Cinderella
5 Capítulo 4 - A carta
Naquela noite do anúncio do baile, Cecília não conseguiu dormir. Revirou todo o seu quarto atrás do que achava necessário levar para escapar.
Então, o inesperado aconteceu. Banks chegou na casa para tratar do casamento — e falar do baile. Cecília viu a oportunidade e a agarrou.
Anastácia estava junto do seu noivo — agora odiado noivo — sua mãe e irmã, discutindo todos os detalhes do que aconteceriam dali a dois dias. Cecília se esgueirou até o quarto da sua madrasta. Quando entrou la dentro, cuidadosamente abriu a caixa de jóias. Lá estavam as antigas jóias de sua mãe — ou as jóias que não foram vendidas — e as jóias de sua madrasta. Colocou em seu bolso um anel de diamantes que era de sua mãe e fechou a caixa. Procurava agora os pertences do seu pai, mas sempre com um ouvido na porta entre aberta. Encontrou, dentro do armário de sua madrasta, uma caixa velha que não tinha visto ainda. Quando a abriu, teve uma surpresa. Eram as coisas de seu falecido pai.
Seu anel, cadernos de contas da fazenda, um casaco e... Uma carta lacrada.
Ouviu sua madrasta subindo as escadas e, rapidamente, colocou a carta em seu bolso junto com o anel.
– Que estranho, não me lembro de ter deixado a porta entre aberta. — exclamou Catherine.
Cecília colocou a caixa no mesmo lugar onde encontrou e virou-se para a saída do quarto, no mesmo momento em que sua madrasta entrou ali.
– O que está fazendo aqui, garota estúpida?!
Cecília sentiu suas mãos soarem, mas não era tão estúpida quanto sua madrasta julgava. Ela tinha uma há libe.
– Vim trazer a sua roupa limpa, minha senhora.
Quando Catherine olhou para a sua cama, lá estava, a sua roupa lavada, passada e dobrada.
– Sabe muito bem que eu detesto que deixe a roupa em cima da cama! Guarde-as já.
– Imediatamente, madame.
Então, com a sua pele salva, Cecília virou-se novamente para o armário, abriu e colocou a roupa de sua madastra no devido lugar.
Quando saiu, já era hora de dormir, então Catherine e suas filhas já estavam trocando-se para descansar. Cecília colocou a mão no bolso e sentiu o anel de sua mãe e a carta de seu pai. Nunca em sua vida se sentira tão próxima deles quanto naquele momento.
Foi para o sótão, onde tinha a sua privacidade, onde poderia matar a sua curiosidade em paz.
Acendeu uma vela e abriu a carta.
"Querida filha,
Pedi para Catherine entregar-lhe esta carta quando eu partisse, mas creio que ela nunca o fará, então rezo todos os dias para que a encontre o mais breve possível. Não
cometa o mesmo erro que eu, Cecília, e não confie nesta mulher. Suspeito que ela está me envenenando aos poucos, pois cada vez que tomo do seu remédio, minha febre
piora muito.
Nosso dinheiro está acabando Cecília, então use sua inteligencia e fuja para longe daqui. Há uma pessoa que você deve procurar.
Quando sua mãe estava grávida de você, chamou uma amiga para ajudá-la a cuidar dos preparativos para recebê-la. O nome dela é Isabella Watson. Você devera encontrá-la em um
casarão ao leste do reino. Encontre essa viúva, ela cuidará de você.
Você é uma Holmes Cecília, sei que será forte e inteligente.
Encontre essa mulher. Ela é a sua madrinha. Diga isso à ela."
Cecília deitou-se de incredulidade.
Envenenado? Esta mulher é uma bruxa! Preciso sair de perto dela antes que ela se canse e faça o mesmo comigo. OH! Mas é claro que ela fará isso! Não tenho parentes, não tinha ninguém além dela. Assim que ela casar suas filhas, me matará. Não! Eu não vou deixar isso acontecer comigo.
O ódio no coração de Cecília a dominou, e ela não esperou muito para tomar uma atitude.
Na calada da noite, no meio da chuva, ela colocou a sua capa, montou o seu cavalo e foi atrás da única pessoa que poderia lhe trazer paz nesta vida.
Levou em torno de duas horas até ela chegar no casarão ao leste. Era realmente uma propriedade muito grande e muito bonita, e havia luz em uma das janelas. Não sabia se encontrava esta estranha ou se faria tudo sozinha, como sempre fizera.
Nunca tivera ninguém para chamar, ninguém para secar as suas lágrimas, ninguém para abraçar. Cecília não ganhou consolo de uma alma viva quando o seu pai faleceu. O seu coração virou pedra e a sua mente tentava bloquear as suas emoções. Mas naquela noite, agarrada a uma esperança, ela cavalgou em rumo ao desconhecido, em busca de uma pessoa que poderia estar morta. Mesmo assim, decidiu ir em frente.
Deixou o seu cavalo amarrado perto da casa e bateu a porta.
Uma senhora de idade avançada, com cabelos brancos atendeu.
– Isabella Watson?
– Sim. — respondeu a senhora — E quem é você?
– Cecília... Holmes. Suponho que saiba quem sou.
O rosto da senhora se abriu em espanto e alegria.
– Ora vejam só, entre por favor, entre. Achei que nunca iria ver você querida. Olha só... — a velha possuía olhos doces e sinceros, e era possível ver a alegria em seu rosto. — Você está tão parecida com a sua mãe, minha querida.
– Bom... — suspirou Cecília — Eu encontrei isso.
Quando Cecília ergue a carta, Isabella acha um pouco estranho. Toma das mãos da menina e lê as palavras.
– Oh não. Pobre John! Mas... Como?
Cecília não sabia se confiava ou não naquela mulher. Se sentia indecisa. Mas precisava tentar.
– Isabella, há muitas coisas que eu gostaria de lhe contar...
Depois de um chá, uma longa conversa, Cecília contou tudo pelo o que passou em sua vida. A perda do pai, a escravidão, o abuso, a falta de dinheiro e as tentativas de fuga. Isabella estava espantada, mas era uma mulher forte. Ouviu tudo com atenção e bolou um plano em sua mente.
– Por isso estou aqui. Preciso fugir e já estou me organizando novamente. Partirei no dia do baile.
– Hum... Bom, eu irei lhe ajudar minha afilhada. Pode contar com isso.
– Ok mas... Como?
– Todas as moças do reino foram convidadas para o baile minha cara, inclusive você. Não percebe?
Cecília tentava seguir a linha de raciocínio de sua madrinha, mas não estava entendendo o que ela queria dizer.
– Não posso aparecer no baile. Minha madrasta e suas filhas estarão lá, vão me reconhecer.
– Querida, é um baile de mascaras.
– Muito bem, mas eu não tenho roupa alguma. E se colocar uma de minhas irmãs, elas me reconheceriam. Além do mais, como ir ao baile me ajuda a fugir?
– Elas não vão procurar por você nesta noite porque sabem que você estará em casa. Logo, já temos algo a nosso favor. — Explicou Isabella — Eu tenho muitos vestidos para você, basta escolher um. Quanto a máscara, bem, use uma das minhas. Na minha época bailes assim eram muito comuns, tenho várias. E você irá a este baile. Ficará junto das outras moças e se apresentará ao príncipe, como deve ser feito. O seu nome será Cinderella. Fique no baile até a meia noite. Nesta hora, eu estarei lá para buscá-la. Não se atrase! Viremos para minha casa após o baile, você pegará as suas coisas e eu vou lhe entregar um endereço, um propriedade antiga dos meus pais. Uma fazenda, nunca vão te encontrar lá. Você irá e ficará por lá. Viverá a sua vida como desejar e não se preocupe com o dinheiro. Venda o anel apenas se quiser, mas eu irei lhe sustentar. Farei um testamento deixando tudo o que é meu em seu nome. Sua vida irá mudar para sempre, minha cara.
Os olhos de Cecília nunca ficaram tão felizes em toda a sua vida.
Teria, enfim, a sua liberdade tão sonhada. Um alguém que se importava com ela e uma vida nova. O que mais ela poderia desejar?
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