O despertador tocou às 6:30, e eu senti um misto de ansiedade e empolgação enquanto me levantava da cama. Ao lado, Penélope, já estava acordada e revisava suas anotações, com a postura impecável que eu esperava de uma escola como essa.

Após fazer minha higiene pessoal eu vesti o uniforme e olhei no espelho conferindo se tudo estava de acordo com as regras – Você está linda Liza – Disse Penélope se colocando ao meu lado diante do espelho.

— Obrigada – Agradeci o elogio dando um sorriso – Você também está.

Com os livros nas mãos, saímos juntas do quarto e seguimos para o refeitório, onde um delicioso aroma de café fresco e pão quente nos recebia. Pegamos nossas bandejas e nos servimos, escolhendo uma mesa próxima à janela, que oferecia uma vista tranquila do jardim bem cuidado da escola.

Enquanto tomávamos nosso café, duas figuras se aproximaram da nossa mesa, parecendo igualmente novatos e ligeiramente perdidos. Um rapaz alto com cabelos bagunçados e um sorriso fácil nos cumprimentou primeiro.

— Oi, eu sou o Matt- Disse ele, puxando uma cadeira. — E essa é a Lara- continuou ele, apontando para a garota ao seu lado, que tinha uma expressão amigável e curiosa.

—Prazer, eu sou a Liza- Respondi com um sorriso. -E essa é a Penélope."

Logo estávamos todos sentados, compartilhando nossas expectativas e receios para a primeira aula. Eu estava animada, mas também um pouco nervosa, principalmente porque estava atrasada nos estudos e não estaria na mesma turma que eles.

— Que tipo de aula vocês estão esperando? Perguntou Lara, enquanto misturava açúcar no café.

—Espero que não seja tão difícil- Respondeu Penélope. — Mas eu acho que o mais importante é nos esforçarmos, certo?"

Concordei com a cabeça, tentando ignorar a preocupação crescente sobre minha própria colocação. Matt e Lara pareciam estar no mesmo nível e se animavam com a ideia de estudarem juntos. Eu sabia que teria que me esforçar mais para alcançar o nível deles.

De repente, notei que éramos observados. De uma das mesas do outro lado do refeitório, um grupo de alunas com uniformes de torcida cochichava e olhava na nossa direção. Senti um calafrio de ansiedade, mas mantive a compostura.

Três delas se levantaram e vieram em nossa direção, com um andar confiante. A líder, uma garota loira, nos encarou com uma expressão de desdém. As duas outras morenas ao seu lado pareciam igualmente soberbas.

— Quem autorizou vocês a sentarem aqui? Perguntou a loira, que logo se apresentou como Suzan, com um tom de voz que beirava o escárnio.

Ergui o olhar para ela, mantendo a calma. — Não sabia que precisávamos de autorização para sentar- Respondi, sem desviar o olhar.

Suzan arqueou uma sobrancelha, claramente não acostumada a ser respondida dessa forma. — Essa mesa é reservada para nós, veteranas- disse ela, o tom agora mais ríspido.

— Bem, não vejo nenhuma placa — Retruquei, não me deixando intimidar. — E se for assim, vocês deveriam ter chegado mais cedo.

A conversa rapidamente se tornou calorosa. Suzan, visivelmente aborrecida, deu um passo à frente, e as morenas atrás dela começaram a murmurar entre si. Matt e Lara pareciam prontos para intervir, enquanto Penélope apertava minha mão sob a mesa, em um gesto de apoio silencioso.

Nesse momento, uma figura se aproximou, interrompendo a discussão. Era uma garota com longos cabelos castanhos e uma presença imponente. — Suzan, deixe eles em paz- Disse ela com autoridade. -Não há necessidade de criar problemas no primeiro dia."

Suzan lançou um olhar irritado para a recém-chegada, mas obedeceu relutantemente. — Vamos, meninas — Disse ela, virando-se para sair, mas não sem antes lançar um último olhar de advertência para mim.

— Obrigada- Murmurei para a garota que interveio.

— Não foi nada- Respondeu ela, com um sorriso gentil. — Eu sou Mia Lahote. Se precisarem de algo, podem falar comigo

Com isso, Mia se afastou, voltando para sua mesa. O encontro foi breve, mas deixou uma impressão duradoura. Matt, Penélope e Lara trocaram olhares significativos, enquanto eu tentava processar o que havia acabado de acontecer.

Enquanto terminávamos o café, notei que Mia lançava olhares ocasionais em nossa direção. Ela parecia curiosa, talvez tentando entender mais sobre nós, os novos bolsistas. A sensação de ser observada por alguém que parecia tão influente na escola me deixava um pouco desconfortável, mas ao mesmo tempo, me motivava a dar o meu melhor.

Quando finalmente terminamos, nos levantamos e nos despedimos. — Até mais tarde, pessoal- Disse Matt com um sorriso. Lara acenou e Penélope deu-me um abraço rápido antes de seguirmos caminhos diferentes.

Minha primeira aula foi de química. O laboratório era amplo e bem equipado, com fileiras de mesas ocupadas por estudantes que já pareciam saber exatamente o que fazer. Sentei-me na última fileira, tentando me familiarizar com o ambiente.

O professor, Dr. Reynolds, era um homem alto e de aparência severa, mas com um ar de sabedoria que inspirava confiança. Ele iniciou a aula com uma revisão rápida de conceitos básicos, mas logo avançou para tópicos mais complexos.

— Alguém pode me dizer o que é a hibridação sp3 e como ela se aplica à formação de moléculas de metano? Perguntou ele, olhando ao redor da sala.

Levantei a mão, hesitante, mas determinada a provar a mim mesma que eu pertencia àquela escola. Dr. Reynolds me apontou com um leve aceno.

— A hibridação sp3 ocorre quando um átomo de carbono combina seus orbitais s e p para formar quatro novos orbitais híbridos, iguais em energia -Comecei sentindo os olhares de meus colegas voltados para mim. — Esses orbitais formam ligações sigma com os átomos de hidrogênio, resultando na estrutura tetraédrica do metano.

O professor assentiu — Muito bem, Liza. Uma explicação clara e precisa.

Eu sorri, sentindo uma onda de satisfação. A aula continuou e, para minha surpresa, consegui responder a várias outras perguntas difíceis, começava a me sentir mais confiante em relação a prova que me faria ir para o ano seguinte.

Ao final da aula, enquanto arrumava meus materiais, notei que algumas meninas me observavam, eles cochicharam entre si, mas pude ouvir o “ Ela está se achando o máximo” me deixando um pouco desconfortável. Saí da sala com a cabeça baixa e passei apressada ao lado delas.

Caminhei pelos corredores tentando memorizar o caminho e localizar meu armário. As paredes estavam cobertas com placas de identificação dos alunos, e eu lia cada uma atentamente, procurando meu nome. O movimento ao redor era constante, com estudantes indo e vindo, alguns apressados, outros conversando animadamente.

Enquanto me aproximava de uma seção específica dos armários, vi Suzan e suas seguidoras paradas, conversando em voz baixa. Elas lançaram olhares desconfiados e julgadores na minha direção. Suspirei, torcendo para que não me provocassem.

Finalmente, encontrei meu armário. A placa com meu nome estava brilhando, uma pequena vitória em meio a tantas novidades. Girei a combinação do cadeado e o abri, ansiosa para organizar meus livros e materiais.

De repente, senti um peso sobre a cabeça e, em um instante, fui coberta por uma substância pegajosa e fria. Um balde de tinta vermelha havia caído sobre mim, manchando meu cabelo, rosto e roupas. Por um momento, fiquei paralisada pelo choque e a humilhação.

Os risos começaram imediatamente. Olhei para o lado e vi Suzan e suas amigas rindo histericamente, claramente se divertindo com minha desgraça. Suzan fez questão de fazer um comentário audível.

— Parece que a novata encontrou seu lugar- Disse ela, entre risos.

Minha raiva começou a ferver, mas respirei fundo, tentando manter a calma. Eu não lhes daria a satisfação de uma reação explosiva. Em vez disso, fechei o armário com força e comecei a andar em direção ao banheiro, ignorando os olhares curiosos e os cochichos ao meu redor.

Chegando ao banheiro, me encarei no espelho. A imagem refletida era desoladora: eu estava coberta de tinta vermelha, com manchas escorrendo pelo rosto e pescoço. As lágrimas ameaçavam cair, mas eu me segurei. Não deixaria Suzan e suas amigas me verem fraca.

Enquanto tentava limpar o pior da bagunça, ouvi a porta do banheiro se abrir. Mia Lahote entrou, seguida por duas de suas amigas. Ela parou ao me ver, a expressão de preocupação evidente em seu rosto.

— Liza, o que aconteceu? Perguntou ela, embora a resposta fosse óbvia.

— Alguém achou engraçado pregar uma peça na novata- Respondi, tentando manter a voz firme.

Mia suspirou e se aproximou, pegando um punhado de toalhas de papel. — Aqui, deixa eu ajudar.

Juntas, tentamos limpar a tinta. As amigas de Mia também ajudaram, sem fazer perguntas ou comentários desnecessários. A gentileza delas era um alívio depois do constrangimento que eu tinha acabado de passar.

— Não se preocupe- Disse Mia, enquanto limpava uma mecha do meu cabelo. — Vamos resolver isso. E vou falar com a diretoria sobre Suzan e suas seguidoras. Elas não podem continuar com esse tipo de comportamento.

Enquanto Mia ainda me ajudava a limpar a tinta do cabelo, a porta do banheiro se abriu novamente. A inspetora, uma mulher alta e de postura rígida, entrou com uma expressão de surpresa ao me ver coberta de tinta.

— Elizabeth, eu estava procurando por você- Disse ela, claramente abalada pela minha aparência, mas sem fazer perguntas. -Você precisa me acompanhar à diretoria imediatamente.

Meu coração acelerou. Será que isso me traria problemas? Mia me lançou um olhar de encorajamento antes de eu seguir a inspetora pelos corredores. Enquanto caminhávamos, eu podia sentir os olhares curiosos e ouvir os risos abafados dos alunos. A humilhação pesava sobre mim, mas mantive a cabeça erguida, tentando não demonstrar fraqueza.

Chegamos à sala da diretora, e a inspetora pediu para eu esperar um momento. Sentei-me em uma cadeira do lado de fora, nervosa e imaginando o que aconteceria a seguir. Após alguns minutos, ela voltou e me fez sinal para entrar.

Ao entrar na sala da diretora, fiquei surpresa ao ver um homem bem vestido de pé ao lado da mesa. Ele me olhou de uma forma intensa, que me deixou um pouco desconfortável, mas rapidamente disfarçou sua expressão.

— Elizabeth, por favor, sente-se- Disse a diretora, uma mulher de meia-idade com cabelos grisalhos bem arrumados. — Este é o Sr. Jacob Black, pai de um dos nossos alunos e um grande apoiador da escola.

Jacob Black me observou com um olhar que parecia misturar surpresa e outra emoção que não consegui identificar. Ele sorriu de maneira profissional e estendeu a mão. — Prazer em conhecê-la, Elizabeth.

— Prazer- Respondi, apertando sua mão, ainda um pouco suja de tinta.