Cinquenta Tons De Vermelho

13 Capítulo 13: Vlad, o Empalador


Notas iniciais
Baseado levemente na história do verdadeiro.

Ele espirrou.

O pequeno Vlad estava encharcado, coberto com lama e musgo, esperando pelos otomanos.

Sua mãe segurava sua mãozinha chorando, e ele não entendia direito o porquê disso. Ele sabia que os otomanos eram inimigos e perversos, sabia também que estava sendo trocado pela paz e talvez isso realmente fosse dado aos valáquios, sabia que era valioso por ser o filho legítimo de seu pai e mais ainda por ser primogênito.

Ele também sabia que seu pai não gostava dele e preferira-o morto se não fosse o único filho legítimo dele. Seu pai tinha outro filho, de sete anos, com uma prostituta, mas ele não sabia o que prostituta significava, só que era algo não muito honroso.

Sua mãe passava a mão em seu cabelo, desembaraçando-o.

Ele olhou para cima e a viu sorrir por entre as lágrimas e o céu cinzento, um dia triste e cheio de lama, com gotas de chuva caindo em seu rosto.

O céu chorava.

Evitou olhar para seu pai, que estava ao lado de sua mãe. Por algum motivo, aquele com quem compartilhava o nome o odiava, e talvez isto fosse algo que ele nunca pudesse compreender.

No fundo, ele tinha um pouco de medo de Vlad, a quem nunca se dirigia pelo grau de parentesco com outras pessoas além do próprio. Ele tinha medo, principalmente, de se tornar como ele.

Os otomanos chegaram e arrancaram o pequeno Vlad dos braços de sua mãe, que começou a choram ainda mais e enfiou o crucifixo que carregava no pescoço por entre os dedinhos do menino.

Vlad pai olhou com desprezo para a mãe do Vlad filho, e provavelmente tentaria algo de ruim com ela depois.

Vlad III, pois esse era o título oficial do Vlad filho, foi empurrado para dentro da carruagem que viera buscá-lo, sentou-se de joelhos e olhou pela pequena janela para dar um último adeus para sua mãe.

Ele olhou para o pai nos olhos, talvez pela última vez. Não havia um pingo de remorso neles.

Então ele se virou e encarou o homem otomano que lhe sorriu perversamente.

Vlad III se encolheu no banco enquanto a carruagem começou a se mover.

Seria uma longa viagem.

Depois de quase nove horas de estrada, passando por recantos esquecidos por Deus, cheios de sangue, vísceras e ossos espalhados, além de cobras e outros animais perigosos escondidos sob os restos mortais, pararam para comer.

Vlad desceu do cubículo esperando obter comida e um cobertor quente, mas depois de ser escrachado por cerca de vinte homens, ele sentou-se na escadinha da carruagem.

Com fome e com frio, o garotinho tremia.

Os otomanos falavam em sua língua, rindo e brincando entre si, até que um deles não gostou da brincadeira e se levantou de supetão, desembainhando sua espada e gritando com o outro. O segundo, por sua vez, não se levantou e continuou brigando. Eles vociferavam e o segundo levantou-se também, os outros escutavam e de repente se dividiram entre os dois, cada grupo assistindo e provendo armas para seu escolhido.

O segundo homem também desembainhou sua espada e vociferou algo em seu idioma para o primeiro.

O primeiro, que aparentemente se chamava Osman, brandiu sua lâmina no ar antes de acertar o ombro do oponente. O segundo, que talvez se chamasse Ohman, urrou de dor e enfiou a espada na barriga de Osman.

Osman tirou a espada do ombro de Ohman e tentou tirar a espada de sua barriga, sem sucesso. O outro lhe sorriu, satisfeito por isso. Retirou a espada e deu lhe as costas.

Foi a primeira de muitas vezes que Vlad III viu uma decapitação.

A cabeça de Ohman rolou até os pés do menino.

O menino se encolheu e olhou com medo para Osman, que se aproximou dele.

O homem lhe sorriu com sadismo, pegou-lhe pelos cabelos e arrastou o corpinho pelo chão, levantando-o na frente de seus comparsas. O garoto gritava de dor, enquanto os outros riam dele e proferiam palavras obscenas, ele agitava suas pernas no ar e pedia para que soltassem em sua língua. Em vez disso riram mais alto e arrancaram-lhe as roupas.

Os próximos minutos foram de pura agonia e dor, recheados de gritos e súplicas.

O abuso não durou mais que meia-hora, mas Vlad se sentira tão humilhado como se tivessem durado dias. Chorava e soluçava, os homens riam com as calças baixas, até que se cansaram de seu choro e bateram fortemente nele com a parte de madeira de uma lança.

Pelo menos não o violaram totalmente, ele pensava.

Ele se encolheu num canto, sozinho, dentro da carruagem, com fome e com frio. Agarrou-se ao crucifixo de sua mãe murmurando canções da Valáquia e pedindo a Deus, não importava se fosse Alá ou o Deus cristão, que aquilo parasse.

Depois de dias de abusos e comendo migalhas ou até menos, o pequeno chegou ao seu destino.

Passou o resto da vida querendo ter morrido naquele instante.

E de certa forma, ele morreu.

Sua inocência morreu.

Carregado pelos cabelos, ele já estava acostumado com isso, pelo rei dos otomanos, ele foi arrastado até o quarto e arremessado para a cama. Ouviu a porta fechar atrás de si e apertou o crucifixo.

Sem lágrimas, sem reações extremas, sem se preocupar em gritar ou pedir ajuda.

Ele sentiu o membro entrando e lhe cortando por dentro, sentiu as mãos do rei lhe segurando os cabelos e esfregando sua cara no lençol, sentiu o crucifixo cortar-lhe as mãos e deixar marcas profundas.

Quando acabou foi arrastado até sua cela, muitos metros abaixo do quarto onde fora violentado. Jogado num canto, apenas com uma vontade de matar, de exterminar com todos ali.

Ele se encolheu, abraçou os joelhos e rezou por algum motivo para continuar. Ele só tinha cinco anos, mas não encontrava mais motivos para viver. O sorriso de sua mãe veio à sua mente e ele sorriu também. O mundo não era tão ruim assim.

Algumas horas se passaram até que uma portinha se abriu e um prato raso sujo de sopa fora atirado para dentro da cela, sem qualquer instrumento para poder comer, ele revirou o prato boca adentro, mas depois vomitou na pequena vasilha para dejetos. A cela era completamente rústica e não tinha janelas, o cheiro de urina era forte, havia ratos por toda a parte e seus guinchos eram ouvidos por toda a parte, as paredes eram cobertas por musgo e lodo, não havia um único feixe de luz, apesar de ainda ser dia.

Ele passou os nove anos seguintes se segurando na lembrança de sua mãe, entre a sanidade e a loucura, e às vezes achava até que fosse mentira. Aquilo era o que sustentava, lhe dava forças para suportar os estupros sucessivos, além das surras e machucados, que às vezes inflamavam.

De vez em quando, quando não se aguentava mais, ele se lembrava de algo quase esquecido, uma frase, um abraço ou qualquer coisa do gênero, de alguma historinha infantil, de algum conto de fadas ou de, simplesmente, se acalentar nos braços de sua mãe.

Ele não sabia direito que dia era, mas sabia que fazia quase uma semana desde seu aniversário de catorze anos quando os valáquios invadiram e tomaram a prisão, resgatando o jovem Vlad. Alguns capitães, amigos de sua mãe, foram correndo para sua cela, trazendo o jovem raquítico nos braços até onde estava o acampamento.

Seu pai o viu e não falou nada, apenas continuou rindo com um grupo de odaliscas. Ele seguiu carregado até uma cabana, onde fora posto no chão faminto e alimentado com a melhor comida que vira em anos.

Depois de dois dias a cidade fora dizimada e pilhada, e levantaram acampamento. Vlad estava mais corado e gordinho, tinha ganhado um pouco de peso e já não tinha o aspecto quase cadavérico que adquiriu na prisão.

Conforme voltava para a Transilvânia ele fez amizade com alguns soldados e capitães, que lhe contavam sobre sua mãe e as notícias mais recentes sobre sua terra. Quando finalmente chegou ele saltou da carruagem, quase caindo no chão, e abraçou sua mãe na frente de todos, ignorando seu pai que vinha logo atrás.

Ela o abraçou forte, dando beijos e dizendo que o amava.

Ele abriu os olhos e viu uma pequena criatura de olhos verdes arregalados, com um sorriso peralta nos lábios e cabelos castanhos que cobriam seus olhos. Ele puxou as calças de Vlad e saiu correndo.

As babás saíram correndo atrás dele com cintas na mão.

Ele mesmo foi arrastado por uma babá e levado para dentro do castelo, quando olhou para trás viu seu pai furioso com sua mãe, berrando com ela e dando-lhe um tapa no rosto. Ela apenas se encolheu e virou para o lado.

Vlad foi forçado a tomar banho, vestir roupas finas as quais ele se desacostumou e cortar o cabelo, que batia quase em seus joelhos, fez a barba, como se tivesse uma. Ele foi perfumado, penteado e engomado, de modo que parecesse o príncipe que era.

Quando entrou na sala de jantar sua mãe ficou horrorizada com seu aspecto quase cadavérico, forçando-o a comer o dobro de um prato normal e a tomar muita sopa com pão.

Depois do jantar seu pai se levantou abruptamente e mencionou algo sobre o menino que puxou as calças de Vlad e resmungou sobre o evento.

Sua mãe esclareceu quem era o menino: Era seu irmão mais novo, Radu. O ele tinha cinco anos e costumava ser desagradável com todos, chegando a maltratar até sua mãe e seus tutores.

Radu só era cortês com o pai, com quem compartilhava muitos defeitos. A mãe de Vlad era muito paciente com o filho, talvez porque quem o estimulava a agir assim fosse o próprio pai.

Ela ainda tinha esperanças vãs que ele fosse melhorar.

Isso nunca aconteceu.

Naquela noite o jovem visconde perambulou pelo quarto, sem conseguir dormir. Deitou-se no chão, fechou os olhos e nada. Tirou suas vestes, ficando apenas com a roupa debaixo, porém não conseguiu pregar o olho. Começou a rir. Pregar os olhos de alguém lhe parecia algo terrivelmente delicioso de se fazer, sentir o sangue escorrendo pelo rosto de alguém, os gritos que repercutiam pela sala, a tremedeira de dor, as tentativas de fuga…

Aquilo só piorou a situação: Agora ele estava excitado nos dois sentidos. Talvez, no fundo, ele se sentisse assim porque fora diversas vezes violentado enquanto o obrigavam a se masturbar, ou porque lhe davam um tratamento melhor quando assistia quieto os espetáculos ou participava infringindo o maior sofrimento possível ao punido da vez. Sorriu.

Talvez algum dia ou a convivência com sua mãe eliminasse aquilo de sua memória, ou ao menos amenizasse aquilo tudo, pois no fundo, ao mesmo tempo em que sentia prazer também sentia um ódio profundo dos que lhe torturaram e uma raiva reprimida por si mesmo de gostar daquilo.

Os anos se passaram e Vlad se tornou adulto, forte e musculoso, o pequeno Radu também cresceu, mas fora apelidado de “gravetinho” pelas forças armadas por causa de sua magreza. Era um garoto extremamente inescrupuloso e já havia matado vários bichos apenas por diversão.

Radu agora contava com 13 anos, um número de azar, e Vlad com 22. Vlad era bonito, desejado pelas moçoilas e um ótimo filho de sua mãe e um bom soldado.

Era bem versado em etiqueta, embora não fosse bom o suficiente para um rapaz de sua idade. Como tinha perdido muito tempo de escola ele ainda era ensinado por sua mãe sobre algumas coisas, mas pelo menos sabia muito mais do que qualquer conselheiro de seu pai.

Sua mãe era bem versada em literatura e em geopolítica, mais do que o próprio marido, e também era boa em matemática e história. Contava para o filho as histórias de seu povo, seus ascendentes e suas estratégias, assim ele ficou sabendo de sua descendência de Átila, o huno e como ele governava.

Radu era um menino que nutria um ciúme profundo, ou aparentemente era isso, sempre tentava prejudicar o irmão nessas horas de aprendizagem: Queimou documentos e mapas antigos, derramava tinta em cima dos materiais, rasgava livros e quebrava instrumentos.

Vlad quase sempre perdia a paciência com ele e batia no irmão mais novo. Seu pai não o perdoava e o fazia cumprir o treinamento das tropas que iam apenas para morrer enquanto Radu assistia rindo. Vlad não ligava, achava até bom: Ficava cada vez mais forte com aquilo e podia conviver com Mircea, seu irmão mais velho bastardo, ele era o melhor amigo de Vlad e também conselheiro, e, para variar, seu pai também não gostava dele.

Mircea era seu protetor dentro do exército e o único homem em quem confiava, tinha 31 anos, sem esposa ou filhos, e era filho de Vlad pai com uma prostituta que depois virou uma madre enclausurada.

Vlad filho via nele alguém em quem se espelhar.

Depois do treinamento iam à taberna, beber um pouco e mexer com algumas mulheres. Mircea sempre tentava levar uma ou duas para sua cama, enquanto Vlad ficava apenas nas palavras.

O herdeiro voltava para casa depois de alguns minutos, para continuar suas lições, com o cheiro de várias mulheres impregnado. Sua mãe não falava nada, mesmo porque aquilo era um comportamento encorajado, e talvez ela pensasse que ele realmente esteve com mulheres.

Um dia, porém e Vlad lembrava-se muito bem dele, Radu passara de todos os limites: Derrubou tudo no chão, atirou algumas folhas de papel para um dos cachorros, atirou alguns objetos no fogo e enfiou uma faca na barriga da mãe.

Vlad entrou em choque, mas logo se recompôs e saiu correndo atrás da peste com quem compartilhava o sobrenome. O menino corria segurando a faca sangrenta pelos corredores do castelo, pingando o líquido vermelho pelo chão, e o irmão mais velho gritava o que ele fez para todos ouvirem. Os empregados começaram a chorar e correr atrás do menino, cada um com algum tipo de arma improvisada e alguns soldados também aderiram à causa.

Radu entrou no salão principal, onde seu pai e seus conselheiros estavam reunidos, ele se escondeu atrás do genitor, com os olhinhos brilhando de alegria.

Vlad, enfurecido, pediu que entregassem o pequeno assassino, explicando o que ele fez. Os conselheiros ficaram espantados com o menino, porém o pai riu alto e passou a mão na cabeça do caçula.

Vlad, em choque, percebeu uma lágrima solitária escorrendo por seu rosto quando desembainhou sua espada. Ele correu com ela até o pai e o derrubou no chão, empunhando-a contra a garganta dele. O pai riu histericamente e não hesitou em dizer o quanto odiava Vlad, o quanto o detestava e à sua mãe também, o rapaz deu-lhe o troco enfiando a espada garganta abaixo, rasgando o pai por dentro.

Ele se levantou, pegou o irmão pelo colarinho e o jogou por uma das janelas do salão. Os empregados foram correndo atrás do garoto, mas o novo rei não se importou com o irmão que talvez estivesse morto.

Vlad foi atrás de Mircea e entrou na casa do bastardo sem cerimônias, os gemidos delataram o irmão mais velho. Vlad entrou no quarto sem bater e começou a contar o que aconteceu.

O irmão, porém, não parou o que estava fazendo até atingir o clímax, que também foi o momento que Vlad contou sobre a morte de seu pai e sobre Radu e a janela.

Mircea não disse nada, mas parecia feliz com isso, apenas agradeceu a garota, levantou-se e se vestiu.

Os dois andaram pelas ruas do vilarejo, algumas pessoas saudavam o novo rei, outras estavam desesperadas com a invasão de um pequeno grupo de otomanos. Ambos deixaram isso para depois e se dirigiram a sala onde estava o corpo da mãe de Vlad.

Os dois tiveram de cobrir o nariz por causa do cheiro da gordura e do perfume dela, que se misturava ao cheiro de outras coisas sendo queimadas. Vlad pegou o corpo da mãe e o levou para fora, dando-o a alguns empregados. Mircea tentava controlar o fogo, afastou móveis e objetos inflamáveis, Vlad ajudou-o com um cobertor e baldes de água que lhe entregavam, o fogo cessou e eles puderam recuperar algumas coisas, incluindo pertences da mãe de Vlad.

Saíram do recinto, pegaram suas espadas e mataram a maior parte do grupo de otomanos, escravizando o resto. Aquele seria o começo de um novo reinado, um reinado de sangue e lágrimas para os otomanos e de ouro e riqueza para os valáquios.

Atingido por uma flecha infectada, Mircea morreu alguns dias depois de uma doença contagiosa, que levou também quatro cavaleiros e dois médicos à morte.

Agora Vlad estava sozinho.

Angustiado e mergulhado na dor, ele se fechou para o resto do mundo, dedicando-se ao estudo das estratégias de batalha e dos inimigos. Não ia com frequência mesmo à igreja ou se confessar, apenas quando sentia falta de contato humano, e, às vezes, fazia uso de suas concubinas. Mas era quase sempre encontrado na biblioteca ou treinando com sua espada.

Tinha ido a muitas batalhas, perdido algumas e ganho outras, trazia cicatrizes por todo o corpo. Aquilo tudo o mantinha vivo, a batalha, o inimigo, o propósito de guerrear, a vida e a morte em suas mãos nos momentos onde era juiz, o gosto da carne de caça que o alimentava enquanto via os transgressores da lei sofrerem suas penas.

De noite pensava em sua mãe e em seu meio-irmão, em seus conselhos e em suas vidas.

Ele estava fechado para o mundo, e para as outras pessoas.

Dois anos se passaram até que ele fosse reencontrar o amor sob mais uma de suas formas. Já tinha conhecido o amor de mãe, o de um irmão e de amigo, mas nunca o amor de uma companheira. Mas ao contrário do que se esperava ela não era nenhuma princesa ou duquesa, ao menos, e sim uma empregada que cuidava de sua biblioteca, mas não sabia ler. Ela era uma jovem camponesa, porém de pele alva, mãos delicadas e traços típicos valáquios.

A moça, de uns dezoito anos, era solteira e considerada velha para casar, ficava observando ele ler e tentava entender o que aquele emaranhado de letras significava.

Ele olhou para cima e deu de cara com ela e sua curiosidade. Ia brigar com a moça, mas ela era tão pura e inocente que ele puxou uma cadeira e a fez sentar.

De repente ela enfiou a cara no livro que ele estava lendo e só então ele percebeu que ela não sabia ler, porém tentava guiar-se pelas iluminuras, Vlad suspirou e pegou um livro infantil para ensinar-lhe a ler.

Depois de um mês já tinha se encantado com ela, ensinando-a a ler e escrever, o básico de ciências sociais, filosofia, matemática e um pouco de História e geografia. Ela já lia bem e escrevia um pouco melhor, gostava de estórias de aventuras e registrava as batalhas dele em manuscritos com letra bastão conforme ele ditava, ele tocava lira para ela de vez em quando e ensinou-lhe a tocar o cravo, um predecessor do piano. Depois de um tempo tomou coragem e pediu-a em casamento. Não pediu para um criado pedí-la, nem para o pai dela. Ele pediu diretamente a ela, na mesma biblioteca onde se conheceram, e ela hesitou.

Hesitou porque não era nobre, não era instruída o suficiente e porque não tinha um bom dote.

No entanto Vlad tinha a solução: Tornou o pai de Elisabeta um barão “por suas atitudes e comportamentos louváveis e exemplares para com a sociedade” e deu algumas terras e criações ao velho fazendeiro e sua esposa ganhou um tear moderno, algumas criadas para ajudar a tecer e fios importados. Logo eles enriqueceram, tornaram-se comerciantes de incrível sucesso e tinham encomendas de tecidos dos mais variados lugares do mundo.

Elisabeta foi sendo instruída pelo próprio Vlad e, em pouco tempo, era educada o suficiente para frequentar as rodas dos nobres do mais alto escalão, claro que os nobres de sangue azul não gostaram daquilo e queriam que ele se casasse com uma de suas filhas, mas teriam de aturá-la.

Entretanto, com os conflitos com os otomanos se acirrando, eles tiveram de adiar o casamento várias vezes até que ela deu um ultimato, àquela altura já se sentia a dona da casa, de que eles se casariam depois que ele voltasse da batalha entre os valáquios e otomanos pela Transilvânia.

Ele insistia em levá-la para a cama às vezes, mas ela insistia em lhe negar. Então Vlad também estava muito ansioso pelo casamento.

Depois de se despedir dela pela enésima vez só naquele dia e de ela tentar fazê-lo ficar, ele foi para a batalha, destroçou várias pessoas, vários otomanos e também vários traidores do seu próprio exército. Ele lanchava um pão com carne e um pouco de suco de laranja quando sentiu seu coração apertar de uma maneira angustiante, come se um pedaço da alma dele tivesse sido arrancada. Montou seu cavalo e percorreu dia e noite até seu castelo para se deparar com o corpo dela dentro da capela onde o teto fora pintado com os rostos deles.

Ele nunca tinha sentido tanta dor na vida.

Aproximou-se do corpo sem vida, sem cor e já um pouco duro e escuro, pegou a mão dela, descobrindo um pedaço de papel. Era uma carta suicida.

Ele gritou e ouviu o padre dizer que não poderia salvar a alma de Elisabeta porque ela havia se matado. Vlad derrubou tudo o que viu em prantos, praguejou contra Deus e todos os santos que conhecia, e atirou sua espada na cruz. Dela escorreu um filete de sangue que foi aumentando, ele pegou a taça que servia o vinho da comunhão e bebeu aquele sangue.

Ele engasgou um pouco, não conseguia respirar e seus membros começaram a ficar dormentes, então convulsionou e o padre saiu correndo, trancando-o lá dentro. Vlad sentiu que seus órgãos internos sangravam sem parar, como se tivessem sido arrancados.

Sentiu como se uma espada tivesse atravessado seu peito e caiu imóvel.

Quando acordou corpo de Elisabeta já tinha começado a se decompor de maneira muito evidente e o cheiro tornara-se insuportável, ele a pegou nos braços e enterrou-a embaixo de uma macieira, num caixão simples pertencente ao seu exército que já não existia mais, por ter ouvido os boatos sobre o que ele fez e na criatura que se tornou.

Até o povo, que antes o via como um herói de guerra, um sábio e um bom juiz agora o temia e tentava expulsar-lhe.

Mas ele, o Drácula, não iria embora antes de reencontrar sua noiva, vagou durante alguns dias noite adentro até encontrar um acampamento de muçulmanos na costa da Romênia. Ele se disfarçou entre eles e andou por entre os soldados até que se deparou com um rosto conhecido.

Radu tomava um pouco de uma bebida otomana, comia um pedaço de carneiro e estava sentado entre os seus companheiros de guerra. O Drácula se enfureceu e aproveitou o momento de distração entre eles para atacar quando entraram numa tenda, degolou seus pescoços um a um e deixou Radu para o final.

Radu sorriu, lambeu os lábios e confessou que havia traído sua pátria e atirado o tijolo com a mensagem de que Vlad estava morto, fazendo com que Elisabeta se matasse. O Drácula se enervou ainda mais, pegou um baú e o atirou na direção de seu irmão mais novo que se desviou. O vampiro então viu que o baú estava cheio de pinturas confiscadas pelos otomanos, que não aceitavam qualquer representação da figura humana e pegou um rolo qualquer, abriu-o sem ver e jogou uma maldição em cima do irmão de que este, assim que morresse teria a alma presa dentro daquela pintura até o dia em que a pintura fosse destruída ou que se deteriorasse.

Radu riu, achando que fosse uma piada e teve seu sangue sugado até a última gota, morrendo de asfixia.

Drácula abriu o rolo de pintura e viu o irmão com o olhar diabólico ali dentro.

Esperando...