Cinderella
1 Prólogo
Em uma Inglaterra distante, numa época onde mulheres usavam vestidos pesadíssimos e homens,
ternos elegantes, onde os escravos eram chicoteados e maltratados, vivia uma rica família. Os Holmes
tinham uma grande plantação de algodão e faziam fortuna com o sangue de seus escravos.
Porém, a Sra. Holmes, Elizabeth, sempre fora contrária aquele modo de vida precária, injusta e triste.
Apenas engolia as vontades de seu marido pois, naquela época, mulher nenhuma tinha opinião.
Quem iria escutar uma mulher? Logo elas, que ficam o dia todo em casa, tocando piano, costurando
e lendo. O que elas entendiam de negócios?
O Sr. Holmes, John, que herdou de seu pai aquelas terras, desejava ardentemente ter um filho para que ele
pudesse assumir o seu cargo, quando a sua mente começar a ficar confusa e seus ossos não puderem sustentar o peso de seu corpo. Então, todas as noites, o Sr. e a Sra. Holmes deitavam-se para que seu desejo torna-se
realidade. Não muito tempo depois, estava a caminho o tão esperado filho daquele casal.
Ambos tinham planos para o menino. Ele dominaria todas as línguas que pudesse estudar, montaria cavalos com
elegância e as mulheres cairiam aos seus pés, oferecendo-lhe dotes apreciáveis e muito charme e encanto. A casa
dos Holmes estava na mais pura alegria enquanto os meses iam passando.
Em uma manhã de sol lindíssima, Sra. Holmes, que apesar de sonhadora, temia muito não poder conceder o desejo
do marido. E tinha até medo do que poderia lhe acontecer, caso nascesse uma garota, e não um menino.
E como o medo nos faz ficar cautelosos, chamou secretamente sua amiga mais antiga e também a mais confidente.
Após contar-lhe o seu medo, Isabella prometeu que cuidaria de sua menina, caso assim fosse, e também combinaram
que caso fosse necessário, Elizabeth partisse dessa para melhor, para que não sofresse em vida a ira do marido.
O veneno estava guardado, num local seguro, longe do Sr. Holmes e apenas elas sabiam que efeitos aquele líquido
transparente teria sob Elizabeth.
Os meses foram se passando, a barriga foi crescendo, como é natural. Na reta final, Isabella concordou em ficar na casa
de sua amiga, para que ela estivesse sempre por perto quando o grande dia chegasse. E em uma tarde chuvosa, quando o Sr.
Holmes estava longe de sua fazenda, Elizabeth começou a sentir as contrações. As empregadas e escravas mais discretas
da casa foram chamadas, e o trabalho de parto deu-se inicio.
Entre uma contração e outra, Isabella e Elizabeth ficaram à sos no quarto. E, aos sussurros, Elizabeth disse:
– Preciso que me faça um favor, caso seja uma menina.
– Diga-me Liz. — E Isabella apertou a mão dela.
– Quero que a chame... De Cecília. Diga a ela, quando tiver idade para entender, para sempre seguir o seu coração.
Não a deixe sozinha... Nunca! Mesmo que não consiga ajudar-lhe sempre, prometa que estará por perto. Prometa!
– Eu prometo querida amiga, eu prometo.
E aquele momento tão íntimo fora interrompido pela chegada de John. Batendo as portas, gritando a felicidade,
John entrou em casa perguntando onde estava sua amada senhora. Quando os empregados lhe contaram, ele fora
correndo vê-la. Pediu para Isabella deixar-lhes a sós, e Liz acabou fazendo um pedido para seu marido.
– Meu amado... Quero que me prometa uma coisa, antes da grande chegada de nosso filho.
– Diga-me amor, qualquer coisa. Qualquer coisa! — disse ele, emocionado e cheio de ansiedade.
– Quero que me prometa que não deixará, nunca, que ele se torne fútil e arrogante. O dinheiro pode trazer isso,
e a sociedade pode torná-lo um ignorante seguidor de costumes ridículos. Por favor, não deixe que isto aconteça
jamais!
– Jamais querida, sabe que eu nunca deixaria. Você sabe!
– Também quero que me prometa uma coisa...
– Diga-me Liz! Prometo qualquer coisa, você já sabe...
– Prometa-me que amará nosso filho, mesmo se ele for "ela"?
Houve uma pausa. É claro que o Sr. Holmes havia pensado nesta possibilidade. Mas sempre a ignorou. E Liz jamais
deixou transparecer o seu medo até aquele momento. Seus planos eram mostrar confiança perante ao marido,
para que ele esquecesse desta chance.
Mas como a aparencia de Liz, que sempre fora tão bela e delicada, estava pálida e cansada, devido ao grande esforço,
o coração do Sr. Holmes amoleceu. Sentiu que deveria amar aquela criança, fosse o que fosse, pois ele próprio
deveria mostrar-se um exemplo para ele ou ela. Sem ser fútil e um ignorante, seguidor de costumes fúteis de uma
sociedade tão machista como aquela.
– É claro que sim, minha querida. É claro!
Após aquelas palavras, e a conversa dada por encerrada, o Sr. Holmes esperou, acompanhado de sua garrafa e uisque
na sala de estar, longas 6 horas de trabalho de parto. Já era tarde da noite quando Isabella chegou, com uma
aparencia terrível e olhos chorosos naquela sala.
O medo tomou conta de John, que ficou de pé assim que a viu chegar.
– Ela... Não pôde... Estava fraca demais! — disse, chorando.
Tentando controlar a sua própria emoção, John segurou o choro e fez a única pergunta que era importante
aquela altura dos acontecimentos.
– E a criança...?
John recebeu um olhar furioso, que logo foi mascarado por um olhar calmo, como de quem já esperava por aquela pergunta.
Secou as suas lágrimas, e disse:
– Menina. Cecília.
– Cecília? — perguntou ele.
– Sim. Cecília. Era o último desejo de Elizabeth, e acho que para honrar a sua memória, devemos manter.
– Tudo bem. Cecília. — e o homem respirou fundo, e tomou mais um gole de seu uísque.
Quando Isabella saiu da sala, desatou a chorar.
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