Finalmente, o dia tão esperado havia chegado. O dia do resultado do exame de seleção do Bruges School. Eu e Katy estávamos na sala, a Senhora Gomes havia feito uma bandeja de biscoitos fresquinhos. A ansiedade pairava no ar como uma névoa densa e palpável.

Logo o senhor Thorne, chegou logo em seguida com duas cartas nas mãos. Seu rosto não demonstrava nenhuma emoção, mas eu sabia que ele estava tão ansioso quanto nós. Ele nos entregou a carta, e Katy e eu trocamos olhares temerosos. Era a hora da verdade.

Katy, sempre corajosa, decidiu abrir a carta primeiro. Eu observei enquanto ela rasgava o envelope com mãos trêmulas. Seus olhos percorreram rapidamente o texto, e vi quando eles se encheram de lágrimas. "Eu... eu não passei," ela sussurrou, a voz embargada. Meu coração afundou. Se Katy, com toda sua inteligência e meses de preparação, não havia conseguido passar, o que isso significava para mim?

Meu medo cresceu. Katy era uma das pessoas mais brilhantes que eu conhecia. Ela sempre viajava para Bruges para fazer cursos de férias.Se ela não havia passado, como eu poderia ter qualquer esperança?Eu que só havia estudado os esboços que Katy me emprestava. Senti as lágrimas brotarem nos meus olhos enquanto pegava a carta das mãos do senhor Thorne. Minhas mãos tremiam tanto que quase não consegui abrir o envelope.

Eu respirei fundo e comecei a ler. As palavras pareciam embaçadas, misturadas com as lágrimas que se acumulavam. Mas, à medida que continuei lendo, algo incrível aconteceu. "Elizabeth, você acertou 69 das 70 questões do teste e está aprovada." Eu não conseguia acreditar no que estava lendo. Pisquei várias vezes, esperando que as palavras mudassem, mas elas continuavam lá, firmes e sólidas.

Olhei para Katy, esperando ver alguma reação. Ela apenas me olhou com um semblante neutro e disse: "Parabéns, Lize," antes de se levantar e ir para o quarto sem dizer mais nada. A alegria que eu senti ao ler a carta foi rapidamente substituída por um peso esmagador de culpa.

O senhor Thorne se aproximou de mim. — Vou conversar com ela- Disse, colocando uma mão reconfortante em meu ombro. — Ela precisa de um tempo para processar isso.

Eu assenti, ainda sem saber o que dizer. Olhei para a senhora Gomes, que tentava me consolar com um sorriso, mas eu me sentia mal. Meus olhos se encheram de lágrimas novamente, desta vez de tristeza. Eu sabia que passar no exame era uma conquista incrível, mas sem Katy ao meu lado, a vitória parecia incompleta.

Eu me sentia culpada, mesmo sabendo que não deveria. Queria que Katy estivesse tão feliz quanto eu, que pudéssemos compartilhar aquele momento como sempre sonhamos. Eu me perguntei se as coisas voltariam ao normal entre nós e como isso afetaria nossa amizade.

O peso do momento era esmagador. Após a reação indiferente de Katy ao saber que eu havia passado no exame, decidi sair e caminhar um pouco. Precisava de ar, de espaço para organizar meus pensamentos e sentimentos conflitantes. Sentia-me culpada por estar feliz com minha aprovação enquanto Katy estava devastada. Era uma felicidade amarga, e eu precisava encontrar uma maneira de processar tudo isso.

Caminhei sem rumo definido, deixando meus pés me guiarem pelas ruas familiares da cidade. A cada passo, minha mente vagava entre a alegria da minha conquista e a tristeza pela decepção de Katy. A culpa me envolvia como um manto pesado, sufocando qualquer centelha de felicidade que tentava surgir.

Meus passos me levaram até o centro da cidade, onde um grande outdoor dominava a paisagem. Parei diante dele, o mesmo outdoor que havia visto quando cheguei aqui. A imagem era de Jacob Black, um empresário de sucesso cujo rosto estava estampado em todas as campanhas publicitárias locais. Olhei para o sorriso confiante na foto, e de repente, algo clicou na minha mente.

Jacob Black. Eu olhei mais atentamente e percebi a semelhança com Antony. Os traços fortes, o olhar determinado. Repeti baixinho para mim mesma, como se testando a ideia: "Antony Black." Tudo fazia sentido. Antony só podia ser filho de Jacob Black. A descoberta me trouxe uma estranha mistura de surpresa e alívio, como se uma peça importante de um quebra-cabeça finalmente se encaixasse.

Continuei minha caminhada, perdida em pensamentos. Cheguei a um playground, um pequeno oásis de infância em meio à cidade. As risadas das crianças brincando enchiam o ar, trazendo uma onda de nostalgia. Parei diante de um dos balanços e, de repente, imagens começaram a surgir em minha mente. Eram fragmentos embaçados, flashes de memória que pareciam se desdobrar diante dos meus olhos.

Eu me via ali, no mesmo playground, sendo balançada por uma mulher cujo rosto não conseguia identificar. Era uma sensação estranha e desconcertante, como se estivesse tentando agarrar algo que sempre escapava por entre meus dedos. A cena se repetia em minha mente: eu, pequena, rindo e sendo empurrada no balanço, a figura da mulher permanecendo vaga e indistinta.

Um arrepio percorreu minha espinha quando percebi que já estivera ali antes. Aqueles balanços, aquela sensação de alegria pura, eram fragmentos da minha própria infância, guardados em algum lugar profundo da minha mente. A descoberta trouxe uma mistura de emoções: uma conexão com meu passado e uma tristeza por não conseguir lembrar claramente.

Eu me senti confusa. Como poderia ter aquelas memórias se nunca havia estado em Bruges? Tia Maeve sempre me disse que meus pais nunca haviam estado em Bruges.

Sentei-me em um dos balanços, deixando os pés tocarem levemente o chão. Enquanto olhava para o horizonte, prometi a mim mesma que encontraria uma forma de reconciliar meus sentimentos. Precisava encontrar um equilíbrio entre minha felicidade e o apoio a Katy. E, ao mesmo tempo, precisava entender mais sobre meu próprio passado, sobre as conexões que começavam a surgir.

Voltar para a casa da senhora Gomes foi uma decisão difícil. Eu precisava de um tempo para mim mesma, mas sabia que não poderia evitar Katy para sempre. Caminhei lentamente pelas ruas, absorvendo o ar fresco da noite, tentando organizar meus pensamentos e acalmar meu coração.

Quando finalmente cheguei à porta da casa da senhora Gomes, hesitei por um momento antes de entrar. A sala estava iluminada suavemente, e a senhora Gomes estava na cozinha, provavelmente preparando o jantar. Mas foi Katy quem me recebeu na sala. Ela estava sentada no sofá, as mãos entrelaçadas no colo, o rosto marcado por uma expressão de arrependimento.

— Liza- Ela começou levantando-se lentamente. — Eu... sinto muito por mais cedo. Não deveria ter agido daquela forma. Estava tão chateada com meu próprio resultado que não consegui ficar feliz por você. Mas eu estou, de verdade. Estou muito feliz que você tenha passado.

Senti um nó se desfazer no meu peito ao ouvir suas palavras. -Katy, não precisa se desculpar. Eu entendo. Foi um dia difícil para ambas."

Ela se aproximou e me abraçou. Era um abraço forte e sincero, cheio de todos os sentimentos que as palavras não conseguiam expressar. -Eu prometo que vou estar te esperando ano que vem- Disse ela, sua voz abafada pelo abraço.

O jantar naquela noite foi tranquilo, um alívio após toda a tensão do dia. A senhora Gomes preparou nossos pratos favoritos, e por um breve momento, tudo parecia normal de novo. Mas a realidade logo nos alcançou. Katy e o senhor Thorne iriam partir para Fynn na madrugada, e havia muitas coisas para arrumar.

Depois do jantar, subi com Katy para o quarto dela. Ajudei-a a dobrar roupas, organizar livros e empacotar lembranças. Era uma tarefa silenciosa, cada uma perdida em seus próprios pensamentos. Quando terminamos, entreguei a Katy uma carta que havia escrito para Oliver.

— Você pode entregar isso para ele? Perguntei, tentando não deixar a emoção transparecer na minha voz.

Katy pegou a carta com cuidado, seus olhos brilhando com compreensão. — Claro, Liza. Vou entregar a ele assim que chegar lá.

Nos abraçamos novamente, mais uma vez compartilhando um momento de conexão profunda. A madrugada se aproximava rapidamente, e logo o senhor Thorne estava pronto para partir. Despedimo-nos na porta, palavras de encorajamento e promessas de manter contato fluindo facilmente entre nós.

Enquanto o carro se afastava na escuridão da noite, senti uma mistura de tristeza e esperança. Despedir-me de Katy era doloroso, mas sabia que nossa amizade era forte o suficiente para superar a distância. E com a carta para Oliver em suas mãos, havia uma nova conexão que mantinha meus laços com Fynn.

Voltei para dentro, a casa agora mais silenciosa. A senhora Gomes me acolheu com um sorriso gentil e um abraço reconfortante. Subi para o quarto, sentindo uma estranha paz. O caminho à frente ainda era incerto, mas com a possibilidade de um futuro brilhante no Bruges School, eu sabia que estava pronta para enfrentar o que viesse.