Eu acordei naquela manhã com um sentimento estranho de antecipação, apenas para perceber que o lado da cama de Nessie já estava vazio. Ela sempre foi uma pessoa madrugadora, mas hoje a ansiedade estava evidente em cada movimento dela. Ao vê-la no banheiro, escovando os cabelos longos e ondulados com uma expressão ansiosa, soube que ela estava pensando em Jassie.

— Eu vou vê-la hoje- Disse, tentando tranquilizá-la. — Vou preparar tudo para que no final de semana você possa conhecê-la. E então, juntos, vamos contar a verdade.

A verdade. A palavra soou pesada em meus lábios. Dizer a Jassie que ela era nossa filha, sequestrada há treze anos, seria uma tarefa monumental. Mas era necessário. Nessie me olhou com aqueles olhos grandes e expressivos, cheios de expectativa e um toque de medo.

— Eu sei, Jake. Só estou nervosa. — Ela forçou um sorriso, e seu olhar preocupado me disse mais do que suas palavras. Ela parecia abatida, pálida, algo que não era comum para ela.

— Estou mais preocupado com você- Falei suavemente, aproximando-me e segurando sua mão. — Você está bem?

Ela sorriu de novo, desta vez com mais convicção. — Estou bem, prometo. Só preciso de um pouco de descanso.

Dei-lhe um beijo na testa e deixei que ela continuasse se preparando enquanto fui fazer minha higiene matinal. A água fria do chuveiro ajudou a clarear minha mente, mas não diminuiu a preocupação constante com o que estava por vir. Após me vestir, encontrei Nessie na cozinha, onde o aroma de café fresco preenchia o ar.

Antony já estava terminando seu café da manhã, como sempre fazendo piadas e assim fazendo sua mãe sorrir. Ele sempre foi um garoto animado, mas hoje parecia especialmente inspirado.

— Bom dia, filho – o cumprimentei ao entrar na cozinha.

— Bom dia, pai — Ele respondeu, levantando-se e levando sua caneca até a pia. – Como você chegou eu preciso ir, estou atrasado.

Antony deu um beijo no rosto de Nessie e pegou a mochila saindo da cozinha.

Nessie e eu nos sentamos juntos, e eu segurei sua mão por baixo da mesa, um gesto silencioso de apoio. Enquanto saboreávamos o café e os pães quentes, um silêncio confortável se instalou entre nós. A alegria de Antony, e logo teríamos nossa filha naquela cozinha, quem sabe na mesma correria que o irmão mais novo.

Enquanto tomávamos café, percebi que Nessie estava fazendo algumas misturas estranhas no prato. Ela espalhava uma generosa quantidade de queijo em praticamente tudo: pães, frutas, até mesmo nas panquecas. Observei com curiosidade enquanto ela pegava uma fatia de maçã e a cobria com uma espessa camada de queijo brie.

Levei minha xícara de café à boca, fingindo mexer no celular para não deixá-la constrangida. A cena trouxe uma lembrança à tona: Nessie, grávida de Jassie, tinha o mesmo desejo insaciável por queijo. Eu sorri disfarçadamente, deixando a ideia se formar na minha mente. Será que ela estava grávida de novo?

Mesmo desconfiado, decidi não comentar sobre o comportamento anormal dela. Talvez fosse apenas ansiedade, e a última coisa que eu queria era adicionar mais tensão a um dia já tão carregado de emoções.

Terminamos o café em silêncio, o cheiro do queijo ainda pairando no ar. Quando Nessie terminou seu prato peculiar, levantei-me, sentindo a urgência das tarefas do dia pressionando meus ombros.

— Eu vou passar na escola para ver Jassie- Disse, olhando para Nessie. — Depois de deixar alguns documentos no escritório. Depois retorno para casa.

Ela assentiu, seus olhos brilhando com uma mistura de esperança e nervosismo. — Tudo bem, amor, mas não tem nenhuma reunião importante?

— O que seria mais importante que minha esposa?

Ela sorriu. Dei um beijo suave nos lábios de Nessie, tentando transmitir toda a calma e segurança que eu podia — Fique bem, amor. Eu volto logo.

Enquanto saía de casa, meu coração estava pesado com a responsabilidade do que estava prestes a fazer. Mas ao mesmo tempo, havia uma faísca de esperança. Se Nessie estivesse realmente grávida, talvez isso fosse um sinal de que, apesar de tudo, nossa família estava encontrando a felicidade novamente.

O carro estava quente sob o sol da manhã, mas o ar condicionado rapidamente trouxe alívio. Após uma pausa rápida no escritório, dirigi em direção à escola de Jassie, minha mente girando com planos e possibilidades. A verdade precisava ser dita, e eu estava determinado a fazer isso da maneira mais cuidadosa possível.

Cheguei à escola e estacionei, respirando fundo antes de sair do carro. A figura de Jassie, embora ainda um tanto desconhecida para mim, já ocupava um grande espaço no meu coração. Era hora de trazer nossa menina para casa, e nada no mundo me impediria de fazer isso.

Ao entrar na escola, meus passos me levaram automaticamente em direção ao campo de futebol. Não pude deixar de sorrir ao ver Antony treinando com o time. Ele estava correndo com uma energia contagiante, movendo-se com a agilidade e confiança que sempre admirei.

Quando Antony me viu, ele acenou rapidamente para o técnico, pedindo um minuto, e correu em minha direção. Meu coração se encheu de orgulho ao vê-lo se aproximar, o suor escorrendo pelo rosto, mas com um sorriso radiante.

— Pai! Ele exclamou, parando diante de mim.

— Antony — Respondi, ainda sorrindo. — Como vai o treino? Está pronto para o campeonato interescolar?"

Ele assentiu vigorosamente, os olhos brilhando de animação. — Sim, estou! Temos treinado muito, e o técnico diz que temos uma boa chance de vencer este ano.

A alegria e entusiasmo em sua voz eram contagiantes. Inclinei-me e dei-lhe um beijo carinhoso nos cabelos, o gesto carregado de orgulho e amor paternal. — Eu sei que você vai arrasar, filho. Vou estar lá torcendo por você.

— Obrigado, pai- Ele respondeu, antes de correr de volta para o campo, já chamando pelos colegas de equipe.

Fiquei ali por um momento, observando Antony retomar seu lugar no time, sua figura atlética se misturando perfeitamente com os demais jogadores. A visão me deu uma sensação de normalidade, algo que parecia tão distante nas últimas semanas.

Com uma última olhada no campo, virei-me e segui pelo corredor em direção à sala da diretora. A ansiedade voltou a crescer dentro de mim com cada passo. Era hora de ver a nossa menina.

Ao chegar à porta da sala da diretora, respirei fundo antes de bater levemente. A voz da senhora Harper soou do outro lado, convidando-me a entrar. Empurrei a porta e entrei, encontrando-a sentada atrás de uma grande mesa de madeira, um sorriso acolhedor no rosto.

— Senhor Black — Disse ela, levantando-se e estendendo a mão. — É um prazer vê-lo novamente.

— O prazer é meu, senhora Harper — Respondi, apertando sua mão firmemente.

Ela gesticulou para uma cadeira em frente à mesa. — Por favor, sente-se. Tenho algumas coisas para discutirmos antes de você ver Jassie.

Sentei-me, tentando manter a calma, enquanto ela organizava alguns papéis. — Entendo que este é um momento delicado para sua família- começou ela, olhando-me com simpatia. — Quero garantir que estamos aqui para apoiar vocês em tudo o que precisarem.

— Agradeço muito, senhora Harper — Disse, a sinceridade em minha voz. — Estamos realmente nervosos, mas prontos para trazer Jassie de volta para casa. Vamos dizer a verdade a ela no final de semana.

Ela sorriu, um gesto reconfortante que me ajudou a relaxar um pouco. – Elizabeth, ou melhor, Jassie é uma menina maravilhosa. Tenho certeza de que tudo vai se ajeitar.

— Por enquanto senhora Harper peço que dada falte a Jassie, gostaria de entregar algo a ela pessoalmente e conto com sua ajuda para que ela aceite sem que isso a assuste, ela não me conhece e isso pode confundi-la.

— Não se preocupe, sei exatamente o que dizer a ela – Ela disse pegando o telefone.

Enquanto ela fazia uma ligação rápida para a sala de aula, meu coração batia mais rápido. Estava a um passo de ver minha filha novamente. A emoção era avassaladora, mas ao mesmo tempo, havia uma calma serena, sabendo que finalmente estávamos a caminho de reunir nossa família.

Em poucos minutos, a porta se abriu e lá estava ela, Jassie, parada na entrada com um olhar curioso. Meus olhos encontraram os dela, e naquele instante, senti como se todos os anos de dor e busca tivessem valido a pena.

— Bom dia Elizabeth, obrigada por vir.

Ela olhou para mim, e eu vi um lampejo de reconhecimento. Talvez fosse apenas minha imaginação, mas naquele momento, tudo parecia se alinhar. A jornada ainda não havia terminado, mas esse era o começo do nosso novo capítulo, juntos.