Cinderella
4 Capítulo 3 - Anúncio
Na mesma noite em que Drizela pensava em acabar com o noivado de sua irmã e tomar aquele homem para si, Cecília tinha olhos para outras coisas.
Sabia que o dote de Anastácia seria o colar de esmeraldas de sua mãe, então sabia que o mesmo não poderia ser usado para a sua fuga. Logo, tentou lembrar-se de alguma outra jóia tão valiosa que poderia ser usada e como pegá-la, antes que Catherine arrumasse outro pretendente e precisasse de um outro dote.
Mas estava tão cansada por trabalhar o dia todo que desmanchou a sua trança e tirou os trapos que vestia para deitar-se.
Ainda era visível em suas costas as cicatrizes das chicotadas que recebera pelas inúmeras vezes que tentou fugir. A cada vez que ela fugia e era pega, Catherine aumentava o castigo em 10. Pelas suas contas, se fosse pega agora, levaria 150. Era o único que risco que corria ao seguir o seu plano.
Mas precisava de tempo para planejar tudo com calma, então pensou que o casamento seria a data perfeita para fugir. Todos na casa estariam ocupados com os preparativos, Catherine contrataria domésticas para decorar tudo. Estaria distraida. Fugiria com facilidade.
Deitou-se. Precisava reunir todas as suas forças para realizar as tarefas do dia seguinte.
Lavar, passar, cozinhar. Cecília chorou muitas noites por conta da perda de seu pai, e por muitas vezes deixou o ódio tomar conta do seu coração.
Hoje ja não chorava mais. Jurou para si mesma que só derramaria lágrimas novamente quando se encontrasse livre daquela vida. E, se tudo ocorresse como planejava, esse dia não estava tão longe. Todas as noites, Cecília contempla o céu e suas estrelas, pensando em tudo o que aconteceu na sua vida e desejando que aquela realidade mude. E sem derramar uma única lágrima.
O dia amanheceu, e antes do sol acordar todas as pessoas naquela cidade, Cecília ja estava em pé, preparando o café da manhã.
Enquanto a água fervia, Cecília colocava a roupa para lavar, e o pão para assar. Não havia muito o que comer, logo, Cecília tinha que comer escondida e muito pouco,
para que não fosse notado. Quando tudo estava pronto, levou o café da madastra. Catherine a esperava ainda na cama, lendo um livro qualquer. Quando Cecília entrou no quarto, disse cordialmente:
– Bom dia, minha senhora. Aqui está o seu café. Deseja algo mais?
Catherine fechou o seu livro, encarou a garota com olhos de ódio, pegou sua bandeja e a examinou.
– É o melhor que pode fazer?
Cecília sentia um ódio imenso desta situação diária, mas precisava executar o seu plano perfeitamente desta vez, então respondeu com toda a educação que recebera.
– Amanhã eu irei melhorar, se for do seu agrado.
A mulher ergueu uma sombrancelha e a fitou.
– Assim espero. Pode se retirar. — E voltou a ler o seu livro.
Anastácia e Drizela não tinham um comportamento diferenciado da de sua mãe. Era tão rude e desprezível quanto.
Quando Cecília entrou no quarto das duas, ambas estavam em suas penteadeiras admirando as suas belezas.
Drizela tinha cabelos tão negros como uma noite sem estrelas e olhos tão verdes que hipnotizariam qualquer homem que ousasse admirá-los, uma pele branca e macia e um rosto angelical. Belíssima, porém, amarga, egoísta e invejosa. Sua personalidade era justamente o oposto da sua aparência.
Anastácia escovava os seus cabelos, os seus longos cabelos louros, bem como os de seu pai um dia foram. Também possuía uma fisionomia parecida com a de sua irmã. O que as diferenciava, além dos cabelos, eram os seus olhos. Anastácia tinha olhos muito negros, tão negros que não se podia ver a pupila. E a noite, ganhavam um ar assombroso.
Ambas as irmãs se viraram para ver quem entrava no quarto delas.
– Cecília! Está atrasada como sempre! — disse Anastácia — E quero que lave e passe o meu vestido carmim. Pois hoje eu irei organizar todos os preparativos do meu casamento!
– Não se esqueça Cecília, que hoje eu irei até a cidade também. Preciso ajudar minha querida irmã com o seu casamento. — disse Drizela, encenando tudo e mascarando o seu verdadeiro sentimento. Anastácia desconfiou da atitude da irmã, mas não disse nada.
– Como vocês quiserem, senhoras. — Disse Cecília cordialmente, como sempre fizera.
– E não tolero atrasos! — disseram as irmãs juntas. Depois se olharam e riram, pois fazer a vida da moça um inferno, era a maior graça de todos os tempos.
Cecília deixou o café da manhã das irmãs na mesa de centro do seu quarto, e ambas se dirigiram até ela para o desjejum.
Quando Cecília saiu do quarto, as irmãs já estavam apreciando a sua comida.
– Espero que esta semana especial nós não nos desentendemos, irmã. — disse Anastácia para Drizela.
– Tudo ocorrerá com a benção de Deus, minha querida irmã. — disse Drizela.
– Excelente! — levando o lenço até a boca — Estou pensando em usar o vestido de noiva de nossa mãe. Ela com certeza não irá se importar, e assim nós duas combinamos, não é mesmo? A primeira de nós que casasse, levaria o vestido de mamãe.
– Ora, mas é claro que eu não me importo. Trato é trato, e você se casará primeiro. — Drizela sorriu falsamente. — Precisamos ir depressa até a cidade acertar todos os detalhes. Precisamos enviar os convites de casamento, contratar o confeiteiro, deixar tudo perfeito para este grande dia!
– Sim, precisamos. Não podemos nos deixar atrasar por conta de Cecília, que alias já deveria estar aqui em cima.
– É verdade, irei chamá-la. — E Drizela deixou o quarto e desceu as escadas até a cozinha.
Assim que entrou na cozinha, Cecília estava saindo com todos os pedidos das irmãs em seus braços.
Drizela a olhou com desprezo.
– Já era para estarmos nos aprontando, sua inútil!
– Estou subindo para arrumá-las, senhora. Não se preocupe.
– É bom mesmo! Venha, vamos, nós temos um casamento para organizar. — E subiram as duas as escadas.
Chegando no quarto das irmãs, Cecília começou a pentear Anastácia para fazer uma trança. Ajudou Drizela a vestir-se e passar pó de arroz. Pôs o colar em seus pescoços, os brincos em seus orelhas e os sapatos em seus pés. Logo que terminou, Catherine entrou no quarto chamando-as para irem a cidade. Cecília iria junto para ajudar com toda a compra que fariam, afinal, mãos tão delicadas quanto as de suas filhas não poderiam carregar peso.
As três desceram e a carruagem de aluguel estava à sua espera. Cecília foi na frente, com o condutor.
A casa se localizava quase no limite do reino, então chegar até o centro da cidade levava em torno de uma hora. E a viagem seguiu tranquila, sem nenhum imprevisto. Até chegarem, é claro.
Nunca se viu um povo tão agitado. Moças corriam alegres e se ouvia risos de todos os lados. Os alfaiates estavam contentes com tanto trabalho que tinham a fazer, os padeiros não agiam de forma diferenciada e os homens velhos se encontravam com sorrisos do tamanho do seu rosto.
– Mas que inferno! — gritou Catherine ao descer da carruagem — Quando mais precisamos trafegar com tranquilidade na cidade, ela está um caos total!
– Deve haver algum motivo para tanta agitação, minha senhora. — disse Cecília.
– Ora, não me diga minha cara! — respondeu com a habitual grosseria — Então vá e descubra porque esta cidade está este inferno sem fim. E não ouse demorar mais do que o necessário.
– Sim senhora. — e Cecília partiu.
Andou pela cidade procurando os comerciantes conhecidos e não encontrou ninguém. Tudo o que via era moças de uma idade próxima a sua, eufóricas, correndo de um lado para o outro agitadas. Observou que elas vinham em sua maioria de uma única direção, então andou contra toda esta maré de gente.
Quando chegou a "origem" de todos os gritos alegres, encontrou um cartaz com o celo real.
"Dentro de duas noites, a partir de hoje, o salão real se abrirá para um baile de máscaras.
Todas as jovens do reino entre 18 e 21 anos estão convidadas a serem condidatas à noiva do príncipe.
A jovem será escolhida durante o baile, e logo assumirá o título de princesa e posteriormente, será a rainha"
O reino inteiro estará em um baile de máscaras. É a oportunidade perfeita para fugir. Penteara e arrumará as suas irmãs como sempre o fez e depois só deve correr de encontro à sua liberdade. Tem dois dias para deixar tudo pronto, o que é tempo de sobra. Cecília sentia-se quase livre daquela vida como tanto sonhara. E desta vez, ela sabia, que iria obter o que mais deseja.
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