso pode fazer com que eles me achem, tremo com esse pensamento e isso faz com que a choradeira que já estava parando retorne com a mesma força de minhas primeiras lágrimas.
Vejo a rua sumir atrás de mim e a multidão também, mas o barulho dos flashes continua tamborizando em minha cabeça como um lembrete irritante de que tudo pode estar por agua abaixo.
Trago os meus pés para cima do banco e encosto a minha cabeça na janela e abraço meus joelhos. Penso em quando Lian nasceu e eu estava desse mesmo jeito ao caminho do hospital.
Minha vida não é tão longa, mas tenho certeza que a minha história é gigantesca, penso que talvez a minha história esteja boa de acabar e que o gran finale será a vitória dos inimigos, se tudo fosse no faz de conta eu iria ser uma princesa presa em um castelo com uma bruxa querendo roubar algo fútil de mim, como a minha beleza, e o príncipe encantado viria me buscar.
Mas na minha história, eu estou solitária, sem um castelo para chamar de lar, cada vez mais sozinha, preenchida apenas de lágrimas e solidão. E é com esse pensamento que durmo, mas para a minha maior tristeza continuo chorando de olhos fechados.
********
Sinto meu corpo ser levantado e tenho uma visão embaçada do carro ficar para trás sobre o ombro de Christian, passo a mão no meu rosto e reparo que já deixei de chorar o que é bom mas sinto o meu rosto enxado.
Christian entra em casa e não vejo ninguém, espero que me solte para eu subir as escadas, mas sobe me carregando, abre a porta do quarto que ultimamente tenho chamado de meu e me colo sentada na cama.
– Você está melhor? – Ele pergunta e eu apenas assinto.
– Vá tomar um banho se quiser, gostaria de conversar com você. – Ele diz e eu assinto automaticamente. Entro no banheiro e fecho a porta atrás de mim, e tiro as minhas roupas rapidamente para depois entrar embaixo do chuveiro e deixar que a cascata de agua quente envolva o meu corpo.
Depois de aproximadamente vinte minutos embaixo d’agua, cabelos encharcados e dedos enrugados saio do banheiro e vejo que o quarto está vazio.
Coloco uma calça de flanela rosa e um moletom preto e me sento na cama enquanto espero Christian voltar.
Não demora muito para eu ouvir duas batidas na porta e murmurar um “Entre” um tanto desanimado.
Christian traz em sua mão um espelho grande e o coloca sobre a mesinha de estudos que se encontra vazia.
– Vem. – Ele diz e me estende a sua mão, e eu a pego sem entender. Ele puxa a cadeira e me coloca sentada na mesma.
– Posso secar seu cabelo? – Ele pergunta e eu assinto.
Ele começa penteá-lo e eu observo o meu rosto enxado no espelho, a ponta de meu nariz vermelho, e os meus olhos marejados.
– Sabe... – Ele diz de repente e eu o olho esperando continuar, mas ele não continua, e quando eu acho que não irá dizer nada ele continua.
– Eu gostava de pentear os cabelos de minha mãe.... Não Grace…. Minha outra mãe. – Ele diz e olha para a minha cabeça como se aquilo trouxesse alguma forte lembrança para ele.
– Sua outra mãe? – Eu pergunto com apenas um fio de voz.
– Eu queria cuidar dela... Eu tentei cuidar dela... – Ele diz e eu sinto meus olhos se encherem de lágrimas novamente. – Ela se parece com você, talvez não só no rosto, mas também na personalidade, mas a vida, tudo. – Ele diz e eu franzo a testa confusa com o que isso pode significar.
– Eu não consegui salva-la, mas irei te salvar. Irei cuidar de você. – Ele diz e sinto duas lágrimas caírem e ele dá um beijo em minha testa e me lança um sorrio triste. – Boa noite Lia.
– Boa noite Christian. – Eu digo antes de ele sar do quarto.
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