Cinquenta Tons De Vermelho
14 Capítulo 14: Reencontros
Notas iniciais
–Então, meu rei, meu querido irmão, traidor do reino de Deus, da santa Igreja e da própria família se aliou com os traidores da ilha? – Radu riu alto.
–Traidor? Eu? – Alucard começou a falar tranquilamente, porém a raiva crescia dentro de si. – Precisarei enumerar seus feitos só para ter uma base de comparação?
Radu fechou a cara.
–Nem mesmo minhas maiores atrocidades se comparam às suas, frate. – Radu provocou.
–Eu posso ter matado milhares de pessoas, algumas inocentes, outras não, mas nada se compara a você ter matado sua mãe. Nada.
Ele riu.
–Ela nunca foi minha mãe! – Riu ainda mais alto, abriu os braços e enfiou sem querer a ponta da espada numa estátua que ficava em cima da escada.
–Então você é filho de uma chocadeira!
Radu tentou tirar a espada da estátua, mas foi atingido por seu irmão antes disso. Alucard arrancou a camisa do irmão, tentou mordê-lo, porém foi em vão. Radu não era mais homem ou mesmo feito de carne, era puro espírito maligno, movido apenas pelo mal. Ele se desfez, deixando Alucard deitado em cima das escadas e se refez com a espada na mão, atrás de Integra e ameaçando de cortar seu pescoço.
–Eu já matei uma, posso matar outra esposa sua. – Ele tirou um filete de sangue que escorreu na lâmina quase tão fria quanto a pele da jovem vampira.
–Primeiro, eu não sou esposa dele. Segundo, eu sei me defender! – Ela escorregou passando pelo corpo etéreo do espírito e da mesma forma roubou a espada dele. Apontou a arma para ele. – Saia da minha casa!
Ele sorriu de leve.
–Como quiser Sua Majestade.
E simplesmente sumiu. Só então ela percebeu que estava mostrando as presas para ele.
–Ele vai voltar, e logo. – Alucard se levantou.
–Eu sei só me pergunto no que ele se transformou e como vamos detê-lo, temos de aproveitar esse momento em que ele ainda está fraco.
–É uma longa história, mas posso dizer que quando o aprisionei eu o amaldiçoei e ele só entrou naquele quadro por que eu o matei logo após.
–E como detemos um espírito?
–Não faça perguntas difíceis.
Celas entrou com Pip naquele minuto, seguidos por Walter e o resto dos Wild Geese.
–O que aconteceu? — Pip perguntou.
–O que aconteceu? Pedaços de corpos espalhados pelo chão e vocês chegam agora? O que estavam fazendo?! — Alucard riu da declaração de Integra. Ela lançou um olhar penetrante, irado e um pouco confuso com o que ele quis dizer com aquilo.
–Deixa quieto. — Ele disse, depois acrescentou baixinho: — Sabe de nada, inocente.
Celas e Pip estavam vermelhos, com as cabeças baixas e envergonhados. Walter e os Wild Geese fingiram que a bronca não se aplicava a eles e começaram a vasculhar o chão, Integra entregou a câmera na mão do mordomo que começou a remexer no equipamento.
–Havia um espírito aqui... — Começou Alucard.
–Do tipo Gasparzinho? Você está com medo do GAS-PAR-ZI-NHO? — Interrompeu Pip.
O vampiro não tinha tanta paciência como sua mestra e acertou um soco no estômago do mercenário, retomando sua fala logo depois.
–Era maligno, poderoso e não tinha objetivos claros além de me irritar, me matar e possivelmente querer dominar o mundo.
Walter interrompeu.
–Ouvi-o dizer que você era o rei dele.
–Sim, ele era meu irmão mais novo.
–Você tem um irmão mais novo? — Perguntou Celas.
–Na verdade eu sou o do meio, eu tinha um irmão mais velho só que ele era bastardo. É uma longa história, o básico que precisam saber é que ele me odeia tanto como os nazistas odeiam os negros, judeus, ciganos, homossexuais e qualquer um que não pertencer à “raça branca ariana”.
–A gente percebeu. — Disse Pip após recobrar o fôlego.
–Temos de pesquisar como derrotá-lo. Ideias? — Perguntou Integra.
–Um médium? — Sugeriu Walter. -Apesar não admitirem, a Scotland Yard usa vários em suas investigações, assim como o FBI.
–Podemos procurar nos arquivos secretos da Idade Média. -Disse Celas. -Deve haver alguma coisa lá, há tantos livros e artigos sobre coisas malignas.
–Hã… Google? -Pip se arrependeu logo após ter dito essa frase. Olhar de reprovação de Integra e até de Celas era perturbador. -Hmm, e que tal a Igreja Católica? Eles têm o maior acervo secreto da Idade Média, mas teríamos de dar algo em troca.
–Talvez os chips dos Freaks da Millennium os interessem. Eles estão tentando nos combater a todo custo de uma maneira mais … Efetiva. Anderson não era lá um grande adversário para mim, realmente, por esse lado, eles se interessem. -Ponderou Alucard.
–E como os combateríamos? -Perguntou o mordomo.
–Do mesmo jeito que sempre fizemos: Por meios de balas. Não percebe? Daríamos uma ilusão de potencial sobre os Freaks, diríamos que realmente são poderosos e que podem ser treinados para combater vampiros reais na Europa católica. Para eles seria como se estivéssemos entregando uma arma poderosa com todo o pesar e desespero e realmente estivessem ganhando algo com isso, mas é claro que tomaríamos o cuidado de melhorar nosso estoque de armas contra eles. Um avanço efetivo, importante de fato, só ocorreria depois de décadas e mesmo assim ainda seríamos imbatíveis. -Ponderou Alucard.
–Vamos consultar a Scotland Yard e oferecer os chips dos Freaks para os católicos então. Ter um plano B para colher informações nunca é demais. -Decidiu Integra. -Walter, ligue para o Vaticano e marque uma reunião para amanhã de manhã.
–A senhora tem o jogo da Champions League nesse horário, Manchester United contra Bayern de Munique. -Ele lembrou.
–Então de tarde.
–Parlamento inglês, amanhã é dia de sabatina, não dá para adiar de qualquer maneira.
–E depois de amanhã?
–Conselho Europeu.
–E provavelmente virará a noite. E no dia seguinte.
–Polo, porém acredito que estará cansada demais para emendar por causa da reunião do Conselho.
Integra suspirou.
–Então Alucard irá no meu lugar. -Estava visivelmente irritada.
–Amanhã de manhã? -Perguntou Walter ao vampiro.
–Amanhã de manhã. — O vampiro saiu, deixando o resto sozinho.
–Sua Majestade Integra, com todo o respeito, mas o que é isso no seu pescoço? — Perguntou Walter.
Só então Integra notou uma mancha vermelha arroxeada, de mais ou menos quatro centímetros com pequenas perfurações envolta. Ela ficou vermelha e gritou para que todos voltassem a seus postos.
Conforme foi caminhando de volta ela tentou cobrir a mancha com a gola do pijama, entretanto ela era muito curta para isso. Ela parou para se olhar no espelho do corredor, porém nada viu. Tinha se esquecido de que era uma vampira e não refletiria mais, não que ela aprovasse ou reprovasse aquilo, nunca fora ligada com sua aparência de qualquer forma, apenas tentava se apresentar respeitavelmente.
–Você foi meia tonta em dizer que não era esposa do sanguessuga. — Pip surgiu atrás dela. Não pegou a moça por ter refletido no espelho.
–Não me interessa sua opinião.
–Sabe, agora ele vai vir atrás de você e não do seu servo, se é que ele ainda é seu servo.
–Como? — Ela olhou para ele, um pouco tensa, agarrando seu pescoço.
–Você não reflete mais no espelho, nem aparece mais para almoçar. Logo outras pessoas além de mim, Walter e os Wild Geese vão descobrir seu segredinho.
–O que você quer, mercenário? — Ela o pegou pelo pescoço, chacoalhando-o.
–Espera aí! Eu não quero nada!
Ela o largou no chão, sem fôlego e assustado.
–Se é isso que uma jovem vampira pode fazer então não vai nem causar cócegas no Gasparzinho do mal.
–Isso não lhe convém.
–Convém sim. Se trata da minha segurança e dos meus homens, vou ajudar a pegá-lo. Mas teria sido mais fácil ter dito que era realmente esposa do monstrengo, ele não viria atrás de você.
–Se ele vier atrás de mim eu garanto que estarei preparada. Agora suma! — Ela gritou com ele, ele deu risada e ela mostrou as presas, incitando-as contra ele. Pip levantou o mais rápido que pôde e saiu correndo.
Integra se recompôs enquanto se dirigia ao seu quarto. E se Radu fosse atrás dela? E se ela não estivesse preparada? E se? A visão de uma Inglaterra destruída já não a assustava mais, ela já tinha visto isso, mas agora era diferente.
Era sua responsabilidade zelar pelo povo do Reino Unido.
Mesmo que custasse sua vida, deveria, e estava, pronta para fazê-lo.
Mas quem a substituiria na Hellsing?
Entrou no quarto frio, com a janela escancarada, deixando a neve, pouca que não cobria totalmente nem o batente da janela, entrar e se espalhar pela cama. Os flocos caíam suaves no chão, não derretendo e nem molhando o chão.
Pegou um floquinho com o indicador, que não derreteu.
“Cada floco é único”, pensou, “assim como as pessoas no mundo. Até mesmo Alucard é único, Celas é única, Pip e Walter são únicos. Meu pai era único, meu tio era único, minha família era única. E morre aqui.” Estava triste por isso, não ansiava por filhos, nem nunca foi maternal, porém não queria extinguir uma família tão honrada e tão renomada.
Ergueu a cabeça e olhou ao longe. Uma luz verde dançando no ar a hipnotizou, vinha de longe, de algum lugar na estrada e, após um segundo, desapareceu. Ela piscou, sentiu uma dor de cabeça forte por alguns segundos que a fez cambalear, ter de se apoiar no batente da porta e foi para a cama quase arrastada.
Integra queria gritar por Walter, Alucard ou qualquer outro que pudesse ajudá-la, entretanto não tinha forças nem para isso. Seu corpo estava tomado por uma paralisia temporária total, se fosse humana já estaria agonizando, asfixiada.
Uma lágrima cruzou o seu rosto e, ao tocar o lençol, a paralisia passou como se nunca tivesse estado ali. Limpou o rastro de água e se pôs de pé novamente, andou até a janela para tentar encontrar a luz ou o lugar de onde ela vinha.
Havia uma sombra ali, com olhos verdes extremamente brilhantes que quase a cegaram e sorriso branco.
Alguém estava tentando matá-la.
O dia veio clareando algumas horas depois e ela havia passado esse meio tempo lendo e tomando notas num caderno de um livro empoeirado dos confins da biblioteca sobre espíritos. Não havia muito sobre como derrotá-los, apenas orientações de como fugir e técnicas de como passar despercebido. Ela se deixou relaxar na poltrona do seu quarto, imaginando o que seria aquele ser na neve.
Teve um outro acesso de dor de cabeça fortíssima e resolveu parar de pensar sobre aquilo. Largou o livro sobre a cama e foi se deitar-se no caixão.
"Também teve dor de cabeça?"-A voz de Alucard invadiu a mente da jovem tão suavemente como um furacão passando por uma rave.
"Eu quero dormir."- Ela respondeu.
"Não respondeu minha pergunta."
"Vá embora, maldito."
"Me responda."
"Ok, tive. Deixe-me em paz."
"Só dor de cabeça?"
Integra começou a se irritar.
"Também tive paralisia temporária, feliz agora? ME DEIXA EM PAZ."
“Viu algo pela janela? ”
Integra se levantou, desceu as escadas e se dirigiu à biblioteca, apenas por instinto sabia que ele estava lá, sentado com um livro de São Cipriano num divã da ala obscura de literatura, com um casaco jogado por cima de suas pernas.
–Onde você quer chegar? — Ela perguntou, nervosa. Seu corpo já era frio, todavia sentia seus ossos congelando por dentro, como pedaços de gelo se unindo e formando um boneco de neve em forma de esqueleto.
–Volte para a cama, já me respondeu o que eu queria. Vá se esquentar. — Ele respondeu num tom quase doce, de alguém que não queria problemas naquele exato momento.
–Não, agora você me acordou, sabe que eu sou péssima em dormir. Me conte onde quer chegar.
Ele suspirou.
–Há outras coisas que estão atrás de nós, de você, depois que disse que não éramos casados. Teria sido melhor para todos, contudo não podemos voltar atrás. Radu terá de esperar um pouco, mas só um pouco. Agora já sabe onde quero chegar, vá dormir.
–Você viu aquela coisa do lado de fora?
–Que coisa? Meu quarto não tem janela.
–Havia um ser lá fora, próximo a estrada, não deu para identificar feições, mas seus olhos eram verdes brilhantes como sirene de polícia e tinha um sorriso branco como uma faca afiada na luz do Sol.
–Hmmm, era uma figura sólida? Não passava uma impressão etérea, nem mesmo uma leve impressão.
–Não.
Ele ficou em silêncio.
–Cancele o polo, preciso de você perto de mim. E agora vá dormir, e torça pelo Manchester como nunca torceu.
–Eu torço para o Arsenal. E você não manda em mim.
–E o que eu disse? Eu estou falando isso para o seu bem, vá dormir, mocinha.
Ela se espreguiçou e chutou a perna do vampiro.
–Quer saber? Me acordou e agora vai ter de me engolir, com ou sem jogo do Arsenal.
–É do Manchester. O jogo é daqui a poucas horas, eu brinco com você depois.
–Não, não vou perder a chance de te irritar como você me irrita.
Ele suspirou outra vez.
–Como quiser, Majestade.
Ele se levantou e a pegou no colo, levando arranhões no rosto e pescoço, ouvindo impropérios.
– Ah, você não sabe bater como um vampiro, não chega a fazer cócegas.
– Então me ensine!
Eles chegaram ao quarto dela e o vampiro a pôs no caixão, cobrindo-a e fechando a tampa.
Integra estava sofrendo com claustrofobia e gritando enquanto ouvia-o trancando e dizendo "bons sonhos".
Agora ela estava acordada e morrendo de vontade de saber o que ia acontecer. Fechou os olhos querendo que passasse rápido.
Acordou com as batidas de Walter na tampa, chamando-a para o jogo. Integra se levantou e se vestiu com seu terno para eventos habitual, mas o mordomo a fez despir-se e usar uma saia lápis rosa, com uma camisa com babados e um paletó azul claro, com scarpins e maquiagem.
Ela se olhou de cima a baixo e não se reconheceu. Colocou um colar de pérolas e um anel no dedo do meio, prendeu os cabelos com uma piranha adornada com contas e saiu para tomar seu café.
Enquanto bebia da taça carmesim leu uma matéria no Times sobre si. Dizia o quão jovem era, que era muito masculina e que não tinha muita experiência em gestão de pessoas e conflitos. Bufou e jogou no lixo, passou um pouco de protetor solar, já que não custava tentar, e saiu para encarar os paparazzi na porta de sua casa.
Era seu primeiro evento como rainha da Inglaterra, somado com a final da Champions League e um dos times não chegava a final havia anos, então um jogo de futebol virou um verdadeiro pandemônio. Entrou no carro e não falou com ninguém, apenas sorriu educadamente.
Não era Walter quem dirigia, e sim o chofer particular da rainha, James. Ele era alto, loiro de olhos azuis, cerca de quarenta anos, com marcas de cansaço evidenciadas pelo sol, cabelo um pouco ressecado e unhas roídas e lascadas. Os dedos grossos guiavam o volante com uma incrível suavidade, ela não sentia as trocas de marcha e nem as freadas, parecia que o volante era uma extensão das mãos dele.
James nada disse o caminho todo, mas olhava de tempos em tempos para sua nova chefe. Integra desconfiou daquilo. Ele a fitava por muito tempo, como se estivesse procurando assunto, enquanto ela disfarçava com a seção “Mundo” do Times.
Quando chegaram havia muito mais paparazzi que ela poderia contar nos portões.
Seguranças formaram uma barreira humana, com auxílio de grades removíveis e cavalos da polícia montada. Ela piscou duas vezes, respirou fundo e tentou não mandar todos ao gigolô que os gerou. Os entusiastas da família real tentavam furar o bloqueio, os policiais quase estavam batendo neles, as crianças estavam enlouquecidas de terem tido a chance de ver outra cara no trono. Integra marchou até dentro do estádio, onde foi recebida com reverências pelos presidentes dos times e seus respectivos técnicos. Depois fingiu ir ao banheiro passar um pouco mais de protetor solar, sentia seu rosto queimar só de ter dado alguns passos para fora.
Olhou para uma televisão num canto e viu a apresentadora da BBC toda arrumada, profissional, mas com muita maquiagem e cabelo arrumado. Compreendeu que as pessoas sempre a julgariam independentemente do lugar, não só os chefes e militares da Távola, mas todos os outros também a olhariam torto caso estivesse com a roupa errada. E isso era verdadeiramente um saco.
Saiu do banheiro com um papel para retirar a maquiagem assim que pudesse e pôs na bolsa que Walter providenciou, era bege, estofada, com o símbolo da Gucci no centro. Cobriu seu rosto do sol com ela, tentando não sentir o calor assassino.
Entrou no camarote real e observou os rostos dos ministros mais importantes e do chefe de Estado da Alemanha, cumprimentou-os e sentou-se na cadeira reservada para ela. Pegou um canapé para enrolar e fingir que comia, jogando-o fora assim que pôde.
Sentou-se na cadeira de posição privilegiada e percebeu que a câmera estava focada nela. Aquilo não era diferente de um espetáculo medieval qualquer de cavaleiros e justas. Não fazia diferença se alguém morria ou não, era tão idiota quanto, apesar de que era mais lúdico para todos.
O jogo começou e Integra se esforçou para torcer pelo time inglês, tentando dar apoio e mostrar certo patriotismo. Isso era esperado, porém os palavrões e xingamentos não. Num instante passou de uma dama, a rainha da Inglaterra, para uma hooligan desenfreada capaz de matar alguém que impedisse algum gol do Manchester.
Sofreu, gritou e derrubou sua bebida no chão três vezes. Aquele título tinha de ser do Manchester. E foi. Estava salva de qualquer suspeita por enquanto.
Foi ao banheiro e retocou um pouco a maquiagem e a proteção solar, entrou no carro depois de passar por milhares de hooligans e fãs da família real, James estava lá dentro no volante com o rádio ligado.
– Partida difícil, não?
– Sim. — Ela respondeu seca.
– A senhora vibrou muito com o jogo, pelo que ouvi.
Ela não respondeu. Ele ligou o automóvel e o fez deslizar suavemente sobre a fina camada gelada que havia se formado na rua.
Tinha um bilhete atrás do banco do motorista, era um papel amarelo fosforescente que chamava muito a atenção sobre o preto opaco do interior do carro. Ela o pegou e abriu, encontrando uma caligrafia quase ilegível.
Apertou os olhos e se concentrou muito para ler a mensagem. "Batatinha quando nasce, espalha a rama pelo chão, mantenha calma, você está sendo sequestrada, isto rimando ou não. :-)" Integra abaixou o papel e olhou para James, que estava com os olhos fixos na rua.
Uma placa de madeira abaixou e separou os dois e um gás entrou pelos lados, mesmo não precisando mais respirar aquele gás invadiu com toda a força seus pulmões e rompeu os vasos capilares com tanta força que achou que estava tendo um derrame.
Acordou numa cadeira de aço cirúrgico, com as mãos amarradas nos descansos para os braços. Atordoada, não conseguia ver direito, mas seu olfato estava bem aguçado, sentia um perfume familiar, misturado com um cheiro de incenso ao longe.
Sua visão estava tão embaçada que mal conseguia enxergar a mesa de aço cirúrgico à sua frente. Tinha uma cuba em cima dela, com algo que ela identificou como gaze, cheia de sangue e pus amarelo-vos.
Viu alguém aparecer na sua frente com o jaleco branco e um estetoscópio pendurado no pescoço, com uma camisa azul por baixo, era um homem de estatura média, ela presumiu, mas não pôde ver o rosto e nem a cor da pele. Estava difícil demais levantar a cabeça e o homem usava luvas roxas de borracha.
Sentiu uma súbita dor no lado direito da cabeça, como se uma bola de baseball tivesse atingido o lugar.
Gemeu de dor.
– Hey, Concussão? Ela está acordando. — O homem se virou para falar com outro ao fundo que respondeu inaudível mente. — Tem certeza? Talvez ela tenha sequelas. — Outra vez o outro homem respondeu e Integra não ouviu. — OK então, mas o que acontecer com ela será responsabilidade sua.
Ele injetou uma substância branca no braço dela, quando aquilo entrou em sua veia ela tentou conter um gemido, mas não pôde. O homem massageou o braço por um tempo e ela viu a substância gelatinosa se espalhar.
Depois ele pegou uma máquina e deu um choque na loira, que silenciou um grito e sentiu seu coração bater dolorosamente por três vezes até parar de novo.
Mordeu seu lábio e tentou impedir uma lágrima de seu formar no canto de seu olho, mas foi impossível, agora estava toda borrada de rímel preto e tinha sujado suas roupas com maquiagem.
Agora estava tudo nítido até demais.
O homem à sua esquerda era um narigudo moreno, usava óculos redondos de grau e tinha os lábios extremamente finos.
Ela via até as espinhas e os cravos incrustados na pele, assim como as marcas de sol e as manchas de lúpus.
Aquele homem estava realmente doente.
Ele saiu da sua frente e chamou o outro. Integra olhou para frente e viu um biombo translúcido com uma luz fraca falhando atrás. Viu a silhueta de um homem magro tomando alguns comprimidos e quase engasgando com eles.
Ele desligou a luz e saiu de trás do biombo.
Era um homem alto, magricela e levemente bronzeado, com o nariz quebrado e os cabelos louros escuros com as pontas claras. Tinha um sorriso muito familiar e um dente lascado.
– Ainda não se lembrou de mim?
Integra lembrou nesse momento: Era Michael.
– O que faz aqui, Michael?
– Nem um "ah, nossa! Quanto tempo! Como vai?". — Ele balançou a cabeça. — Eu devia imaginar. Agora você é a rainha, não deve nada para ninguém, só que você está sob a minha mira. — Ele sacou uma Beretta do jaleco e apontou para a cabeça da loira. — No que ele te transformou?
Ela riu.
– Se acha que me ameaça com isso então não me conhece bem. Ademais não te devo nenhuma explicação, como você disse antes.
– Então vamos ficar aqui a noite toda. Talvez Jack venha te salvar, aliás esse nem deve ser o nome dele, não é?
– Não, não é.
– Ele me deu um presente da última vez que nos encontramos. — Apontou o nariz quebrado. — Não posso engolir direito, muito menos respirar direito, antes eu nadava, mas depois disso eu comecei a me afogar nas aulas e também tive de parar as minhas aulas de esgrima.
– Pobre coitado. Quer um biscoito?
Ele deu um tapa na cara dela.
– Você já foi mais cavalheiro.
– E você mais graciosa e meiga.
– Eu não me importo mais com convenções.
– Deveria, é a rainha. Mas não estamos aqui para discutir este tipo de coisa. — Ele destravou a arma. — Chame Jack, ou quem quer que ele seja.
– Não, vou resolver isso sozinha. — Tentou mover os pés e descobriu que estavam amarrados. Tentou soltar suas mãos, porém não tinha força o suficiente.
– Projetei estas cordas para não se rasgarem com facilidade, é um tipo de nylon muito resistente que levanta até contêiner de navios. — O sorriso dele alcançava os dois lados de seu rosto levemente torto. — Quanto mais força você faz, mais ele resiste. Aposto que agora está cortando seu braço, não?
Integra podia sentir a pele de seu braço se rompendo e uma certa ardência no local.
– Está bem vermelhinho e ardido, não? Passei extrato de alho nestas cordas em específico, não vão te matar, mas vai arder tanto que você vai preferir que eu arranque seu braço. Agora, vamos começar com as minhas pesquisas, monstrinho.
– Pesquisa para quê?!
Ele ignorou.
– Pesquisa para quê, seu australiano maldito?!
– Me xingue e eu faço bem pior.
–PESQUISA PARA QUÊ?!
Não houve resposta. Ela tentou se rebelar, contudo o nylon a cortava mais e mais, entrando em seus músculos e cortando suas veias. Ela gemeu baixo. O alho realmente ardia e fazia tudo piorar, era como sal grosso numa ferida ampla aberta e profunda.
Ele pegou um controle e apertou um botão, a cadeira começou a inclinar-se para trás, transformando-se numa cama. Michael trouxe a mesinha com a cuba e vários instrumentos, ele pegou uma máscara e luvas, vestiu-as e pegou o bisturi.
– Agora vem a parte legal. Para mim, você vai sentir uma dor muito grande.
– Qualquer coisa que cale sua boca, pelo amor de Deus, como você é chato!
Ele deu de ombros.
– Como você quiser.
E desnudou a barriga de Integra, rasgando a pele dela com um bisturi.
Uma lágrima desceu pelo rosto dela, enquanto ela só pensava em uma maneira de sair dali sozinha. E, principalmente, o porquê dele fazer isso com ela.
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