Cinderela

1 Prelúdio mais capítulo um


Notas iniciais
Espero que gostem :3

Há esclarecimentos que não devem ser feitos

Prelúdio

Sem “era uma vez num reino distante” essa narrativa começa, uma princesa aqui jaz, porém de formalidades não usarei, pois dessa vez a verdadeira história será contada.

Todo sangue derramado, todo assassinato cometido, toda a fétida realidade renascentista aqui será relatada.


Há histórias que não devem ser contadas

1

Os pássaros cantavam, as folhas farfalhavam e o fedor não circulava, pois o vento era fraco. No geral era um belo dia.

Uma garota loura cochilava sob uma escrivaninha empoeirada. Seu corpo pequeno e magro estava tenso, como se esperasse uma interrupção no sono leve.

O chão de madeira era acabado e rangia, o biombo estava rasgado e a cama de casal exibia uma colcha velha.

—CINDERELA!— ali estava a interrupção. A madrasta gritava a plenos pulmões.

A garota resmungou, ajeitou a saia e passou o dedo nos cabelos curtos. Os nós ainda não eram impossíveis de ignorar.

— Cinderela, o rei está aqui venha cumprimentá-lo, e traga chá. E alguns quitutes.

Cinderela desceu as precárias escadas da torre; sem prestar muita atenção, pois já sabia o que a esperava: uma larga escada preta polida, paredes sujas se tornando limpas, sua madrasta esperando má humorada ao pé da escada e sentado às almofadas pesadas, o Rei gorducho de cabelos completamente brancos.

Aquele dia, o junto ao rei o príncipe encarava os próprios pés. Não queria estar ali. Era um garoto de cabelos muito pretos e igualmente rebeldes, seus olhos verdes faiscavam uma inteligência que ela sempre admirara. A pele quase transparente e as feições lindamente harmoniosas pareciam brigar com o livro pesado que repousava em seu colo.

Cinderela suspirou de leve e lutou contra o impulso de subir as escadas para escovar os cabelos e limpar o rosto, odiava se sentir tão maltrapilha.

Ela desviou o olhar e foi para a cozinha, preparou uma bandeja de prata com brioches, bolos, xícaras chá e leite quente numa jarra.

Cinderela pegou a bandeja e arquejou: era mais pesada que ela mesma.

— Cinderela, não seja grossa, traga a comida para cá.

— Sim, madrasta.

— Sim, senhora, madrasta. Não é mesmo, Cinderela?

A garota confirmou com a cabeça.

— Aceita chá, senhor príncipe?— disse ela, com toda formalidade que conseguiu arranjar em meio ao esforço que fazia.

— Sim.

— Leite e açúcar?

— Por favor.

Entregando-lhe a xícara, ela o advertiu:

— Cuidado, está quente.

— Cinderela, ofereça o chá primeiro ao rei, depois ao príncipe.

—Sim, senhora, madrasta.

— Oh, Zofia, não trate a garota desse jeito. — disse o Rei, rindo.

— É preciso forjá-los à ferro e fogo, vossa Majestade. Olho por olho, dente por dente.

O rei riu e deu tapinhas no ombro de Zofia.

— Aceita chá, vossa Majestade?

— Por favor, Cinderela.

— Leite e açúcar, Majestade?

— Claro, Cinderela... Cinderela é um belo nome, o seu... O que significa?

— Eu não sei, Majestade.

— Não fique vermelha, Cinderela... Você é uma bela garota, também.

— Obrigada... Seu chá, Majestade...

— Obrigado, e, Zofia, não se aflija. Podemos voltar aos negócios agora.

Negócios... Cinderela sabia que tipo de negócio era. Sangue, lembranças ruins... Ela estava ficando enjoada... A bandeja caiu. Xícaras se espatifaram. O leite derramou...

Cinderela estava em transe. Não estava mais no grande salão ornamentado. Estava no pátio com seu pai, ele a abraçava e contava histórias de fadas e princesas, a folhagem laranja repousava na grama verdinha. Ela tinha seis anos e era setembro. Sua madrasta conversava com um homem de cabelos pretos, barriga ligeiramente saliente e um largo sorriso.

— Quem é ele, papai?— ela perguntara

— É o rei — respondera ele como se as palavras lhe doessem — Sua madrasta tem um... dom... — uma lágrima escorrera pelo rosto do pai— Um dom especial...

— Oh, papai... Não chore!

— Ela é especial, Cinderela...

Agora ela estava escondida atrás das cortinas, tinha dez anos, seu pai estava doente... Ela estava com medo, não, ela estava com muito medo.

Havia sangue no chão, a madrasta esquartejava uma pobre camponesa que roubara pão de um castelo próximo.

A madrasta ria, Cinderela chorava muito, chorava e gemia de agonia.

Com tamanha frieza a madrasta decapitara sua vítima e gargalhara alta e doentiamente.

De repente, ela estava no quarto com seu pai, segurando sua mão nos últimos minutos da doença. Ele tentara rir. Ela acabara de completar 11 anos e não queria perder seu pai, era só uma garotinha.

— Querida, cuidado com Zofia... — tosse— E qualquer coisa que ela lhe faça... — mais tosse— fale com Truddy, ela é governanta no castelo do Rei... Ela saberá o que fazer. O colar que eu te dei a levará até ela. E, Cinderela, me prometa uma coisa... — muita tosse

— Sim, Papai.

— Não julgue o rei, nem o príncipe... Tenha medo do conselheiro e... saiba que se fizer o que lhe peço morrerei feliz... — e ele fechou os olhos.

E ela chorou o mais alto que pôde, gritou, gemeu; sofreu de forma digna.

— Cinderela!

Ela saiu de seu transe e percebeu que estava chorando, percebeu também braços a envolvendo, o príncipe estava abraçando-a, demonstrando carinho em público!

Desvencilhando-se do abraço abaixou-se para recolher os cacos de vidro e limpar a tapeçaria, ele se abaixou também.

— Você teve mais lembranças, Cind? — cochichou ele

— Tive. Nada que eu já não soubesse, mas foram aterrorizantes, e, porque você me abraçou, Edgard?

— Fui criado assim. Ajudo meus amigos, contanto que eu queira, Cinderela.

— Humm, ninguém sabe que somos amigos, Edgard! E ninguém pode saber! Não pode me consolar abertamente, é... ILÓGICO!

— Você é uma boba. Consolo quem eu quero.

—Você é um Príncipe!

— Eu sei.

— Você está prometido!

— Não mais, srta, se você tivesse acordado mais cedo, saberia que minha pretendente, Ariana, morreu de cólera.

— Oh, que peninha. A srta perfeição morreu de cólera.

Ele revirou os olhos.

— Porque acha que meu pai está aqui, Cind?

— Homicídio... — ela sussurrou. — é sempre por isso.

— E porque eles não foram ao pátio, você sabe que esse tipo de transação é feita ao ar livre, ou não? Então porque eles subiram em direção aos aposentos? Porque Charmin e Charlotte já estão acordadas? Porque eu estou aqui?

Cinderela afinal notou que estavam a sós.

— O que vai acontecer? Não pode ser pior do que assassinato— ela murmurou.

— Te asseguro que é. Meu pai quer me casar com uma das filhas de Zofia.

— Urgh. Qual delas?

— Qualquer uma. Contanto que eu esteja prometido, não existirão filas em frente ao castelo.

— Claro. E o baile? Se a pretendente morrer será feito um baile para que o jovem príncipe escolha sua princesa, não é isso?

— Esses são os negócios, Cind. Haverá um baile, porém, a escolha já estará feita.

— Hunft, em todo caso, descobriu algo novo?

— Sobre o desaparecimento de Truddy?

— Nããããããão, sabe, sobre os patos do palácio! Você não sabe? Eu amo patos e seus minúsculos cérebros. Parece que estou falando com um, por sinal. — ela bufou— Claro que é sobre Truddy.

— Sim, claro. Só estava confirmando. O último a ver Truddy foi um criado chamado Raffin, ele disse que ela desapareceu, tipo PUF.

—PUF.

—Cinderela, pense um pouco e tente deixar a petulância de lado por um segundo, por favor. Toda pista que encontrarmos é essencial. Pode ser nossa última chance.

— Ela fez PUF.

— Eu sei que é estranho...

— Não, não é estranho...

— Como assim?

— Ela pode ser uma feiticeira, uma fada!

— Truddy? — ele ergueu uma sobrancelha, cético— Você acredita nesse tipo de besteira?

— Eu vi minha madrasta, aquela que supostamente é minha guardiã, esquartejar uma mulher como se fosse um pedaço de carne, vi meu pai morrer. A gente começa a acreditar em qualquer besteira, magia, vampiros, monstros, fantasmas e... — ela se interrompeu — Eles estão descendo. Levante-se. Eu vou para a cozinha. E se eu fosse você escolheria Charmin, é mais burra que Charlotte, mais manipulável. E também é menos imbecil. Não tem cabeça o bastante para isso.

— Obrigado, Cind. — ele lhe deu beijo de leve no rosto — Vai ao castelo essa noite?

— Vou sim.

E ela correu até a cozinha com sua bandeja, cacos da porcelana, brioches amassados e um leve formigamento na bochecha esquerda.


Notas finais
e aí o que acharam???