Cingállah: O Sangue dos Escolhidos
1 O Sussurro da Floresta Éckmah
Nas profundezas do planeta Munroe, numa ilha de extensão quase interminável, erguia-se a floresta Éckmah. Seu manto verde se estendia para além do horizonte, um labirinto vivo onde o sol mal conseguia tocar o solo, filtrado por copas densas e ancestrais. A cada passo, a umidade impregnava o ar, trazendo o cheiro forte da terra fértil, das folhas molhadas e das flores selvagens que desabrochavam com cores que pareciam desafiar o espectro natural.
O vento, sempre presente, sussurrava entre as folhas, carregando histórias esquecidas, murmúrios que apenas os seres antigos e os atentos podiam captar. Era uma música feita de sons suaves — o tilintar distante de uma cascata, o farfalhar das asas de aves invisíveis, o estalo de galhos sob o passo furtivo de criaturas desconhecidas.
A magia ali era palpável, impregnando o solo, as árvores e até o ar denso e quente. Era uma energia ancestral, que fluía como se a própria vida da floresta fosse um organismo único, respirando e vibrando em uníssono. Alguns diziam que Éckmah era viva, um ser que guardava segredos de eras perdidas, capaz de proteger seus habitantes e punir os invasores.
Mas aquela vastidão verde não era apenas um refúgio natural. Era o lar de seres antigos, místicos, entre eles os elfos, guardiões das tradições e da magia que entrelaçava todos os elementos daquele mundo. Efron, um jovem elfo de olhar firme e cabelos loiros como o trigo ao sol, conhecia cada trilha, cada árvore, como se fossem extensões de seu próprio ser.
Efron não era um elfo comum. Filho de Afróllide, uma elfa de linhagem pura e domínio raro sobre as artes naturais, e de Eckler, um humano que governava o continente onde a floresta se estendia, ele carregava em si a tensão de dois mundos que nem sempre conviviam em paz. Seus olhos, herdados do pai, eram profundos e humanos, enquanto sua irmã Serethiel possuía os delicados olhos rosados da mãe e uma beleza que confundia a linha tênue entre humano e elfo.
O casamento de seus pais fora arranjado, uma trégua política para unir as forças humanas e élficas e manter a paz em tempos sombrios. Mas a paz era frágil, construída sobre entendimentos delicados e veladas disputas de poder.
Serethiel, apesar de sua aparência quase humana e corpo sedutor que atraía olhares por onde passava, possuía uma habilidade natural com a magia do vento e da vegetação. Ela aprendera a linguagem élfica sozinha, sem auxílio, apenas observando os murmúrios da floresta e os cantos antigos que ainda vibravam nas raízes. Efron, por sua vez, precisara se empenhar muito para dominar esses saberes, uma luta constante contra suas limitações herdadas e a pressão do legado de seus pais.
Ao seu lado, sempre estava Caco, seu melhor amigo e confidente. Um elfo negro de aparência humana, com olhos verdes que brilhavam como esmeraldas sob a penumbra da floresta. A linhagem de Caco era envolta em mistérios e sombras: seus ancestrais dominavam uma arte pouco compreendida, que usava o sexo como forma de manipulação mágica. Quem se deitasse com um deles sentia uma necessidade quase incontrolável de servi-los, uma conexão profunda que transcendia o físico e invadia a mente e o espírito.
Caco carregava também um passado doloroso. Seu pai fora assassinado na guerra que marcara gerações, deixando cicatrizes invisíveis em sua alma. Sua mãe, uma mulher de influência e poder, ocupava um posto crucial nas relações diplomáticas do governo. Ela não hesitava em usar sua sensualidade como uma arma secreta em reuniões a portas fechadas, conseguindo assim manter o mundo aos seus pés, manipulando alianças e corações com a mesma destreza.
No centro do continente, erguia-se a universidade Cingállah. Não era apenas uma instituição de ensino: era o coração pulsante de Munroe, onde se formavam os futuros líderes, feiticeiros, estrategistas e manipuladores de sombras e luz. Filhos das famílias mais poderosas dos diversos continentes estudavam ali, em uma estrutura monumental construída com pedra encantada e saber ancestral.
Entre esses estudantes, destacava-se Margot Tenebrarum. Ruiva, com olhos verdes como musgo úmido, aparentava ser apenas uma jovem excêntrica. Ria sozinha, falava com corvos, usava meias trocadas e dizia sonhar com lugares que não existiam. Mas por trás daquela imagem havia uma bruxa treinada na magia obscura. Vinha de uma linhagem que cultivava feitiços antigos e discretos, sempre evitando holofotes — mas sempre presente onde o poder crescia.
Seu irmão, Pietro Tenebrarum, era ainda mais temido. Pouco falava, mas sua presença bastava. Tinha porte de guerreiro, mente afiada e uma beleza silenciosa que fazia com que todas as garotas da Cingállah o observassem com misto de desejo e temor. Pietro namorava Tábata Vernaz — uma jovem misteriosa, filha de uma medusa com o próprio deus da guerra. Embora sua aparência fosse humana, seus cachos vibravam como serpentes adormecidas, e seu olhar carregava a habilidade de paralisar qualquer um — ainda em estágio inicial, mas suficiente para causar calafrios.
Efron observava Margot de longe. Encantava jovens com sua música — um dom herdado da mãe — e, com frequência, se envolvia com diversas alunas da Cingállah. Era como se esperasse que Margot notasse seu talento, sua presença, sua busca. Mas ela se mantinha distante. O via com desdém velado. Não por desprezo, mas porque enxergava o vazio por trás de seu encanto.
Na noite do Equinócio de Éckmah, um ritual ancestral reuniu os estudantes diante da clareira sagrada da floresta. Ali, sob a lua cheia, cada jovem precisava oferecer algo à floresta — um segredo, um símbolo, uma lembrança — em troca de reconhecimento espiritual. Era uma cerimônia silenciosa. Um rito de passagem.
Serethiel foi a primeira. O vento soprou em resposta ao seu gesto. A vegetação se moveu. Ela fora aceita.
Caco foi o segundo. O solo tremeu. A floresta reconhecia o sangue antigo em suas veias.
Efron hesitou. Deixou seu colar, um presente de sua mãe, sobre a pedra sagrada. A floresta, porém, respondeu com silêncio. Nenhuma folha se moveu. Nenhum som foi ouvido. Ele fora ignorado.
Margot se aproximou da pedra. Tirou um pequeno frasco do bolso — um líquido negro e espesso — e o derramou sobre o altar. A floresta estremeceu. Os pássaros silenciaram. O céu escureceu ainda mais.
No dia seguinte, boatos corriam pelos corredores. Um aprendiz fora encontrado paralisado. Seus olhos mostravam puro terror. Ninguém ousava dizer em voz alta: "Tábata."
Efron, inquieto, buscou refúgio sob a Árvore de Vorállien. Ali encontrou Margot. Conversaram. Ela o feriu com a verdade: ele se escondia em encantos passageiros, com medo de ser quem era. Disse a ele que, quando descobrisse sua verdadeira face, voltasse para ela.
Na mesma noite, um feixe de luz dourada subiu da torre principal da Cingállah. O sino do Conselho dos Reitores soou três vezes.
Convocação extraordinária.
Pietro, Tábata, Serethiel, Margot, Caco... e Efron.
O decano troll falou: — A floresta mostrou visões. Um coração dividido. Uma lâmina quebrada. Um beijo que desperta um pacto antigo. Vocês foram chamados. Não por nós. Mas por ela.
Margot olhou para Efron e sussurrou:
— A floresta vai deixar de sussurrar... e vai começar a gritar.
Fim do Capítulo I
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